Sob minha pele

50 Capítulo 50


Mel.

Juro que eu não estava esperando por isso. Mesmo quando fui ao mercado há dois dias e percebi que as grandes máquinas haviam voltado. Fiquei com um nó na garganta durante o dia todo. Não quis pensar no assunto mesmo quando meu coração gritava e batia tão forte no peito apenas com a ideia que se passava por minha cabeça. Apenas com a possibilidade. Eu lembrava muito bem o que viera junto com esses acontecimentos da outra vez, e nem em um milhão de anos eu imaginaria que aconteceria de novo. Na verdade, eu não queria pensar no assunto. Não queria analisar o que tudo aquilo significava. Mesmo já tendo uma certa ideia.

Não esperava também ficar tão agitada com a ideia de tudo aquilo ter tanto poder sobre mim. Eu e o Rafael estamos nos dando bem. Estamos indo devagar. Não temos nada formal ainda, mesmo que eu veja em seus olhos o quanto ele quer isso. O quanto ele quer que nós assumamos um relacionamento sério. Eu apenas decidi esperar, para ver se era aquilo mesmo que meu coração queria.

Mesmo sabendo desde sempre o que meu coração sempre quis.

E eu decidi ignorar!

Eu estou tentando ignorar agora mesmo a avalanche de emoções incontroláveis que estão me invadindo.

Eu não acredito que ele está aqui!

Meu coração bate tão forte que eu tenho medo de acabar passando mal. Minhas mãos estão suando, e eu estou lutando contra o impulso de correr até ele e abraçá-lo, e beijá-lo. Mas eu não vou fazer isso.

Eu o odeio!

Odeio!

Odeio por ele ter ido embora. Odeio por ele ser um cretino insensível. Eu não quero amá-lo. Não quero sentir nada disso que estou sentindo agora. Eu queria poder desligar tudo o que ainda resta em mim que está diretamente ligado a ele. Eu me sinto uma idiota por ainda amá-lo depois de tudo.

Odeio ainda sentir tudo isso...

Ele ainda está ali. Parado. Com as mãos nos bolsos. Seus olhos vagueiam por todos os lugares como se estivesse observando o lugar e param em mim de cinco em cinco segundos.

Vê-lo agora depois de tanto tempo me dá vontade de chorar. Ele continua tão lindo como na última vez em que eu o vi. Seus cabelos não são mais longos, estão agora em um corte bem feito. Sua barba está maior também, suas roupas são mais formais, sua postura também. Ele parece mais velho, mas mesmo assim sem perder seu ar jovial. Ele ainda é o homem por quem me apaixonei há três anos. Ele ainda é o dono do meu coração. Ele é o pai do meu filho. Ainda é ele, e depois de tanto tempo eu ainda sinto a mesma coisa, só que mil vezes mais forte e mil vezes mais dolorosa.

— Não sabia que tinha voltado. – Murmuro depois de vários minutos constrangedores em que não parávamos de nos encarar.

Ele suspira alto como se fosse um alivio ouvir algo saindo da minha boca.

— Eu cheguei hoje. — Diz com os olhos verdes injetados em mim, e assim, tirando o ar dos meus pulmões. – Não tem muito tempo.

Obrigo minhas pernas a ficarem firmes enquanto me levanto da cadeira, encontrando forças dentro de mim para não fraquejar agora. Não posso fraquejar. Dou alguns passos até ele para encará-lo de perto.

Não posso chorar agora.

Encaro seu rosto. O rosto que está em meus sonhos todas as noites. O rosto que me persegue há tanto tempo. Os mesmos traços que enxergo em meu filho todos os dias. Seus olhos ainda transmitem o mesmo amor, o mesmo carinho. E isso é demais para mim. Eu realmente não sei o que dizer. Eu não sei como agir. Eu deveria ser educada? Deveria ter uma conversa normal? Ou eu deveria seguir meus extintos e jogar toda essa raiva e frustração que eu alimentei e que cresceu, e muito, durante esses três anos?

Devo reconhecer que estou muito mais inclinada à segunda opção!

— O que está fazendo aqui John? – Pergunto com a voz entrecortada sem tirar meus olhos dos seus. Ainda não acreditando que ele está aqui. Tão perto.

De todas as emoções a que mais se sobressai é a raiva.

Raiva por tudo o que ele me fez passar.

— Eu vim trabalhar outra vez – ele parece um pouco hesitante, como se fosse demais olhar para mim — nas terras...

Ergo minha mão e o corto antes que ele prossiga.

