Sob o Hemisfério
1 Capítulo Um

O sol.
Imenso, conhecido, e tão brilhante sol há quilômetros de distância, mas que cabia em minhas mãos como um ponto ingênuo e luminoso. Meus dedos se abriam, fechavam, escondiam seu brilho e permitia novamente inúmeras vezes, até que eu me entediase e passasse a desejar o inverno para fazermos bonecos de neve na Park Avenue.
Sua imensidão aprazível e eloquente não pareciam importantes durante a infância, quando minhas botas afundavam na neve e eu arremessava em meus primos bochechudos bolas gordas e pesadas de gelo até que nenhum restasse em pé. Era divertido, um parque de diversões natural e muito aguardado durante o verão e ansiado próximo do outono quando as expectativas aumentavam com o passar do tempo.
Até que, com a adolescência e a vida adulta, o inverno perdeu as suas cores de visão infantil para que se tornasse cru, destrutível e fatal sob uma pilha de decepções, questionamentos e o temor dos dias seguintes, consequentemente, também do futuro.
Uma linha tênue entre a vida e a morte, a solidão e o aconchego, o calor e a frieza cruel, porventura o amor e o abandono, experiências de uma jovem a refletir. O erotismo e a inocência, afinal. Com os joelhos contra o peito, a lareira acesa, uma xícara de chocolate quente e o silêncio de uma cidade enterrada sob neve ponderei sobre tudo e escolhas que eu me arrependeria se olhasse mais de perto, refletindo em maiusculo. Quem sabe assim, então, eu pudesse compreender a bagunça impiedosa debruçada em uma pilha de dúvidas e “e se 's” que não ganhariam respostas tão cedo.
E essa linha parecia se encurtar cada vez mais, seguida de sensações que formigam da ponta dos meus dedos e sobem lentamente pelos membros, ativando meus nervos pouco a pouco, até que um sopro de vida fizesse meu peito pulsar novamente e o ar encher meus pulmões. Aquele grande e brilhante sol se aproximou e apertei os olhos com força, não só pela magnitude, mas pelo peso que me empurrava de encontro à superfície em que eu estava deitada. Vozes invadiram a minha mente, abafadas e que causavam cócegas em meu cérebro, acompanhadas de silhuetas quando os alcancei, o sol dando lugar a cabeças nebulosas que me olhavam de cima.
Não estava no campo, nem em Manhattan com meus primos no inverno. O oxigênio parecia denso, insuficiente para suprir e uma dor lancinante entre os olhos, um zumbido agudo que perpetuava minha consciência a um pânico inevitável. Movo-me, tento me levantar, mas meus braços não são capazes de se erguerem, tanto pelas mãos em cada parte deles, quanto pelos músculos doloridos que me impediam de forçá-los. Cada célula do meu corpo estava fraca, falhando gradativamente como peças de lego, onde gritei, berrei, rasgando a minha garganta e me sufocando.
Arregalei os olhos, a vista ardida e opaca com ligeiros cristais avermelhados enxergando rostos sem face, sombras e máscaras ofuscadas que gritavam em contrapartida. Ele me segurava, exclamava, apertava meus ombros para que eu parasse de me debater. “Acalme-se!” Escutei distante, “Cecilia”, onde ele sabia meu nome, pronunciando o que eu não fui capaz de entender. Cada vez mais vago, antes que tudo se tornasse escuro e meu corpo afundasse na área plana, mergulhada no breu infinito.
Era 22 de Junho e o hospital universitário de Warri em Delta foi bombardeado às 14:45, após os alarmes de emergência falharem e a queda de energia apresentar defeitos nos geradores de reserva. A explosão sucumbiu a maternidade, posteriormente a oncologia, levando a unidade de terapia intensiva e seus pacientes para uma pilha de destroços que não fui capaz de mover. Crianças, adultos, mães, avós, todos resumidos a pó de repente, ou ao que restou dos seus corpos cadavéricos desconhecidos à estatísticas.
Adubos substituíveis, inundando extensas áreas de terra lado a lado até que suas identificações lhe dessem alguma dignidade e seus nomes fossem entalhados em letras minúsculas como heróis da pátria.
