Sob minha pele

49 Capítulo 49


John.

Depois de três anos eu acabei me esquecendo de algumas coisas sobre essa pequena cidade. Acabei esquecendo o quanto pode ser quente durante o dia, pelo o que eu também me lembro de que à noite sempre era mais fria. Acabei esquecendo também o quanto a população daqui pode ser um pouco ameaçadora com turistas.

— Eu já havia me esquecido do quanto tudo aqui é acolhedor. – Diz Mark em tom de zombaria.

Ignoro seu comentário.

Lembro-me das palavras que ouvi de Mel uma vez. Ela disse que nós éramos novidades, e por isso, chamávamos atenção. Dá última vez demorou um tempo até que todos se acostumassem a nossa presença na cidade.

Nós desembarcamos há meia hora. Estamos à procura de nossas malas. O sentimento estranho que me apodera agora é de nostalgia. Não consigo parar de pensar nos últimos minutos que passei aqui há três anos. Não consigo parar de pensar no quanto minha vida ficou de cabeça para baixo, neste mesmo lugar. Eu pensei que nunca voltaria. Jurei que nunca colocaria meus pés aqui outra vez. Jurei que esqueceria tudo sobre este lugar.

As coisas não aconteceram como eu planejava. Na verdade, as coisas simplesmente não aconteceram.

— Nós temos que procurar um lugar para ficar. – Digo engolindo em seco, tentando disfarçar ao máximo o que estou sentindo no momento.

Da última vez em que estivemos aqui nós tivemos que rodar muito atrás de um lugar para ficar. Passamos por muitos lugares, estávamos cansados até nos indicarem um lugar onde poderíamos comer.

Foi onde eu a conheci.

— Vamos John! – Grita Mark me tirando de meus devaneios.

Saímos do aeroporto e já temos um carro alugado a nossa disposição. Ainda bem que Mark ainda tinha o número da locadora de carros que usamos da outra vez.

— Obrigada. – Agradece Mark ao senhor baixinho engravatado. – Então o contrato é o mesmo da outra vez, certo?

Mark parece até um idiota completo na maior parte do tempo, mas quem o conhece bem sabe que ele não gosta de dar ponto sem nó.

— Tudo certo. Tempo indeterminado. – Diz o homem de aparência seria. — E disponha, de qualquer coisa.

Coloco nossas bolsas no banco de trás do carro, e aproveito para tirar o meu terno e minha gravata. Esses itens não estavam me ajudando em nada.

— E aí! – Diz Mark me encarando apoiando os braços no capô do carro. – Para aonde nós vamos agora?

Apoio meu braço no capô como Mark, e me inclino até apoiar minha cabeça em meu braço. Fecho os olhos para tentar controlar a vontade que tenho de ir até ela agora mesmo.

Não posso fazer isso.

Não posso...

— Aposto que deve ter algum lugar lá pelo centro. A gente só precisa dar algumas voltas. A gente vai achar algum lugar. – Digo abrindo a porta do carona.

— Então, vamos lá! – Diz Mark abrindo a porta e se sentando ao meu lado.

As estradas esburacadas sacodem o carro. Mark iniciou uma conversa sobre por onde nós começaremos as construções, mas eu não estou conseguindo me concentrar em nada. Não consigo desligar minha cabeça, nem minhas lembranças.

Depois de rodar por alguns minutos nós finalmente paramos em frente a o que parece um hotel. A fachada é gasta, pintada de uma cor que arrisco a dizer que um dia já foi um amarelo. Janelas grandes e brancas. Tem um letreiro que indica “pousada”.

— Acho que achamos. – Diz Mark apontando para o letreiro.

— Acho que sim. – Digo desanimado.

Em outras ocasiões eu não teria que viajar até os locais de projetos, mas sempre que as expectativas são maiores, os sócios exigem que seja assistido de perto. Assim como eu acho que Mark desconfia, eu poderia ter dito não, mas algo dentro de mim me dizia que eu tinha que vir. Que eu precisava estar aqui. Passo meus olhos pela rua de paralelepípedos em uma pequena esperança de talvez ter um deslumbre de uma garota de cabelos longos e escuros.

Eu e Mark entramos no estabelecimento, e uma senhora sorridente vem nos atender.

— Olá! – Diz em espanhol.

Mark faz cara de assustado. Tenho que reprimir uma risada com isso. Parece até que ele esqueceu que não estamos mais em solo americano. É sempre assim.

