Sobre cores e horas
16 Capítulo 16
Carl:
Cheguei cedo em casa. Fiquei esperando inutilmente a recepção de Liam que ia me encontrar antes mesmo que eu saísse do carro. Ele não estava aqui. Assim que pus os pés dentro de casa ouvi a briga de Ellen e Joan. Meu primeiro instinto seria ir direto para a sala, mas lembrei da promessa de ser mais presente. Entrei na cozinha.
—Por que a briga?
—Ela não comeu o dia inteiro. -Ellen disse apontando para Joan sentada na mesa.
—Eu estou enjoada, como você não consegue entender uma coisa tão simples?
—Esta enjoada de fome, você precisa comer para não vomitar os remédios.
—Você passava vários dias sem comer e eu não brigava com você.
—Eu não entrei em coma alcoólico! Eu não estou em tratamento de nada! Você sim! E eu comi hoje sim, acha que eu fico cozinhando à toa?
—Joan se esforce e tente comer alguma coisa, tá bem?
—Não pai, eu não consigo!
—Você acha que seria mais tranquilo se você fizesse esse tipo de coisa na clínica?
—Me internem logo então e joguem a chave fora. Problema resolvido.
—Eu não tenho mais paciência para tanto drama, eu estou ficando velha! – Disse Ellen ao sair da cozinha.
—Senta Joan. – Falei cruzando os braços.
—Ah não pai, outro sermão não.
—Não tem sermão. Vou sentar aqui com você até você jantar.
—Ou o que? Vai me impedir de sair? De pegar o carro? Eu já estou de castigo...
—Se você não começar a comer em 10 segundos eu vou te levar agora para a clínica e eu não estou brincando. Você está aqui para se tratar, não bancar a criancinha. Está todo mundo sob estresse, não piore as coisas! Por sua causa Liam está longe de casa. E nem ele, eu ou sua mãe estamos felizes com isso. Tiramos ele de casa para que você pudesse vir, entende o que aconteceu? Seu irmão, uma criança, entendeu que precisava sair da casa dele porque você estava doente. Ele tem só nove anos e é mil vezes mais maduro que a irmã mais velha. Pare de ser egoísta por 5 segundos, passe a agir como adulta e comece a se ajudar e ajudar a sua família!
Então ela começou a comer. Fiquei sentado de frente para ela mexendo no celular e ocasionalmente olhando se ela realmente comia ou apenas enrolava. Ela tinha esse costume quando criança.
—Pronto. Posso sair?
—Vai.
Quando ela deu as costas adverti.
—Joan?
—Que?
—É a última vez que isso acontece entendeu? Ou você anda na linha...
—Entendi. Entendi.
Levantei e fui para a sala. Liguei no noticiário e tentei não pensar em nada, mas era muito difícil. Haviam tantas notícias de garotas mortas, atropeladas, esfaqueadas, que era uma tarefa quase impossível não pensar que ela poderia ter tido um fim desses. Ainda mais na semana passada em que Liam ouviu a notícia de que um garoto chamado Alexander havia sido morto durante o assalto.
—É o nome da Alex! – Ele falou assustado.
—Não Liam, ela é Alexandra. Quem morreu foi um menino.
E então começou um longo questionário sobre morte, o que é a morte, velórios e para onde vamos quando morremos. Felizmente ele não conhecia ninguém que tivesse morrido então era natural o interrogatório, mas isso aflorava o pensamento mais cruel em relação a minha filha: que era bem possível que ela estivesse morta a uma hora dessas, e se isso fosse verdade, haviam duas alternativas, ou corpo logo seria encontrado ou ficaríamos em um limbo de ausência de respostas. E eu ansiava por respostas, ansiava tanto que várias vezes me pegava imaginando no alívio que seria pôr um fim nessa história, seguido da sensação de soco no estômago, que me deixava quase sem ar seguido pela culpa de sentir alivio. Queria que tudo acabasse, mesmo que isso acabasse comigo. Por fim sentia nojo de mim mesmo por pensar em coisas tão mórbidas. Naquela mesma noite acordei ouvindo gritos. Ellen também acordou.
—Você ouviu?
—Sim, eu acho que é Liam.
Levantei.
—Não precisa. Deixa que eu vou. – Ela disse. Por fim, fomos os dois.
Estava com os lençóis revirados e com os cabelos molhados. O peguei no colo enquanto ele ainda se contorcia e gritava, mas à medida que o envolvia nos braços ele ia se acalmando. Ellen ligou o abajur.
—Ele está muito quente. – Eu disse.
—Vou pegar o termômetro.
—Alex. – Ele murmurou ao acordar. — Eu vi ela. Ela estava deitada e não se mexia, eu pedi pra ela falar comigo, mas ela não quis. – E começou a chorar.
—Foi só um sonho ruim. -Passei a mão em seu rosto macio e amassado, sentindo um enorme aperto no coração. Sentei com ele na cama.
—Por que ela não gosta mais de mim?
—Não pense assim. – Ellen tentou acalma-lo enquanto encaixava o termômetro em baixo de seu braço.
—Por que ela não me respondia?
—Eu não sei. – Respondi.
Então seu rosto foi tomado por um insight.
—Ela estava morta... Como o menino da TV...
Vi Ellen, que estava abaixada de frente a ele, perder o equilíbrio e ficar pálida. Segurei seu braço com a mão livre.
—É só um sonho... -Falei olhando para ela. Com a outra mão mexia nos cabelos dele, ensopados de suor.
