Em algum lugar do mundo, dois homens estão deitados sobre o que parece ser uma maca, dentro do que parece ser uma cabana.

Um deles aparenta ser um pouco mais velho do que o outro, mas são muito parecidos em traços.

Estão de bruços para cima e carregam em suas faces expressões cansadas porém relaxadas.

Nem mesmo quando adentra um terceiro homem na cabana eles se movem ou reagem de qualquer outra maneira. Mais homens vão entrando na cabana, com seus charutos na boca e balançando folhas de largas proporções.

Percebemos que o primeiro homem que entrou na cabana verbaliza algumas ordens e fica claro que ele está no comando quando os demais obedecem prontamente. Todos entonam um cântico em uníssono tom, até que as pessoas de fora da cabana pudessem ouví-los a metros de distância dali, porém nada avistassem. Apenas a fumaça dos charutos em torno da cabana, que era quase tão densa e branca quanto uma tempestade de areia no deserto, era visível a todos.

Do lado de dentro, não era muito diferente, e com muita dificuldade podia-se respirar. Talvez pela falta de oxigênio ou mesmo pela ingestão de alucinógenos, é que ambos os homens deitados entraram em um coma profundo de meditação. Tudo fazia parte do processo de cura, físico e espiritual para aqueles dois homens que buscavam há vários dias de viagem.

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Acordo em baixo de uma árvore, em um lugar que desconheço completamente. Embora eu já tenha percorrido o mundo, nunca estive aqui antes.

O clima é frio e uma neblina sinistra congela meus ossos, sinto que podem partir-se como gravetos ressecados pela frio.

Procuro abrigo e de longe avisto uma caverna. Corro para ela e antes que pudesse avançar poucos metros, sinto meu corpo caindo em uma escura e silenciosa descida, interrompida apenas por flashes de um passado pesado o qual tento freneticamente desvincular de minha mente, e pelo som oco de meu corpo colidindo com a superfície abaixo de mim.

A queda foi dura, fazendo um osso ou dois trincarem e mais uns pares se quebrarem. A dor foi suficiente para tirar qualquer pensamento que eu tivesse, me concentrando apenas nela, e por isso de certa forma eu estava aliviado.

Andava com dificuldade no escuro, tateando e procurando uma saída. Avistei uma luz crescente a frente e enquanto me aproximava dela, percebi que emanava do corpo de um homem. Não era um homem qualquer... Era Mitonos. Ele estava ali e era minha saída. Ele era minha Luz.

Quando fui tocá-lo, senti um puxão e fui arrastado para fora daquela escuridão até a superfície, tão veloz como da forma em que cheguei lá e dei por mim que estava novamente em baixo da árvore.

Procurei por Mitonos, mas ele havia sumido. Procurei a fissura do chão, mas ela também havia sumido. A única coisa que meus olhos podiam ver, além daquela árvore, era a caverna que eu havia visto antes. Novamente, fui em direção a ela.

Antes que pudesse chegar na caverna, fui atingido por uma flecha no dorso. Tentei me desviar de mais algumas, e com sucesso agarrei um punhado delas e atirei-as violentamente para o local de onde elas pareciam vir. Ouvi um grito e corri para lá. Se meu atacante estivesse vivo, eu teria de confrontá-lo e fazer algumas perguntas sobre o que estava acontecendo.

Quando me viu, levantou-se e me atacou com voracidade. Mesmo feridos, não poupamos esforços na batalha. Recebi em minhas costelas um ataque que tirou o ar de meus pulmões, reagi retribuindo-lhe com um poderoso gancho, que o levou inconsciente ao chão. Meu atacante agora não passava de um pedaço de carne estirada, sem respostas para me dar.

Ouvi sons de uma outra batalha, com espadas, próximas dali.

Tilintando e reluzentes à luz, espadas faiscavam enquanto se tocavam. Eu não conseguia ver os combatentes, pois a claridade cegava minha vista ao olhar para eles.

Me aproximando, me dei conta que estava em uma situação que me parecia muito familiar. A verdade é que era familiar demais quando se trata de dois irmãos lutanto... Um pesadelo que não tinha fim e eu não conseguia acordar.

Eu queria acabar aquela luta e corri para impedi-los. Mas quando dei por mim, estava de volta debaixo daquela árvore. Daquela maldita árvore.

