Sobre a Armadura

6 Sob o Mesmo Tecto


A notícia chegou ao entardecer. Um mensageiro do reino, coberto de pó, trazendo palavras seladas que não precisavam de ser abertas para se tornarem pesadas. A guerra aproximava-se.

As negociações tinham falhado. A princesa deveria ser devolvida ao pai não como filha, mas como garantia.

O rei leu a ordem com atenção absoluta. Não porque precisasse, mas porque o hábito do dever exige precisão até quando o coração já sabe a resposta.

Quando lha comunicou, fê-lo com a mesma voz neutra que usava para dar ordens aos homens.

Ela ouviu em silêncio.

Não chorou. Não protestou. Limitou-se a assentir, como quem recebe algo que já esperava há demasiado tempo.

— Então é assim — disse, por fim. Não era uma pergunta.

— É — respondeu ele.

Nesse momento, algo nela afastou-se. Não do caminho, nem da comitiva, nem do dever afastou-se de si própria. Ele percebeu-o na forma como o olhar dela perdeu foco, como se estivesse a observar o mundo através de um vidro espesso.

O castelo nunca lhe parecera tão grande.

Não pelas salas amplas ou pelos corredores intermináveis, mas pelo silêncio que agora se instalara entre as suas paredes. Um silêncio diferente, pesado, feito de decisões adiadas, de palavras que não se diziam e de um rei que evitava olhar a própria filha.

A princesa foi levada para a ala mais antiga do castelo, afastada das câmaras principais e dos salões onde se reuniam conselheiros e generais. Era um espaço discreto, quase esquecido, usado apenas em tempos de doença ou recolhimento. As janelas eram altas e estreitas, deixando entrar uma luz fria, filtrada, como se o mundo exterior fosse algo distante.

— Aqui estarás mais segura — dissera o cavaleiro, quando a acompanhara até à porta. — O castelo está em alvoroço. Há demasiados olhos, demasiadas vozes.

Ela assentira, sem discutir. Sabia que o pai não a queria por perto. Não agora. Não quando precisava mostrar força, quando precisava preparar a guerra e convencer o reino de que nada o abalava.

Ser filha tornara-se um incómodo.

O cavaleiro permaneceu à porta, mesmo depois de os criados se retirarem. Não entrou de imediato. Limitou-se a ficar ali, como sempre fizera, como se a sua presença fosse um voto silencioso de proteção.


— Não precisas de ficar — disse ela, quebrando o silêncio.

— Preciso — respondeu ele simplesmente.

Ela olhou-o. A armadura estava marcada, não por combate recente, mas pelo cansaço acumulado. Os ombros carregavam mais do que metal. Carregavam lealdade, preocupação, coisas que ele raramente nomeava.

— O meu pai… — começou ela, mas a frase morreu antes de ganhar forma.

O cavaleiro compreendeu sem que fosse preciso dizer mais.

— Ele está a preparar-se para a guerra — disse. — E quando os homens se preparam para a guerra, tudo o resto torna-se secundário.

— Até os próprios filhos?

Ele não respondeu de imediato. Aproximou-se apenas o suficiente para que a voz não precisasse de subir.

— Especialmente os próprios filhos.

Ela desviou o olhar para a janela. Lá fora, o pátio fervilhava de movimento: armas a serem transportadas, mensageiros a correr, soldados a treinar. O mundo seguia em frente, indiferente à ferida silenciosa que se abria dentro dela.

— Não pertenço a nenhum desses planos — murmurou. — Nem aos dele, nem aos do reino.

— Pertences a ti — respondeu o cavaleiro. — E isso é suficiente.

Ela sorriu de forma breve, quase triste.

— Sempre dizes isso como se acreditasses mesmo.

— Porque acredito.

O silêncio voltou a instalar-se, mas desta vez não era vazio. Era denso, carregado de coisas não ditas, de uma proximidade que se tornava cada vez mais difícil de ignorar.

Ele acabou por entrar, ficando junto à parede oposta, mantendo uma distância respeitosa. Não porque não quisesse aproximar-se, mas porque sabia que cada passo a mais poderia ser um passo sem retorno.

— Ficarei de guarda esta noite — disse. — E nas próximas, se for preciso.

Ela assentiu.

— Obrigada… por não me deixares sozinha.

O cavaleiro baixou ligeiramente a cabeça.

— Nunca deixei.

E, enquanto o castelo se preparava para a guerra e o rei se afastava emocionalmente da filha, naquele espaço esquecido, duas pessoas permaneciam sob o mesmo tecto não como princesa e cavaleiro apenas, mas como duas almas a tentar sobreviver à distância, ao silêncio e ao que estava por vir.

O pior ainda não tinha começado.