Depois de trocar de pijama, o colocamos no meio da nossa cama. Eu sentei na poltrona e fiquei olhando para ele. Liam estava começando a entender o que estava acontecendo, isso era tão triste. Ele é tão pequeno. Ellen começou a cantar uma canção de ninar, mas estava visivelmente consternada com a descrição do sonho. Me senti emotivo e nostálgico. Quando Joan ou Alex eram pequenas e tinham pesadelos, as colocávamos para dormir no meio de nós. Ellen cantava para elas.
Fui inundado por uma saudade profunda dele. Pensei em ligar, mas essa hora ele já estava dormindo. Quero-o de volta em casa. Pensei no quão terrível vai ser quando nos separarmos, sem poder vê-los todos os dias. Amargurei ao pensar nas oportunidades desperdiçadas. Parei de divagar ao ver Ellen passar por mim na sala.
—Consegui fazer ela comer.
—Ah que alívio... Eu não sei qual o problema dessa menina. Nós tivemos uma conversa esses dias e eu acreditei que ela iria colaborar mais...
—Aonde você vai?
Ela mudou o semblante. Ficou mais fechada.
—Sair.
—Espairecer?
—A ONG...
—Está certo então...
—Carl?
—Sim? – Eu esperei por qualquer palavra que desse brecha para conversarmos sobre nós.
—Daqui uma hora você tem que dar o remédio dela. Está no armário do banheiro, você tem a chave, não é?
—Sim...
Quando deu o horário fui procura-la, comecei a suar frio por que não a encontrava em lugar nenhum e comecei a chama-la já com a certeza de que ela tinha fugido sob a minha responsabilidade. Quando voltei da garagem após verificar que meu carro continuava lá senti um cheiro de cigarro vindo do estúdio de Ellen. Estranhei. Segui o cheiro até encontrar Joan sentada encolhida no degrau que dava ao jardim com um cigarro na mão. Havia um maço pela metade ao seu lado.
—O que está fazendo aqui fora nesse frio?
Ela tomou um susto.
—Achei que não tinha ninguém em casa.
—Achou mesmo que te deixaríamos sozinha? Me passe o maço.
—Sério mesmo?
—Anda logo!
Ela me entregou contrariada. Tirei um cigarro e o pus na boca. Sentei ao seu lado.
—Acenda.
Muito surpresa ela sacou o isqueiro e acendeu.
—Eu achei que vocês odiassem o cigarro.
—Odiamos a ideia de vocês morrerem de câncer. -Dei uma tragada longa. -Então nós dois paramos de fumar quando a Ellen engravidou de você. Seus irmãos só pegaram carona na ideia.
—Quem diria...
—Toma. – Devolvi o maço e coloquei na sua mão os comprimidos que ela deveria tomar. Joan os engoliu sem tirar os olhos de mim, ainda impressionada.
—Você acha que já nascemos velhos, mas a gente só ficou assim por que íamos ser pais. A hipocrisia a gente esconde para tentar ser um bom exemplo.
—Não sei se gosto da ideia de fumar com você.
—Eu passei 20 anos tentando te passar bons exemplos, dizendo que beber em excesso era ruim, e dirigir embriagada era uma coisa muito perigosa. Paguei por uma faculdade que você abandonou. Você não seguiu nenhuma das minhas recomendações e não sentiu vergonha disso. Por que fumar com seu pai seria um problema?
Ela ficou em silêncio e desviou o olhar.
—Você não faz ideia de como é bom ter você em casa bem. Quando você estava desacordada um filme passava pela minha cabeça. Desde a primeira vez que eu te segurei, até hoje. Eu não sei o que eu faria se você tivesse morrido. Seja sincera, o que estava penando quando fez aquilo?
—Eu fui idiota.
—Todo mundo faz besteira com 20 anos. Você foi um pouco além. Estava tentando se matar ou coisa assim?
—Não! Não... Eu só... Eu sei lá pai, beber era a única coisa que me acalmava, já haviam tantas coisas antes e quando a Alex sumiu... Ela sempre me ajudava, me dava forças, sem ela eu fiquei sem rumo, mais do que o normal...
—Acho que todo mundo ficou assim... Você disse para sua mãe que bebia para aguentar nossas brigas. Desculpe por isso, de coração.
—Voces mudaram tanto naquela época... Eu mal os reconhecia.
—Era muito pressão Joan. Se eu não pagasse as dívidas com o banco, eles tomariam a casa. E eu quase fui demitido. E tudo isso sabendo que haviam 4 pessoas que precisam de mim.
—E depois que as coisas melhoraram? Qual a desculpa?
Olhei pra ela.
—Não há desculpa.- Peguei outro cigarro. Percebi que minhas mãos tremiam de frio. —E você Joan? Qual a sua desculpa?
—Minha?
—Tudo bem, eu e Ellen erramos, mas e ai? Foi a nossa filha que sumiu e desde que você voltou da faculdade fez questão de brigar, jogar na cara e nos culpar pelos seus problemas, sério que você achou que não é dolorido pra nós? Que só você sente?
—Acho que você tem razão pai.
—Não é melhor admitir que todos erramos ao invés de tentarmos achar culpados? O que vamos ganhar com isso? Eu não aguento mais ouvir suas brigas com a Ellen.
—Eu estou cansada de brigar.
—Então pare de brigar porra! Tenta entender sua mãe, me entender. Nós estamos nos esforçando pra entender você. Você precisa mudar. Desculpe a vida é assim.
Lágrimas escorriam enquanto ela soltava a fumaça. Percebi que seus lábios também tremiam.
—Eu vou ser melhor. Por Liam.
—Seja melhor por você. Agora vamos entrar. Não aguento mais o frio. – A puxei para mais perto e a apertei muito forte.
—Vai contar pra mãe? -Ela apontou para o maço de cigarro.
—Não. É nosso segredo.
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