Depois de acordar e perceber que eu estava no hospital, fui tomada pela sensação de culpa de uma forma que nunca havia experimentado. E sentada na poltrona ao meu lado estava Ellen folheando uma revista.

—Oi. -Ela disse ao me ver acordar.

—Oi. – Falei sem olhar para ela.

—Lembra o que aconteceu?

—A última coisa que eu lembro era de estar dirigindo, depois disso é um embaralhado de imagens.

—Você parou o carro no estacionamento do shopping, eu digo parou porque não dá para chamar aquilo de estacionar. Vomitou e desmaiou, não sei se nessa ordem.

—Sei.

—Você brigou comigo...

—Nós brigamos. Falamos coisas horríveis uma para outra. Você lembra?

—Sim... Eu não queria ter dito aquelas coisas.

—Você quase morreu Joan. Quando nós te achamos você estava sem respirar. Estava fria. Mais um pouco e...

—Me desculpa. Eu não sei o que deu em mim.

—Eu achei um monte de garrafas vazias no seu guarda-roupa. Há quanto tempo você está assim?

—Tempo demais.

—Pode começar a me contar tudo, desde o começo. Em detalhes.

Então eu comecei a desabar tudo. Desde o primeiro gole aos 12, a batida no carro, as tentativas de parar, reuniões do AA. Falei olhando para baixo, eu sentia muita vergonha, não tinha coragem de olhar para ela. Mas podia ouvir que ela chorava. Quando eu terminei ela me abraçou, e eu a apertei forte, como há anos não fazia.

—Me desculpa mãe, por favor. Eu to muito arrependida. – Disse entre soluços enquanto tentava desembaraçar o fio do soro enroscado nela.

— É claro que eu te perdoo. Você está doente Joan, eu não sabia que você estava sofrendo tanto. Você deveria ter falado isso há muito tempo.

—Eu tentei. Mas me sentia acovardada. Se eu falasse pra vocês o problema seria real.

—Só de saber que você vai ficar bem eu já fico imensamente feliz e aliviada. Não saberia o que fazer se te perdesse.

Os primeiros dias sofram sofríveis demais. Ainda no hospital, eu suava frio e não parava de tremer. Ela sentou ao meu lado na cama e segurou minha mão.

—Qual é a sensação?

—Horrível.

—Joan.

—Que?

—Olhe para mim.

—Não consigo.

—Olhe.

—Nós vamos superar isso juntas ok?

—Sim. – Tentei sorrir. Mas não sei se consegui. Ela tem me tratado com uma paciência que vem do além porque não lembro de tamanha passividade quando eu era criança. Mas é bom. Ela está diferente. Parece que está saindo daquele estado quase catatônico.

Fiquei feliz de saber que voltaria para casa, eu estava determinada a parar de vez. Entre os milhares de arrependimentos que eu sentia, um deles era de não ter contado para meus pais. Parece que tirei um peso das costas. Não sinto mais vontade de brigar com Ellen, nem com Carl, nem com ninguém. Só sinto vontade de abraçar. Não posso dizer que estou em paz, por que eu não vou conseguir descansar até saber onde está minha irmã. Ela é a peça que falta. Mas já posso ver pela primeira vez que existe uma luz.

Estou como se estivesse em liberdade condicional. Ellen e Carl confiscaram minha carteira com os documentos, dinheiro e cartões e minhas chaves. As portas estão trancadas. É um pouco sufocante saber que estou literalmente presa em casa. Mas sem dúvidas é melhor estar aqui do que em alguma clínica de reabilitação. Só saio de casa duas vezes na semana, quando vou a terapia. Ocasionalmente a alguma consulta médica. Ellen ainda tem medo que eu saia correndo por aí, eu ri quando ouvi ela falar, mas acho que ela não está totalmente errada. É melhor prevenir por enquanto.

Sinto falta de Liam, mas eles estavam certos em afasta-lo de mim, nem foi me visitar no hospital. Eu não tenho sido uma boa figura de referência para ele. Sem Alex eu sou o único exemplo de irmã que ele tem. Eu tenho que ser melhor para ele. Na pior das hipóteses, se Alex não voltar, no futuro eu serei sua única família. Pensando nessas coisas, não percebi que já passava das 4 da manhã e eu sem conseguir dormir. Os remédios para ansiedade ainda não resolveram essa questão. Resolvi descer e ver televisão. Para minha surpresa, Ellen estava lá, deitada em um dos sofás, de cobertor, com uma caneca de chá e um pacote das bolachas no colo.

—Joan?

—Mãe? – Ela me olha assustada.

—Onde você vai?

—Lugar nenhum.

—Por que esta vestida?

—Eu não preguei o olho. Não troquei de roupa ainda. Não sabia que você gostava de comer essas coisas. – Disse ao me sentar do seu lado, ela dividiu o cobertor comigo.

