Sobre cores e horas
5 Capítulo 5
Carl:
Toda oportunidade de hora extra que eventualmente surgia eu pegava. Sem pensar duas vezes. Qualquer coisa que esgotasse minhas forças, para que quando eu chegasse em casa eu caísse duro na cama e não tivesse que pensar em nada. Abro a gaveta em busca de uma caneta e encontro uma copia dos inúmeros cartazes que fizemos com a foto dela. Nenhuma resposta em um mês. Trinta e cinco dias sem Alex. Senti então a visão duplicar. A cabeça já latejava há alguns minutos. Procurei o remédio da pressão e tentei ficar calmo. Me balançava na cadeira tentando relaxar enquanto ouvia alguma música aleatória de Yoga. Sinto o celular vibrar. Era Joan.
—Pai, será que você pode vir aqui no sábado ou domingo, sei lá?
Estranhei tanto a ligação quanto o pedido.
—Está acontecendo algo?
—Não. Só precisamos conversar.
—Sábado vamos os três ver você. Que acha?
Silêncio.
—Não. Só você, por favor.
—Estou preocupado. Tem que esperar até sábado? Fale.
—Tem que ser pessoalmente. Não se preocupe é sobre o aniversário de Liam.
O aniversário do Liam. Como eu pude esquecer? Não, como eu pude ignorar, ele não parava de falar disso, ou pelo menos eu lembro de ter escutado ele falar a palavra aniversário repetidas vezes, mesmo que eu não tenha prestado atenção no contexto. E esse ano eu teria que me virar para organizar alguma coisa para ele. O problema é que eu não sabia nada do que ele queria. A última festa que organizei foi na faculdade. incluía comprar bebida barata e escolher os LPs que tocariam. Estou realmente velho.
No sábado não foi preciso me dar ao trabalho de mentir sobre onde eu estava indo. Ellen dormia até cerca de uma ou duas horas da tarde e depois ficava mais algumas horas na cama sem falar direito com ninguém. Ela sequer percebeu quando eu levantei. Ao sair do quarto encontro Liam no corredor esfregando os olhos.
—Ei, por que acordou tão cedinho?
—Aonde você vai?
—Preciso ir a um lugar.
—Posso ir também?
—Você tem que ficar e cuidar da mamãe.
—Mas eu quero ir passear.
—Eu vou resolver um problema de gente grande. Se eu não voltar tarde eu te levo no parquinho ok?
Ele não ficou convencido. O peguei no colo e fomos até a cozinha.
—Certo. Eu ainda devo me lembrar de como fazer uma mamadeira.
—Ei!
—Ah. Você não usa mais mamadeira, ok. – Ele vai fazer nove anos. Não nove meses. Como sou idiota. Quando exatamente ele parou de usar mamadeira?
—O que quer comer?
—Sorvete. – Me respondeu distraidamente enquanto dançava alguma música imaginaria. Olhei a hora. Estava ficando tarde. Servi duas bolas de sorvete com calda de chocolate e entreguei a ele.
—Depois que comer, coloque na pia, lave as mãos e o rosto. E deite ao lado da mamãe.
—Tá bom.
Chegando na cidade, escolhi uma mesa do lado de fora de um café e fiquei esperando. Vi passar inúmeros cachorros passeando com seus donos, achei a ideia sensacional. Era disso que precisávamos, um cachorro que desviasse o foco da casa. Olhei a hora. Ela estava atrasada, comecei a procurar ao redor, olhando para os lados quando a encontro, do outro lado da rua ajoelhada buscando o melhor ângulo para fotografar um pássaro ordinário que não parava quieto. E eu esperando. Ela sequer virava o rosto para o lado, estava concentradíssima. Observando-a vi o mesmo amor que Ellen tinha pelas suas obras e fiquei buscando da memória qual exatamente o curso que ela fazia. Só conseguia ter certeza que não era fotografia. Um carro passou e assustou o pássaro e Joan foi obrigada a se levantar e me encontrar, andava de modo estranho, parecia haver perdido o equilíbrio. Não pude evitar de me perguntar se ela estava realmente preocupada com a foto ou queria adiar um pouco mais a conversa?
—Por que ainda não temos um cachorro? Acho que vou dar um para o Liam.
—Um cachorro? Pai, você esqueceu? Liam tem pavor de cachorro.
—Desde quando?
