Sob o Mesmo Luar
2 Primeiros Encontros
Se havia uma coisa que Ember Eldridge detestava, eram turistas. O que era irônico, considerando que vivia em Alethea’s Grove, conhecida como a cidade mais mística do país — e, para completar a ironia, era descendente direta da mulher que a fundara. A cidade atraía visitantes durante todo o ano, todos ávidos por lendas, superstições e experiências que pudessem transformar em fotografias e vídeos para as redes sociais.
E era justamente isso que Ember detestava neles. Estava cansada das mesmas perguntas, das mesmas expressões fascinadas e, principalmente, daquela busca incessante por alguma história sobrenatural que pudessem levar para casa como lembrança. Uma experiência exótica para contar aos amigos. Uma fotografia diante de algum lugar supostamente assombrado. Na verdade, qualquer coisa desde que rendesse algumas curtidas.
É claro que Ember entendia a curiosidade das pessoas pelo oculto e a importância do turismo para a região. Afinal, boa parte da economia de Alethea’s Grove dependia dos visitantes; sua própria família fazia parte disso, mesmo que essa não fosse sua principal fonte de renda. O Antiquário Eldridge, por exemplo, era quase tão antigo quanto a cidade. Ocupava uma construção estreita de três andares, espremida entre uma loja especializada em chás artesanais e outra que vendia cristais decorativos.
A fachada, com seus tijolos escurecidos pelo tempo e janelas altas emolduradas por madeira negra, parecia ter sido feita sob medida para o Centro Histórico — a região mais antiga da cidade, repleta de pequenas lojas, cafés, restaurantes e estabelecimentos voltados aos visitantes. Os bares e casas noturnas, por outro lado, ficavam na parte moderna de Alethea’s Grove, no bairro Áurea do Crepúsculo, próximo ao coração da cidade.
Mas saber que os visitantes eram importantes e gostar de lidar com eles eram coisas completamente diferentes. Ember os tolerava apenas por necessidade.
Como se seus pensamentos tivessem sido um chamado, o sino preso acima da porta do antiquário tilintou, anunciando a entrada de mais um cliente. Ember fechou os olhos por um breve instante, respirou fundo e se preparou para sorrir.
Erguendo o olhar do amuleto em forma de floco de neve que colocava no balcão de exposição, deparou-se com um senhor de meia-idade usando uma jaqueta de couro marrom e um chapéu ridiculamente grande. Ele olhou ao redor com o entusiasmo de alguém que acabara de encontrar exatamente o tipo de lugar que procurava.
Internamente, Ember suspirou. Já sabia o que viria antes mesmo de o homem abrir a boca.
“Boa tarde. Vocês têm alguma coisa relacionada a bruxas?”
Ember apontou para uma parede inteira.
“Cerca de metade da loja.”
“Algo autêntico?” — insistiu ele, com um brilho mal contido no olhar.
Ela quase riu.
“Depende do que você considera autêntico.”
O homem se aproximou, fascinado.
“Ouvi dizer que Alethea’s Grove tem uma história muito... especial” — comentou, como se os dois compartilhassem um segredo.
Ember resistiu à vontade de revirar os olhos.
“Tem.”
Ela aprendeu havia muito tempo que respostas curtas eram a melhor maneira de lidar com curiosos. Não porque os fizessem desistir, mas porque os deixavam frustrados o suficiente para procurar outro assunto.
“Bruxas de verdade?”
Os olhos do homem brilhavam como os de uma criança diante de uma vitrine de brinquedos.
“Dizem que sim.”
“Lobisomens?”
Ember arqueou uma sobrancelha.
“Algumas pessoas juram que viram um.”
“Vampiros?”
A animação na voz dele era quase perturbadora, considerando sua aparente idade.
Ember julgava seus clientes. Era quase um hobby àquela altura, uma maneira de combater o tédio. Se tivesse inclinação para contar histórias — ou escrevê-las —, poderia muito bem criar algumas apenas com as informações que obtinha observando o comportamento dos visitantes. E naquele momento, tinha a nítida sensação de que não queria saber o que aquele senhor pensava sobre vampiros.
“Só depois das oito.”
