Sobre cores e horas
14 Capítulo 14
Alex:
O frio diminuiu. Me assustei ao achar que já tivesse chegando o verão, mas é mais provável que tem eles tenham simplesmente ligado o aquecedor. E eu ganhei um cobertor fedorento, mas é melhor do que nada. Então acho que ainda não passou tanto tempo. Eu estou muito confusa.
Antes, quando eu ficava presa por apenas um braço eu sabia que estava acordada. Era uma de minhas poucas certezas. Porém comecei a sonhar que estava solta e então acordava presa, ou vice-versa e cheguei ao ponto em que é muito difícil distinguir se eu estou acordada ou sonhando e entro em loops infinitos de consciência-inconsciência. Eu estou sempre com sede, sempre com fome, dessa forma eu nunca conseguia saber se estava realmente bebendo água ou com tanta sede que sonhava com ela. Senti que estava me perdendo. Exigia um enorme esforço pensar em coisas que não fossem coisas além daqui. Meus batimentos parecem mais fracos. Estou cansada de respirar. Meu corpo inteiro dói. Eu estou exausta. Fisicamente. Mentalmente. Eu parei de desejar qualquer coisa que não fosse estar morta. Eu não aguento mais. Nem o rosto de meus pais, Joan e até mesmo Liam me trazem mais conforto. Parei de desejar revê-los. É como se eles simplesmente não tivessem mais importância alguma. Eu só queria me ver livre do vazio e da dor.
Ellen:
Carl está magoado com o divórcio eu sei, mas nunca foi tão fácil conversar com ele. Agora ele adora conversar comigo, mesmo que seja sobre a lista de compras. Chegamos à conclusão que seria bom que Liam fosse passar uns dias com os pais dele. Longe de todo esse estresse.
—Eu não entendo o porquê de eu ter que sair de casa. O que Joan tem eu posso pegar também? – Ele me perguntou enquanto arrumava a sua mala.
—Não. Mas eu e o papai vamos ficar muito ocupados cuidando dela.
—Mas eu posso ajudar a cuidar.
—Eu sei que pode. Serão alguns dias apenas.
—Eu vou poder voltar mesmo?
—Mas claro que vai! Joan só precisa de um tempinho. Quando ela começar a melhorar você volta. Vamos te pegar lá.
Ele ficou pensativo.
—E eu posso ligar para falar com vocês?
—Quantas vezes você quiser. Mas só quando estiver em casa. Não durante a escola.
Depois de deixar Liam fomos em direção ao hospital. Não achei que tivesse que lidar com esse tipo de problema. Não com meus filhos. Quando que me passaria pela cabeça que Joan fosse alcoólatra há tantos anos. E que ela sofreu todos esses anos sozinha. Quando os médicos sugeriram uma internação eu fui categórica em dizer que não, eu não queria ficar longe dela. Ela precisava de mim, do pai. Da irmã também, mas isso todos nós precisávamos.
No meio do caminho ele estacionou o carro.
—O que foi?
—Eu perdi uma filha, quase perdi outra aí você vem e fala em divórcio...
—Já falei para você parar de falar como se ela tivesse morrido!
—Desculpa! Eu sei! – Então ele começou a chorar. Com as mãos ainda apoiadas no volante. A cabeça entre os braços. Não sabia porque ele chorava exatamente, se pelo divorcio ou pela situação toda, também não quis perguntar, mas senti vontade de chorar junto.
—As coisas vão melhorar Carl. – Toquei em seu braço e apoiei a cabeça. Senti que minhas lágrimas caiam em direção ao seu suéter.
—Você pediu o divórcio, como isso pode ser uma melhora?
—Porque não agimos mais como um casal. Você me deixou sozinha em momentos que eu mais precisei de você, para me apoiar e para apoiar as crianças.
—Eu sou um cretino.
—Agora vamos seguir adiante. Cada um traçando seu novo caminho. – Beijei seu braço e me afastei.
—Eu não quero seguir adiante. Eu quero ficar com você.
—Mas eu não quero mais. Eu não consigo mais fingir uma situação. Tenho outras prioridades agora.
—Como você pode jogar fora 30 anos juntos por causa de 3 meses?
—Você sabe que não foi só por esses 3 meses. Você ter me ignorado quando Joan fugiu foi só a gota d'água. Eu sabia que tinha acabado, só estava ignorando. Adiando. Eu pensava que seria a maior dor do mundo te deixar. Mas me enganei.
—Foi tão fácil assim?
—Não, nem um pouco. Mas a dor que a ausência da Alex me provoca dói infinitamente mais.
—Eu senti uma dor imensa quando achei que era tarde demais pra Joan. Tão grande que acho que não senti mais nada.
—Eu não consigo mais classificar minhas dores emocionais. Ver Joan morrendo na minha frente... –Suspirei profunda e melancolicamente. -Agora eu só quero cuidar dela. Se pudesse colocaria ela num cercadinho com uma babá eletrônica vigiando o tempo todo.