Do pó viemos e ao pó voltaremos.
Insignificantes.
‣
Havia algo em Nova Orleans que eu jamais conseguiria descrever. Era bom, muito bom, acompanhado de um temor significativo, apertando minhas entranhas e as torcendo até que estivessem viradas do avesso. Algo como nostálgico, mesmo que eu nunca tivesse pisado entre o vermelho e o verde vibrante e os ferros forjados das varandas decoradas com lampiões, como uma pintura carregada de um tom amarelado que acompanhava minhas lembranças e que não parecia mais tão fictício como imaginei.
O azul dos céus não era como de Manhattan ou São Paulo, contendo um filtro retrô predominante que Tio Danny teimou não existir. Era como assistir filmes antigos, aqueles como o bebê envelhecido e uma cozinheira empoderada tornando-se um sapo com um príncipe pimposo, ou o jazz e o rhythm & blues elegante que fora minha canção de ninar. O tom opaco, alaranjado e aconchegante parecia pertencer a cada casa, calçada, as ruas asfaltadas e o cheiro agradável da praia de Santa Mônica, conforme Eric relatou por boa parte da minha infância.
Lojas com o estilo dos anos 50 estilizavam as calçadas de paralelepípedos que lhes davam um toque histórico e pitoresco em contraste aos hotéis com varandas ornamentadas e plantas ao monte. Imaginei-me alí calçando saltos baixos de bolinhas vermelhas, vestido rodado, pérolas sobre o colo e um chapéu charmoso no topo da cabeça, acompanhada de um novaiorquino de passagem ao som de Louis Armstrong e Ella Fitzgerald. Cantariamos na chuva se eu me esforçasse um pouco mais para imaginar como papai e Maíra se conheceram em meados dos anos 70.
— Não fode! — Danny gritou do banco do passageiro, provocando uma bronca nada gentil da motorista que por prudência não o acertou com um merecido tapa.
A face emburrada do homem causou-me um riso, mas me calei ao ter os olhos da mulher me devorando viva pelo retrovisor.
— Não vê o que ela está fazendo? Chega a ser um crime.
Apontou com o polegar repleto de calos por cima dos ombros, mirando na única passageira da parte traseira do carro, que por pouco não foi parar no porta malas devido a uma sugestão de Danny para pagar menos de multa caso fossemos atropelados por um poste no meio do caminho, com estas mesmas palavras. Ergui as mãos na altura do queixo, me rendendo a acusação.
— Você tem que admitir! Esse lugar cheira a Eve’s Bayou e A Princesa e o Sapo!
O homem rosnou como um cachorro raivoso e escondeu o rosto com as mãos, pude imaginar que ele revirou os olhos tão intensamente que eles ficariam tortos por um tempo. Tampei minha boca para que Maíra não percebesse as minhas intenções. Adorava provocar Tio Danny e seu pavio curto deixava tudo ainda mais divertido dentro de um automóvel tão pequeno em que ele não poderia chutar móveis ou esmurrar paredes. Não que ele fosse alguém violento, mas a família Veneza não era fácil de lidar ao serem contrariados, o charme que os novorleanenses carregavam com sua história.
— Ainda dá tempo de fazermos dela uma órfã? Podemos deixar ela na frente de alguma dessas casas, bater na porta e correr para que não tenham chances de nos devolver. Até compro fraldas e mando de presente, nos fariam um grande favor. — Ele disse para Maíra e a mulher deu uma risada gentil, balançando a cabeça em negação.
— Vamos Danny, ela é cheia de opinião, deveria pegar mais leve. É mais parecida com você do que imagina.
Vi os ombros do homem descerem lentamente em um suspiro e os de Maíra notavelmente rijos de tensão enquanto as palmas tingiam de suor a borracha do volante, atenta ao caminho ainda que estivesse a menos de 30 quilômetros por hora. Talvez fosse a razão de Danny estar tão estressado e eu de iniciar uma pauta tão inútil e tendenciosa para passar o tempo. Ela dirigia em seu tempo, superando seus medos, suando frio, e eu e o Tio acabaríamos nos matando em algum momento do trajeto porventura mas nenhum de nós ousaria pressioná-la naquele momento.
