A guerra não parecia letal sob aquelas perspectivas. Havia sorrisos em cada face, uniformes limpos, palavras atenciosas e risadas que ecoavam por toda a extensão do hospital, despreocupados. Os residentes dali não aparentavam possuir cicatrizes, tampouco uma visão desagradável do que era estar sob um ataque. Eles riam, e seus risos não continham medos, temores, e não se equiparavam preparados para correr caso as sirenes os alertasse de um ataque iminente. A guerra era uma consequência, não um sacrifício do povo para que políticos enraizassem seus egos diante de seus próprios interesses.

Um paraíso ao lembrar que Warri se tornou um cemitério a céu aberto e eu era a única a sentir na pele o que ambições pessoais causavam nos desafortunados diante do poder governamental.

Portanto, eles não precisavam se importar, afinal. Não era com eles, a luta pertence a quem é corrompido pelo sistema, seja lá em qual equação lhe submetam. Se está abaixo dos escombros ou se é você quem ordena derrubá-los. Era um pensamento egoísta meu desejar que eles se importassem um pouco com o que ocorre fora daquelas instalações.

Alexander acendeu uma lanterna de bolso e abriu um dos meus olhos com os dedos, impedindo que eu os fechasse. Resmunguei e seu rosto sumiu com a iluminação, pulando para o próximo me deixando ligeiramente cega com cristais brancos pulando em minha pupila.

— São protocolos, por acaso se esqueceu disso?

Só então reparei que meus lábios estavam enrugados em uma carranca e eu o olhava como se fosse abocanhar seu pescoço impiedosamente. Alex pareceu se divertir com a minha expressão irritada de quem sofreria com uma crise de enxaqueca.

— Você está bem, só um pouco expressiva demais. — Moveu as mãos com as palmas voltadas para mim. — Como se sente, Veneza? Honestamente.

Desviei a atenção, ficando em silêncio, sem saber ao certo o que ele queria escutar. Fisicamente e emocionalmente letárgica, mas não era isso que Alex parecia querer ouvir. Ele esperava sinceridade, quem sabe um sopro de emoção e fragilidade que eu não havia demonstrado desde então. Eu não era boa nisso, mas poderia me esforçar pela figura agradável à minha frente.

— Bem. — Ditei baixo, mas o suficiente para que ele escutasse. — Me sinto… viva.

Ele mudou o apoio dos pés e guardou a lanterna em seu bolso, sem dizer nada, o que julguei ser um incentivo para que eu continuasse.

Eu não pretendia fazer isso antes, Fernandez…

— Sinto como se… — Tentei novamente, gesticulando com os dedos sobre o colo, o máximo de esforço que conseguiria no momento. — Respirasse.

— Você já disse que se sente viva.

— Como se meu coração batesse.

— Ok, e lá vamos nós de novo.

Soltei o ar com peso, cedendo à minha incompetência de descrever sentimentos inexistentes. Estou bem, viva, respirando e meu coração pulsa como de um recém nascido saudável, ainda que o restante de mim implorasse por um pouco de ópio ou uma pancada forte com um taco de baseball para que a dor parasse e eu acabasse dormindo até que meu corpo fosse útil novamente. Não havia mais nada.

Ele suspirou, juntando os braços em frente ao peito enquanto o indicador mantinha pendurado a máscara que usava quando chegou. Me recordaria dela quando pensasse em Alex outrora.

— Vou te dar um tempo para que entenda o que sente. Sei que é difícil e espero que em algum momento saiba colocar em palavras o que se passa aí dentro. Seja aqui — Apontou para a perna fraturada, em seguida para a minha testa. — Ou aqui.

Um sorriso curto, porém honesto, apareceu em meus lábios, e não pude evitá-lo desta vez. Contente e agradecido, ele estava atento demais a mim para que não reparasse. Revirei os olhos, fingindo casualidade naquelas palavras.

— Você diz isso para todas?

Ele balançou os ombros em uma risada, caindo na brincadeira.

— Só para aquelas que não podem correr atrás de mim se me ouvirem falar o mesmo para as vovozinhas.

Soltei um riso, mas gemi ao sentir a dor terrível que as fraturas nas costelas causavam. Choraminguei sem pudor algum, Alex puxando o tecido que cobria meu corpo e batendo uma só palma antes de contornar a maca.

— Vamos nessa.

