Sobrevivente

1 Capítulo 1


Faz muito tempo que não escrevo, me lembro dos diários que já tive, e das vezes que me falaram para escrever como forma de colocar tudo para fora e me sentir melhor, mas nunca funcionou, então faz anos que não escrevo, mas algo me fez achar este diário antigo que me mostrou o quanto gostaria de ter historias para ler sobre a minha família, então quem sabe algum dia eu ainda encontre um lugar para me fixar e ter alguém que queira saber mais sobre minha história, afinal sonhar é algo que ainda não me tiraram, eu não acredito mais em muita coisa, mas se tem algo que me faz seguir é o sonho de que um dia a calmaria chegará para ficar.

A minha vida está sempre me dando um capote, virando meu mundo de cabeça para baixo.... me acostumei a ter medo da calmaria, não por não gostar, mas por saber que não dura muito, e dói mais perder algo que se está apegada.

Eu já fui normal, faz tanto tempo que até parece que foi apenas um sonho, uma história ou filme. Eu tive uma infância invejável, tinha o amor incondicional da minha família, a caçula que chegou para ser mimada. Foi uma infância e tanto, que claro gerou uma adolescência quase épica, se não fosse pelas mudanças começarem bem nesta fase.

Me lembro do dia que comecei a ver meu mundo virar, foi quando comecei a perder minha família, não sei qual doeu mais, a perda pela morte ou pelo afastamento, e já não tenho chances de reverter nenhum dos dois, então já não questiono mais o que poderia ou não ter feito, apenas vivo com a dor da saudade.

Me afastei de tantas pessoas, demorou muito para criar vínculos novamente, mas Ana me ensinou que dói perder as pessoas mas não dá para viver sozinha, então tenho amigos que passei por calmarias e também por viradas, alguns se vão, outros chegam, alguns dias dói, mas me acostumei a lembrar que temos que seguir em frente, e criei um vinculo maior com 5 deles, a quem considero minha nova família e com quem divido meus segredos e consigo conviver com minhas dores.

Ana é minha ponte para o mundo, ela me trás de volta ao mundo quando estou perdida, sozinha. Eu a conheci a 10 anos, naquela época ela precisava muito de ajuda e algo me fez ficar, em pouco tempo ela se tornou uma garota forte e muito mais responsável que eu, criando um elo como o de uma irmã mais velha, e virando parte do meu porto seguro.

Jake é minha ponte para a realidade, e também meu porto seguro, ele é forte e guerreiro, garante a proteção do grupo, e também somos uma bela dupla, é como se lê-se minha mente, parecemos uma única pessoa. Confio minha vida nas mãos dele sem pestanejar, é meu irmão de coração.

Sarah é como uma mãe, ela não tem idade para isso, mas é nossa parte caseira da família, a que tenta nos fazer ficar em segurança, cuida de nós em todos os sentidos. Acho que ela faz isso porque assim como eu, substitui o vazio e a dor da perda de sua família cuidando de nós.

Mari é a caçula, Sarah a resume como a patricinha mimada, ela gosta de sentir a liberdade e fazer coisas comuns, como nos colocar em trajes arrumados e ir fazer pic-nic, jogar, e outras coisas normais para um domingo em família. Normalmente estes dias não terminam bem, mas é impagável ver todos se esforçando, realmente tenho que agradecer a ela por estes momentos.

E o Mike, é nosso encrenqueiro, se Mari é a patricinha mimada da Sarah, Mike é a dor de cabeça do Jake. Ele parece um imã para problemas, nosso revoltado de plantão, já perdi as contas de quantas vezes respirei fundo para apaziguar a situação, mas ele é nosso elo.

Esta é minha família dentro do grupo de sobreviventes, eles me fazem sentir viva e seguir em frente, acreditar que ainda teremos tempos normais.

Bom e eu me chamo Kate, e não consigo me descrever, sou uma pessoa complexa que luta muito por um futuro, cada um vê um lado diferente meu, mas eu me vejo apenas como mais uma SOBREVIVENTE deste apocalipse.