Parte por estar cansado, parte por estar aliviado e parte por estar frustrado, é que resolvi relaxar ali e comer uma das frutas que teimavam em cair sobre minha cabeça: “Ora sua...” – eu disse sem completar minha frase de indignação, quando fui surpreendido por um homem que surgia em minha frente alisando o topo de sua cabeça, segurando uma fruta e xingando a mesma árvore.

“Você!” – ele disse deixando cair o fruto.

Reconheci meu irmão Kraus e por instantes fiquei feliz por revê-lo, mas logo me lembrei de Mitonos naquela caverna e uma escuridão invadiu meu ser, retirando qualquer vestígio de um esboço de sorriso que pudesse ter ousado aparecer.

Reparei que sua reação foi a mesma. Reparei também que ele estava com hematomas, arranhões e escoriações sobre o corpo. Um ou dois ossos quebrados e andava levemente inclinado tentando aliviar uma dor que sentia nitidamente por uma flecha espetada em seu dorso, assim como eu devia estar a sua vista.

Olhando um para o outro em espanto, o silêncio preencheu o momento, até que um de nós foi capaz de dizer: “Mitonos... Eu sinto falta dele”. E o outro respondeu: “Eu também. Assim como a sua”.

Foi quando compreendi que o que feriu a mim, também feriu a ele. Nossas feridas eram as mesmas...

Nos abraçamos e quando abri os olhos, estava rodeado de homens gordos que fumavam seus charutos e me batiam com grandes folhas daquela árvore. Daquela bendita árvore.

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Em algum lugar do mundo, dois homens estão deitados sobre o que parece ser uma maca, dentro do que parece ser uma cabana.

Um deles se levanta primeiro e olha para o homem que permanece sentado na maca ao lado. Eles se olham e sorriem alegremente, quando todos ali dentro gargalham em alto e bom tom.

Um bando de aves levanta voo e partem irritadas por detrás da cabana.

“Kraus, você consegue mover as pernas?”, disse Janos preocupado.

“Eu... Eu... Acho que sim!”. Dizendo isso, Kraus pousou os pés no solo e manteve-se ereto, ainda gargalhando.

Alguns dias se passaram até que Kraus estivesse totalmente recuperado de forma milagrosa, da paralisia de suas pernas. Janos não entendia como os rituais de cura xamânicos eram tão assombrosamente místicos, mas também não questiona sua efetividade. Seu irmão estava andando e eles podiam seguir viagem. E estavam longe de alcançar seus destinos.

Kraus sabia que a conversa que teria com Janos à respeito de Macalânea teria de acontecer em breve e ele teria de explicar para seu irmão que a tribo a qual se lembrava não estava exatamente como em suas memórias. Apesar de seus esforços contra a invasão, a Horda fincou a base de seus machados em solo Macadâneo e ele teve de partir, observando por anos a crescente sede por sangue e poder levada pela Horda, transformando uma pacífica tribo em uma conquistadora de nações vizinhas, através do medo e violência. Invadiam aldeias próximas e surrupiavam-lhes suprimentos, com a desculpa de que o povo necessitava, mas o povo era quem menos era beneficiado. Pelo contrário, os Macalâneos estavam cada vez mais na miséria e a mercer da Horda.

Os líderes agora eram dois, sendo um nascido em Macalânea e o outro, na Horda, para que as comunidades de ambas as tribos pudessem ter seus representantes. Contudo, sem um líder de sangue puro Macalâneo, a Horda detinha maior controle sobre as decisões e pessoas, devido sua natureza ameaçadora.

Como esperado, Janos não entendia como sua tribo pôde se transformar em um povo contrário aos ideais que tanto lutaram em preservar. Ele e Kraus sabiam que os bravos e leais guerreiros do passado de sua história, ainda adormeciam dentro de cada Macalâneo. Era preciso que fossem despertos e, para isso, eles tinham um plano.

Os dois planejavam substituir os líderes atuais por novos líderes, que quisessem a prosperidade e felicidade do povo além da sua própria, escolhidos de forma justa pelo povo e que demonstrassem as qualidades de um verdadeiro líder.

Embora Kraus insistisse que Janos devesse tomar seu lugar de direito na liderança, Janos achava que uma liderança nunca devesse ficar apenas nas mãos de uma pessoa, e que ele já havia ficado tempo demais longe de sua terra natal para ter direito a alguma coisa sobre ela. Sua prioridade não era manter-se no poder, mas ele pretendia liderar seu povo na conquista de seus direitos e ideais.