Segurou meu corpo flácido e lesionado pelo quadril coberto pelo pijama hospitalar e ataduras, conduzindo-me para fora da cama. Segurei as muletas entregue por ele e Alex me soltou aos poucos, como um pai orgulhoso ao ver seu filho andando de bicicleta pela primeira vez. Ri em um sopro calmo dessa vez, Alex enfiando as mãos nos grandes bolsos de seu uniforme azul e começando a caminhar, forçando-me a acompanhá-lo.

— Belo sorriso, bichito.

E continuamos, sem que notasse o rubor que pigmentou minhas bochechas.

Pollack desceu cinco doses de tequila sobre o balcão e o estrondo das palmas no carvalho finalmente cessaram, dando início a risadas embriagadas e arrastadas. Leo, o mais velho e o único ruivo do grupo, ergueu o copo meio cheio da sua cerveja quente e aguada, esperando que a fileira de pessoas grudadas ao balcão se calassem para que começasse seu discurso.

— Meus queridos colegas, e alguns nem tão queridos assim. — Olhou para César, provocando risadas da turma e as mãos do citado para o alto em defesa. — Quero agradecer por estarem aqui e por dividirem esse momento especial comigo. Foram 7 anos de muita dedicação, risadas, lágrimas, amizade…

E danou-se a chorar, assim, repentinamente com seu rosto vermelho e os soluços fazendo seus ombros pularem. Eu fazia parte daquela fileira de pessoas alcoolizadas e de sorrisos frouxos, ainda que não estivesse tão descontrolada quanto Tini, a de cabelos de fogo e pele de ébano, que cantava enlouquecidamente Blood of Heroes da banda Týr com seu namorado Michael e o namorado do seu namorado, Timothée, com quem dividia o microfone. A grande maioria foi acudir o triste Leo, enquanto John e eu observava a emoção que havia tomado conta de pelo menos três dos amigos que abraçaram o ruivo e agora choravam copiosamente em uníssono.

Era o fim de uma fase e todos nós sabíamos que não nos veríamos com tanta frequência depois da formatura. Havíamos estudado longos cinco anos juntos, dividindo um quadrado de carteiras no auditório e tendo ingressado juntos em estágios hospitalares, fugindo dos nossos respectivos plantões para dividirmos o bolo de cenoura que a mãe de Stifler fizera com tanto carinho. Ao todo, foram sete anos acompanhada daquelas pessoas, conhecendo suas qualidades e defeitos, mas que não passariam de memórias e rostos conhecidos daqui em diante.

O aperto de John foi capaz de me trazer de volta para a realidade, podendo novamente aproveitar dos últimos momentos ao lado deles.

— Alguém vai morrer?

Ele perguntou com um sorriso cínico, esfregando a borda do copo de vidro entre os lábios enquanto me olhava. A expressão em meu rosto foi o suficiente para que ele deixasse a cerveja de lado e se defendesse da fala antipática quanto às emoções dos meus amigos.

— Ok, eu sei que é difícil, mas você finalmente está formada, ‘Lia. Deveria estar feliz ao invés de chorando as pitangas por pessoas que obviamente — Abaixou o tom, inclinando-se para mim. — Não acrescentam nada a sua vida.

— Acha que eles não acrescentam?

Questionei com honestidade, arqueando a sobrancelha em sua direção. John não parecia flertar com achismos, mas com certezas que eu definitivamente custaria entender.

— Eles não irão acrescentar, é diferente. Sei que ainda é cedo e esse “espírito universitário” está aí dentro te deixando sensível com novas mudanças, mas é necessário colocar a cabeça no lugar e criar objetivos. Vamos nos casar em alguns meses, oito para ser mais exato, e finalmente meus pais poderão ir a cerimônia.

John depositou um toque crítico com os nós dos dedos indicador e médio em minha testa, me dando um leve empurrão que provocou um bico aborrecido em meus lábios. O homem sorriu docemente com seus lábios ressecados e os olhos diminutos, envoltos de olheiras profundas que não estavam ali há dois anos atrás.

— É isso que queremos, e é nisso que precisamos pensar. — Finalizou, assim como o restante da cerveja que desceu pela garganta, empurrando seu pomo de Adão.