—Não gosto. Mas você não faz ideia de quanto peso eu perdi nesses últimos meses. Um pacote desses e eu volto ao meu peso normal.

—O que está assistindo?

—Decoração, quem sabe eu me inspiro a criar alguma coisa.

—Você não teve nenhuma ideia todo esse tempo?

—Não...

—Mãe?

—Que?

—Aquele dia, vocês brigaram por causa minha?

Ela soltou uma risada.

—São tantas brigas, seja especifica.

—O dia que eu cheguei bêbada de manhã.

—Ah. Você ouviu?

—Liam ouviu. Ele foi para o meu quarto assustado. Disse que ouviu meu nome.

—Você foi parte dela. Mas não toda. Não precisa se preocupar... Eu fico triste de saber que não pude te ajudar durante todo esse tempo, eu nem desconfiei...

—Eu estava com raiva. Não sei dizer exatamente sobre o que. Achei que era com vocês, mas já não é uma certeza. Talvez fosse no começo, mas depois eu perdi o controle.

Assistimos um pouco do programa antes de ela voltar a falar.

—Joan, Alex não é minha filha favorita. Você pode não acreditar, mas eu amo vocês três igualmente.

—É difícil acreditar quando eu via seu encantamento com a Alex desenhando. Eu não conseguia gostar de nada daquilo, você passava horas com ela, levava nas aulas de desenho. Depois até virou sua professora.

—Você queria gostar de algo que não gostava. Desde bebê eu te colocava perto de mim, com as tintas e os pincéis, mas você preferia fazer outra coisa. Então eu não insisti. Alex foi o contrário, eu não precisei chamar, ela veio por conta. E ela gostava.

—Eu me esforcei para que você me notasse, me esforcei demais para ter algum talento para você elogiar para a família.

— Eu vejo tanta perfeição nas suas fotos... Achei que fosse um dom. Não pensei que fizesse para me impressionar. Jamais fiquei decepcionada com você por você não gostar das mesmas coisas que eu. Eu ficava decepcionada de ver você se esforçar tanto por algo que você não tinha interesse. Eu não queria fazer igual meus pais fizeram, me obrigaram a entrar para a faculdade e a fazer algo que eu não queria. Eu queria que você fizesse o que gostava. Me desculpe se eu não fui clara na minha mensagem. A última coisa que eu queria era fazer você sofrer. Eu prometo que agora vou tentar fazer diferente. Para você e para seu irmão.

O programa havia acabado, então começou o programa de vestidos de noiva.

—Eu acho que nunca vi as fotos do casamento de vocês.

—Por que não existem.

—Como não?

—Casamos apenas no civil. Eu já tinha 4 meses de gestação. Foi meio de improviso. Mas deve haver alguma foto da gente assinando os papeis.

—Achei que vocês tivessem casado bem cedo.

—Se você considerar casamento como estar junto sim. Estou com Carl desde meus 18 anos. Morando junto desde os 20. Sabe por que, não é?

—Ele me contou essa história.

—Então sabe o porquê seus avós não gostam do seu pai.

—Ele mandava mensagens para eles.

—Não. Isso é só um dos motivos. Carl me libertou deles. Eu sempre tive que fazer exatamente o que eles queriam, quando começaram as inscrições da faculdade escolhi as distantes. Nem acreditei quando eles aceitaram que eu viesse para tão longe. Meu grito de independência começou aí. Quando eu bati o pé que não voltaria para o curso que havíamos combinado, eles ficaram loucos. Eu imagino que eles tenham quase desmaiado quando descobriram que eu não voltaria para casa porque estava morando com meu namorado.

—Vocês ficaram sem se falar por quanto tempo?

—Uns seis anos.

—Tudo isso?

—Primeiro eu procurei por eles e eles me ignoraram. Carl começou a mandar mensagens para eles. Depois eles vieram atrás de mim e eu os mandei para aquele lugar. Eles se fizeram desnecessários. Me virei bem sem eles. Com a ajuda do Carl e dos pais dele é claro.

—Deve ter sido difícil.

—Foi, mas nesse tempo eu aprendi a pensar com minha própria cabeça. Eu estava tão acostumada a receber ordens que quando me livrei disso fiquei desorientada. Depois que superei essa fase, tudo ficou muito fácil. Só voltei a falar direito com eles quando você nasceu. Acho que por falta de opção, eles queriam netos e eu era a única forma deles conseguirem isso.

—Eu não quero que isso aconteça com a gente.

—Se depender de mim não vai.

—Eu te amo mãe.

Ela me olhou com uma expressão estranha.

—Que foi?

—Você não me fala isso desde os seus 11 anos. Eu também te amo Joan. Muito mais do que você pode imaginar.- E beijou minha bochecha.