Ele soltou uma risada nervosa. Seu olhar acabou se fixando na pequena placa sobre o balcão, onde estavam escritas as regras da loja. Era uma lista que sempre fazia os visitantes rirem.
Havia, até aquele momento, vinte e uma regras:
1 Não aceitamos devoluções após a meia-noite.
2 Não abra caixas lacradas. Nem mesmo se ouvir alguém pedindo ajuda.
3 Não toque nos espelhos. Eles não gostam.
4 Se o seu reflexo sorrir antes de você, afaste-se.
5 Objetos que mudarem de lugar sozinhos devem permanecer onde escolheram ficar.
6 Não responda a objetos que chamarem pelo seu nome.
7 Não pergunte o que há no porão.
8 Velas não são permitidas no terceiro andar.
9 Se ouvir passos atrás de você depois do fechamento, não se vire.
10 Não fotografe determinados objetos. Se a placa disser “não”, é não.
11 Não tente negociar com objetos amaldiçoados. O preço nunca é dinheiro.
12 Familiares são permitidos. Animais também.
13 Não pergunte se uma peça é “realmente mágica”. Alguns itens se ofendem facilmente.
14 Se uma porta aparecer onde antes havia uma parede, não entre.
15 Não compre objetos que estejam quentes ao toque.
16 Se uma estátua mudar de posição, avise o atendente. Não tente colocá-la de volta.
17 Não assine nada encontrado dentro de livros antigos.
18 Não aceite moedas oferecidas por ninguém dentro da loja depois do pôr do sol.
19 Se uma peça sussurrar seu nome, devolva-a imediatamente ao balcão.
20 O antiquário fecha às oito. O antiquário realmente fecha às oito.
21 Não leve nada que não tenha comprado. Algumas coisas sabem o caminho de volta.
Como esperado, o homem sorriu, divertido, e foi observar as prateleiras que ela havia indicado. Ember, por sua vez, fechou a caixa de exposição e voltou ao trabalho. Pegou uma pequena coleção de moedas que havia chegado naquela tarde e começou a organizá-las, conferindo cuidadosamente cada uma antes de colocá-las no lugar. Enquanto fazia isso, lançou um olhar para o relógio na parede. Ainda faltava algum tempo para o fechamento. Ela só precisava sobreviver até às oito da noite.
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Horas mais tarde, os últimos visitantes finalmente deixaram o antiquário. Um casal que procurava souvenirs para levar de volta aos parentes e amigos que haviam ficado em casa. Ember não se deu ao trabalho de esperar os dois minutos que ainda faltavam. Antes que algum cliente atrasado pudesse aparecer, fechou a porta e virou a placa para FECHADO.
Ela amava o antiquário. Verdadeiramente amava. Naquele momento, porém, só queria voltar para casa, tomar um longo banho, comer as sobras da lasanha que havia feito para o almoço, sentar-se com seu gato e ler alguns capítulos do romance policial que começou no fim de semana — ela mal tinha chegado até a metade da trama e isso a irritava.
Depois de conferir se tudo estava devidamente organizado e trancado, pegou a bolsa e saiu. Como sua casa ficava apenas a algumas quadras dali, uma caminhada tranquila, depois de tantas horas confinada dentro do antiquário, seria um alívio bem-vindo. A noite estava relativamente quente e uma brisa agradável soprava pelas ruas. O verão estava praticamente ao virar da esquina, e o aumento das temperaturas já começava a anunciar sua chegada.
Alethea’s Grove permanecia movimentada mesmo depois do anoitecer. Pessoas iam e vinham pelas calçadas, enquanto veículos circulavam continuamente pelas ruas. Nos fins de semana as casas noturnas e os bares da Áurea do Crepúsculo praticamente vibravam com a quantidade de visitantes e locais que saíam para dançar, beber, comer e simplesmente aproveitar a noite.
Aos vinte e três anos, Ember não era estranha à vida noturna. Durante os anos de universidade, havia ido a festas como qualquer estudante e, mesmo agora, quando tinha disposição, costumava passar pelo The Hidden Root, um dos bares preferidos dos moradores locais, para tomar alguns drinks. Por vezes simplesmente arrastava Theo, seu melhor amigo, para alguma casa noturna para rirem dos turistas e curtir.