— Olá, estamos procurando um lugar para nos hospedar. – Respondo em um espanhol fluente. A boca de Mark quase caí no chão. Sei muito bem que ele vai me encher a paciência depois por causa desse assunto.

Eu tive muito tempo para estudar, e aprender desde que voltei para casa. No começo foi por distração, e depois eu acabei gostando. Confesso também que meu amor por uma espanhola também contribuiu bastante.

Somos acompanhados até o andar de cima, até os quartos. Percebo Mark me encarando de esguelha.

A senhora abre a porta. O quarto é pequeno mais confortável. Eu e Mark dividiremos o quarto já que esse era o último disponível. Por incrível que pareça a pousada está lotada.

— Fiquem a vontade.

Antes que eu possa me virar para agradecer ela já sumiu pela porta. O quarto é pequeno com duas janelas, piso de madeira, duas camas de solteiro – penso vagamente que são muito maiores do que a cama que eu dividia com Mel.

— Então, você fala espanhol? – A voz de Mark acaba me despertando. O encaro e posso ver incredulidade em seu rosto — Acho que o tempo que você passou com a Mel te deixou mais culto. – O sarcasmo em suas palavras não me passa despercebido.

O Fuzilo com os olhos.

— Não vou perder meu tempo tentando desvendar o seu sarcasmo. – Rebato em um tom que não deixa espaço para brincadeira, muito menos, com esse assunto, muito menos sobre ela. – Sabe que eu não gosto que fale assim dela.

Não gosto que insinuem nada. O que houve entre nós dois só diz respeito a mim e a ela, e a mais ninguém.

Ele ergue as mãos em sinal de rendição.

— Não vou falar sobre isso, pode deixar. Eu já aprendi que sobre esse assunto você é completamente surdo e cego. – Me alfineta antes de se virar e pegar sua mochila do chão.

Eu e Mark somos amigos há muito tempo. Somos como irmãos. Nunca tivemos problema com nenhum assunto, incrível como sempre concordamos em tudo. A única coisa em todos esses anos de amizade a meu respeito que ele nunca aprovou foi meu envolvimento com a Mel.

— Não é legal? – Diz afobado. Parece ter esquecido o assunto anterior. – Nós dois como antigamente, viajando o mundo como mochileiros.

Sorrio.

Nós viajamos por muitos lugares, e dormimos nos piores lugares que se possa imaginar. Tanto que quando chegamos a um lugar que para qualquer outra pessoa seria fora dos padrões, nós encaramos como um hotel cinco estrelas.

— Verdade. – Respondo. – Lembra quando viajamos para a Colômbia?

Mark faz uma careta.

Ficamos cinco dias dormindo em uma barraca no meio do nada. A pior parte era não ter banheiro. Não gosto nem de lembrar.

— Não me faça lembrar daquilo. – Diz torcendo o nariz. – Eu ainda consigo sentir o cheiro.

— Tenho que te avisar que aqui eles apenas disponibilizam o quarto. Não tem café da manhã, e nenhuma outra refeição, nós vamos ter que comer fora.

Mark para o que está fazendo e me encara com cara de desgosto.

— É brincadeira, né? – Arqueio minha sobrancelha para ele em um claro sinal de que não estou de brincadeira. – Mas eu estou morrendo de fome. Eu já iria pedir alguma coisa. Eu estou destruído da viagem, queria comer e dormir.

— Eu também queria. – Digo passando as mãos pelo rosto em sinal de cansaço. – Minha cabeça parece que vai explodir.

Suspiro alto.

— O que vamos fazer primeiro? – Pergunta Mark.

Eu estou cansado, mas com toda a certeza eu não vou conseguir deitar minha cabeça no travesseiro e apagar da minha mente que eu estou a uma pequena distância da mulher que eu amo.

Isso não vai acontecer...

— Eu posso descer e tentar encontrar alguma coisa aqui perto. – Digo tateando minha calça jeans a procura da carteira. – Acho que eu vi um tipo de lanchonete lá embaixo.

Mark me olha com desconfiança.

— Eu quero um misto quente. – Diz ainda me encarando. – Eu vou tomar um banho enquanto você vai comprar alguma coisa. Vê se não demora! – Diz com o dedo em riste para mim. Claramente uma advertência.

Quase posso ver nas entrelinhas.

Não seja idiota, e não vá até lá!

