Sobrevivente
6 Capítulo 6 - O Fosso
Estava escuro ainda quando sai, alguns metros depois dei de cara com Jake, ia atacar quando ele fez sinal de paz e falou:
– Não estou aqui para te prender, só queria ter certeza de que está bem, e que entendeu tudo que eu disse.
Eu apenas respondi com a cabeça afirmando que estava tudo ok.
– Ok, espero que tenha planejado seus passos e que não faça besteiras. Se precisar de ajuda sabe aonde me encontrar, estaremos aqui por mais alguns dias – disse ele sorrindo e em seguida voltou a seu acampamento.
Confesso que suas palavras me geraram dúvidas, não havia planejado nada além de procurar por minha família e garantir a proteção deles, nem ao menos sei do que devo protege-los. Mas é minha família, preciso seguir em frente, nunca fui boa de planejar, sou apenas realista, penso nos fatos reais e sigo meu instinto na hora que preciso.
A caminhada seria longa, sabia que estavam vindo rumo ao hemisfério norte mas isso foi a meses, e com os mais velhos no grupo, eles seguiram muito mais lento, por um tempo tinha noticia por intermediários exploradores também, mas faz alguns meses que não ouço nada, ficaram muito para trás, não tenho ideia do quanto terei que regressar, quanto tempo levará para encontra-los, mas preciso seguir, é minha família, os amo e preciso encontra-los, nunca deveria ter me distanciado tanto, deveria ter seguido a uma distância segura.
Me distanciar das muralhas era algo que não me parecia certo, ainda penso que eles poderiam ajudar em algo, talvez possam me ajudar a encontra-los mais rápido, não tem porque ter medo, não fiz nada de errado, se preciso de um plano, esse será o meu, preciso me distanciar do grupo de Jake para poder chegar próximo a muralha novamente, preciso de ajuda.
Andei por horas até ver uma luz, parecia uma fogueira, deveriam estar preparando o almoço, talvez saibam de algo, precisava arriscar. Eram um grupo razoável, acho que de umas 30 pessoas.
– Olá, me chamo Kate, estou procurando minha família, gostaria de saber se passaram por algum grupo que vinha do Brasil, e se conheceram algum Liam ou Maria, meu irmão e minha mãe – perguntei rapidamente e atenta as ações do grupo.
– Viemos do Chile, conhecemos alguns brasileiros no caminho, mas não com estes nomes, são poucos os brasileiros sobreviventes – respondeu um deles.
Algo em sua voz não me fez muito bem, mas segui:
– Por onde vieram, poderiam me mostrar no mapa? Preciso encontrar minha família e a área é muito grande, então vou evitar por onde passaram já que não os viram.
– Acho que podemos te ajudar, mas antes venha comer conosco, estávamos nos preparando para isso. Aliás, meu nome é Pablo.
– Prazer Pablo, agradeço o convite mas preciso seguir, se não for atrapalhar gostaria de vermos o mapa agora, ainda preciso chegar as muralhas para ter ajuda para procura-los.
Ao terminar a frase senti a pontada nas minhas costas, uma faca, me deram uma facada pelas costas, a dor era imensa, cai de joelhos na hora e em seguida Pablo segurou meu queixo e falou com voz séria:
– Acho que não entendeu, não é um convite, você vai comer conosco e vamos ver o quão rápido se recupera deste ferimento. Como disse não sobram muitos sobreviventes do Brasil, o que vimos muitos foram anormais, e algo me diz que você também é, ninguém normal iria rejeitar comida sabendo que irá andar por horas ainda e principalmente, ninguém conversaria antes de pedir agua após já ter andado tanto, vimos você vindo de longe. Agora sente e vamos ver o que você realmente é.
Não sabia o que esperar deles, mas certamente não seria algo bom, me amarram forte e me colocaram próximo a eles enquanto comiam. Sei o que vão descobrir, sei que vou me curar rápido, mas isso não quer dizer que eu seja um monstro ou animal para ficar amarrada aqui esperando o veredito de minha morte, eles são loucos, como Jake pode defender isso, como pode dizer que só querem se sentir seguros, eles poderiam ter me deixado partir, eu não fiz nada para pensarem que faria algum mal a eles, eles são tão loucos quanto o grupo de minha família.
