Ellen:

As folhas cobriam o quintal, Liam se divertia sozinho. Fiquei parada observando-o, impressionada que ele ainda gostasse de brincar do lado de fora. As árvores estavam quase nuas. Que espera torturante, porque eu já não sabia o que esperar a essas alturas. Olho para o relógio e me sinto culpada, outono e eu acordando as dez da manhã, era para eu estar com a cabeça fervilhando de inspiração uma hora dessas com a quantidade de tons diferentes que as folhas adquiriam. Isso nunca aconteceu antes. Eu não conseguia ter uma ideia sequer. O fato de Carl não ter dormido em casa depois de mais uma briga não ajudava. Até agora nada dele, eu sequer podia ligar para o trabalho dele porque hoje é sábado. Angustiada entro na cozinha e encontro Joan misturando o whisky 25 anos, caríssimo que Carl havia ganhado de aniversário com café.

—Joan são dez da manhã o que você está fazendo?

—O que você faz em pé essa hora? Não era para estar na cama sentindo pena de si mesma?

—Ah vá a merda. – Agarrei a garrafa. Ela segurou minha mão. Estava completamente embriagada.

—Vá para o seu quarto tomar um banho.

—Eu não sou uma criança. Eu não preciso te obedecer.

—Você nunca me obedeceu. Saí da minha frente garota, antes que eu perca a cabeça!

—Não vem descontar em mim que seu casamento é uma bosta. Pensa que eu não sei que ele não voltou. Ele fugiu igual Alex fugiu de você. Ninguém te suporta. A próxima sou eu. – Ela riu.

Foi quase involuntário, só percebi depois de ouvir o estalo e ver minha mão carimbada no rosto dela. Ela em choque não falou nada.

—Olha o que você fez!

—Fiz algo que eu deveria ter feito muito tempo. -Tirei a pantufa, a puxei pelo braço para fora da mesa e comecei a bater.

—Eu tentei ser uma mãe moderna, que não bate nos filhos. Mas você não ajuda Joan. Estou de saco cheio dos seus desaforos. Não sabe a hora de calar a boca. Me desrespeita a todo tempo. Não tem limites!

—Para mãe por favor! -Então eu larguei. Eu estava ofegante e ela chorava.

—Para de chorar! – Segurei seu queixo com força e sentei na cadeira atordoada.

—Queria ver se fosse eu que tivesse sumido. Se você ficaria tão mal assim.

—Cala a boca, eu não vou discutir com você nesse estado. Você é a pessoa mais injusta que eu conheço. Acha que a culpa de tudo é minha. Seu pai também foge e você não fala nada!

—Você é pior que ele.

—Ah você acha?

—Acho. Você nunca gostou de mim. Ele pelo menos não faz distinção. Você ama a Alex, ela é sua filha favorita. Ou era, porque ela já deve estar morta uma hora dessas!

—Você é realmente uma idiota. Totalmente. Acha que tem todas as respostas. Acha que a culpa de todos os seus problemas somos nós.

—Se hoje eu bebo todo dia é culpa das brigas que vocês tinham e eu tinha que me virar para cuidar dos dois. Foi a única forma que eu encontrei de não pensar na vida de merda que eu tenho!

—Que vida de merda Joan? Você tem tudo o que você quer! O que te faltou?

—Eu te odeio!

—Para! Chega de agir como uma criança! Olha seu tamanho! Olha a situação você está provocando para si! Bêbada desse jeito, a essa hora, jogada no chão da cozinha, tendo que apanhar da sua mãe aos 20 anos!

—Eu não te aguento mais.

—Eu também não te aguento mais.

—Então vou te ajudar a se livrar de um problema. – Ela levantou cambaleante, achei que fosse para o quarto, mas então eu ouvi o barulho do carro. Fui atrás dela, mas quando cheguei no carro ela já estava saindo.

—Desce agora ou eu vou dar queixa na polícia! – Gritei enquanto forçava a abertura da porta.

—Vai para puta que pariu Ellen!

Carl:

Primeiro a briga com Ellen, agora com Joan. Só falta brigar com Liam. Que inferno de vida. Se me dissessem que seria assim teria dado um beijo de despedida em Ellen e deixado ela ir embora. Esse foi meu erro. O princípio dos meus problemas. Ah, quem eu estava querendo enganar? Eu era apaixonado e sem bom senso o suficiente para pegar um ônibus até a casa dela e traze-la comigo. Quem achou que seria uma boa ideia deixar a Alex ficar correndo sozinha? Se eu fosse não tentasse ser um pai moderno, ela jamais teria permissão de sair assim sozinha. Mas não era o caso, eu sou um pai ruim mesmo. Joan falou a verdade, eu não estou com eles o tanto que deveria. Eu não suporto mais ficar em casa. Queria voltar ao que éramos antes. Foi tão divertido morar sozinho com Ellen. Tirando as horas que eu trabalhava, não havia horário para nada. Transávamos a torto e direito pelos cantos daquele minúsculo apartamento e éramos felizes.