Mas aquela não era uma noite em que estivesse disposta a lidar com mais gente.
Por isso, em vez de seguir pelo trajeto mais movimentado, Ember escolheu um caminho um pouco mais longo para casa. Ela conhecia aquela região desde criança e já havia percorrido aquelas ruas tantas vezes que poderia fazê-lo de olhos fechados. Conforme se afastava do coração do Centro Histórico, o movimento diminuía gradualmente. As vitrines iluminadas davam lugar a fachadas mais simples, o som distante da música dos bares era substituído pelo ruído ocasional de um carro passando e, pouco a pouco, a cidade parecia respirar mais devagar.
Era uma das coisas que gostava em Alethea’s Grove. Apesar de todo o caos, ainda havia lugares onde era possível ouvir os próprios pensamentos. Ember enfiou as mãos nos bolsos da jaqueta e continuou caminhando. Estava mais próxima da floresta do que o percurso normal e a brisa carregava o cheiro úmido das árvores e da terra aquecida pelo dia. Ela respirou fundo, saboreando a sensação.
Seu celular vibrou dentro da bolsa quebrando a monotonia do momento. Ember ignorou. Deveria ser Theo, entediado em suas pesquisas, enviando memes de gato outra vez. Se fosse importante, ligaria. Se não fosse, poderia esperar.
Continuou andando. A rua começou a ficar mais estreita conforme avançava. Algumas casas surgiam de maneira espaçada entre áreas de vegetação, e a iluminação pública se tornava menos frequente. Não era uma região abandonada — longe disso —, mas pouca gente tinha motivos para passar por ali àquela hora. Era justamente por isso que gostava daquela rota.
Ou gostava até perceber que não estava sozinha. Ember diminuiu o passo. Mais adiante, havia uma van escura estacionada na frente de uma casa pequena de dois pisos, que estava com placa de aluga-se na última vez que passou por ali. Também havia outro veículo, uma caminhonete, parado logo à frente. Cinco homens, de idades variadas mas com porte físico semelhante, circulavam entre os dois carros descarregando sacolas e caixas e levando-as para dentro da casa.
Antes que percebesse já havia parado de se mover, observando-os por alguns segundos. Apesar de Alethea’s Grove receber muitos visitantes, as mudanças eram relativamente raras, portanto ver alguém se mudando durante a noite era ainda mais estranho. Mas, considerando a fama da cidade, provavelmente era outro grupo de pesquisadores do paranormal. Ela ainda lembrava das notícias do último, os idiotas tinham arrumado confusão com os vizinhos da construção que planejavam investigar e a polícia teve que intervir. Ember supôs, contanto que esses não arrumassem problemas, eram bem-vindos para bisbilhotar ao redor o quanto quisessem.
Decidindo que já havia perdido tempo suficiente saciando sua curiosidade — e ignorando seu celular vibrando na bolsa novamente -, voltou a andar. Estava a poucos metros da van quando um dos sujeitos retirou uma das caixas sem muito cuidado e a que estava ao lado tombou. A tampa se abriu e seu conteúdo caiu tanto no interior da van quanto sobre o asfalto.
Ember parou. Por um instante não entendeu o que estava vendo. Então sua mente registrou — armas. Vários rifles e caixas de munição.
Definitivamente não são pesquisadores - o pensamento cruzou sua mente, ao mesmo tempo em que um dos homens rosnava um palavrão e socava as costas do sujeito que causou a confusão.
Enquanto os dois discutiam na beira da calçada, Ember observou um dos outros três homens que estavam dentro da casa sair e gritar vários palavrões grosseiros para os que já estavam na rua. Com uma careta, ela fixou os olhos outra vez na van. Ainda havia mais uma caixa no interior do veículo, e ela tinha visto três caixas serem retiradas e levadas para dentro, além das sacolas tiradas da caminhonete. Se todas fossem armas e munição, o que raios esses caras estavam fazendo — montando um pequeno exército? Em Alethea’s Grove, de todos os lugares?
“Ei!” — a voz rouca e baixa arrastou sua atenção de volta para os homens.
O cara com a caixa tinha entrado na casa, mas os outros dois agora a observavam com carrancas muito parecidas para não serem parentes.