Do banco de trás, eu vez ou outra apoiava a mão na altura de seu pescoço, tentando amenizar sua ansiedade na direção.
— Deveria perder seu tempo fazendo filhos e sendo a mulher de algum azarado, não discutindo comigo como uma menininha mimada.
Resmungou, os braços cruzados tal qual uma criança, olhando as ruas que passavam tão lentamente em sua janela que era possível memorizar até mesmo as rachaduras da calçada e quantas casas precisam de uma nova pintura.
— Ah, que fofo — Levei a mão ao peito, sorrindo como uma camponesa gentil às declarações daquele homem ranzinza. — Me sinto lisonjeada por querer que eu não tenha uma vidinha miserável de velho infertil e traído como a sua.
Inclinei a cabeça e encolhi os ombros, fingida, deixando tapinhas em sua cabeça antes de pular para fora do carro ao perceber que Maíra havia estacionado no meio fio e agora limpava sua testa orvalhada de suor. Deslizei meus polegares pelo interior das alças da jardineira jeans e rodopiei pelos calcanhares, acompanhando meus companheiros com o olhar.
— É aqui?
Mamãe indagou olhando para o alto, os olhos em linhas finas e a mão sobre eles para tentar enxergar as janelas do apartamento e o corretor de imóveis. Esse, por sua vez, acenava da clarabóia enlouquecidamente, a mão de dedos esguios e quase transparentes sendo a única parte visível do homem.
— Acho que sim, ou é só um tarado maluco chamando as suas vítimas para o abate.
Observei colocando as mãos na cintura, acompanhada do tio Danny que vestia o boné surrado dos fuzileiros navais e coçava a barba ligeiramente grande que o fazia parecer um pobre moribundo abandonado na calçada.
— Que vai nos matar com o seu bolo de chaves e conselhos sobre como reformar tapetes manchados de sangue.
— Andrei D'Giorno.
O corretor cumprimentou, a voz tão esganiçada quanto seus trejeitos, oferecendo aqueles mesmos dedos que acenaram como um desenho animado cômico. Um pensamento retrógrado, claro, mas tive que trocar olhares com Danny antes de apertar, descobrindo que era tão gelada e mole como a mão de uma querida senhora em seus dias finais.
Mamãe foi a única dentre os três que pareceu de fato se agradar com o cumprimento simpático do tal Andrei italiano, sorrindo tão carismática quanto quando encarava cada canto do apartamento como se estivesse na Capela Sistina com o próprio Papa lhe apresentando cada metro quadrado. Ainda que parecesse malvado da nossa parte zombar de um pobre corretor de imóveis, não havia pena alguma quando se tratava do atual marido da ex-esposa de Danny, com quem ela o traiu há alguns anos atrás. Antes daquele encontro amigável que mamãe havia arranjado, foram horas e horas rindo exageradamente e supondo que o tio acabaria se afogando no rio Mississipi, não muito longe dali.
O que estava cada vez mais próximo visto a cara que Danny fazia a cada palavra desordenada que saía da boca italiana daquele homem.
— Ela sabe que provavelmente estão tentando nos alugar um apartamento onde viciados morreram de overdose? — Ele sussurrou rente ao meu ouvido, encarando a cena à frente onde Andrei apresentava a caixa de descarga embutida no vaso sanitário para Maíra.
— Não, e também não sabe que foi naquele banheiro que provavelmente Elvis Presley morreu cagando.
Danny soltou um som semelhante ao guinchar de um porco, gargalhando da piada infame que fiz com seu cantor favorito. Os dois encararam nós dois por alguns segundos, confusos, antes de voltarem à sessão educativa sobre o esgoto e as chances de ratos invadirem as bundas dos moradores pela privada.
— Você é o diabo!
Joguei o cabelo pelos os ombros, agradecendo o elogio com um sorrisinho presunçoso. Dei meia volta e saí pela porta que dava acesso a uma área externa, me debruçando sobre o parapeito, tendo a visão privilegiada do Blue Nile, o clube de Jazz que papai frequentava nos anos 70.