“É isso que queremos”, ponderei, “é nisso que precisamos pensar”. Inclinei a cabeça para o lado discretamente, olhando para a luminosidade no balcão e estreitando meus olhos. John era um homem alto, esguio, que usava ternos no calor e deixava a barba por fazer em uma clara repetição do tal “trabalhe enquanto eles dormem”, considerando um incentivo para que se jogasse de cabeça no trabalho e não se importasse com mais nada além do escritório.

Inclusive o próprio relacionamento que oscilava entre o frio e o morno.

Nunca quente, aliás. Sempre o mais do mesmo, que eu já conceituava parte do meu dia a dia e não fazia nada para mudar. Minhas opiniões eram as dele, minhas escolhas também, e vivia bem daquela maneira, no mínimo conformada com a vida medíocre que todos os adultos vivem depois dos 21. Achava que um diploma, um namorado e uma família estável eram o suficiente para que eu fosse aceita dentro da sociedade padronizada — lê-se os pais rigorosos e personalidades conhecidas de John — e, porventura pudesse me sentir completa realizando o sonho americano que mamãe tentou encontrar nas terras do Tio Sam.

Mas então, diante da suposta marmelada que eu me meteria em oito meses, repentinamente já não parecia tão correto quanto me fizeram acreditar. Seria um erro catastrófico dentro da minha vidinha superficial que eu imaginava consertar o vazio que o divórcio dos meus pais deixou depois de tantos anos. Sem dúvidas, não era o que eu precisava, nem o que eu queria dali para a frente.

— Que monstro te mordeu? — Tini perguntou escorada ao meu lado, encarando John como se dissesse que o tal monstro era ele.

— O certo é “bicho”. — Ele a corrigiu, mas a mulher não pareceu escutar.

— Vamos dançar, está muito ‘xoxa' para quem acabou de se formar!

Fui puxada para a pista, onde os demais se divertiam ao som de alguma música latina que não fui capaz de distinguir, mas que fazia Michael e Timothée juntarem as mãos em oração e gritarem a todos pulmões “A Dios Le Pido”.

O hospital de campanha consistia em um espaço dividido em áreas distintas, a triagem, e leitos independentes criando corredores e mais corredores, quando não estavam encostados nas paredes em polos com arcos semicirculares limitados por cortinas para a privacidade dos pacientes. A estrutura, módulos pré fabricados e interligados, era alta e larga, abrigando enfermeiros, enfermos e equipamentos médicos simples, o suficiente para a necessidade da região e do que a unidade móvel tinha como objetivo.

Em meio ao passeio tortuoso de passos pesados pela invalidez de uma das pernas e o atrapalho com as muletas, Alex se ofereceu como guia, ainda que eu quisesse pedir para que ele se calasse, sentindo minha cabeça latejar com as prováveis horas que eu precisaria escutá-lo. Mas, ao contrário do que imaginei, não foi difícil suportar seu falatório.

Near Moholo, em Kala-Balge no estado de Borno, poderia ser descrita como uma província deserta, uma vasta área de quilômetros e quilômetros de um campo inóspito, próximo a cidade de Rann, uma região antes gerenciada por grupos criminosos e o narcotráfico. De acordo com ele, mais de quarenta mil pessoas estiveram desabrigadas, enfrentaram graves carências alimentares e desnutrição, abandonadas pelo governo, o que tornou acessível para organizações humanitárias que migraram com a base militar norte-americana após anos de tentativas falhas de aprovação.

Onde antes já sofria com a escassez de comida e os conflitos internos perigosos, se fez propensa para testes bélicos por muitos anos, exterminando boa parte de seu povo até que os que restaram se deslocaram pelo meio do deserto para a cidade mais próxima. Desumano e cruel, Alexander não conhecia tantos sinônimos para se referir a isso. No fim, os políticos utilizaram como “efeito contágio” — quando os impactos e consequências provocam a presença de outros países no conflito — para pressionar os Estados Unidos a lutar quando a batalha já havia tomado um lado, que certamente não era o deles.

O que deu certo, posto isto, visto que tudo aquilo ao nosso redor pertencia a eles e as chamas do combate ainda estavam acesas, levando cada vez mais vidas sem precedentes.