Internamente Ember gemeu. Tanto para uma caminhada tranquila.
Pelo menos agora ela sabia por que estavam descarregando a mudança durante a noite.
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Os sons filtraram lentamente. Primeiro, um ruído indistinto, baixo e repetitivo. Então, através do algodão em sua cabeça, veio o reconhecimento — uma torneira pingando. Em seguida, veio o frio. Ele estava deitado sobre uma superfície dura e gelada e a ausência de calor provocava arrepios em sua pele — o que não fazia sentido, considerando que ele estava sempre quente. A dor foi a próxima a se manifestar. Tudo doía. Seu corpo estava rígido e seus músculos pareciam ter sido esticados além do limite. Ele tentou respirar fundo e imediatamente se arrependeu, não apenas pela dor nas costelas, mas porque o ambiente cheirava a mofo, concreto molhado e algo metálico que sua mente não conseguia nomear — embora alguma parte dele reconhecesse aquele cheiro.
Sua boca estava seca. Sua garganta arranhava, sua língua parecia áspera e quando tentou engolir sentiu um gosto amargo. Wolfsbane. Como uma represa abrindo as comportas, a consciência voltou junto com uma enxurrada de memórias.
Ele estava abastecendo o carro num posto de beira de estrada. Precisava desesperadamente dormir e debatia internamente se deveria comprar algumas latas de energético e continuar dirigindo, ou encontrar um ponto afastado da estrada onde pudesse encostar o carro e dormir por algumas horas. Ele percebeu a van se aproximar, mas estava tão cansado de dirigir sem parar que não prestou atenção enquanto pegava o maldito celular. Foi só quando seus instintos o alertaram de que estava sendo observado que percebeu que algo estava errado. Porém, antes que pudesse fazer qualquer coisa, sentiu o dardo espetar seu pescoço e seu corpo começar a falhar. Ele nunca teve uma chance.
Quando acordou estava em uma sala de concreto. Os pulsos e tornozelos presos o mantinham de pé contra uma parede. Fios estavam espalhados pelo seu peito nu, sua camisa azul-marinho e suas botas tendo desaparecido junto com suas meias. Ele não precisava ver para saber que os fios o conectavam a algum tipo de gerador. E toda aquela configuração significava que Cassian Bleiz já sabia o que estava por vir, antes mesmo dos malditos caçadores entrarem pela porta de metal do outro lado da sala. Porque os desgraçados que o capturaram não podiam ser outra coisa senão caçadores. Ele só não sabia de qual tipo — os que acreditavam em eliminá-los indiscriminadamente, ou aqueles que esperavam lucrar vendendo as peças da caça no mercado negro. Pessoalmente ele odiava ambos. Bastardos doentes. E ainda diziam que eles eram os monstros.
Com a chegada dos idiotas as horas se arrastaram, lentas e dolorosas. Muitos ferimentos — Cassian não sabia se sentia-se grato ou não pela falta de criatividade deles. Vários choques, outra dose da maldita wolfsbane e novamente a escuridão. Quando acordou pela segunda vez estava em uma sala muito parecida com a anterior. Um quarto pequeno, todo de concreto e sem janelas, apenas uma porta também de metal. Uma pia estava fixada na parede próxima de um vaso sanitário. Havia também um ralo no chão, e junto as manchas suspeitas espalhadas pelo lugar, aquilo contava uma história que ele preferia não saber.
Agora, forçando os olhos — tão secos quanto sua garganta — a abrirem, mesmo através do borrão que dominava sua visão, ele sabia que estava de volta à sua cela.
Cassian teria amaldiçoado, porém estava muito cansado para fazer mais do que tentar mover os dedos das mãos e dos pés. Seus músculos ainda tinham espasmos residuais da eletricidade que, por horas, percorreu seu corpo enquanto os idiotas o torturavam.
Por um longo momento, permitiu-se ficar caído no piso frio apenas respirando. Então, virando-se de lado, apoiou-se nos braços e forçou o corpo a se erguer do chão. Imediatamente, a tontura o atingiu. Fechando os olhos e cerrando os dentes, esperou até que a vertigem e a náusea passassem. A última coisa de que precisava era acrescentar o cheiro de vômito à mistura nojenta que já agredia seu nariz. Não comia nada substancial havia praticamente dois dias, então seu estômago provavelmente só teria bile para expelir.