— Não é isso o que eu quero saber. – Vejo a surpresa em seu rosto. – Não me importo com o que você faz. Eu quero saber o que você está fazendo aqui. – Termino ríspida.

Sei que estou sendo dura. São muitos anos, anos de mágoas, anos em que eu quis dizer tantas coisas e não pude. Anos em que eu desejei que ele estivesse aqui e que eu pudesse me enrolar nele, em que eu pudesse chorar em seu ombro quando as coisas iam de mal a pior. Eu nunca pude. Ele não me deu essa opção.

Ele não estava aqui!

Ele engole o seco. Pisca algumas vezes como se estivesse procurando as palavras certas.

— Eu precisava ver você. – Diz baixinho como se fosse uma confissão. – Eu só precisava ver você.

Não suporto olhá-lo e ver a mesma expressão em seu rosto. A mesma expressão de quando ele dizia que eu era o seu mundo.

Sinto meu coração se despedaçando dentro do peito. Quantas vezes eu quis ouvir isso. Quantas vezes eu precisei que ele estivesse aqui. Ele nunca esteve.

— Depois de três anos? – Minha voz soa fria, gélida. – Você precisou me ver depois de três anos? Acho que é um pouco tarde para isso John!

— Eu precisei te ver todos os dias nesses últimos três anos. – Diz energético dando um passo a frente como se tivesse a intenção de se aproximar de mim. – Eu apenas não sabia como fazer...

— Você sabia sim como fazer. – Digo ríspida. – Sabia muito bem, porque eu nunca saí daqui. Você pareceu achar muito rápido o caminho até aqui agora. Então não me diga que não sabia como fazer, quando você teve todas as oportunidades, mas simplesmente decidiu ignorá-las! Decidiu me ignorar!

Ele parece surpreso com minha explosão repentina.

— Eu achei que precisávamos conversar. Tudo acabou muito rápido, e as coisas não ficaram claras entre nós dois Mel. Nós deveríamos ter conversado melhor. Não sei – diz exasperado – deveríamos ter esclarecido as coisas.

— Ficaram muito claras para mim! – Esbravejo. – Muito claras mesmo! Não se preocupe com essa parte. Ficou tudo muito claro, principalmente no momento em que eu vi você colocar as malas no carro e ir embora. Ficou muito claro quando você decidiu ir embora sem nem tentar falar comigo! – Nesse momento eu já estou chorando, e eu não me importo que ele me veja. Eu quero que ele veja o que ele fez comigo. – Por que você está aqui agora?

— Eu sinto muito Mel. – Diz e sua voz partida quase me faz vacilar. Seus olhos com lágrimas quase me fazem vacilar. – Juro que não queria te magoar. Eu sei que errei...

Eu estou com tanta raiva...

— Você não sente John. – Sussurro enquanto limpo minhas lágrimas violentamente com as costas das mãos. – Você não sente nada. Você não sentiu metade de tudo o que eu senti.

Dou as costas para ele, tentando em vão me controlar. Minhas mãos estão tremendo. Meus pulmões estão gritando. Meus olhos não me obedecem. Eu não quero explodir, não quero fazer papel de idiota, mas eu não estou conseguindo me controlar.

Eu quero tanto bater nele!

— Naquela hora – ouço sua voz baixa, e isso faz meu coração ter um tranco – eu achei que era o certo a fazer. Eu me arrependo muito de ter ido Mel. Se eu pudesse voltar atrás eu mudaria muitas coisas. Eu fiz escolhas erradas, e eu sei que a culpa foi minha. – Eu posso sentir o arrependimento em sua voz. – Mas estando aqui de novo eu sinto que era o certo a se fazer. Eu precisava te ver.

Sinto suas mãos se encostando aos meus ombros, e eu me desvencilho com violência dele.

— Não encoste em mim! – Digo na defensiva. Ele deixa suas mãos caírem ao lado do seu corpo. – Pois eu não me arrependo de nada! Eu não me arrependo de ter ficado aqui! Eu não me arrependo de ter ficado com o meu avô durante o tempo que eu pude! Não me arrependo de ter ficado ao seu lado até o último momento! – Ele franze o cenho como se não estivesse entendendo minhas palavras. – Sabe por quê? Por que ele precisava de mim. Ele precisava que eu ficasse ao seu lado, e eu não podia, e nunca iria dar as costas para ele. Eu precisei de você John, e você não fez o mesmo comigo. – Eu termino minha frase em um fio de voz.

Quando o entendimento o invade vejo uma lágrima descer pelo seu rosto. As memórias são como facas em meu coração.