Reviro os olhos.

Até parece que eu vou fazer alguma besteira.

O sol brilha forte no horizonte. Acho que não falta muito para anoitecer. Sigo em direção a uma lanchonete um pouco cheia demais. Pessoas sentadas em mesas tomam à calçada. Famílias estão juntas em algumas mesas mais afastadas. Caminho até o balcão onde uma moça de longos cabelos loiros me encara com os olhos castanhos penetrantes.

— No que eu posso ajudar? – Pergunta com um sorriso gigantesco tatuado no rosto.

— Boa noite, eu quero fazer um pedido para viagem.

— Tem preferência?

— Na verdade, não. Você tem um cardápio? – Pergunto passando meus olhos pelo balcão.

Ela se abaixa por alguns minutos, e emerge de novo com o cardápio em mãos.

— Você pode se sentar aí, e quando tiver escolhido é só me chamar. — Diz me dando uma piscadela.

Sorrio sem jeito.

Sento-me no banco e começo a ler cardápio bastante variado. Vejo que tem de tudo, menos o bendito misto quente que Mark pediu. Talvez eu peça outra coisa.

— John? – Ergo meus olhos e para a minha surpresa vejo Julia a minha frente. Uma Julia completamente pasma e boquiaberta. – É mesmo você? – Pergunta incrédula.

Ela está do mesmo jeito a qual eu me lembro. O cabelo na mesma altura. Os mesmos olhos acusatórios. Sua expressão de incredulidade logo dá lugar a ira. Me pego olhando para todos os lados na esperança de que mais alguém que meu coração deseja esteja por perto.

Não seria nenhuma loucura, afinal, Julia está aqui na minha frente.

— Olá Julia. – Digo a encarando sem saber o que falar direito. Acho que um “olá” está de bom tamanho. Eu estou desconcertado. Eu lembrava que esse lugar era minúsculo, mas eu realmente não estava esperando encontrar alguém logo no primeiro dia.

Ela arqueia sua sobrancelha para mim.

— O que faz aqui? Pensei que nunca fosse te ver de novo. – Consigo entender claramente a acusação em sua voz.

Ela também me odeia!

Isso está bem claro. Claro como água!

— Estou trabalhando. Não sei quanto tempo vou ficar. – Respondo meio desconfortável com seus olhos mirados para mim como se eu fosse um tipo de alvo.

— Espero que você só tenha vindo trabalhar mesmo. – Diz sarcástica.

— O que mais eu viria fazer aqui? – Pergunto em minha defesa.

Ela revira os olhos.

— Você sabe do que estou falando. – Diz cada palavra como se estivesse falando com alguém sem cérebro. – E melhor você ficar bem longe da Mel!

Engulo em seco, e tento ignorar o frio que sinto na barriga.

— Eu não vim procurá-la Julia. – Digo para tranquiliza-la. Mesmo querendo muito, eu não vou procurar. — Pode ficar tranquila. Sua amiga deixou bem claro que não quer mais me ver nem pintado de ouro.

— Acho bom mesmo. Melhor que você deixe ela em paz, ela não precisa que você volte para bagunçar a vida dela. – Diz em tom acusatório.

Como se ela fosse a única!

Ela também bagunçou a droga da minha vida!

— Engraçado, foi o que ela fez com a minha. – Respondo sem conseguir conter a língua. – E fica tranquila não é do meu estilo correr atrás de mulheres casadas.

Julia franze a testa.

— Mel não é casada seu idiota! – Diz Julia balançando a cabeça em negação me encarando como se eu fosse o maior idiota de todos os tempos.

Como assim?

Será que ela se separou?

Ou será que ela nunca se casou?

Sinto o chão se mover sob os meus pés. De repente o lugar parece ter parado e tudo o que me importa agora é que eu preciso tirar essa história a limpo.

— Ela me disse que iria se casar com o Mateo! – Digo confuso encarando Julia sem entender nada. – Na verdade, ele disse, mas ela confirmou. Ela me disse isso!

Lembro-me de quebrar o apartamento todo no dia. Eu nunca havia ficado tão furioso antes.

Julia me olha incrédula.

— Você é idiota assim, ou é apenas fingimento? – Pergunta com sarcasmo. – Ela disse aquilo porque ela queria te irritar! Idiota! Ela nunca se casou com o Mateo. Por que a Mel se casaria com ele? Você é maluco!