Mas não posso ser injusto. Depois que vieram as crianças ainda estava bom. Se tivesse que escolher um período para viver eternamente escolheria 2007. As meninas eram pequenas, e eram apenas crianças. Não havia corridas, fotografia, faculdade, namorados, cobranças. Só as duas pequenas e Ellen grávida. A casa recém construída, inúmeros planos. Joan nessa época gostava de ficar pendurada no meu pescoço e só descia quando eu fazia cocegas nela e ela não havia cultivado tanto raiva pela Ellen. Como chegamos a isso? E eu podia abraçar Alex o quanto eu quisesse. Por que parei de fazer isso? Ela amava meus abraços de urso, eu acho que nunca fiz isso com Liam... Eu era um bom pai, um bom marido e ainda éramos felizes. Deixei tudo isso escorrer pelos meus dedos como se fossem areia. Por que de repente tudo deu tão errado?

—Talvez seja melhor começar a lidar com a possibilidade de encontrar apenas um corpo para enterrar. – Meu pai falou.

Ter a cabeça esmagada deveria doer menos que aquela frase. Estava tentando digerir as palavras quando o celular tocou pela primeira vez. Desliguei.

—Desculpe filho, não pensei direito.

—Talvez você tenha razão. A vida precisa seguir. Peguei Liam pesquisando sobre pessoas desaparecidas. Ele tinha se cadastrado em um fórum sobre isso.

—Não sei o que pensar a respeito. As crianças de hoje são muito precoces.

—Eu não acredito que possa ser saudável para ele. Era para ele estar jogando videogame... E se Alex simplesmente – minha voz engasgou. Respirei fundo. – Se ela se foi, nós ainda temos que criar Liam. Joan está encaminhada, mas ainda precisa de nós. Todos esses meses e só tivemos seguindo pistas frias.

—Gostaria de poder medir se você está certo ou não.

—Tantas pessoas reaparecem depois de um tempo, Alex sumiu há alguns meses, você precisa acreditar mais filho. – Minha mãe nos interrompe.

—Mas não é como se eu estivesse desistindo dela. Mas eu não posso mais negligenciar todo o resto. Ou talvez esteja mesmo desistindo... é que eu simplesmente estou tão saturado de tudo isso... Eu só queria ir lá e leva-la para casa. Ou sei lá. Que ela telefonasse e dissesse que quer viver a vida como uma Amish ou vagando pelo mundo, mas que está bem, EU PRECISO de notícias dela, esse vazio de respostas é pior que qualquer coisa. Se encontrassem um corpo, pelo menos eu saberia onde colocar essa dor. Eu saberia o que fazer. -Minha mãe me abraçou forte.

—O que Ellen acha disso? -Meu pai pergunta.

—Nós não conversamos muito sobre isso. Basicamente brigamos quando estamos juntos.

—Isso não faz sentido. Vocês sempre se deram tão bem.

—Essa situação não faz sentido algum.

Pedi para ligar a TV enquanto desligava o celular, não queria mais falar do assunto, queria esquecer um pouco, mas era muito difícil fazer isso com Ellen me ligando sem parar, por que tamanha insistência? Não sabe dar uma folga essa mulher? Cerca de onze e meia o telefone da casa deles toca.

—Oi filho. Tudo bem?

—...

—Sim, Carl está aqui, o que aconteceu?

—O que foi mãe? – Perguntei.

—É Peter. Não quis me dizer o que ouve. – Minha mãe me fala aflita ao passar o telefone.

Atendi o telefone assustado.

—Peter?

—Por que não atende a porra do telefone Carl? Estou aqui na sua casa. Joan sumiu com o carro, Ellen falou que ela já saiu bêbada daqui. Venha rápido.

Senti um nó se formar na garganta, meus pais vieram junto dado meu nervosismo. Dirigi o mais rápido que pude. Quando cheguei em casa encontrei Ellen desesperada. Peter estava na sala falando ao telefone. A esposa de Peter já havia levado Liam para a casa deles. O localizador do carro de Ellen apontava para um shopping a cerca de 30 minutos de casa.

—Não adianta correr desse jeito. Daqui a pouco um policial nos para e aí sim vai demorar. Se tivesse atendido aos telefonemas...

Respirei fundo para não começar a brigar com ela naquele momento e dirigi mais lentamente. Eu ainda nem havia digerido a briga da noite passada. Na verdade, nem lembrava o motivo da briga.

O estacionamento estava lotado. Felizmente não foi difícil descobrir onde ela havia estacionado. Ele estava torto e ocupava duas vagas. Joan estava com a cabeça apoiada no volante. Reconheci a garrafa do meu presente do aniversário passado caída ao seu lado. Totalmente vazia. Joan estava fria. Havia vomitado. Não acordava e não parecia respirar direito. Senti o mundo girar e virei um mero espectador enquanto assistia a Peter ligar para a emergência enquanto Ellen chorava abraçada em Joan.