Mesmo estando mal por ele ter ido embora, eu sempre sentia dentro de mim que eu havia feito à escolha certa. Mesmo John tendo roubado uma parte minha. Mesmo me sentindo incompleta sem ele. Eu havia me entregado para ele, como eu nunca havia imaginado me entregar para alguém. Mas a maior decepção de todas, a que mais me fez sofrer, foi ele não ter nem tentado entender meus motivos.

— Eu não tinha como imaginar Mel. – Diz erguendo as mãos em direção ao meu rosto. Eu me afasto dele. – Meu deus! Eu sinto muito. Sinto muito mesmo. – Sua voz está embargada. – Eu nunca quis magoar você, eu te amo tanto. Eu sinto muito por eu ter sido tão cego. – Posso sentir o desespero em sua voz.

Ele só pode estar brincando!

Nossa última briga nunca saiu da minha cabeça. Eu me lembro de tudo como se tivesse sido ontem.

— Não tinha como adivinhar o quê? – Pergunto com raiva. – Eu disse para você! Eu disse que ele estava doente. O que você não tinha como saber John? O quê? Me diz! – Olhar para ele está esmagando meu coração. – Eu precisei tanto de você – choramingo. – Você não faz ideia do quanto, mas você me deu as costas! Eu nunca vou te perdoar! – Esbravejo para ele. – Nunca! – Digo derramando todo o ressentimento dos últimos anos.

Um soluço sai do meu peito, e eu levo minhas mãos ao rosto tentando me recompor.

— Eu amo você. – Ele sussurra. – Amo muito. Se eu pudesse mudar as coisas, eu juro que mudaria. Se eu pudesse voltar no tempo e ficar ao seu lado é lá que eu teria ficado. Eu fiz escolhas erradas, e me arrependo muito disso. Mas uma coisa sempre foi verdadeira, e por mais que o tempo passe isso nunca vai mudar, porque eu vou sempre amar você. – Ele segura minha mão e eu sinto todo o ar deixar o meu corpo. – Você escutou? Eu vou sempre amar você.

Fecho meus olhos e deixo que essas palavras me alimentem. Deixo que envolvam meu coração machucado. Deixo que reparem um pouco do estrago que toda mágoa me causou.

Nos momentos em que eu me perguntava do porquê tudo ser tão doloroso quando não existia mais nada entre nós dois, eu sempre procurava me lembrar de suas palavras. E repassando tudo o que vivemos juntos, mesmo tendo sido por pouco tempo, eu tinha minha resposta. Tudo era tão doloroso porque havia sido verdadeiro. Foi mais que verdadeiro. Foi forte e intenso. Nós temos um laço para a vida toda. Nós temos um filho.

— Vá embora. – Imploro baixinho sem conseguir olhá-lo. – Vá embora daqui, não volte mais.

Eu vejo a dor que minhas palavras causam nele. Vejo o quanto isso está acabando com ele. Não sei se ele pode ver o quanto isso está acabando comigo também.

— Eu estou aqui agora. Você não vai me dar uma chance? Você não vai dar uma chance para nós dois? – Ele implora com a voz entrecortada.

Eu o encaro com frieza.

— Por que eu deveria? Você me deu alguma chance? – Posso estar sendo mesquinha, mas eu não consigo me conter. – Muitas vezes eu engoli o meu orgulho por você. Você nunca fez o mesmo por mim. No primeiro obstáculo você desistia, como se eu não fosse importante. E você não sabe o quanto isso me machucou. Você não faz ideia do quanto tudo isso ainda dói em mim.

— Então me deixa arrumar tudo. – Antes que eu perceba ele já está segurando meu rosto em suas mãos. Não consigo me afastar. – Me deixa consertar as coisas. Deixe que eu cuide de você. Eu quero tanto cuidar de você. Eu senti tanto a sua falta. Quando eu voltei para Nova Iorque nada pareceu mais certo. Não parecia mais a minha vida, porque você não estava nela. Eu não quero mais ninguém. Eu quero só você. – Ele encosta sua testa a minha e suspira baixinho. – Por favor, me deixe fazer a coisa certa. Nós ainda podemos recuperar o tempo perdido. Nós só precisamos esquecer do passado.

Tem coisas que você não sabe John...

Nada vai ser como antes...

— Se o que você está dizendo é verdade. Se tudo pareceu tão errado. Por que só agora John? – Pergunto encarando seus olhos verdes e sentindo meu coração responder a isso no mesmo momento. – Por que você só voltou agora?

Por que não antes?