Janos fez Kraus prometer que sua identidade não seria revelada, para que não influenciasse a decisão da tribo diante da escolha de um novo líder, se acaso eles conseguissem recuperar a honra do povo Macalâneo, expulsando a Horda de suas terras.

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Foi surgindo um certa colina na paisagem e eu senti meu coração pulsar mais rápido, a ponto de sentir minha jugular saltar cada vez mais forte, como se eu fosse virar do avesso, começando pela boca.

Da última vez que passei por aquela colina ela ficava cada vez mais longe de meus calcanhares, enquanto eu corria desesperado, temendo pela minha vida.

Tudo parecia como antes, mas de uma forma completamente diferente.

Na entrada da aldeia, alguns guerreiros faziam a guarda, mas deixaram-nos passar sem questionar o suposto convidado de Kraus, eu. Embora seu passado tivesse tirado seu direito ao comando, sua liderença nata ainda lhe rendia muito respeito e consideração, conforme suas ações o redimiam ao longo dos anos.

Ele já havia mandado sua águia na frente com bilhetes encriptados para que uma reunião secreta fosse organizada com os principais articuladores Macalâneos, a fim de discutirmos uma estratégia para reaver toda a glória de nosso povo.

Em uma discussão calorosa, todos queriam ser ouvidos, mas ninguém chegava em lugar algum.

"Precisamos mostrar ao povo, tanto da Horda como Macalâneos, que seus atuais líderes não são dignos de seus postos. Mostraremos isso a eles e os mesmos decidirão seus destinos" — eu ergui a voz para me fazer perceber.

"Quem é você?!" — questionou alguns homens.

"Eu sou um amigo de Kraus, e sei do que a Horda é capaz de fazer com os povos que eles conquistam e que por hora chamam de amigos" — Expliquei.

Uma mulher mais velha, de corpo forte e feições firmes, aproximou-se e olhando em meus olhos ela disse: "Você não nos conhece e vem aqui nos dizer o que fazer? Só Kraus mesmo para trazer um jovem como você para esta reunião. Você nem deveria estar aqui em primeiro lugar!". E ao dizer isso, foi me empurrando para fora, até que Kraus entrou na minha frente e disse: "Irmãos, eu nunca lhes disse, mas este é meu filho que mantive em segredo até que pudesse ter a força e idade suficientes para lutar a nossa favor. Ele é um ótimo guerreiro e viajou o mundo para aprender sobre outras culturas, a fim de que pudesse compartilhar conosco segredos de guerra além de nossos inimigos! Livrem-se dele e estaremos perdidos!".

Todos olhavam com atenção e, embora desconfiados, mantinham um ar de esperança. Acho que se sua única chance de reaver a honra de voltarem a ser um povo próspero estava diante deles, não ousariam perdê-lo de vista. Kraus tinha muitas habilidades e uma delas certamente era falar como um líder ao seu povo. Mesmo não sendo verdade, eu estava disposto a me passar por seu filho para lutar por Macalânea.

Em pouco tempo, todos ouviam o que eu dizia e montamos nosso plano.

Apesar de muitas tradições Macalâneas terem perdido espaço para tradições da Horda, ainda restava uma a respeito dos Jogos de Guerra, que pudemos usar em nossa estratégia.

Segundo nossas tradições, um líder deve ser o campeão dos Jogos de Guerra, caso contrário, ele não poderá comprovar sua capacidade de liderança em relação a Inteligência, Destreza, Força, Arte da Guerra, Lealdade e Compaixão. Essas seis qualidades devem prevalecer no interior de um líder Macalâneo. Por isso, no passado, todos os descendentes da família real de guerreiros participaram dos jogos para provarem quem era digno de ser o novo líder, passando de geração a geração diante do falecimento do antecessor ou, se fosse outra família, até que um novo desafiante surgisse.

Como ninguém havia desafiado os líderes atuais, os Jogos eram apenas simbólicos e tanto fazia quem o ganhasse, uma vez que os líderes mantinham-se no comando.

Mas isso estava para mudar... Pois Lineus era filho legítimo de alguém, e este alguém era Mitonos, um líder guerreiro de puro sangue.