—Sério mesmo que você não lembra? Liam tinha 4 anos e fugiu até o vizinho querendo brincar com o cachorro. Ele tentou pegar um brinquedo ou osso da boca dele, Alex o encontrou e o trazia de volta para casa quando o cachorro se soltou, eles gritaram o dono conseguiu agarra-lo na hora que ele iria para cima dos dois. Os dois caíram no chão, Alex cortou o braço com alguma parte pontuda da calçada e Liam arranhou a testa fundo o bastante para ainda ter a cicatriz.
—Onde eu e sua mãe estávamos?
—Estávamos com a vó e o vô. Mas fomos todos para o hospital. Você deveria lembrar que isso aconteceu. Ele ficou um tempão com pesadelos. E a Alex também tem a cicatriz.
—Lembro agora. Bom, o que importa é que o cachorro está fora da lista. E quanto a festa?
—As coisas já estavam mais ou menos encaminhadas. Alex já tinha organizado boa parte antes de...sumir. Só preciso finalizar.
—Eu posso finalizar.
—Aqui está a lista do que é preciso. E compre alguns presentes.
—Tem alguma sugestão? Porque o cachorro está fora.
—Achei isso aqui nas coisas da Alex. – E me empurrou outro papel. Uma lista de presentes.
—Mexeu nas coisas dela?
—Estávamos organizando essa festa ha semanas. Ela já tinha me comentado sobre a lista. Só tive que entrar e procurar.
—E isso grifado em vermelho?
—Imagino que sejam as coisas que ele REALMENTE quer. Ele pede muita coisa sem vontade, só por pedir.
—Estou feliz de você ter tido tanto cuidado com essa festa. Sua mãe não está com cabeça.
—Não é a primeira vez que eu organizo o aniversário dele sem a ajuda da Ellen.
Nessa hora chega nossos pedidos e ficamos entretidos em beber e ficar constrangidos com a mudez um do outro. Até que tomei coragem e perguntei:
—Acho que essa conversa poderia ter sido resolvida em um telefonema ou dois. Fale porquê você me fez vir até aqui.
Ela tomou mais alguns goles de café e olhou para a rua desviando o olhar.
—Estou esperando.
—Estou dando um tempo da faculdade. Chamei você para me ajudar a levar as coisas.
—Assim do nada? Sem uma discussão mais aprofundada do assunto. Você mal iniciou o ano!
—Sim, eu sei, mas eu preciso MUITO dar um tempo. – Joan colocou a cabeça entre as mãos.
Me joguei na cadeira e respirei fundo.
—Que déjá vu.
—Não entendi.
—A Ellen tinha mais ou menos a sua idade quando desistiu da faculdade.
—Nem sabia que ela tinha ido para faculdade. Não. Eu sabia sim, vocês se conheceram lá. Mas nunca perguntei o porquê dela não terminar.
—Eu lembro bem. Em maio de 1987 ela bateu na minha porta chorando. Os pais descobriram que ela havia mudado de curso e haviam duas opções. Ou voltava para arquitetura ou eles iriam levá-la embora para casa.
—Arquitetura? Sempre achei que fossem artes plásticas.
—Ela fazia arquitetura por quê gostava de desenhar. Mas não gostava do curso. Na verdade, odiava. Trocou para artes plásticas depois de um ano e estava amando. Quando eu a conheci, ainda no curso de arquitetura ela já vendia algumas obras para lojas da cidade. Ela já sabia o que queria fazer. Agora imagine, eu dividia meu quarto com seu tio. Em outro quarto dormia meu avô. Nunca tinha dinheiro e todo dinheiro que eu ganhava eu gastava. Mas eu não queria que ela fosse embora. E ela sabia que não voltaria para a arquitetura.
—O que você fez?
—Convenci meus pais a deixar ela dormir na sala, e nós namorávamos há não mais que um ano e meio. E ainda tinha dois anos até eu me formar. Foi um tempo nebuloso para a Ellen. Os pais pararam de falar com ela e cortaram todo o dinheiro. Mas eu não deixei barato, todos os dias eu deixava mensagens desaforadas na caixa postal deles.
—Por isso eles não gostam de você.
—Nunca gostaram, eu sei dei o motivo. Minha garagem virou um estúdio de artes. E eu comecei a guardar dinheiro para comprar material para ela. Demorou um tempo até ela ganhar dinheiro e conseguirmos sair da casa dos meus pais.
