Sobrevivente
2 Capítulo 2 - 11 anos atrás
A 11 anos atrás houve uma explosão que não temos ideia real da dimensão, sabemos que impactou muitos países pois nos deparamos com vários habitantes nos caminhos trilhados depois disso, e sabemos que parte ficou a salvo pois vimos muitos muros de proteção gigantescos enquanto ainda buscávamos ajuda.
Não tenho ideia do que realmente aconteceu naquela tarde de verão, sei que foi um dos anos mais quentes que tivemos e todos estavam nas ruas tomando sorvete, buscando pelas sombras das arvores, enquanto outros estavam no ar condicionado dos shoppings, era uma tarde de sábado bem movimentada e feliz, quando do nada ouvimos um estrondo e em segundos tudo estava tomado por um ar estranho, e em seguida um impacto me jogou longe, não sei quanto tempo demorei para retornar a mim, mas quando acordei havia corpos, pessoas chorando, muito sangue e ferimento, prédio e casas desabaram completamente, ruas sumiram parcialmente em buracos aonde podíamos ver mais corpos.
Parecia que estava em um pesadelo ou vendo um filme de terror, queria acordar mas depois de alguns minutos, uma criança me agarrou chorando, pedindo para ajudar sua mãe, eu senti uma dor imensa no corpo e percebi que não tinha como acordar, aquilo era real.
Um rapaz próximo a mim acabou por ajudar a criança, pelo que vi no olhar dele, a mãe dela estava morta, não havia o que fazer, então ele apenas a segurou chorando em seu ombro. Quando consegui me levantar completamente, olhei ao redor e tentei me achar para retornar para casa, precisava achar minha família. Pedi durante todo o caminho para que estivessem na rua ou em qualquer outro lugar, que o calor os tivesse levado a sair de casa também, por favor estejam na rua e vivos.
Não sei como tive folego para chegar tão rápido, minhas pernas doíam mas a dor de não saber nada sobre eles era maior, esqueci dos ferimentos e da dor física. Chegando em minha rua vi praticamente todas as casas caídas e sorri ao ver meu irmão Liam chegando do outro lado, ele estava vivo, estava aqui também, veio nos procurar. Juntos, sem soltar nenhum pensamento em voz alta, vasculhamos entre os escombros de nossa casa. Os vizinhos estavam muito atordoados, tão feridos quanto nós e buscando pelos seus parentes. Passamos o dia vasculhando escombros e na madrugada ouvimos um barulho e seguimos tirando os escombros até acharmos nossos pais, estavam abraçados, meu pai se colocou sobre minha mãe e recebeu toda a pancada dos escombros em si, pelo pouco que ouvi de minha mãe, ele tirou toda sua força para segurar o máximo o impacto para salva-la, um móvel antigo de madeira segurou grande parte, mas não evitou sua morte. Minha mãe permaneceu abraçada a ele, chorava sem parar.
Horas se passaram até conseguirmos pensar e decidir o que fazer, ainda precisávamos de notícias de nosso irmão Luca, ele estava na faculdade a quilômetros dali. Não sabíamos o que realmente aconteceu, não tínhamos ideia da dimensão dos estragos. Resolvemos seguir um grupo que achou um local para prepararmos um abrigo para cuidar dos feridos e descansarmos. Pegamos o que vimos como útil para ajudar no abrigo e seguimos em frente, lá minha mãe ajudar na parte dos mantimentos, meu irmão foi ajudar a erguer lonas para abrigar a todos e eu confesso que fiquei perdida, não tinha a menor ideia do que poderia ajudar, até que uma senhora me pediu para ajuda-la com os feridos, mas não deu muito certo, então me pediram para sair em busca de curativos, medicamentos e o que mais pudesse achar para ajuda-los.
Procurar significava sair do abrigo provisório, ir pelas ruas buscar tudo que pudesse encontrar para ajudar os feridos, o que por um lado era perigoso, afinal poderia ocorrer algo mais, mas ao mesmo tempo era ter um tempo sozinha, para pensar em tudo, sentir minha dor, colocar para fora minhas lagrimas.
Eu conhecia a cidade muito bem, sabia onde precisava ir, e no caminho encontrei muitas pessoas a quem direcionei para o abrigo. Recusei ajuda, pedi que fossem para o abrigo e que ajudassem os feridos a irem também, e segui sozinha, queria esse momento para mim.
Aquele foi o primeiro dia que vi Ana, ela estava ajoelhada sobre escombros chorando, a única coisa que entendia era que todos estavam lá, deduzi que sua família inteira estava na casa que desabou, olhei rapidamente por algum sinal, mas não achei nada, eram muitos escombros, então pedi para um senhor leva-la para o abrigo e alguns garotos ficaram para ver se encontravam alguém nos escombros, depois vim a saber que não encontraram nada.
Eu segui e recolhi todo medicamento e acessórios médicos que julguei importante, neste momento acho que podia falar para minha mãe que ter assistido todos os episódios de ER valeram a pena, acho que sem eles não saberia pra que serve metade do que encontrei.
Regressando ao abrigo entreguei tudo para a senhora, ela até se assustou, acho que ela pensava que eu voltaria com panos no lugar de ataduras, ou coisa do tipo, fiquei feliz em ajudar, e em seguida fui ver como minha família estava.
Minha mãe estava com os olhos lacrimejando ainda, mas seguia fazendo sopa. Quem diria que algum dia teríamos sopa no verão, mas sopa era mais fácil e também rendia mais, já meu irmão estava explicando para os menores como fez para erguerem todos aqueles abrigos e também dizia que talvez não caberia todos, então a preferência era para as crianças, idosos e mulheres.
Naquela noite não dormimos, acho que nossos pesadelos eram muitos, acabei ficando na rua com meu irmão, olhando o local e pensando no amanhã, quando de repente meu irmão me perguntou quem me atendeu na ala médica improvisada, e eu olhei com cara de interrogação e ele disse que queria ir novamente, porque nele fizeram curativos ridículos, deram pontos horríveis e não me deram nada para dor, já para mim, deixaram praticamente nova, nem dor parece estar tendo. Foi o primeiro que me recordei a dor após a explosão, dos cortes e de tudo que devia ter quebrado, mas agora, ele tinha razão, meus cortes eram apenas marcas na pele, e não estava mais com dor, mas eu não havia feito nada, não havia passado com ninguém e nem tomado nenhum remédio, acho que meu desespero do dia acelerou meu metabolismo, sei lá, não tenho ideia, acho que quando desacelerar a dor vai voltar com tudo, melhor não dormir mesmo ou amanhã não vou conseguir levantar.
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