Do jeito que ela fala parece até que essa é a maior besteira do mundo!

E eu o maior idiota por ter acreditado!

— Me irritar? – Digo irritado. – Por que diabos ela iria querer me irritar?

Eu já não me controlo mais. Eu estou com raiva. Com muita raiva. Por que ela mentiu para mim? Ela sabe o que ela fez? Todos esses anos achando que ela tinha me trocado por aquele imbecil, e na verdade era tudo mentira!

— Não banque o mocinho. – Diz balançando o dedo em minha direção. – Ela ligou para você e aquela mulher atendeu. O que você queria que ela fizesse? – Seus olhos faíscam em minha direção. – Você a magoou muito John!

Isso faz meu coração se apertar. Eu nunca quis magoá-la. Naquela época eu estava carente e triste além do limite. Eu não estava controlando muito bem meus atos. Tudo ainda era muito recente. Eu demorei até achar um novo caminho.

— Ela não podia ter feito isso. – Digo me sentindo um completo imbecil por ter acreditado no que ela disse. Por ter sido tão burro. E como meu pai diria. Por ter me deixado cegar pelo orgulho. – Isso só pode ser brincadeira!

— Você não podia ter feito muitas coisas, e você fez. – Diz me acusando outra vez.

Eu a encaro sem saber o que dizer. Sei que errei feio em ter ido embora daquele jeito, sei que acabei magoando a mulher que amo e a mim mesmo com meus atos, sei que provavelmente eu a perdi para sempre. Mas tem algo dentro de mim que é puro e verdadeiro, e sempre foi.

— Eu a amo. – Digo com sinceridade porque eu quero que ela saiba que eu nunca a esqueci. Que eu nunca me permiti amar ninguém outra vez.

Julia arregala os olhos e me encara como se eu fosse louco.

— Nem comece com isso John. – Me alerta. – Não me venha com essa droga de papo! O que você quer? Você a fez sofrer por anos! Ela ficou perdida sem você aqui. Você não faz ideia de tudo o que ela teve que passar por sua causa! Você não pode simplesmente voltar com essa cara lavada e dizer que a ama!

— Eu posso dizer se for verdade, e eu a amo, isso nunca mudou e nunca vai mudar! – Digo com sinceridade. – Eu nunca quis magoá-la. Ela é a pessoa mais importante no mundo para mim. Eu preciso que você me diga se ela sente o mesmo! – Digo implorando. – Eu preciso saber. Ela ainda me ama?

Sinto meu coração despedaçar no peito. Julia não parece nem um pouco inclinada a me ajudar. Seus olhos estão faiscando em minha direção. Provavelmente eu mereci ouvir tudo o que ela disse, e provavelmente vou merecer ouvir o que quer que seja que Mel vá me dizer.

— Para que diabos você voltou! – Diz exasperada jogando as mãos para alto. – Eu não acredito que você está aqui e me dizendo essas coisas! Você é um babaca sabia disso? Um grande babaca! E vocês dois, são dois idiotas também! Meu deus! Vocês complicam tudo!

De repente me sinto em uma conversa totalmente paralela. Mas sinto que não posso parar agora. Eu preciso insistir.

— Eu preciso vê-la. – Insisto quase implorando. – Eu preciso falar com ela, eu preciso explicar meus motivos. Nós devíamos ter tido essa conversa há três anos Julia! Só que tudo saiu do controle!

—Vocês deveriam ter conversado sobre muitas coisas há três anos– Diz Julia me encarando com firmeza. – Eu realmente não sei o que fazer John! Eu estou de mãos atadas. Eu sei o quanto você foi importante para ela por um longo tempo, mas também sei o quanto você a magoou. Eu estive com ela em todos os momentos. Ela pode achar que eu estou traindo ela e ajudando você! E você nem merece que te ajudem! – Termina torcendo o nariz.

Ela continua sendo minha. Eu sei que sim. Agora mais que nunca!

— Eu ainda sou apaixonado por ela, e se ela não está com aquele cara, não há nada nesse mundo que me impeça de procurá-la! – Eu não vou desistir. Eu posso ficar aqui a noite toda. – Eu só preciso de uma luz. Eu preciso que você me dê essa luz!

Nesse momento um homem alto, de cabelos escuros, e feições preocupadas se aproxima de nós. Percebo que chamamos a atenção de algumas pessoas ao nosso redor.

— Algum problema, amor? – Pergunta colocando a mão sobre o ombro dela, em um claro sinal de proteção.