Lineus já era um jovem homem e embora não tivesse conhecido seu pai, todas as histórias que ouvia sobre ele influenciaram notoriamente seu caráter. Quanto a suas habilidades de combate, coube a Kraus ensinar-lhe todos os movimentos. Eu não me lembrava que Kraus tivesse tanta semelhança com Mitonos em sua maneira de ensinar e também de lutar, mas não era de se estranhar já que também foi Mitonos quem o ensinou.

Em uma apresentação sobre as novas conquistas obtidas em uma nova invasão, os líderes atuais, Técleos da Macalânea e Tijum da Horda, estavam se vangloriando. Então aproveitamos a deixa:

"Técleos e Tijum, vocês nem mesmo estavam nesta batalha, como podem se aproveitar desta festa e deste banquete?" — Eu enfatizei em tom sarcástico e debochado, tomando toda atenção do evento, exatamente como eu havia planejado.

"Quem ousa?!" — Questionou Tijum.

"Apareça covarde" — disse Técleos. "Mostre-se!"- continuou.

Eu subi em um tronco e escalei um ou dois galhos de uma árvore próxima, para que todos me vissem bem. "Covarde eu?! Vocês se vangloriam de uma batalha na qual nem ao menos tiveram coragem em colocar os pés! Quem é o covarde? — profanei.

Os olhos esbugalhados de ambos os líderes estavam inflados de raiva. Ordenaram para que um ou dois guerreiros de sua guarda dirigissem a meu encontro, quando por fim eu concluí: "Vocês não tem coragem nem mesmo para resolverem seus assuntos comigo aqui... Eu imagino também que não tenham participado dos Jogos de Guerra para ocuparem os tronos atuais?"

Com todos da tribo voltados para eles, os líderes se puseram de pé em uma encenação previsível e eu pude continuar com o plano: "Ora, então imagino que se já o venceram uma vez aceitam o Desafio dos Jogos de Guerra?!".

Todos estavam tão perplexos que seguravam o ar de seus pulmões, a fim de não perderem um fato sequer daquele acontecimento que presenciavam, como se há muito tempo tivessem perdido o espírito guerreiro e que alguma faísca estava começando a acender dentro de si. Era possível ver os olhos brilharem com a promessa de uma batalha pela liderança da aldeia e de que isso pudesse trazer mudanças, boas finalmente.

"Aceitaria se você tivesse sangue de um guerreiro Macalâneo legítimo e não fosse um completo desconhecido..." — Disse Tijum enquanto se sentava. Técleos, embora corrompido pela ganância outrora da Horda, sentia dentro de sua alma guerreira que não poderia escapar daquela tradição Macalânea e optou por ficar mudo.

"Ele não pode Tijum, mas eu posso!" — posicionou-se Liceus ao meu lado, austero e ereto, fazendo todos se lembrarem de seu pai, e recebendo também o mesmo apoio aos berros e batidas de armas umas contra as outras.

Estava decidido e os Jogos de Guerra iriam começar em alguns dias depois para aqueles três combatentes.

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Enquanto Lineus praticava, ouvia Kraus falar-lhe sobre os atos de coragem das pessoas comuns, da grandeza da simplicidade e dos valores que fazem da família o maior triunfo de um líder guerreiro. Família esta que sua tribo faz parte, bem como cada folha, pedra e bicho de nossa terra.

Me fazia lembrar de Mitonos e me dei conta de que Kraus e eu nunca chegamos a ser próximos em nossa juventude, parte por ele estar tão atarefado em seus deveres como eu por querer aprender somente com Mitonos, pois o julgava ser melhor mentor que Kraus. Talvez eu devesse fazer diferente com Lineus e decidi ensinar-lhe sobre o que aprendi em minhas viagens, para que ele tivesse o melhor de nós todos.

O primeiro passo foi ensinar como poderia se guiar pelas estrelas e posição do sol. O segundo como escolher e usar os ítens da Natureza para a cura e para o ataque. Partimos para o uso de diferentes armas de luta e até novos movimentos de batalha. Estávamos muito próximos, verdadeiros mentor e pupilo, e Kraus parecia feliz com nosso progresso, nos estudos e com nossa amizade. Talvez ele estivesse feliz pelo desejo de Mitonos de eu ser o mentor de seu filho estivesse se realizando. Kraus amava Lineus como um pai ama um filho e isso era nítido.