Boa parte das minhas motivações para aquela consulta com o Andrei D'nojo — Como apelidei carinhosamente — era o apego emocional com a Frenchmen Street, mesmo que só a conhecesse pelos olhos do meu pai. As histórias contadas pelo senhor Eric Veneza naquela famosa avenida do Blues tinham sido meus contos de ninar durante toda a infância, e mamãe não exitou em sugerir que eu vivesse em Nova Orleans e buscasse residir no East Hospital depois que terminasse a faculdade se eu quisesse continuar nos Estados Unidos. Já fazia dois anos desde a morte do meu pai e era a primeira vez de Maíra no país nativo de Eric, depois de muita insistência para que a tivesse de volta na minha vida e não se entregasse à mais uma crise depressiva.
E lá estava ela, tão emocionada com os papéis de parede antigos e o cheiro de mofo dos carpetes intocados.
— Quero te dar o disco autografado de Billie Holiday quando se mudar. — Disse Danny de repente, se debruçando na varanda.
Olhei-o, o nariz enrugado e os olhos diminutos pela claridade do sol.
— Não, é o presente dele a você. Não posso e nem vou aceitar.
Esclareci, voltando a olhar para a rua e os carros que faziam a curva para a Esplanade Avenue.
— Não foi uma pergunta, Ceci. Quero que tenha algo de Eric sem que seja esse bendito colar com as cinzas dele. — Danny gesticulou com aborrecimento, desde sempre indignado com a existência daquele pingente que eu nunca tirava do pescoço.
Eu ri, pousando a mão sobre seu ombro e deixando uma leve carícia alí.
— Não dizem que Nova Orleans é a cidade dos vampiros? Depois que bebi o sangue dele, esse é o meu lugar.
Danny enojou-se, empurrando a sua sobrinha querida para longe, e não pude evitar pular em suas costas.
‣
O oxigênio preencheu meus pulmões e abri os olhos, de volta a um estado de semiconsciência. A visão turva mirou o alto, materializando em borrões inicialmente e, em seguida, em formas mais definidas aos poucos. A estrutura de um teto branco, acompanhado de luzes tão brilhantes quanto que irradiou uma dor lancinante no interior da cabeça. Precisei fechar os olhos, respirar fundo, sentindo minhas narinas arderem e provocar uma tosse dolorosa que repeliu uma aparente fuligem escura sobre o lençol fino que cobria meu corpo.
Gradualmente foquei no tecido fino, a parte inferior movendo-se lentamente em uma dança que só existia em meus olhos devido a uma possível contusão na cabeça. O formigamento retornou em meus dedos, onde reparei existir um cateter intravenoso um pouco acima que provavelmente me trouxe de volta à vida. Há quanto tempo eu estava lá? Horas? Dias? Semanas? E que lugar era aquele se não Warri?
Tentei me mover, uma pontada de dor se manifestando na base da coluna, semelhante aos ombros, nuca e meus braços flácidos ao lado, como se os nervos tivessem rompido e impedisse que eu os deslocasse. Tudo doía, implorando silenciosamente por analgésicos fortes, mas eu sabia que já estava sedada e nadando em seus feitos colaterais, as cortinas sinuosas e manchas coloridas embaçando minha visão.
Bandagens e ataduras cobriam ferimentos que eu sequer me lembrava, e a pressão em minha testa não parecia vir de dentro, mas sim de uma faixa que confirmei existir quando toquei os dedos cuidadosamente. Gemi, arfei, também havia uma faixa contornando o meu tronco, e não precisei tocá-la ou vê-la para ter certeza. Talvez uma ou duas costelas quebradas, não me surpreenderia se a dor em minha coluna também fosse alguma lesão grave que me deixaria em uma cadeira de rodas pelo resto da vida.
Eu ainda não tinha tentado sentir minhas pernas, aliás.
Meu coração disparou de repente e a respiração acelerou, encarando o que seria eles sob o tecido fino que cobria do meu tronco para baixo. Não queria. Não estava disposta a saber se elas funcionavam e se estavam saudáveis como o restante do meu corpo. Boa parte de mim havia morrido naquele bombardeio,mas ainda estava inteira, pelo menos o que estava em meu campo de visão e não queria ter que saber se alguma parte de mim ficou em algum lugar de Warri.
