Sobrevivente
5 Capítulo 5 - A realidade
Foram meses andando, buscando abrigo, comida, notícias, até achar um muro, um muro, meu deus, um muro, em outra época iria ser uma louca por pensar assim sobre um muro, mas hoje, achar um muro é uma felicidade que não tem tamanho, pois ou ele não caiu ou já foi reerguido, em ambas as opções traz esperança de algo melhor.
Segui o muro por quilômetros buscando uma entrada e não encontrava nada, até ouvir alguém gritando para me abaixar e sair dali, não sabia se corria do muro ou da pessoa que me mandava sair, mas entre os dois pensamentos senti uma dor no braço quando Jake me agarrou e me puxou para longe do muro. Assim que ele parou eu voei nele e bati forte, estava furiosa, e ele nem tentou me parar, só colocava o braço para se proteger, até que parei e ele olhou para mim e disse:
– Acabou, já colocou toda a raiva para fora? Já pode ouvir?
– Que? Raiva para fora? Não estou com raiva, só estou me protegendo, você me agarra por traz, me puxa para a mata e quer que eu fique parada? Você é louco? Preferia sua versão muda.
– Ah, então lembra de mim? Então sabe que se quisesse te ferir já o tinha feito, afinal dormiram tão distraídos que nem nos viram partindo, disse Jake.
– Eu me lembro de vocês e não apenas de você, não venha se achando não. Sou boa de memória, mas não sou boba, naquela ocasião estávamos em grande número, ao atacar 1 os demais acordariam.
– Ok, tem razão, e não, não estou me achando senhorita. Só quis demonstrar mais segurança colocando que já me conhece. Aquele muro é de proteção, assim que verem alguém perto dele, não vão avaliar nada, não querem saber se somos normais, vão atirar para correr e se tentar entrar, vão atirar para matar. O muro protege a população que não foi afetada pelas explosões, as cidades aonde o impacto não atingiu. Eles não nos querem lá dentro, não importa de que grupo somos – Jake falou tudo isso tão calmo e como se tudo fizesse sentido.
Eu respirei fundo, balancei a cabeça e respondi:
– Olha, estou confusa, primeiro não entendo porque não querem nos ajudar, para que se proteger de nós, a maioria dos grupos não tem mais nem comida, que dirá armas para fazer algo, não tem do que se proteger, e segundo pra que iriam nos avaliar, o que é isso, acha o que, que alguém do grupo saiu do hospício, que doideira. Acho que vocês estão a muito tempo aqui fora e já perderam o juízo e a noção, temos que ir lá buscar ajuda.
Jake riu, olhou para os outros e pediu para irem buscar comida e agua para mim enquanto ele tentava me explicar tudo.
– Olha, quando te conheci estava com um grupo enorme e agora está sozinha, algo me diz que sei o motivo disso, e este motivo nos leva a avaliação dos normais. Seja lá o que foi que mudou em você, é uma alteração para eles. No dia da explosão, algum de nós, seja lá por qual motivo, fomos impactados de forma diferente, a maioria apenas se feriu com o impacto ou simplesmente morreu, mas outros, como nós, mudaram seu DNA. Não somos todos iguais, mas nosso DNA é alterado, alguns apenas parcial, mas em suma estamos mais fortes e rápidos, além de outras coisinhas.
Eu engoli seco, olhei para o lado e disse:
– Não se machucar como os demais e se curar mais rápido ou não se cansar.
– É, por ai, acho que agora estamos na mesma página e estava certo sobre o motivo de não estar mais com seu grupo. Olha, tente ver que não é por mal, é como Gabriel sempre nos disse, cada um deve se sentir seguro, e para eles é mais seguro ficar longe do desconhecido, eles não te odeiam, apenas já passaram por algo muito ruim, já perderam tudo, não querem ter que lidar com algo que não entendem, não sabem o que é.
Jake estava tentando mostrar o outro lado da história, mas ele não sabia de nada, não sei como ele saiu do grupo dele, mas pela forma como fala não acho que tenha sido com uma mãe coberta de sangue de seu filho e dizendo para você correr e sumir dali, correr e se salvar.
Fiquei por ali pensando enquanto comia e bebia, olhei para eles e fiquei imaginando como cada um descobriu que algo estava diferente, será que só eu era tapada de não achar que algo estava errado desde o início, será que apenas eu passei por um grupo homicida? Quantas perguntas na minha cabeça e quanta esperança indo embora junto a um muro enorme de proteção contra mim. Se meu grupo já queria me matar imagina quando descobrirem que não vão entrar lá porque eles não querem arriscar que nós entremos.
Como será que mamãe e Liam vão lidar com esta nova situação, e será que sabem que não era só eu e o Luca, que há outros também? E o mais importante, será que ainda estão seguros? Quantas dúvidas, porque toda vez que estou me encontrando, a vida vira de ponta cabeça de novo, porque não posso ter mais tempo de calmaria, porque algo novo tem que surgir e destruir minhas esperanças e me fazer correr novamente.
Não posso ficar com o grupo de Gabriel, sei que Jake me disse tudo aquilo para eu ver que sou igual a eles e que estou segura aqui, mas não posso, preciso saber como minha família está, e neste momento, com este muro de proteção contra nós, não tenho certeza de que todos nós somos inofensivos. Preciso sair daqui sem ser vista, não posso correr o risco de ser seguida e colocar minha família em perigo, preciso acha-los e contar tudo que sei, preciso coloca-los em segurança até termos mais informações e principalmente preciso que confiem em mim.
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