Por que deixou passar tanto tempo?

— Eu não sei. – Diz cerrando os olhos. Seus dedos acariciam meu rosto. – Eu estava com raiva de você. Com muita raiva, eu me senti abandonado. Sozinho. Eu não sabia o que estava fazendo. Eu só não queria...

— Engolir o seu orgulho. – Termino sua frase por ele. – Eu tive que engolir o meu. Muitas vezes, até eu decidir que não faria mais isso. Como você acha que eu me senti?

Tiro suas mãos do meu rosto e o encaro. Tenho certeza de que ele pode ver a mágoa em meus olhos. Isso o faz recuar.

Eu me senti perdida e sozinha por muito tempo. A única coisa que parecia dar sentido a minha vida era o meu filho. Isso foi até o Rafael aparecer. Até ele me mostrar que era possível que as coisas mudassem que era possível sim enxergar uma luz no fim do túnel.

— Não tem mais espaço para nós dois John. Não há mais nada. – Ignoro a dor que o esforço de dizer essas palavras me causam. – Eu não sei o que você veio buscar aqui John. – Choramingo sentindo o que restou do meu coração se despedaçar.

Eu não quero passar por tudo outra vez.

— Não é o que eu vejo em seu rosto. – Ele diz enquanto passa as mãos pelo cabelo. Um costume que eu já conheço muito bem. – Eu consigo ver Mel. Eu consigo sentir no jeito como você me olha, e foi isso o que eu vim buscar aqui. Eu vim em busca da mulher que eu amo. Em busca da mulher a quem eu sempre amei. Em busca daquela menina que eu conheci aqui nesse mesmo lugar. Em busca da menina que roubou o meu coração. – Diz com a voz embargada.

— Não me venha com essa agora! – Digo irritada. – Mas que droga você quer? Você realmente achou que chegaria aqui e que eu correria até você? – Pergunto incrédula. — Você achou mesmo que seria tão fácil assim? Nada é fácil John! E eu não estou disposta a deixar você entrar em minha vida de novo!

Eu não vou me permitir cair nesse papinho outra vez. Já sei muito bem como tudo vai terminar. Ele vai embora outra vez, e eu não sei se eu conseguiria me reerguer outra vez.

Ele acena com a cabeça.

— Eu não achei que seria fácil. – Diz encarando o chão. – Você disse que eu nunca lutei por você. Talvez você esteja certa, mas isso não diminui o que eu sinto. Pois então eu te digo que vou lutar por você agora! – A ferocidade em seus olhos verdes faz meu corpo todo se arrepiar. — Não quero ter que olhar para trás e ver de novo que tudo poderia ser diferente. Eu quero mudar as coisas. Eu quero ser feliz outra vez, e eu não vou conseguir sem você.

Suas palavras me tiram o ar. Eu sinto minhas forças se esvaindo e minha vontade de brigar se esgotando. Eu não quero mais fazer esse papel, mas eu também não vou mais suportar encará-lo. É demais para mim. Eu sempre soube que seria.

Eu ainda o amo tanto.

— Eu não quero que você lute por mim. – Murmuro engolindo em seco. – Eu não quero ter que te ver enquanto você estiver aqui. Então eu peço, na verdade eu imploro para que você vá embora, e esqueça que eu existo. Esqueça esse lugar. Foi a última coisa que você me disse antes de partir da outra vez, então acho que não vai ser difícil.

Eu não quero que ele veja Max. Não quero. Ele perceberia na hora. Ele saberia assim que o visse. Como eu explicaria? O que eu iria dizer para ele?

— Vamos encarar os fatos John. – Digo ainda o encarando. – As coisas não mudaram, então porque querer reviver aquilo?

— As coisas mudaram para mim. – Diz com um brilho diferente nos olhos. – Eu vou te mostrar isso. Sinto muito, mas eu não vou embora. – Diz decidido. – Mas eu também não vou mais tomar o seu tempo. Pelo menos não por hoje. – Diz derrotado enfiando as mãos nos bolsos outra vez. Isso parte meu coração. Parte o meu coração ter que negar o que eu ainda sinto. Mas ele aparecer aqui agora não muda tudo o que aconteceu. – Eu sei que é muito para você assimilar. Eu só quero que você saiba o quanto é bom te ver outra vez – diz com um sorriso nos lábios, o que me faz cerrar os olhos para evitar as lágrimas. – Você continua linda. É muito bom ver esses olhos de novo. – Diz com encanto em seu tom de voz.