O monitor cardíaco emitiu um bip insistente, denunciando o pânico que até então fora silencioso. Ainda mirava meus pés quando as cortinas se abriram, iluminando ferozmente meus olhos com o que parecia ser as lâmpadas do extenso teto que não terminava naquele espaço pequeno em que eu estava. Apertei os olhos com força e resmunguei dolorida, escutando pés se aproximarem e dedos atingirem a máquina hospitalar, o som sumindo por alguns segundos até que voltasse ao normal.
— Doutora Veneza. — Uma voz masculina e calma entonou, esperando que eu o olhasse.
Abri os olhos aos poucos, virando a cabeça em sua direção, o travesseiro macio aliviando um pouco o desconforto em minha nuca. A presença alta e robusta tinha cachos castanhos, pele bronzeada e um rosto juvenil sob uma máscara hospitalar, usando um traje cirúrgico azul que cobria o que parecia ser outro uniforme. A parte mais visível dele eram cílios volumosos e olhos gentis que me olhavam piscantes.
— Você me deu um susto.
Seus olhos diminuíram no que julguei ser um sorriso e ele tirou a máscara, confirmando as minhas suspeitas. O homem tinha um sorriso agradável.
— Como se sente?
Ponderei, questionando-me como eu me sentia sob toda a confusão. Li em letras miúdas em uma identificação em seu peito o nome Alexander Fernandez e algo como “enfermeiro” um pouco abaixo. Ele reparou pois pressionou os lábios antes de falar.
— Você está próximo a Rann, Borno, no hospital de campanha do exército. Foi trazida há dois dias em uma operação de resgate. — Informou. — Fizemos o que esteve ao nosso alcance desde então.
Voltei minha visão às pernas, o murmúrio de conversas fora das cortinas confirmando suas palavras. Atrás dele, podia ver outras macas, outros polos envoltos de cortinas, e enfermeiros com as mesmas roupas caminhando por entre eles.
— Minhas…
Tentei dizer, descrente que conseguia pronunciar qualquer palavra sem vomitar ou desmaiar pelas náuseas que me consumiam cada vez mais. O cacheado também entendeu o que eu queria dizer, olhando para o meu rosto antes de segurar na parte inferior do lençol e ergue-lo, me dando visão de uma perna envolta por bandagens e outra com algumas aparentes ranhuras cobertas por curativos adesivos. Estavam alí afinal, o que tornava tudo menos pior naquela altura.
— Você sofreu uma rachadura no joelho, seu ferimento mais grave, e imobilizamos assim que chegou. Ele ficará bem.
Balancei a cabeça em compreensão lentamente, lambendo meus lábios secos com calma, sentindo o gosto amargo tenebroso em minha boca.
— O que… — Insisti em falar, respirando fundo e limpando um pouco a garganta ardida. — foi de Warri?
Alex se manteve em silêncio por segundos a mais do que pensei ser um bom sinal. Ele segurou no apoio de metal da maca e abaixou a cabeça, enchendo o peito antes de prosseguir.
— Você foi a única que eles trouxeram, Doutora. Warri se tornou um cemitério. Havia muitos corpos e eles—
Virou o rosto e vi seus cílios baixarem, seus olhos fechados e engolindo o ligeiro embargo que notei em sua voz.
— Eles não sabiam quem estava morto e quem morreria em pouco tempo.
— Como me encontraram? — Indaguei baixo, quase em um fio de voz.
Alexander apertou o ferro sob as palmas e voltou a me olhar, parecia ser difícil para ele me contar sobre meus amigos, pacientes e colegas mortos. Deveria ser difícil para mim também, mas não havia nada, nenhum sentimento pulsando em meu peito, seja ele tristeza, felicidade ou apatia por aquelas pessoas.
Eu também havia morrido com elas e uma parte de mim queria que isso fosse verdade. A guerra tirou de mim o que me tornava viva, e os mortos entenderiam isso onde quer que estivessem.
— Você lutou para sobreviver. O que sei é que estava sob destroços e eles lhe deram uma chance, seja lá o que tenha feito. E estavam certos.
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