A estrada estava relativamente deserta, apesar de serem apenas oito horas da noite. Árvores cercavam boa parte do caminho de ambos os lados, formando uma espécie de corredor escuro que parecia se estender muito além do alcance dos faróis. Fazia alguns minutos que ele tinha visto a placa de boas vindas anunciando Alethea’s Grove como a cidade mais mística do país. Ele quase riu quando leu.

Em três longos anos percorrendo as estradas do país, nunca tinha verdadeiramente cruzado as fronteiras daquela cidade. Sempre encontrava uma razão para seguir adiante. Naquela noite, porém, não havia muito espaço para escolhas. O tanque do Mustang estava quase vazio. Era o tipo de detalhe que rapidamente ele aprendeu a não ignorar. Ficar sem gasolina significava parar. Parar significava chamar atenção. E chamar atenção era algo que ele vinha evitando com uma dedicação quase religiosa.

Alethea’s Grove era o lugar mais próximo. Então, por enquanto, teria que servir. Ele soltou uma respiração cansada e voltou os olhos para a estrada. Precisava de combustível. Comida. Talvez algumas horas de sono. Ou algumas latas de energético, caso não achasse um bom local para encostar o carro e dormir. Depois poderia decidir para onde ir. Era um plano simples, mas havia muito ele aprendeu a viver assim.

Por uma vez, suas preces ao universo pareciam ter sido atendidas. Depois de uma curva, as árvores se abriram e revelaram um pequeno posto de gasolina, bem onde a floresta começava a dar lugar ao concreto da cidade. Havia apenas quatro bombas de combustível sob uma cobertura iluminada por lâmpadas fluorescentes, uma pequena loja de conveniência anexada ao prédio principal e um estacionamento quase vazio. Uma placa vertical, parcialmente iluminada, anunciava os preços.

Ele reduziu a velocidade se aproximando, não havia movimento. Nenhum carro entrando ou saindo. Apenas um sedã antigo estacionado próximo à loja e uma caminhonete escura parada alguns metros adiante. Ele olhou para o relógio no painel — 20h07. Ainda era relativamente cedo, mesmo assim a visão do lugar o deixava inquieto. Se perguntado não saberia dizer o motivo. Talvez fosse apenas o cansaço. Três anos fugindo tinham transformado a desconfiança em reflexo. Às vezes, ele desconfiava até da própria sombra.

O estômago roncou.

“Primeiro gasolina, comida e então paranoia.” — murmurou para si mesmo.

Desacelerou mais um pouco e entrou no posto. O Mustang passou sob a cobertura e estacionou junto à bomba mais próxima da loja. Desligou o motor e, por alguns segundos, permaneceu sentado. O silêncio que veio depois pareceu muito maior do que realmente era. Apoiou a cabeça no banco e fechou os olhos. Só por um instante. Precisava de um minuto. Um minuto para respirar. Um minuto sem estrada. Sem espelhos retrovisores. Sem a constante sensação de que alguém estava atrás dele.

Deuses ele estava cansado. Se pudesse ele pararia e não se moveria mais. Infelizmente isso não era uma possibilidade.

Quando abriu os olhos novamente, seu reflexo o encarava no vidro da janela. Cabelos negros desgrenhados. Olhos azuis cansados. Barba por fazer. O rosto mais magro do que deveria. Ele parecia mais velho. Não fisicamente. Nos olhos. Parecia que ele tinha vivido muito mais do que seus vinte e cinco anos.

Desviou o olhar. Evitava o próprio reflexo sempre que podia. Pegou a carteira e saiu do carro. O ar frio da noite o atingiu imediatamente. Era final de maio, mas, tão ao norte e tão perto da floresta, as noites ainda podiam ser frias. Fechou a porta do Mustang e caminhou até a bomba. Enquanto esperava o abastecimento começar, olhou ao redor. A floresta estava logo atrás do posto. Escura. Densa. Silenciosa. Mais adiante, algumas luzes se espalhavam entre as árvores, anunciando o início da cidade.