—Por que ela não voltou a faculdade?
—Quando ela tinha juntado dinheiro aconteceu uma coisa mais importante.
—O que?
—Você.
Ela sorriu surpresa.
—Usamos o dinheiro para dar entrada em uma casa que tivesse paredes.
—Como assim?
—Depois de sair da casa dos meus pais, fomos morar em um loft no centro da cidade. Que também servia de estúdio/loja. Não dava para criar um bebê ali.
—Não imaginava que tivesse sido tão complicado.
—A Ellen sempre soube lidar em tempos de crise, por isso estou tão surpreso da forma que ela está. Eu realmente não sei como agir. Acho que vai ser muito bom ter você em casa.
Alex:
Não é como se eu pudesse gritar. Brigar. Xingar. Não parecia haver sentido nisso porquê eu estava impedida de falar. Não sei precisar exatamente quanto tempo depois de ter chegado aqui que eles vieram. Só poderiam ser duas pessoas. Talvez depois de eu conseguir me acalmar. Talvez um bom tempo depois do choque inicial. As coisas presas a minha cabeça ainda estavam muito apertadas e doloridas, assim como meus pulsos de tanto puxar numa tentativa que eu sabia ser inútil de me soltar. Eu sentia minha garganta arder de sede. Não havia visto nada além do breu. Fazia movimentos com os olhos para tentar me livrar da venda. Inútil de novo. Então eu senti puxarem a fita que prendia minha boca. Desatei a falar, não pensei, apenas falei. Uma mão quente e áspera segurou meu queixo e senti agua entrando. Bebi desesperadamente, engolindo cada gole, cada gota. Até a garrafa acabar. A fita voltou a me calar. Era isso? Sem comida? E esse nem era o problema mais urgente. Ocasionalmente eu precisaria me livrar de toda essa água, como eu faria para pedir? Voltei a me desesperar. Como nada acontecia, deitei no chão e tentei me acomodar com aquele capacete apertado até pegar no sono.
Ouvi vozes. Risos. Ao mesmo tempo que eu ouvia, só pensava, ou melhor, sentia uma coisa: alivio, o capacete havia saído e assim que a venda foi removida eu sequer tive tempo de absorver qualquer imagem, uma luz que mais parecia um holofote na minha frente me cegava por completo e fazia com que meus olhos ardessem e lacrimejassem mesmo fechados. Enquanto isso mãos quentes e ásperas encaixaram o que pensei ser uma touca que finalmente fez a luz parar de ser um incomodo. Senti que ela era puxada no que imaginei ser algum tipo de ajuste, por que ela ia ficando mais apertada, mas sem dúvidas era mais confortável que o capacete. Apesar da sensação de sufocamento ser infinitamente maior por que eu sentia que todo minha cabeça estava coberta, exceto pelo meu nariz, mas de resto, era exatamente como antes mas pior. Ainda havia algo dentro do meu ouvido, ainda não podia falar, na verdade agora minha boca mal podia se movimentar com a máscara ajustada. Agora a mão mexia em meu pulso esquerdo. No reflexo de puxa-la percebi que ele estava livre. Imediatamente toquei minha cabeça. Confirmado, era uma máscara, tentei puxa-la em vão, não sei por que sou tão teimosa, tateei até encontrar o que pareciam ser cadeados. Isso explica o motivo de me soltar parcialmente. Era fofa também, deveria haver algum enchimento, me senti mais claustrofóbica com aquela coisa. Respirei fundo e expirei. Usei essa nova porção de liberdade para tentar me localizar. Tentei levantar, mas a corrente que prendia meu pulso direito era muito curta. De joelhos, apalpava o chão na tentativa de encontrar uma parede. O chão era de carpete. E um carpete sujo, podia sentir coisas grudando na palma da mão à medida que explorava. Não consegui encontrar nenhuma parede, ou qualquer outro objeto próximo a mim, exceto... exceto algo metálico com uma cavidade, parecia um balde talvez. Não foi difícil presumir o propósito dele. Quanto tempo isso iria durar? Por que não falava comigo? Por que eu não podia ouvir? Comecei a chorar, queria estar em casa. Queria poder abraçar todo mundo, bem apertado. Por que não beijei minha mãe ao sair? Por que não apertei Liam até ele reclamar? Me senti completamente vazia.
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