— Eu não sou a mesma John. – Murmuro levando meus dedos ao rosto para secar meus olhos. — Muitas coisas mudaram na minha vida. Muitas mesmo, mas eu precisei me adaptar a elas.

Eu precisei aprender a ser mãe. Eu precisei aprender a cuidar dos negócios que garantiriam o sustento do meu filho. Eu tive que aprender a ser forte, e tive que deixar à antiga Mel para trás. A antiga Mel que sentia demais, a antiga Mel que se entregava sem reservas, a antiga Mel que acreditava em palavras bonitas. Eu acreditei nele. Acreditei que nós seriamos muito felizes. Acreditei que ele sempre estaria comigo. Mas ele não agiu de acordo com suas promessas, e isso abriu uma ferida muito grande em meu coração. Não sei se eu consigo acreditar nele outra vez. Eu paguei um preço muito alto por minhas ilusões.

Não sei se vou conseguir confiar tanto em alguém de novo.

— Eu sei, eu posso ver também.

Ficamos nos encarando sem dizer nada um ao outro. Sentindo o ar pesado pairar sobre nós, e mesmo assim ainda sentindo a forte energia que nos conecta. A mesma energia que sentimos desde o primeiro momento há tanto tempo atrás.

— John? – Reconheço a voz de Ana.

Ele pisca algumas vezes, se recompõe, e então abre um sorriso.

— É bom te ver de novo Ana. – Diz sorrindo para ela.

Eu tenho certeza de que ela ouviu tudo. Ela apenas estava esperando o momento certo para entrar.

— É bom ver você também. – Responde gentilmente. – O que faz aqui?

— Na verdade ele já está de saída Ana. – Digo me intrometendo no meio da conversa. – Nós já falamos tudo o que tínhamos para falar.

Max saiu com a Julia e com Gabriel. Já anoiteceu e eu tenho certeza de que não vai demorar muito para eles o trazerem para casa. Não quero nem imaginar no que aconteceria se ele chegasse e John ainda estivesse aqui.

Ele tem que ir embora!

Encaro Ana com intensidade, tentando fazê-la entender o que está prestes a acontecer.

— Acho que entendi o recado. – Diz John me encarando. – Eu espero que você pense em tudo o que conversamos Mel.

Nem se eu quisesse. Eu não vou conseguir parar de pensar em tudo o que aconteceu aqui. Eu não vou conseguir parar de pensar que eu o vi. Eu o vi. Eu não vou conseguir parar de pensar que eu ainda o amo mais que tudo.

— Eu te amo. – Diz com lágrimas nos olhos.

Não respondo. Mesmo querendo dizer o mesmo. Mesmo querendo dizer que eu o amo mais que a mim mesma. Tudo o que eu quero pensar agora é que eu tenho que cuidar de mim. Eu tenho que em proteger dele. Eu não posso deixar que ele me magoe outra vez.

Não de novo John!

Ele acena para Ana e então caminha até a saída.

Sinto meu coração sangrar. Agora eu sinto que não sou mais forte o suficiente. Eu não sei quanto tempo eu aguentaria mais.

Antes que eu perceba soluços altos estão saindo do meu peito e preenchendo todo o espaço. Eu choro como há muito tempo eu não fazia. É como se toda a antiga dor houvesse voltado de uma só vez. Me invadindo sem piedade. Me rasgando de dentro para fora.

— Mel. – A voz doce de Ana me faz desmoronar. – Está tudo bem querida. – Diz me abraçando. – Está tudo bem.

— Por que ele voltou Ana? – Pergunto em prantos me segurando em seus braços. – Por que ele veio aqui? Eu nunca vou poder viver em paz! Por que logo agora? Justo quando tudo estava começando a dar certo.

Ana acaricia meus cabelos, e uma parte minha agradece por ela estar sempre aqui. Por estar sempre disposta a me oferecer seu colo.

— Ele ama você Mel. – Diz suavemente. – E você ainda o ama. Isso ficou claro como água nessa explosão que aconteceu aqui hoje.

— Eu não quero que ele volte aqui. Não quero ter que vê-lo outra vez.

Ana suspira.

— Para um primeiro encontro aconteceu bastante coisa. Eu sempre soube que seria assim. Mas eu tenho que concordar com ele. Vocês têm muitas coisas para conversar, e você sabe disso. – Ana ergue meu rosto e passa os dedos debaixo dos meus olhos. – E no meio de tudo isso ainda tem o Max. – Isso me faz chorar mais ainda. – Você não achou que conseguiria escondê-lo para sempre, não é?

— Eu não quero que ele o veja. – Digo fungando.