Alethea’s Grove.

Ele havia chegado. Depois de três anos evitando aquele lugar, finalmente estava ali. Ele quase considerou a ironia engraçada. Talvez a placa tivesse razão. Talvez aquela realmente fosse a cidade mais mística do país. Só desejava que também fosse uma das mais esquecidas.

Pegou a mangueira da bomba e encaixou no tanque. O visor começou a subir. Cinco litros. Dez. Olhou para a loja. As portas automáticas estavam fechadas. A luz interna era forte demais para aquela hora, fazendo o pequeno estabelecimento parecer ainda mais vazio. Havia apenas um funcionário atrás do caixa. Ele esperou. Nenhuma mudança. Olhou novamente para a caminhonete. Estava vazia. Ou pelo menos parecia.

Em seu peito o instinto, que o manteve vivo por três anos, vibrava. Inquieto, ele deixou a mangueira terminar o abastecimento e levou a mão até o bolso da jaqueta, mas não encontrou o telefone. Junto com a inquietação podia sentir a frustração se instalar. Talvez estivesse apenas vendo perigo onde não havia nenhum.

Com o tanque cheio recolocou a mangueira no lugar. Foi então que a porta da loja se abriu e um homem surgiu. Alto, vestindo uma jaqueta escura e boné baixo cobrindo parte do rosto. Observou-o por um segundo. Depois a caminhonete. O homem caminhou na direção do veículo. Ele sentiu os ombros relaxarem quando a caminhonete ligou e em seguida começou a se afastar. Provavelmente um funcionário ou cliente. Nada demais. O cansaço e a exaustão estavam realmente começando a afetá-lo.

Liberando um suspiro ele abriu a porta do Mustang para pegar o celular ao som de outro carro chegando ao pequeno posto. O aparelho tinha caído e deslizado para debaixo do banco do passageiro durante uma curva e lá tinha permanecido essencialmente esquecido. Não era como se alguém fosse ligar para ele.

No momento em que seus dedos se fecharam ao redor do celular, os pelos da nuca se arrepiaram — havia olhos sobre ele. Em um movimento rápido e fluído levantou-se, o olhar já percorrendo os arredores. Tarde demais. Uma dor aguda atingiu seu pescoço. Ele levou a mão ao local por reflexo e sentiu algo pequeno preso à pele. Um dardo. Imediatamente arrancou-o, mas sabia que era inútil. O mundo já começava a inclinar-se.

“Filho da—” o xingamento morreu nos lábios quando sentiu suas pernas falharem, seu corpo parando de responder como deveria.

Caindo contra a lateral do Mustang ele tentou respirar. Suas entranhas queimavam como se houvesse lava em suas veias. Deuses ele conhecia aquela sensação e a odiava.

A visão já estava completamente turva quando ouviu passos se aproximando. Mais de um. Talvez quatro. Não. Cinco. A contagem passou por sua mente antes que tudo escurecesse.

A cidade mais mística do país de fato.

Ele teria rido da ironia. Se ainda conseguisse respirar.


--------------------


Já havia uma viatura da polícia no local quando o xerife Graham Whitmore estacionou a sua própria. Ele estava a caminho da delegacia para seu turno quando o alerta chegou. Um dos funcionários do posto de gasolina mais próximo da entrada da cidade tinha avisado a polícia sobre um carro aparentemente abandonado.

Alethea’s Grove recebia sua cota de turistas durante todo o ano, gente vinda de todo o país — e por vezes até de fora -, atraídos pela fama da cidade. Para os visitantes era tudo brincadeiras, passeios, compra de souvenirs, fotos e vídeos. Para as autoridades era uma dor de cabeça constante. Casos de pessoas desaparecidas, infelizmente, não eram uma raridade. O problema era que os visitantes tendiam a desaparecer na floresta, geralmente quando se aventuravam nas trilhas sem um guia e se perdiam. Eram tantos casos anualmente, que eles já tinham uma equipe designada para atender esse tipo de ocorrência trabalhando em conjunto com os bombeiros.

