Sobre a Armadura
5 O Que Não se Diz
Havia coisas que não se diziam porque não existiam palavras suficientes. Outras, porque existiam palavras a mais.
Com o passar dos dias, a comitiva reduziu-se. Alguns homens regressaram ao castelo, outros tomaram caminhos diferentes, até restarem apenas os necessários. A estrada tornou-se mais estreita, mais silenciosa. E, nesse silêncio prolongado, algo começou a mudar entre eles não de forma visível, mas como uma pressão constante, quase imperceptível.
Falavam mais agora. Ainda pouco, mas o suficiente para quebrar a distância protocolar. Perguntas simples, respostas curtas. Comentários sobre o tempo, sobre o terreno, sobre coisas que não importavam. Tudo para evitar o que realmente pesava.
Ele reparava nos gestos pequenos: a forma como ela segurava o manto quando estava nervosa, o modo como evitava espelhos polidos, como se o próprio reflexo lhe fosse um inimigo antigo. Reparava também em si no impulso de se aproximar sempre que ela se retraía, no cuidado excessivo com que lhe falava, como se a voz pudesse ferir.
Uma tarde, enquanto descansavam junto a um rio, ela aproximou-se mais do que o habitual. Sentou-se numa pedra próxima, o suficiente para que ele sentisse a presença dela sem precisar de olhar.
— Já pensaste em ir embora? — perguntou, de repente.
A pergunta apanhou-o desprevenido.
— Não — respondeu, após um instante.
Era a verdade mais simples que tinha.
— Nem sequer antes do juramento? — insistiu ela.
Ele pousou a mão no punho da espada, gesto inconsciente.
— Antes dos juramentos… — começou, mas calou-se. Não era um tempo que pudesse ser explicado sem quebrar algo.
Ela assentiu, como se compreendesse o que ele não disse.
— Às vezes penso como teria sido se tivesse tido escolha — confessou. — Se pudesse ter sido apenas alguém.
Ele virou-se então para ela.
— És alguém — disse, sem elevar a voz. — Sempre foi.
Ela sorriu, mas havia tristeza nesse gesto.
— Não da forma que importa.
O silêncio instalou-se entre ambos, mas não era vazio. Era denso, carregado de tudo o que não ousavam nomear. Ele sentiu o impulso de lhe dizer que a via, que a marca não a diminuía, que o mundo estava errado. Mas sabia que essas palavras, ditas em voz alta, exigiriam respostas que nenhum dos dois podia dar.
Ao cair da noite, ele ajudou-a a atravessar um trecho mais íngreme da margem. Tocou-lhe no braço para a apoiar, firme, respeitoso. Ela não se afastou de imediato. Ficou ali por um segundo a mais do que o necessário.
Não se olharam. Mas ambos sentiram.
Mais tarde, ao preparar a vigia, ele deu-se conta de que o que não se dizia começava a pesar mais do que qualquer declaração. Porque o silêncio, quando prolongado, deixa de ser protecção e transforma-se em confissão.
Ele amava-a. Não como um acto. Como um estado permanente. E ela, talvez, começasse a perceber.
Mas havia limites que não podiam ser ultrapassados sem consequências irreversíveis. Dizer seria destruir. Calar era suportar.
Nessa noite, sob o céu aberto, ele aceitou que algumas histórias vivem inteiras no espaço entre as palavras.
E que amar, naquele caso, significava escolher todos os dias o que não se diz.
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