— Isso vai ser inevitável, Mel. – Diz com ternura me encarando. – Você não pode evitar isso.

Sento-me em uma cadeira e enterro meu rosto em minhas mãos. Sentindo pela primeira vez o peso dos últimos minutos.

Como ele reagiria se visse Max?

Como ele reagiria se soubesse que deixou uma coisa muito importante aqui?

Uma pessoinha que tem seu sangue?

Um pedaço de nós dois?

Esses pensamentos fazem minha angustia aumentar. Fazem o aperto em meu coração se intensificar um milhão de vezes. Eu ainda não estava esperando por isso. Eu não esperava vê-lo agora.

Ana se ajoelha de frente a mim. Ergo meus olhos até encarar os seus.

— Eu estou tão confusa Ana. – Admito. – Uma parte minha está tão feliz por finalmente vê-lo outra vez. Por finalmente ouvi-lo dizer que me ama outra vez. Uma parte minha sempre sonhou com isso, mas agora eu estou com medo. — Choramingo. — E eu não quero dar um passo para trás, não quando eu demorei tanto para ir para frente. Não quero me entregar de novo. Já sai muito ferida da última vez.

— Eu sei meu amor. – Diz colocando uma mecha do meu cabelo atrás da orelha. – Você tem muito no que pensar agora.

Nesse momento ouvimos um carro estacionando. Meu coração tem um tranco. Levanto-me da cadeira e fico encarando a entrada.

Será que ele voltou?

Mantenho meus olhos presos na porta da frente, até que vejo o meu garotinho todo feliz vindo correndo até mim.

Sorrio.

— Mamãe. – Ele diz erguendo os bracinhos. O pego em meu colo e o abraço forte. Ele leva suas mãozinhas ao meu rosto e as deposita em minhas bochechas. – Chorando mamãe? – Pergunta com as sobrancelhas claras franzidas.

Abro meu maior sorriso para ele.

— Não meu amor. Mamãe está dodói. – Digo fazendo bico. Ele inclina a cabeça para o lado ainda me encarando com seus olhos verdes. – Como foi o passeio? – Pergunto tentando mudar de assunto.

—Comi batata. – Responde fazendo bico.

— Verdade, ele comeu um montão de batata, não é garotão? – Diz Gabriel se aproximando de mim e bagunçando seu cabelo.

— Gabriel, você poderia, por favor, levar o Max lá para dentro. Coloque algum filme para ele. – Diz Julia agitada. – Eu preciso conversar com a Mel.

— Claro. Sem problema. – Diz pegando Max de meus braços. Ele dá alguns passos até Julia e deixa um beijo em seus lábios. – Agora vamos lá, amigão!

Gabriel e Max tem uma ligação muito forte. Sorrio olhando para os dois.

Assim que eles se vão Julia me encara, e posso ver o nervosismo estampado em seu rosto.

— Pela sua cara eu não preciso nem perguntar o que aconteceu, não é? – Diz ainda me olhando de longe.

Como ela saberia?

— Como você sabe? – Pergunto confusa.

— Eu o vi. Na lanchonete onde nos estávamos agora à tarde. Nós conversamos também.

Arregalo meus olhos, e sinto meu mundo inteiro parar de girar.

— Ele viu o Max? – Pergunto com o coração na boca. – Você não deixou que ele o visse, não é? – Pergunto horrorizada.

— Não. Pelo menos ele não o viu de perto, então nem desconfiou. – Diz para o meu completo alivio. — Quando eu o vi ele estava sozinho no balcão de atendimento. Eu fiquei uns dez minutos o encarando. Eu não sabia se era realmente ele. Ele está diferente, mas ainda parece o mesmo John. Quando eu finalmente tomei coragem eu me levantei e fui até ele.

— Você foi até ele? O que você tem na cabeça Julia?

Como ela pôde ter feito isso?

— Eu achei melhor ir até ele do que esperar que talvez ele me visse e viesse até mim. Eu fiquei com medo. Max estava comigo. E não é preciso ter mais do que um cérebro para saber que Max tem tudo dele. – Diz revirando os olhos.

— Você acha que eu não sei disso? – Pergunto com a mão no peito. – Ele veio aqui. Eu estava morrendo de medo de que de repente vocês chegassem.

— Eu sabia que ele viria. – Diz mirando os dedos entrelaçados. – Eu percebi apenas pelo jeito ao qual ele saiu da lanchonete, parecendo um furacão.

— O que você disse para ele? – Pergunto dando alguns passos até parar em frente a ela. Eu a encaro com expectativa.