Alguém desaparecer e deixar o carro em um posto de gasolina, mal dentro dos limites da cidade, era uma novidade. Mas, como dizia o ditado, sempre havia uma primeira vez para tudo.

Desligando o motor e saindo da viatura, o xerife se permitiu um momento para observar o veículo que causou toda a comoção. Era um Mustang preto — bonito, mas longe de ser um modelo recente —, estacionado junto a uma das bombas, parecendo estar esperando por seu dono voltar. Pelo que podia ver não havia amassados ou arranhões e os vidros estavam intactos. Tudo aparentemente normal.

Liberando um suspiro, fez seu caminho na direção do carro.

“Xerife” — uma voz familiar chamou.

Graham ergueu os olhos. O oficial Hayes fechou a porta da loja de conveniência atrás de si e caminhou até ele, segurando um pequeno bloco de anotações.

Com vinte e seis anos, Julian Hayes era um dos policiais mais jovens da equipe de Graham, mas já havia conquistado a confiança do xerife. Afinal, não era o tipo de policial que precisava ser lembrado duas vezes de uma ordem.

“Falei com o funcionário” — informou.

Graham voltou a atenção para o Mustang.

“E?”

“O carro já estava aqui quando ele terminou o turno ontem à noite. Quando voltou esta manhã, continuava exatamente no mesmo lugar.”

“Ele viu o proprietário?” — questionou, começando a circular o veículo.

“Viu o homem chegando” — começou, seus olhos castanhos acompanhando o movimento do xerife. — “Disse que ele abasteceu e ficou alguns minutos por perto.”

Graham franziu o cenho.

“Por perto?”

“Foi o que ele disse. O funcionário estava fechando o caixa e não prestou atenção o tempo todo. Em algum momento, perdeu o homem de vista.”

Graham olhou para o oficial.

“E presumiu que ele tinha entrado na loja.”

“Exatamente.”

“Mas não viu?”

“Não” — confirmou o mais jovem.

Graham assentiu lentamente. Explicava a falta de informação do funcionário, mas não o carro.

“Temos imagens?”

“Duas câmeras estavam funcionando. A terceira câmera havia perdido a conexão por alguns minutos naquela noite, mas o sistema continuou registrando as imagens.”

Graham estreitou os olhos para Hayes.

“Deixa eu adivinhar: é a que precisamos.” — A expressão do outro policial era resposta suficiente.

“Já pedi ao funcionário acesso às câmeras e um dos nossos técnicos já está a caminho.”

Graham fez um gesto breve de aprovação.

“A placa?”

“Washington.”

“E o proprietário?”

“A central está puxando agora.”

Hayes guardou seu bloco por um instante, enquanto Graham parava diante da porta do motorista. Sua primeira impressão estava correta, não havia nada que justificasse o abandono do veículo.

“Quando o funcionário percebeu o carro chegando?” — Questionou, desejando ter uma xícara de café bem forte em mãos.

“Pouco depois das oito da noite.” – informou Hayes.

Graham olhou para o relógio, eram 8h42 da manhã. Menos de treze horas. Dependendo da situação que estivessem lidando, muito ou pouco tempo tinha se passado. Para o bem de todos ele esperava que fosse o último.

“Ele viu mais alguma coisa?”

Hayes pegou novamente as anotações folheando-as.

“Ele disse ter visto uma van escura chegar alguns minutos depois do Mustang ter estacionado.”

Graham ergueu os olhos.

“Depois?”

“Sim, parou mais afastada, perto da saída dos fundos. O funcionário não soube dizer detalhes, como já dito, estava ocupado fechando o caixa. O que ele sabia era que ninguém mais entrou na loja depois da chegada do Mustang até o fim do expediente.”

