A força da correnteza não foi suficiente para lavar os pensamentos que invadiam minha mente e manchavam meu coração com ódio. As mentiras e manipulação de meu irmão consumiam nossas almas e era difícil não se render a raiva que crescia entre nós. Como se num banho espiritual, eu permanecia embaixo d’água para purificar tais pensamentos, embora ouvisse Jonas me chamar com todo o ar de seus pulmões, me fazendo emergir em seu socorro.

Jonas estava segurando parte da mata selvagem às margens do rio e eu precisava alcança-lo antes de Kraus, que vinha do outro lado, nadando contra a correnteza.

Em alguns minutos, estávamos todos em terra firme. Por mais aliviado que eu estivesse por sairmos das águas turvas e traiçoeiras, algo ainda mais traiçoeiro me aguardava a alguns metros de distância.

Kraus nos atacava com o que podia, e era inútil tentar dirigir-lhe a palavra. Entrando em uma gruta que resistiu aos séculos sob nossos pés, nossa luta continuava, enquanto ele esbravejava em plena intenção de matar a ambos seus irmãos. Jonas estava apavorado, pois percebera que eu havia sido ferido, talvez por Messi, algum outro da Horda ou mesmo por Kraus, não importava. Estava ficando cada vez mais difícil contra atacar ou repelir as investidas de meu irmão.

Tentando proteger Jonas, consegui coloca-lo em uma brecha acima de nossas cabeças e disse a ele, antes de fechar a entrada com uma grande rocha: “Jonas, escute-me. Eu não sei o que vai acontecer aqui hoje. Mas se eu não sobreviver, preciso que corra o máximo que puder para o mais longe que puder de nossa tribo e das vistas de Kraus, principalmente. Você sempre quis conhecer o mundo, finalmente acho que terá esta oportunidade!”. Ele tentou discutir, mas percebeu que não havia tempo nem motivo. Minha esperança era que de um jeito ou de outro, nossos destinos fossem diferentes do que a realidade esfregava friamente em minha cara naquele exato momento.

Virando-me para Kraus, pude desviar-me a tempo de um golpe fatal: “Você deve morrer”- ele disse. — E essas palavras é que eram mais mortais que seus ataques.

Eu sentia que meu irmão estava completamente cego ou enfeitiçado pelo poder. Não sabendo como convencê-lo de que este não era o Caminho, só restava continuar me defendendo e torcer para vencê-lo de cansaço... O que era, obviamente, um desejo infundado e ilusório. Ele havia evoluído muito nas artes do combate e sua juventude começava a se sobrepor diante de minha experiência.

Porém, nada havia nos preparado para o que viria a seguir...

Os sons da batalha ecoavam dentro da gruta e sem que percebêssemos, vibravam as paredes rochosas de onde escorriam gotículas rastejantes até nossos pés. Era certo que aquilo iria desabar sobre nossos corpos e inundaria com uma grande pressão. Seria uma explosão de água, pedras e pesares.

“Vamos sair daqui Kraus e salvar nossas vidas” – Eu gritei.

“Não! Nada irá me impedir de tirar sua vida, nem que isso signifique perder a minha própria” – Retrucou Kraus com a voz de um leão endiabrado.

Neste momento, o teto veio a desabar e em reflexo eu pulei para proteger Kraus, agarrando-o e atirando-o para longe das rochas que caiam sobre nós.

“Nããããããããão”- foi o que Jonas ouvira por detrás de seu esconderijo, deduzindo o que havia acontecido e partindo em sua rota de fuga após alguns instantes de espera, sem que ninguém viesse confortá-lo. Seu protetor estava morto e ele precisava fugir.

–--

Em algum lugar, um homem é acordado de suas lembranças, de quando era um menino e nada podia fazer para proteger seu irmão e mentor de ser esmagado por uma montanha. As imagens que nunca chegou a ver de fato, violentavam-no da mesma forma se acaso as tivesse visto.

Ele percebeu a presença de um monge e este veio lhe notificar sobre uma visita. O que era extremamente estranho, no mínimo, para não dizer suspeito, uma vez que ninguém sabia que ele estava ali ou sequer que estivesse em qualquer outro lugar da Terra, vivo.

Enquanto os visitantes se aproximavam, sua mente esvaziava e a visão de alguém que imaginou que nunca mais pudesse rever era revelada diante da ponte que se estendia a sua frente.

“Jonas!” – exclamou o visitante.

Jonas deu dois passos para trás e antes que pudesse cair, balbuciou desacreditado: “Kraus...”.

Por instantes, o ar ficou rarefeito e comprimia seus pulmões. O silêncio secava sua garganta enquanto sua mente fazia uma viagem veloz pelo tempo. Seu irmão percebendo isso, logo tratou de se adiantar: “Você deve ter muitas perguntas... Imaginando o que eu estou fazendo aqui, suponho?”.

Enquanto retomava o fôlego e meio que se lembrando das palavras, Jonas disse: “Sim... Digo, não! Imagino que esteja aqui para me matar!?”.

“Não. Eu vim buscá-lo para que possa retornar a nossa tribo e ocupar seu lugar de direito como Líder”.

