Alex:

Não achava que a saudade poderia doer tanto. Hoje eu acordei pensando em Joan, ou talvez esteja pensando nela há alguns dias. Eu conversaria nem que fosse por carta com ela, só para ela me dizer que estava bem. Na noite anterior a minha chegada aqui, conversamos muito. Ela não estava bem, queria dar uma folga de tudo. Disse que no dia seguinte iria sair com um cara que estava ficando, mas que também não estava muito feliz com ele. Também falou algo sobre pegar a câmera no conserto. E ir na loja da mamãe no centro tirar fotos de algumas obras que estavam paradas para divulgação.

—Vou ter meu nome divulgado. -O único momento da conversa que ela parecia animada.

Foi em um domingo que Joan descobriu sua paixão. Estávamos no jardim, sentados na grama, como nos comerciais. Eu ajudava Liam a dar seus primeiros passos e papai tirava fotos. Joan estava em pé pintando um quadro e minha mãe dava algumas dicas para ela deitada a sua frente enquanto curtia o vento da primavera. Era uma cena digna de filme água com açúcar. Até que Joan finalizou a obra e chamou minha mãe para ver. Mas ela não conseguiu esconder que não havia gostado.

—Não foi bem dessa forma que eu falei... – Ela tentou amenizar.

—Mas eu fiz exatamente como você mandou! – Ela tinha lágrimas nos olhos.

—Ellen... – Meu pai falou.

—Você se esforçou muito não foi? Eu consigo ver que você tentou.

—Mas não foi o suficiente, você não gostou! – Ela jogou o pincel longe.

—Não! Eu gostei sim, claro que eu gostei, é que a mamãe pinta diferente, foi meu erro achar que você pintaria igual. – Ela puxou Joan para um abraço, mas vi seu corpo enrijecer com o aperto.

—Mostre para o papai a sua pintura...

—NÃO! – Passou as mãos com força nos olhos limpando as lágrimas e entrou em casa marchando de raiva.

—Joan...! – Minha mãe chamou.

—Eu vou falar com ela.

Um tempo depois eles voltaram, Joan estava pendurada em seu pescoço rindo.

—Já tivemos uma longa conversa e ela não quer falar mais sobre o assunto. – Ele anunciou.

—Eu posso usar a máquina agora?

—Você vai ser cuidadosa? Ela é nova.

—Claro que ela vai Carl! Deixe ela brincar.

Ele explicou a ela como mexer. Então ela começou a tirar as fotos. Primeiro ela apagou a maioria das fotos que ele havia tirado por que estavam tremidas, ou escuras ou os dois. Ficou horas mexendo nas funções, fazendo vídeos e fotos. Quase não falou. Estava concentrada demais.

À noite, nos reunimos na sala para ver as fotos.

—Joan traga a câmera para vermos as fotos. – Mamãe perguntou cautelosa.

—Sim. – Ela respondeu friamente.

—Minha nossa... Você é muito melhor que seu pai. Carl veja essas fotos, ela tem talento. —E naquele instante eu vi os olhos de Joan acenderem.

—é?

—Sim. – Mamãe mexia na câmera- essa aqui ficou muito boa.

—Do pássaro? — Mamãe começou a dar explicações técnicas de como a luz e a cor da foto ajudaram a valorizar a imagem, explicações que eu tenho certeza que ela não entendeu, mas ouviu como muita atenção.

—Sim. Vou imprimir e colocar no quarto em uma moldura.

Ela abriu um sorriso de orelha a orelha.

Ellen:

Acordei junto com Carl e por alguns minutos parecia que as coisas tinham voltado ao que eram antes. Principalmente quando Carl me chamou para o chuveiro junto com ele. E fiquei feliz, até ri. Voltei a realidade quando as batidas insistentes de Liam na porta me lembraram que hoje é o primeiro dia de aula. E que eu não tinha nenhum motivo para rir.

—Acordem! Eu quero chegar bem cedo!

—Vá tomar café, vamos num minuto. -Carl ordenou enquanto esfregava a toalha nos cabelos e se aproximava de mim. – Posso pular o café. Isso me dá alguns minutos. Ele beijava minha nuca e passava a mão pelo meu corpo, o que me causava um misto de prazer, vontade e culpa.

—Não. – O empurrei sem muita firmeza.

Ele fez uma expressão de frustração e foi em direção ao closet. Apesar de nos vestirmos frente ao outro ele desviava o olhar sempre que eu tentava olhar para ele e respondia minhas perguntas de forma seca.

—Eu vou levar Liam hoje.

—Por que?

—Ele falou algo sobre reencontrar uma garota. Quero entender melhor.

—Mas já?

—Deve ser apenas uma amiguinha.

—Com 8 anos eu fugia dos meninos.

—Ainda foge. – E saiu.

Joan havia voltado para a universidade havia alguns dias e nunca foi tão difícil de me despedir.

—Eu juro mãe, vou ligar todos os dias. E mandar mensagem. E responder a todos os recados de voz. Estou apenas a duas horas de casa.