Ao final da refeição eu já estava apenas com uma marca e sem dor alguma, foi aí que conheci Mike. A turma de Pablo me empurrou para um buraco no chão e ao cair me levantei correndo assustada com umas 5 pessoas olhando para mim. Não demorou muito para descobrir que estavam lá pelo mesmo motivo e Mike, com toda sua educação já falou logo:
– Pronto mais um pacote de mantimento para eles, e como preferem carne feminina, ao menos ganhei mais alguns dias.
Eu achei que tinha batido a cabeça e não estava ouvindo bem, como é que ele disse, carne feminina? Que loucura é essa:
– Ei, moleque, do que está falando? Está louco? Eles estão fazendo testes e aqueles que eles não reconhecem como “normais” eles segregam para se manterem em segurança, pelo menos ao contrário de meu grupo anterior não saíram atirando e matando.
– O moleque aqui se chama Mike, e não estou louco, sei do que estou falando, eles não estão segregando para segurança, isso não é como a barreira de segurança dos demais, eles estão aqui a muito tempo, não conseguiram passar pelas barreiras e decidiram acampar aqui e acho que todos os dias buscam por formas de passar para a cidade, e enquanto isso aprenderam que ao invés de caminhar quilômetros para buscar comida eles podiam caçar, o problema é que aqui não há animais, mas como eles acreditam que agora somos como animais, não tem problemas de consciência em nos comer. Vai por mim, sei do que estou falando, estou aqui a 2 semanas, já vi resgatarem do fosso e os gritos não são nada agradáveis.
– Isso é insano, ninguém come carne humana, não somos canibais – em meus pensamentos vieram filmes de quedas de aviões, avalanches, aonde tiveram que comer os mortos, mas aqui estamos falando de vivos, e eles tem o que comer se procurarem.
– Insano pode ser, mas não são canibais, não na mente deles, afinal para eles não somos mais humanos. Pela ordem de chegada eu seria o próximo a virar churrasco, mas como disse, eles preferem as mulheres, então, acho que posso relaxar – Mike disse isso com um sorriso tão falso no rosto que quase bati nele.
Olhei para os lados e não sabia o que fazer, não podia ser verdade, não posso acreditar que isso esteja acontecendo, isso é loucura. Não é real.
Respirei fundo e voltei para Mike:
– Mike, não podemos ficar aqui esperando virem buscar o próximo como se fossemos boi na fila para abatimento, isso é loucura, temos que sair daqui, não somos animais, somos humanos, não tenho ideia do que aconteceu comigo, não sei porque me curo rápido, porque não me canso, e se realmente estou mais forte, mas sei que não fiz nada errado, não machuquei ninguém e nem quero. Não sou um monstro, só quero o mesmo que eles, quero voltar a ter minha vida, meus dias normais, só isso.
Mike olhou sério e sorriu falso de novo, deu as costas e saiu andando. E eu claro, como sempre, perdi a paciência e parti pra cima, agarrei o braço dele, dei uma bofetada e falei:
– Olha aqui, chega de sorriso falso, sei que por dentro você entende o que estou falando. Tenho certeza que deve ter passado por maus momentos e deve ter perdido muito para já não ter esperanças, mas ainda tem sua vida, e tem o dever de se proteger, você sobreviveu a explosão que matou milhares, você deve a esses milhares respeito, não pode se entregar, tem que aproveitar a vida que lhe foi dada, agora pare de ser criança e me ajude a sair daqui, você está aqui a mais tempo que todos, deve ter estudado o dia a dia, tem que ter alguma brecha.
Mike estava com os pulso cerrados, se segurando para não me socar depois de eu ter batido nele na frente de todo mundo e chamado ele de criança, sem contar que antes já tinha chamado de moleque, mas ele sabia que eu tinha razão, e é claro que ele ainda queria viver, então respirou, abaixou a guarda e explicou que o fosso era fundo, e que pegavam alguém a cada 2 dias e sempre de manhã, fora isso ele achava que pelo silêncio não tinha mais que 1 pessoa fazendo guarda e ainda assim não estava muito próximo do fosso.
Isso era bom, significa que podemos conversar e planejar sem nos preocupar, e temos 2 dias de prazo.
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