— Não tem problema nenhum Gabriel, está tudo bem. – Diz sorrindo para o homem que não tira os olhos de mim. – Nós estávamos conversando, apenas isso. — Diz forçando um sorriso.

O homem me encara com as sobrancelhas unidas. Me olha como se me conhecesse de algum lugar. Me sinto na obrigação de me apresentar.

— Sou John – digo estendendo minha mão para ele.

O homem me olha de olhos arregalados e seu rosto empalidece. Pisca algumas vezes e logo ele se recompõe e aperta minha mão rapidamente, ainda encarando meu rosto.

— Sou Gabriel – diz firme. – Sou o marido da Julia.

Isso para mim é novidade. Então ela se casou, e a Mel não. Um sorriso se abre em meu rosto. Talvez ela ainda me ame. Esse seria o único motivo, porque assim como eu, ela não foi capaz de esquecer o que houve entre nós.

— Gabriel, o que você está fazendo aqui? – Diz Julia o olhando irritada de repente. – Ele ficou sozinho na mesa? Ele vai fazer a maior bagunça!

— Você não voltava! Eu tinha que ver o que estava acontecendo! – Diz se defendendo. – Ele quer batatas!

Pela primeira vez eu percebo a fralda amarrada em uma chupeta envolta de seu pescoço, e o boneco do batman em sua mão esquerda. Eu posso estar enganado, mas para mim ele parece um pouco velho de mais para chupar chupeta, e brincar com bonecos.

— Vocês têm filhos? – Pergunto tentando melhorar o clima ao meu redor. De repente toda a ira de Julia foi trocada de alvo. Sinto até pena do pobre homem. E de algum modo eu tenho que lembra-los de que eu ainda estou aqui.

— Não, é o nosso afilhado. – Diz Gabriel com um sorriso orgulhoso no rosto. – Ele está na mesa. Tenho que voltar ele é muito pequeno não pode ficar sozinho. – Diz e de repente ele parece muito desconfortável.

Julia empalidece, e logo depois o fulmina com os olhos. Ela parece a ponto de pular em seu pescoço.

Ele coça a cabeça desconfortável.

Essa situação é muito esquisita!

— Gabriel! – O repreende Julia. – Por favor! Volte para mesa!

—- Já vou. – Diz revirando os olhos.

— E você! Fique longe da minha amiga! – Diz apontando o dedo para mim. – Eu ainda não confio em você! E não quero que você faça merda outra vez e acabe estragando tudo!

— Sinto muito, mas não posso te prometer isso. – Digo a encarando com firmeza. Para a minha surpresa eu vejo um sorriso se abrir em seu rosto.

— Espero que você não faça besteira John! – Diz e posso ver em seus olhos que ela está falando muito sério. – Eu amo a Mel como se ela fosse minha irmã, e mesmo que às vezes eu não entenda suas atitudes eu sempre vou apoiá-la, então é bom que você saiba que dessa vez, se você a fizer chorar de novo, eu vou arrancar esses seus lindos olhinhos. – A ameaça é bem direta.

Sorrio para ela. Isso é mais do que uma confirmação. Ela ainda me ama, e Julia não quer que eu a magoe, mas ela me apoia e isso já está de ótimo tamanho.

— Ela ainda me ama, não é? – Pergunto sem conseguir conter a felicidade que me toma por completo. O sorriso rasga meu rosto, e pela primeira vez eu sinto que talvez as coisas possam se resolver.

— Vocês são dois idiotas! – Diz e então me dá as costas.

Sigo com os olhos ela andar entre as mesas até onde seu marido está. Ele tem um garotinho loiro nos braços. O garotinho tenta enfiar várias batatinhas de uma vez só na boca, arrancando risadas do homem.

Fico assistindo a cena, e me pego sorrindo, e até sentindo uma sensação estranha dentro do peito.

— Pronto para fazer seu pedido senhor? – Pergunta a atendente me encarando em expectativa.

Pisco algumas vezes.

— Não. – Digo me virando para ela. – Eu preciso ir embora.

Tomado por uma vontade nova, e por uma estranha motivação forte, eu saio da lanchonete e parto em direção à pousada. Eu preciso das chaves do carro. Eu tenho um lugar para ir. Abro a porta do quarto com uma certa afobação. Encontro às chaves em cima do criado mudo. Mark que estava deitado na cama tirando um cochilo acorda de supetão e me encara com os olhos semicerrados.