—Acho que legalmente podemos fazer isso. – Ele sorriu.
—Saudade da época em que eu achava que a pior fase tinha passado quando ela largou as fraldas. Quando comentei isso para sua mãe ela riu de mim e eu fiquei sem entender. Agora eu entendo.
—Ela sempre deu mais trabalho.
—Sim... Mas eu não me importava, até ela entrar na adolescência e começar a dizer que eu sou uma mãe ruim. Ficava brava por que eu sabia que estava sendo melhor que a minha própria, mas tenho serias dúvidas quanto a isso no momento.
—Você é melhor que a sua mãe em vários sentidos. Não tenha dúvidas disso.
—Eu sei... Mas obrigada por me lembrar.
Aumentei o volume do rádio. Não pude deixar de sorrir ao ouvir a música que tocava: "take my breath away", não parava de repetir no rádio em 1986, logo no início do nosso namoro.
—Pelo menos te deixei com lembranças boas. -Ele disse.
—É claro que eu tenho lembranças boas com você.
—Não recentes...
—Não... Bem, essa conversa é uma delas. Há quanto tempo não conversávamos civilizadamente e com sinceridade?
—E isso não é suficiente para uma segunda chance?
Pausa.
—Joan está nos esperando. – Falei virando o rosto para a janela.
—Alguns minutos não farão diferença. Ela merece esperar. – E tentou me beijar. Tentei empurra-lo no começo, mas depois cedi.
—Esse beijo não muda nada.
—Não importa.
Os primeiros dias de abstinência de Joan foram cruéis mesmo com todo o apoio medico do hospital. Em casa as coisas poderiam sair do controle. Carl instalou fechaduras pela casa. No armário dos produtos de limpeza, no armário do nosso banheiro, protegendo os perfumes. E claro, nos livramos do nosso estoque de bebidas, ou o que sobrou dele.
Tive que fazer uma escolha difícil deixando minha dor pela Alex de lado por um tempo. Havia ares nostálgicos pelo ar. Era só eu e Joan o dia inteiro em casa. As noites eram mal dormidas, eu precisava cozinhar para ela e lhe dar remédios para lidar com a abstinência. Era basicamente uma criança de novo.
O telefone tocou. Só podia ser minha mãe, eu estava adiando essa ligação há dias. Mas já era hora de atender e contar que iria me separar, para a alegria deles.
—Estamos com Joan em casa.
—Isso é de família você sabe, não é? Meu pai, seu avô, também não sabia a hora de parar. Mas viveu até os 90 anos. E dormindo.
—Eu sei mãe, mas os tempos são outros, isso é uma doença e Joan não pode mais beber. Nunca mais.
—Carl bebe demais, ela cresceu vendo isso.
—Não mãe, ele não bebe. Nunca ficou bêbado. – Nunca ficou na frente das crianças.
—Eu não te ensinei a beber. Vocês não vão a igreja o suficiente, eu te criei lá dentro.
—Eu sei. Não sou uma mãe tão boa como você.
—Ora Ellen não me trate com sarcasmo, estou velha demais para isso.
—E como está o pai?
—Lá fora cortando a grama. Está quente. E aí?
—Frio. Bastante na verdade.
—Eu não sei como você aguenta esse frio. Eu odeio o frio.
—Eu moro aqui há mais de 30 anos mãe. Já acostumei.
—Tem certeza que não quer ajuda? -Sim eu queria ajuda, muita ajuda, mas também queria paz e imaginar meus pais, eu e Carl sob o mesmo teto me parecia absurdamente o contrário de paz.
—Acho que sim.
—Podemos ir para a Ação de Graças. – Daqui a uma semana? Não, eu preciso de preparo psicológico.
—Tão em cima da hora? Será que vai ter passagens?
Silêncio.
—Se não quer a gente aí é só falar.
—Não é uma boa hora. Eu e Carl não estamos bem...
—Nós queremos ver o Liam e a Joan pelo menos.
—E se eles passassem o natal com vocês? Pelo menos o Liam, não sei se Joan já estará bem para viajar até lá.
—A gente não vai deixar ela beber. Não temos bebida em casa. Que aconteceu com vocês?
—Coisa de casal...
—Hum.
—Pensando bem, acho que vou com eles passar o natal.
—Sem o Carl?
—Sim...
—Vocês estão mal mesmo, falta mais de um mês pro natal.
—Nós vamos nos separar.
—Ah. – Mas dava pra perceber que ela sorria do outro lado da linha pela forma que ela pronunciou.
—Não contamos pras crianças, então por favor não comente nada, tenho medo de como Joan vai reagir.
—Tudo bem, querida. Se cuide. -Ela me chamou de querida?
—Tchau.
—Thomas, Ellen e as crianças vem para o natal! – Pude ouvir ela gritando antes de desligar.
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