—Por que você quis vir estudar aqui se podia estudar lá e continuar morando conosco? Seria até mais econômico.

—Meu curso é melhor aqui.

—Você tem que se cuidar. Venha para casa todos os finais de semana.

—Todos os finais de semana possíveis eu irei. Mas não prometo ir em todos.

Então seriamos apenas nós três nessa casa. A sensação de vazio potencializou-se após eu receber um beijo frio de Carl e de me despedir de Liam. Acenei para ele na porta até o carro sumir e depois fiquei parada um tempo olhando a rua vazia.

Achei que poderia fazer meu dia ser mais produtivo que dormir. Mas eu estava muito presa a minha rotina de vigia da janela. Sentei na poltrona ao lado da janela e fiquei remoendo minha saudade. Eu costumava gostar dessa parte do dia. Com a casa no mais absoluto silêncio, eu conseguia me dedicar 100% as artes, muitas vezes esquecia de almoçar. A tarde eu ia para a loja onde eu normalmente iniciava as encomendas com Tony. Eu chegava em casa e encontrava os dois em seus postos. Liam perdido na tela de algum jogo e Alex indo para sua corrida. Mas nas férias ela corria de manhã. Naquele dia ela saiu para correr as 13. Não é um horário comum, é um péssimo horário, tudo bem que havia chovido boa parte da manhã, pelo menos chovia até a hora que fui dormir, mas aquilo me incomodava há semanas por que era minha culpa. Ela ficou esperando a equipe empacotar tudo. Eu lembro do timbre da voz dela respondendo a minha pergunta dos pacotes. Se ela tivesse ido assim que a chuva parou, quem sabe ela não teria sido levada. Era meu trabalho. Era minha obrigação verificar o empacotamento. Não pedir a ela. Mas eu estava tão cansada e não havia mais ninguém para pedir. Joan dorme a manhã inteira nas férias. Alex andava de um lado para o outro da casa, pronta, a espera que a chuva desse uma trégua e ela pudesse ir, pelo menos ela se ocuparia, pensei eu. Se ela tivesse ido no horário de sempre, as 13 ela já estaria de volta. As 14 ela me lembraria de comer. As 17 ela, Liam e Joan estariam na sala vendo algum filme bobo que Liam pudesse assistir. As 19 eu teria acordado e me deparado com os três e a vida seguiria normalmente. As 20 teríamos jantado. Mas nada disso aconteceu. Peguei no sono e acordei com Liam passando às mãozinhas nos meus cabelos.

—O que faz em casa?

—A aula já acabou.

—Desculpe não ter ido te buscar.

—Tudo bem. – Ele me olhava estranho.

—O que foi?

—Eu não encontrei a Alex na escola.

Então eu entendi quem ele queria encontrar tão ansiosamente no primeiro dia. Ensaiei varias frases para explicar que ela não poderia, ou não queria ir, mas nenhuma delas parecia a certa. Sem saber o que dizer a ele o puxei para meu colo, sua cabeça encostada em meu peito. Ficamos algum tempo assim. Meu estômago roncou.

—Sua barriga fez um barulho engraçado.

—Ela quer que eu coma alguma coisa.

—Eu também quero. – Ao me levantar senti uma súbita tontura. Passar o dia sem comer nada tinha seus efeitos.

—Você está bem?

—Sim. Eu só preciso comer. Pode ir jogar, eu vou fazer alguma coisa.

As refeições têm sido fragmentadas. Ficou cada um por si, e todos por Liam que ainda não sabe cozinhar. Enquanto preparada o jantar engoli alguns pedaços de maçã, sem muito animo. Para minha surpresa Carl entra na cozinha quando estava quase finalizando a comida.

—Liam me falou que havia um jantar, estou enjoado de comida de restaurante. Consegui sair mais cedo. – Ele então me beijou e subiu.

Liam pôs a mesa animado e não parava de falar. Ao olhar o lugar vazio na mesa perdi a fome instantaneamente. Quando fiz menção de levantar percebi o rosto decepcionado de Liam e resolvi empurrar algumas garfadas. Aguentei até que todos terminassem e sai. Carl foi atrás de mim.

—Ellen o que você tem?

Fui direto ao banheiro colocar para fora toda a comida o que eu havia forçado.

—Ellen, meu amor, por quê? – Segurava meus cabelos.

—Eu não consigo comer... sem saber se ela ... comeu hoje. – Balbuciei entre soluços.

—Você está bem mamãe? – Ouvi a voz de Liam se aproximando.

—Estou. – Quando me virei o vi parado na porta do banheiro. Em seguida ao me levantar vi meu reflexo no espelho, descabelada, pálida.

—Eu agradeço a preocupação, mas a mamãe precisa descansar, tudo bem?

Liam me abraçou antes de ir.

—Você não comeu o dia todo de novo, não é?

—Eu esqueço de comer, porquê simplesmente não sinto fome.

—Você precisa estar bem para quando ela voltar. – Ele passou a mão em minha cabeça.

—Eu sei.