O dia dos Jogos de Guerra chegou e os combates tiveram início. Seria uma sequência de dois desafios, sendo eles:

O primeiro desafio era montar uma embarcação para que pudesse chegar de um ponto do rio ao outro, sem encostar nas afiadas armadilhas submersas e impedir que o oponente chegasse primeiro.

Ao contrário do que se esperava de uma embarcação de guerra, Lineus optou por uma pequena embarcação, bastante leve e baixa, como uma canoa. Isso permitia-lhe ficar no meio de duas embarcações caso ele assim o quisesse, sem ser esmagado por seus cascos, devido aos formatos dos barcos. Também facilitava sua manobra para fugir de ataques inimigos por ser muito mais leve e veloz. Por essas características, a embarcação de Lineus conseguiu persuadir os combatentes inimigos a se aproximarem o suficiente para colidirem entre si, provocando avarias nas embarcações e afundarem rapidamente devido ao seu peso.

O segundo desafio era um combate onde os participantes poderiam mostrar tudo o que sabiam na arte de guerrear, escolhendo suas armas e o estilo de luta. Nada era proibido, nem a morte.

Tijum era largo e forte. Escolheu machados com pontas de espinhos para o combate. Eles causavam sérios ferimentos e levavam qualquer oponente para uma morte violenta e dolorosa. Praticamente este era o novo instrumento de luta de toda a aldeia, inserido pela Horda, e Tijum sentia-se confortável com ele.

Técleos também era forte e bem mais alto que a maioria de todos os guerreiros. Por isso, era um pouco desajeitado. Evitava armas que exigissem muitos movimentos com os pés, então escolheu adagas.

Lineus tinha um corpo esguio, embora musculoso. Como todo bom guerreiro Macalâneo sua arma preferida era a espada, que tratou de empunha-la ao ataque de Tijum.

Os três começaram uma batalha fervorosa e violenta. A princípio Tijum e Técleos atacavam Lineus juntos, mas eram surpreendidos em todo golpe que dirigiam a ele. Os anos de prática com Kraus renderam a Lineus grande habilidade e com facilidade ele conduzia a luta, deixando seus dois rivais lavados em sangue, vergonha e suor.

Tijum percebeu que seria muito difícil ganhar de Liceus e, no intuito de não perder totalmente seu trono, começou a atacar Técleos, uma vez que se Liceus ganhasse a luta, apenas mais um poderia governar a seu lado.

Técleos defendia-se como podia, e seu rosto guardava um medo infinito ao ver que sua morte se aproximava. Talvez ele não temesse tanto a morte assim, mas o julgamento dos Deuses certamente que sim! Ele ofegava e olhava ao redor em desespero, como se alguém pudesse salvá-lo daquele momento de desonra. Talvez por isso que Liceus tenha lhe poupado a vida diversas vezes em combate, focando seus esforços em Tijum.

Estavam lutando por horas, até que Técleos não conseguisse mais manter-se em pé e desabou aos pés de seus oponentes, entregando suas armas em sinal de desistência. Lineus foi ajudá-lo, mas Tijum infligiu-lhe um golpe em sua coluna que todos ouviram o estalar de suas vértebras. O grito de agonia e dor de Técleos amoleceu até o coração dos mais bravos guerreiros.

Lineus segurou mais um dos ataques de Tijum contra Técleos, uma vez que ele estava desarmado e não fazia mais parte da luta.

“Ele está fora do combate, você não tem de lutar com ele. Apenas comigo Tijum!” – disse Lineus.

“Isso não é um problema para mim Lineus. Assim como seu pai morreu pelas mãos da Horda, você também irá sucumbir!”- Tijum respondeu confiante, enquanto partia para o ataque. Seus movimentos eram firmes e bem direcionados, mas não venciam a agilidade de Lineus, que esculpia o machado de Tijum a cada defesa, quando por fim conseguiu partí-lo em sua fragilidade.

“Venha, termine com isso e me mate! Eu sei que pela tradição de sua família apenas um líder deve existir. Você jamais irá deixar que eu governe”- Gritava o irado Tijum.

Suavemente, Lineus pressionou sua espada na garganta de seu oponente e o olhou nos olhos para dizer: “Eu já o venci, não preciso matá-lo também”. O povo vibrava em euforia e apoio ao novo líder guerreiro.