Na sala de espera eu e Ellen estávamos muito distantes. Física e emocionalmente. Ela conversava com Peter sem olhar para mim. Quando finalmente o médico apareceu foi que ela se aproximou de mim. Quando tivemos permissão para vê-la, seu estado era estável, mas não menos chocante. Estava entubada e sedada, com uma camada excessiva de cobertores para manter a temperatura. Meu impulso foi de levar o braço até Ellen, mas tive receio, foi então que percebi que ela me abraçava enquanto segurava a mão de Joan. Coloquei minha mão em cima das duas.

—Tudo vai ficar bem.

—Vai.

Quando meus pais e Peter foram embora, eu me aproximei. Ela olhava fixamente para a parede a sua frente há horas. Não conseguia ler o que seu rosto expressava.

—Desculpe não atender. Eu precisava de um tempo.

—Tempo? Você precisava de um tempo. — Ela disse inexpressiva, tão baixo que quase não pude ouvi-la.

No dia anterior a alta de Joan Ellen me chamou a sala de jantar. Não estávamos bem, mas falávamos muito de Joan e foi um imenso alívio termos chegado, sem grandes tumultos, ao acordo de não interná-la numa clínica. Achei que era um bom recomeço e tinha certeza que estávamos no caminho certo quando Ellen falou que queria conversar comigo. Sentamos na mesa, frente a frente.

—Eu pensei muito durante a tarde, sabe Carl?

—Sobre o que?

—Casamento. Na verdade, são coisas que eu tenho pensado há muito tempo, mas hoje eu cheguei a conclusões que chegou a hora dessa conversa. Aproveitar que estamos a sós.

—Eu sei que estive ausente.

—Ausente. É uma boa palavra. Bonita, polida.

—Não tenho uma amante, se é isso que está pensando. Era trabalho.

—Não estou pensando. Na verdade, eu não dou a mínima se você me traiu ou não. Não sinto que somos casados há muito tempo. -As palavras me acertavam como flechadas.

—Você está sendo muito radical.

—Eu casei com meu trabalho e você casou com o seu. Nós dividimos as contas, moramos na mesma cama e transamos ocasionalmente. E o que mais?

—As coisas saíram do controle.

—Sim, totalmente...

—O que quer que eu diga?

—E tem algo para ser dito? Nós falhamos Carl. Falhamos miseravelmente em todos os aspectos.

—Eu não sabia o que fazer Ellen, estou perdido.

—E aí achou que seria uma boa ficar pouco em casa. Como se não ligasse.

—Você também não parecia ligar, não ligava para nada, nem pra casa, nem pra Joan, pra mim, pro Liam. E se eu chegasse perto você me afastava como se eu não sentisse a mesma dor que você. Como se eu não entendesse.

—Nós dois ignoramos Liam.

—Sim...

—Pobrezinho, ele não poderia ter nascido numa época pior.

—Mas ele não tinha culpa.

—Joan disse que se sentia rejeitada por mim naquele dia antes de sair. Como se eu preferisse a Alex. Você concorda? Eu fui uma mãe tão ruim assim? Ela disse que me odiava. Que eu era pior mãe do que você é pai.

—Não. Joan sempre foi muito carente. E ela estava bêbada. – Segurei sua mão.

—Bêbados são sinceros.

—Babados são exagerados. Olhe, vocês vão ter muito tempo para conversarem quando ela voltar. Vou parar de pegar hora extra. Tentar chegar mais cedo. Cuidar de Liam, te ajudar com Joan. Ficar mais com você.

—Carl... – Ela puxou a mão.

—O que?

—Eu te chamei aqui porque tomei uma decisão. Eu não estou pedindo o divórcio ainda. Assim que Joan melhorar, nós voltaremos a ter essa conversa. Sobre como será com Liam, se Joan volta para faculdade. O que será da casa, etc. Até lá vamos nos concentrar em sermos pais. Bons pais. Como um dia já fomos.

—Você está pedindo o divórcio, ou está apenas cogitando? – Me senti destruído. Agora por completo.

—O que quero dizer é que não trataremos da burocracia que isso envolve. Não agora, por causa deles. Mas sim Carl, acabou.

—Por que Ellen? Agora que as coisas estão começando a melhorar?

—Melhorar? Você acha mesmo que melhoramos? Olhe onde nós estamos. Quase perdemos Joan. Não fazemos ideia de onde está Alex. Ignoramos Liam. Nosso casamento é uma merda que rola ladeira a baixo. Que melhora que você vê? Nada mudou Carl, estamos separados há tempo demais. Só não era oficial. – Ela tinha a voz embargada. Seus olhos estavam empoçados.

—Nós superamos tantas coisas. São quase trinta anos juntos!

—Financeiramente nos recuperamos da crise de 2008. Mas nosso casamento acabou lá naquela época. Estávamos arrastando um cadáver todo esse tempo.

Me inclinei para trás. Não conseguia olhar para ela. Me sentia acabado. Ela levantou e ficou olhando para a janela do quintal escuro. Quando consegui enfim controlar meu choro perguntei.

—Eu não te faço mais feliz?

Ela me olhou com os olhos inchados, engoliu a seco e mirou para o vazio.

—Já fez. Mas hoje não mais.