Alex finalizou sua palestra educativa contando sobre as missões do exército, mas não escutei mais nada além do “heróis da pátria” que encheu seus beiços de maneira orgulhosa. Algo que os Jones ou os Trump diriam, balançando suas bandeiras estadunidenses nas janelas de suas mansões, cantando o hino nacional e assando uma ave certamente em extinção para comemorarem o 04 de Julho como verdadeiros patriotas conservadores. Jamais pagadores de impostos ou de taxas tirânicas, mantidos pela classe trabalhadora, nunca os desfavorecidos nas mãos de obras escravizadas por cabeças brancas autocratas.

Mercenários legalizados, era o forte dos norte-americanos conquistar o mérito de lutas que não lhes pertence, com a insígnia da bandeira encharcada de sangue estampada na lateral de seus ombros direitos. Pessoas como Alexander jamais entenderiam quem é o verdadeiro inimigo até que a mira da arma estivesse apontada para as suas cabeças.

Paramos há alguns metros da entrada principal e o bronzeado fechou rapidamente a fresta da tenda, impedindo que eu olhasse pela curta abertura da lona o que havia do lado de fora. Meus olhos diminuíram instantaneamente, encarando-o e esperando alguma explicação lógica acompanhada de seu sotaque porto-riquenho.

— Dê um passo à frente do outro, não queira correr. Ainda está em recuperação e essa belezinha precisa de descanso. — Apontou para a perna velada envolta das ataduras. — Faremos esse percurso até que esteja pronta para conhecer o alojamento.

Enfiou as mãos nos bolsos, ainda com seu corpo barrando minhas chances de fugir daquela unidade. Eu não teria chances contra ele, eram cerca de 1,80 contra 1,64 de altura, além dos braços fortes e incrivelmente atraentes de cor barrosa que se cruzaram ao notar como o sequei de cima a baixo.

— Está flertando ou devo me preocupar com você acertando minhas bolas?

Alex arqueou a sobrancelha. Soltei o ar com força e me virei, tentando fingir que sua primeira constatação não aqueceu minhas bochechas consideravelmente. Uma mania muito desagradável, aliás.

— Quando voltarei ao campo?

Voltamos a andar.

— Quando se recuperar.

— Isso é muito tempo.

— Vai melhorar logo, confie em si mesma.

Rolei os olhos, balançando a cabeça negativamente.

— Eu sou médica, sei quando está tentando ser gentil e não realista. São de 6 a 8 semanas, isso se não for uma fratura na tíbia que eu precisaria de fisioterapia até que meus tataranetos tivessem os seus. Eu não posso definhar, não enquanto tem pacientes aqui que precisam de mim.

Abaixei a cabeça ao ver um grupo de médicos acompanhados de dois soldados segurando uma caixa de madeira em suas laterais e soltei um suspiro árduo, buscando evitar os pensamentos incongruentes ao estar cercada de militares. A presença deles causava um frio desconfortável no pé da barriga que Alexander pareceu não notar em minha face.

— Não vai cuidar de ninguém se antes precisar de cuidados e tem uma equipe bem estruturada e preparada para tratar daqueles que precisam, Veneza. Cuide de você e facilite meu trabalho, estou disposto a te submeter a cirurgia só para colocar seu pé grudado na coxa.

Puxou a cortina do meu quarto para que eu entrasse e assim o fiz, ainda carregando a carranca por ser contrariada e pela sutil dor que a falta dos analgésicos já me causavam. Fui acomodada de volta à cama com o lençol e o travesseiro ajustados, quando notei uma placa de identificação militar sob o uniforme de Alex. A corrente passaria despercebida se não fosse um movimento para baixo que denunciasse a peça.

— E eles? O que fazem aqui?

Apontei para o seu peito com o indicador abrigando de volta o oxímetro em sua ponta, e não precisou de muito para que ele entendesse de quem eu estava falando.

— Alguns ajudam na cozinha, alojamentos, lavam e passam, enquanto outros seguem seus plantões fora da base. Esses fazem o trabalho pesado, como operações de resgate ou o tal do piu piu piu solidário. — Fez um barulho com a boca, semelhante ao som cômico de uma arma. — Os verá com frequência.

Respondeu com a atenção voltada aos aparelhos ao lado, os configurando corretamente.

— Por que?

Sacudi a cabeça em recusa, sem mais, me contentando com o pouco que meu estômago aguentaria sobre eles. O amargor em minha garganta e o leve tremor em minhas pálpebras relembraram-me da cor de suas botinas e do sangue respingado nelas.

《♡》