Assim como a lava de um vulcão consome tudo o que há de vivo, tudo o que há de bom durante seu trajeto de destruição, a alma de Tijum perdeu o resto de humaninadade que havia, e em sede de vingança ele aproveitou-se da baixa de guarda e da espada de Lineus para chegar a uma adaga de Técleos próxima de si e a arremessou contra o peito dele.

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Em algum lugar na batalha, passou pela minha cabeça que se não fosse pelos reflexos rápidos de Kraus, Lineus estaria caído em seu lugar com uma adaga no peito. Mas Kraus tinha reflexos rápidos e ele tombou diante de nossos olhos. Reflexos tão rápidos como... Como Mitonos!

De repente, tudo fez sentido para mim e me ajoelhei para apoiar a cabeça do homem ferido, não antes sem lançar minha espada no coração de Tijum, provando que ao menos em seu coração havia sague de um ser humano ao invés de um monstro.

“Por que você fez isso?”- Lineus perguntou.

Acho que ele ainda não tinha percebido que aquele não era Kraus, e sim seu próprio pai Mitonos. Ele viu em meus olhos que eu havia compreendido tudo, e assentou com a cabeça antes de virar-se para seu filho e dizer: “Pois você é meu filho”.

Lineus parecia em choque, mas Mitonos continou assim mesmo: “Desculpe-me por manter isso em segredo meu filho, mas era a única forma de desfazer o que Kraus havia feito para nosso povo e consigo mesmo. Eu precisava levar paz a ele, pois antes de morrer ele estava arrependido. Por isso fiquei afastado por anos procurando Janos e me passei por Kraus, para limpar seu nome”.

Com uma esperada reação, Lineus levantou-se indignado, tentando raciocinar tudo o que acabava de ouvir e assimilar todos as imagens que sua mente insistia em mostrar-lhe, com tantas vezes que ouvia de um ou outro o quanto ele parecia com seu pai, em suas habilidade e caráter, mesmo nunca tendo convivido com ele. Mas agora ele sabia que havia convivido toda sua vida com este homem, seu pai, e ficou feliz por isso. Voltando ao lado do pai, ele disse: “Não se preocupe meu pai, eu lhe entendo. Você fez o que achava melhor e creio que tenha sido, pois ao ver todo o mal e ruína que a ganância e inveja pode trazer, nosso povo pode escolher um líder e Caminho melhor”.

Era possível ouvir as pessoas engolirem suas salivas, enquanto refletiam sobre aquilo. Uma ou outra rajada de vento elevavam a folhagem do chão e acariciava nossos rostos suados com a brisa.

“Eu sabia que você seria um excelente líder meu filho. E você merece um conselheiro à sua altura”- e olhando para mim, ele completou: “Como seu tio Jonas”.

Eu podia sentir todos os olhares perplexos e conscientes, assimilando as relações entre minha recente aparição e semelhanças com aquela família. Eu me permiti e assenti com a cabeça, satisfazendo a meu irmão.

Ele ergueu-se com grande esforço, mas dispensou nossa ajuda e discursou: “Minha terra, meu povo! Eu presenciei as faces do bem e do mal e eu fui até ambos extremos, para lhes dizer que vocês podem escolher. Eu os aconselho: escolham o bem para que também sejam escolhidos! Eu entrego em suas mãos esta decisão. Meu filho e meu irmão os guiarão pelo caminho do bem, se assim escolherem”. – E esta foi sua última lição, antes de se deitar satisfeito e fechar seus olhos num merecido descanso.

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Em algum lugar, somos líderes guerreiros de uma tribo próspera que vive em uma região elevada como o canyon que se ergue ao redor de um estreito rio. Vivemos em harmonia e rodeados de contos sobre bravos guerreiros.

* FIM *

Notas finais
Espero que tenham gostado! OBS: Acho que perceberam que toda a estória é narrada por diferentes perpectivas. Às vezes por Mitonos, às vezes por Janos, outras por Kraus, e algumas vezes você não faz idéia! Em alguns momentos, a narrativa pertence a mais de uma pessoa e até a um terceiro que não está na estória (pelo menos não nesta, ok?! hehehe). Bom, foi a primeira vez que experimentei escrever assim e achei bem interessante!
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!