Surpreso e desconfiado, Jonas deixou escapar um sorrido sarcástico em seus lábios: “Como é que é?! Da última vez que nos vimos você estava disposto a sacrificar tudo por este posto, inclusive a vida de nosso irmão e a minha. Acredito que muito provavelmente a sua própria também!”.

Kraus aproximou-se do irmão e, embora estivesse visivelmente debilitado pelos anos e pelo desmoronamento que havia sofrido anos atrás aleijando-o, ele estava claramente obstinado a explicar a seu irmão o que havia acontecido.

E é assim que voltamos alguns anos no tempo...

–----

Em algum lugar do passado, eu sou Kraus. Enquanto a poeira acenta numa cachoeira de lama, meu rosto vermelho de barro ressurge por detrás das imensas pedras que agora ferem minhas pernas paralisadas.

Procuro atentamente pelo corpo de Mitonos. Quando o avisto bem próximo a mim, imóvel e ferido, tento me mover para mais perto dele. Mas as pedras são muito grandes e percebo que ao fazer isso, cada vez mais pedras recaem sobre ele. Está claro que estamos em uma armadilha natural, uma balança traiçoeira e volúvel, onde um dos dois morreria no caso do outro sair de debaixo das pedras. Era o fim da linha. Estávamos em uma balança mas nada estava equilibrado.

Quando percebo que ele está recuperando seu juízo, indago-o à respeito de seu feito: “Mitonos, por que você fez isso? Era óbvio que eu estava tentando matá-lo! Eu traí sua confiança! Você poderia ter deixado as pedras me atingirem e acabar com isso”.

Com a voz trêmula expressando sua dor, Mitonos disse: “Meu irmão, você estava disposto a sacrificar até a sua própria vida tentando ocupar meu lugar de líder, o que para mim é impensável. Uma vez que eu não desejo ser líder tanto quanto não desejo que você perca sua vida”.

Engolindo essas palavras como lâminas afiadas de um assassino sanguinário que corta sua vítima, satisfeitas e vorazes elas entraram em meu coração e eu pude, finalmente, ver a verdade que estava encoberta pelo ódio e inveja, revelada numa ferida aberta e profunda. “Você devia ter deixado que as pedras caíssem sobre mim!”- eu desejei. “Quis tanto ser um líder que não fui capaz de perceber que ser líder também é reconhecer que o melhor para o povo nem sempre pode ser o melhor para mim. E você é o melhor para nossa tribo. Com você no comando nossa tribo progrediu, cresceu e ficou mais forte. Sem você não seremos nada... ”. Abaixei a cabeça.

Mitonos tomou minha mão e gentilmente ergueu minha cabeça para olhá-lo bem nos olhos e continuou: “Agora que você enxerga a verdade, pode ser um líder ainda melhor do que eu. É preciso um grande esforço para sair do ciclo do ódio como você o fez, e quem nunca o sentiu jamais poderá julgá-lo”. E dizendo isso, ele puxou para si as pedras, com uma força sobrenatural, num ato de compaixão e desespero para salvar minha vida e, possivelmente, minha alma.

Estava feito.

Eu estava livre das pedras mas não do peso delas. O corpo de Mitonos foi desaparecendo sem vida sob toda aquela Natureza que ia em direção ao rio.

Passou-se algum tempo até que...

–--

“Hei, espere aí!”- Uma voz interrompeu a narrativa. “Eu não quero mais ouvir! Não quero saber como meu irmão que era um verdadeiro líder e herói pôde ter feito esta escolha de salvar um verme como você e deixar que nossa tribo sucumbisse com o passar dos anos pela falta de sua orientação e liderança!” – Jonas esbravejava em ira.

Quando Kraus ia dizer alguma coisa, um dos monges colocou sua mão sobre seu ombro e tentou acalmá-lo: “Jonas, entenda que em sua Sabedoria, seu irmão Mitonos sabia que mesmo se pudesse vencer seu irmão Kraus, a tribo já não poderia ser a mesma. Uma árvore cortada ao meio, embora cresça novamente, terá em seu tronco uma marca profunda e enfraquecida. Um elo fácil de se romper. Ele precisava curar esta semente que foi plantada da inveja, ganância e raiva de uma vez. Sendo um exemplo de amor e sacrifício ele assim o fez”.

Kraus completou arrependido: “Ele viu que eu estava perdido, desejando o que eu achava ser mais poderoso e que não tinha... Mas eu tinha e ele provou, entregando sua vida pela minha para provar que eu jamais deveria sentir inveja ou rancor dele. Ele me salvou, de inúmeras maneiras possíveis”.

Jonas ainda deu alguns passos em revolta, balançando sua cabeça e corpo, pisando duro e forte no chão. Era nítido que se encontrava em um conflito interno, até que por fim olhou para o monge, dando-se por vencido.

Kraus então olhou para seu irmão com uma expressão indagativa, que olhou de volta para ele consentindo: “Tudo bem Kraus... Vamos voltar para Macalânea!”.

Fim da Parte 2

Notas finais
O capítulo 3 é surpreendente, não perca!