Graham ficou em silêncio. A saída dos fundos levava a uma estrada secundária. E uma das bifurcações da mesma levava à floresta. Ele conhecia aquela região. Conhecia bem demais.

“Quero as imagens antes de qualquer coisa” — reforçou com o cenho franzido.

“Certo.”

Graham puxou a maçaneta, a porta do motorista se abriu, o dono nem a tinha trancado. O interior do carro parecia tão impecável quanto o exterior. E a ausência de mochilas, malas ou sacolas no banco de trás era notável. Seu olhar percorreu o painel, o banco do motorista e então o do passageiro. Foi quando um volume saindo ligeiramente de debaixo do banco chamou sua atenção. Dando a volta no carro, estendeu a mão para a maçaneta do lado do passageiro – não estava nem fechada, apenas encostada.

“Lanterna.” – pediu enquanto se abaixava

Hayes imediatamente a entregou. Graham iluminou o espaço, o feixe de luz refletiu no objeto retangular — um telefone celular.

“Encontrei um telefone” — informou pegando-o com cuidado. — “Chame a perícia.”

Hayes assentiu.

Antes que pudesse se afastar, Graham percebeu outra coisa. Um pequeno objeto escuro estava caído ao lado do carro.

“Espere.”

Ele apontou a lanterna para o chão. Era um dardo, e um bem diferente dos tipos que já tinha visto. Possuía uma haste fina e uma ponta metálica que refletia a luz. Graham não tocou.

“Encontrei outra coisa. Não mexa nisso.”

Hayes se agachou para observar melhor.

“Um dardo?”

“Parece.”

“De caça?”

Graham permaneceu em silêncio um instante remoendo os pensamentos. Quanto mais pistas achavam menos ele gostava do cenário que estava se formando. O carro estava bem cuidado, o tanque cheio e o telefone permanecia no interior. Não parecia que o motorista tivesse planejado deixá-lo ali. E agora havia um dardo.

“Não tenho certeza. Chame a perícia também para isso.”

Hayes pegou o rádio.

“Quer que eu isole o carro?”

“Sim. Ninguém toca em nada até eles chegarem.”

Hayes se afastou para dar as instruções.

Graham continuou olhando para o dardo. Não sabia exatamente o que estava vendo. Mas sabia reconhecer uma coisa quando ela não pertencia a um acidente comum.


--------------------


Quase duas horas haviam se passado desde o início da investigação, quando finalmente conseguiram identificar o proprietário do Mustang e recuperar as imagens da terceira câmera, que havia ficado fora do ar.

Sentado em seu escritório, Graham observava o agora devidamente identificado Cassian Bleiz estacionar, abastecer e, em seguida, abrir a porta do lado do passageiro. Provavelmente procurava o celular encontrado debaixo do banco. Durante todo o tempo, sua postura parecia vigilante, mas nada nas imagens indicava por que teria abandonado o veículo.

Então, a cena se transformou em algo quase saído de um filme.

Bleiz levantou-se de repente. Seus dedos subiram até o pescoço, onde agarrou alguma coisa presa à pele e a arrancou — provavelmente o dardo encontrado ao lado do carro.

Cambaleou.

Então caiu contra a lateral do Mustang.

Em seguida, quatro homens surgiram no campo de visão da câmera e seguiram rapidamente na direção de Bleiz. Graham observou a gravação com atenção. O grupo o cercou e o arrastou para fora do enquadramento, na direção da van.

Ele franziu o cenho. Se havia mais alguém envolvido, estava fora do alcance da câmera. E, ao que parecia, não estavam lidando com um simples desaparecimento ou abandono e sim com um sequestro.

“Por que não podia ser um turista perdido na floresta?” — resmungou sobre a respiração, antes de fazer seu caminho para a cafeteira, ele ia precisar de muita cafeína para aguentar o dia.