Assim que sentiu que poderia se mover sem correr o risco de vomitar, arrastou-se pelos poucos centímetros que o separavam da parede em frente à porta. Quando finalmente conseguiu se sentar, apoiando as costas contra o concreto, estava sem fôlego, e gotas de suor umedeciam sua testa. A exaustão o consumia quase até os ossos. Em vinte e cinco anos de vida, não se lembrava de já ter se sentido daquela maneira.
Ele sabia que deveria beber um pouco de água e pelo menos tentar limpar os cortes mais profundos, mas não tinha forças suficientes para se levantar, que se dirá de caminhar, e o sono começava a pesar suas pálpebras. A inconsciência causada pelo wolfsbane era qualquer coisa menos repousante.
Em algum momento devia ter cochilado, porque a próxima coisa que sabia era que havia passos se aproximando. Antes que sua mente registrasse a informação completamente, seu corpo reagiu enrijecendo. Os caçadores voltaram.
Entre as duas sessões de tortura, tivera algumas horas para se recuperar, mas duvidava que muito tempo tivesse passado desde que o tinham drogado e arrastado para aquela sala. Então por que estavam voltando? Sentindo o medo e a frustração inundarem seu ser, aguçou os ouvidos o melhor que podia.
Foi relativamente fácil identificar os bastardos. Caminhavam com passos pesados como se tivessem algo a provar. Havia dois pares daquele tipo. Porém, enquanto escutava, percebeu a presença de um terceiro par; esses passos eram leves. E então uma voz inegavelmente feminina. Custou a entender as palavras, mas quando o fez a confusão assumiu o lugar do medo. A voz estava reclamando sobre por que estava sendo sequestrada, dizendo que apenas trabalhava em um antiquário, não tinha dinheiro. Sua família estava fora do estado, provavelmente do país, ela não sabia, só que não havia ninguém para pagar um resgate.
Os passos pararam diante da porta da cela, seguidos pelo som revelador da tranca se abrindo e da pesada porta sendo empurrada. A luz forte do corredor inundou o pequeno cômodo, um contraste gritante com o fraco brilho amarelado emitido pela única lâmpada no interior da sala. Ele reconheceu os dois caçadores ladeando a jovem. Eram os bastardos que gostavam particularmente de eletrocutá-lo. Um deles empurrou a mulher para dentro enquanto ela ainda divagava sobre não haver nada a ganhar sequestrando uma ninguém como ela. Como esperado, eles a ignoraram, fechando a porta e trancando-a em seguida.
Mas Cassian já não prestava atenção nos caçadores; seu olhar azul estava fixo na jovem diante da porta. Cabelos negros com mechas púrpura, estatura mediana, corpo esguio e pele clara. Era, no entanto, o cheiro que ela emanava que realmente o pegou. Canela, baunilha, algo levemente floral, então ozônio como o ar antes de uma tempestade de raios.
Enquanto observava, a postura de vítima assustada evaporou. Ombros retos, queixo erguido. A jovem assustada e confusa havia sumido. O próximo som a deixar seus lábios foi um estalo de irritação.
Então ela se virou, seus olhos cinzentos encontrando os dele do outro lado do quarto, onde ele continuava escorado contra a parede. Ela congelou.
Seu olhar afiado obviamente catalogava sua aparência — as manchas de sangue em seu torso sem camisa e nas calças, os pés descalços, a pele doentiamente pálida, a infinidade de pequenos cortes e ferimentos, além dos hematomas em tons de preto, roxo e verde espalhados pela pele. Ah, e não vamos esquecer o brilho azul antinatural em seus olhos, as presas afiadas escapando pela boca ligeiramente aberta — respirar com costelas quebradas era sempre uma droga —, além das garras.
Houve silêncio por um instante, então:
“Lobo.” — era uma afirmação.
“Bruxa.” — sua voz era rouca, baixa e dolorosa. Eles não o fizeram gritar, mas ele rosnou.
“Humana, até onde esses idiotas sabem.” — veio a resposta com um toque de diversão.
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