— Não muita coisa. Ele me perguntou sobre você. Ele achou que vocês estava casada com o Mateo, e eu disse que na verdade você não tinha se casado.

Sinto meu sangue ferver.

— Por que você fez isso? – Explodo para ela.

Ela pisca algumas vezes e me olha como se não estivesse entendendo minha reação.

— Fiz o quê? Você acha que eu deveria ter mentido? – Diz com as sobrancelhas franzidas.

— Claro que você deveria ter mentido Julia!

Ela parece indignada e me fuzila com os olhos.

— Sinto muito Mel. Mas eu não vou mais fazer isso. Não vou mentir para ele. Nada de bom vem de uma mentira. Eu não vou dizer nada sobre Max, mesmo você sabendo minha opinião sobre esse assunto, então não se preocupe. Eu não vou me envolver. Mas não me peça para ficar inventando mentiras!

— O quê? – Pergunto incrédula com sua postura. – Então você está do lado dele?

— Eu não estou do lado de ninguém. Eu só nunca achei certo o que você fez, e eu sempre deixei isso muito claro. Não se esconde um filho Mel. Você deveria ter contado para ele! Se não fez isso antes, você poderia ter feito isso agora!

— Eu não vou discutir esse assunto com você outra vez. Não mesmo Julia!

— Também não quero discutir. Mas você só parece enxergar as coisas pelo seu ponto de vista. Ele me pareceu muito arrependido, e triste também. Ele te magoou muito, eu sei, mas em minha opinião não há nada nesse mundo que possa magoar mais do que ter perdido dois anos da vida de um filho. – Suas palavras me acertam como socos. – E sinceramente, eu não gostaria de estar na pele dele quando ele descobrir sobre o Max.

— Ele não vai descobrir. – Digo decidida.

Ela balança a cabeça.

— Você continua tomando as decisões erradas Mel. – Diz como se estivesse desapontada comigo. – Você deveria parar de enxergar as coisas com tanto rancor. Você deveria ver que a felicidade está batendo na sua porta outra vez. Ele é o homem que você ama, e sempre vai ser assim. Mesmo que você esteja insistindo nessa burrice de se prender as coisas do passado.

— O que você queria que eu fizesse? – Pergunto sem entender aonde ela quer chegar com esse papo todo. – Você queria que eu me jogasse nos braços dele? Eu não vou fazer isso!

— Não acho que você deveria se jogar nos braços dele, quer dizer, a não ser que você queira fazer isso. E eu tenho certeza que você quer. Eu apenas acho que você deveria encarar as coisas de um modo diferente, e deixar de tapar o sol com a peneira.

Julia sempre acha que entende mais da minha vida que eu mesma. E isso é muito irritante. Muito mesmo. Principalmente pelo fato de ela sempre estar certa.

— Eu tenho o Rafael. – Murmuro. – Talvez você tenha se esquecido disso.

Eu não posso simplesmente dispensar o Rafael! A pessoa que sempre esteve ao meu lado.

— Você não o ama. – E ela parece triste ao dizer isso. – Eu gosto muito dele. De verdade. Rafael é uma pessoa incrível, e por isso eu acho que ele merece alguém que o ame de verdade. Imagina se ele chegasse aqui e te visse nesse estado? – Pergunta com a sobrancelha arqueada. – Está na cara o quanto esse reencontro mexeu com você. Eu consigo ver a confusão nos seus olhos Mel. Isso iria o magoar. E eu sei que não é isso o que você quer.

— Eu não quero mais pensar nisso por hoje. – Digo decidida a encerrar o assunto.

— Eu vou sempre estar ao seu lado e te apoiar em tudo. Mas não me peça para não puxar sua orelha quando você está prestes a cometer o maior erro de toda a sua vida. É minha obrigação abrir os seus olhos.

— Mesmo quando eu não quero? – Pergunto com petulância. Como uma criança pequena que acaba de ser repreendida, e mesmo assim sem querer dar o braço a torcer.

— Principalmente quando você não quer. Desse jeito fica mais provado ainda que eu estou coberta de razão. – Diz com um sorriso orgulhoso no rosto.

[...]

Depois que Gabriel e Julia foram embora eu acabei me sentindo tão esgotada que pela primeira vez eu decidi não abrir o restaurante.

Estou deitada no sofá, com Max bem aconchegado perto de mim. Ele parece prestes a cair no sono, mas não se rende por nada. Estamos enrolados num lençol grosso. E eu gostaria de nunca mais ter que sair daqui.

— Tem certeza de que não quer ir dormir na cama? – Pergunto acariciando seus cabelos claros.

— Não. – Murmura com manha. Ele está determinado a terminar de assistir ao filme.

— Tudo bem então. – Digo encostando meu rosto ao seu. Suas mãozinhas pequenininhas apertam a minha. Sinto um aperto no coração, e meus pensamentos me levam até John. Levam-me até sua expressão magoada. Fecho os olhos e posso o ver a minha frente.

Eu não gostaria de estar na pele dele quando ele descobrir sobre o Max.

Relembrar essas palavras faz uma lágrima solitária descer pelo meu rosto.

Max é uma criança tão doce e carinhosa. Mesmo me tirando do sério às vezes. Mesmo me fazendo quase arrancar os cabelos de tanta preocupação quando ele decide brincar de esconde-esconde sem me avisar antes. Nada nesse mundo faria eu me afastar do meu filho. E uma coisa dentro de mim me diz que John sentiria o mesmo. E isso me faz ter mais medo e faz eu me sentir mais culpada do que eu gostaria.

Eu não sei o que fazer!

Eu estou confusa, e com medo de que as coisas deem errado outra vez.

— Mamãe, pode assistir de novo? – Diz Max me encarando com seus olhos quase fechados de tanto sono.

Olho para a televisão e vejo que já estão passando os créditos do filme.

— Acho melhor irmos dormir. – Digo suavemente. – A mamãe está com sono. Você não quer me colocar para dormir?

Ele sorri.

— Vamos mamãe. – Diz agarrando meu pescoço.

Levanto-me do sofá com Max em meu colo. Suas pernas agarradas em mim. Sua cabeça está apoiada em meu ombro. Desligo a televisão. Pego o cobertor e o coloco sobre suas costas.

Ele ainda é tão pequeno. Não tem nem muito tempo que ele aprendeu a andar, e a falar. Ele ainda precisa que eu o proteja. Como seria se ele conhecesse John? Ele poderia sofrer depois quando John for embora. Então não faria sentido apresentá-lo a um pai que não poderá fazer parte de sua vida.

Como eu faria para explicar?

Explicar que ele precisaria ir embora. Que ele não poderia ficar aqui. E nem em sonho eu permitiria que meu filho viajasse para longe de mim.

Chegando ao quarto eu decido que quero que ele fique comigo essa noite. Eu preciso me agarrar a ele. O deito em minha cama e o enrolo. Ele me pede seu ursinho e eu o pego e o levo até ele. Fico o olhando por um longo tempo, e sorrio ao constatar que não era minha imaginação, e nem minha vontade. Ele realmente se parece muito com John. Passo meus dedos por suas bochechas. Seu peito sobre e desce em uma respiração suave.

— Eu só quero te proteger meu anjinho. – Digo baixinho. – Eu não quero que você sofra quando ele se for. Não como eu sofri.

Eu tenho medo de que aconteça de novo.

Tenho muito medo.

Vejo meu celular vibrando em cima do criado mudo. Assim que eu o pego vejo que tem algumas mensagens do Rafael.

Vamos sair hoje?

Você viu minha mensagem?

Estou preocupado. Me liga! Bjs.

Respiro fundo e decido que hoje eu não quero que minha vida se transforme em uma novela. Eu falo com ele outra hora. Eu realmente não consigo pensar em mais nada, a não ser nele...

Por que logo agora John?

O que eu vou fazer?

Ando até a grande janela que leva até as cabanas que ficam atrás do restaurante. Confesso que nos últimos anos eu me pegava indo até lá. Eu me sentava na cama, e se eu fechasse os meus olhos eu conseguia sentir o seu cheiro. Eu conseguia sentir o seu toque. Era um tipo de consolo. Um consolo doloroso.

Mas agora ele está aqui, e meu coração não quer saber de outra coisa.

Vai ser muito difícil resistir...

Vai ser difícil demais resistir a ele.

Eu quis tanto abraçá-lo. Eu quis tanto beijá-lo nessa tarde. Eu tive que me controlar e muito para não me deixar levar pelo meu coração. Quando suas mãos se encostaram em mim foi como se com apenas esse toque ele tivesse ressuscitado tudo o que eu estava tentando deixar bem enterrado dentro de mim.

Tenho medo de não conseguir. Tenho medo de acabar fraquejando.

Como vão ser os próximos dias?

Ele vai estar tão perto.

— Eu não posso fraquejar. Não posso.

Eu tenho que continuar firme em minha decisão.

Não posso andar para trás.

Não agora.