— O que está fazendo? – Pergunta coçando os olhos. – Onde está meu jantar? Já anoiteceu.

— Eu preciso sair. – Digo enfiando as chaves no bolso da calça.

Isso parece despertá-lo.

— Aonde você vai? – Posso sentir a irritação em sua voz. – John! Pelo amor de deus, nós acabamos de chegar, pense um pouco!

— Eu já pensei de mais Mark, eu pensei por três anos, eu só sei agora o que eu preciso fazer. – Respondo o encarando e praticamente implorando para que ele me entenda. Para que ele entenda que ela é minha felicidade, que eu não vou poder ser feliz sem ela.

— Você não tem jeito mesmo! Depois de tudo você ainda vai atrás dela!

— O que você faria no meu lugar? Eu a amo. Amo demais, e eu não quero desistir de novo, não quero deixar minhas oportunidades passarem. Se ela não me quiser mais, paciência. Mas se ainda restar uma esperança, nem que seja pequena, eu vou me agarrar a ela!

— Que oportunidade John? – Pergunta com a sobrancelha arqueada.

— Ela me ama, eu encontrei com a Julia.

— A Julia te disse isso? – Pergunta com as sobrancelhas franzidas.

— Não, não diretamente, mas eu sei que sim. – Passo minhas mãos por entre meus cabelos. Eu estou nervoso, eu estou inquieto, e eu preciso que ele me apoie. – Eu preciso fazer isso. – Insisto.

Mark me encara por alguns segundos com uma expressão fria.

— É isso o que você quer? – Pergunta desconcertado. – Eu apenas não quero te ver ferrado outra vez. Eu me preocupo com você! Eu quero te ver bem, e já que ela é o seu bem, pode contar comigo. – Me sinto aliviado por ele finalmente entender isso. — Mas se alguma coisa der errado, eu juro que te interno numa porra daquelas clinicas de loucos!

— Nada vai dar errado dessa vez. – Murmuro me sentindo confiante.

— Então anda logo. – Diz pegando sua camisa em cima da cama. – Já que você não comprou nada para comer, eu vou ter que me virar. – Resmunga.

A lua já está alta no céu. Olho em meu relógio e ainda é um pouco cedo, talvez eu consiga pegá-la sozinha no restaurante. Não quero que nada atrapalhe a nossa conversa. Eu quero que ela volte para mim.

Sigo o caminho todo, e passando pelo mesmo caminho que passei por tantas vezes me sinto inundado de tantas recordações. Recordações boas, muito boas. E uma esperança cresce em mim.

O dia tinha sido longo, e eu estava uma pilha de nervos por conta do meu encontro nada amigável com um “amigo” dela. O cara tinha me tirado do sério, com insinuações de que eu estaria a usando. Eu nunca fui um santo, mas sempre deixei bem claro o que eu esperava de quem estivesse comigo no momento. Eu nunca tinha me envolvido com alguém do jeito como eu estava me envolvendo com a Mel. E eu estava sendo sincero em relação a tudo. Eu a queria para a vida toda.

Ela correu até mim assim que estacionei o carro. Eu a peguei no meio do caminho, a abraçando com tudo o que tenho. Abraçando meu mundo inteiro. A apertando em meus braços. A coisa mais preciosa que já tive em toda a minha vida, a dona do meu coração.

— Você demorou. – Murmurou baixinho com o rosto colado em meu peito. Lembro-me de fechar meus olhos e inspirar seu cheiro. Deixando que ela tomasse conta de mim.

— Tive um dia longo. Tudo o que eu queria era te ver. – Eu disse beijando seus cabelos. Apertando minhas mãos envolta de sua cintura. Desejando que o tempo parasse por um tempo, e que fossemos apenas nós dois e mais nada.

Às vezes eu ainda desejo que eu pudesse voltar até aquele momento.

Ergui seu rosto até estar bem perto do meu. Encarei seus lindos olhos. Seus olhos brilhavam. Seu sorriso me destruía, porque era a coisa mais linda que eu já tinha visto. É tudo o que eu preciso. Uni meus lábios aos seus, sem nenhum pudor, sem se quer me importar se estavam todos assistindo.

Eu queria que todos soubessem que ela era minha...

E ainda é...

Quando me dou conta eu já estou parado em frente ao restaurante. Percebo que o lugar está diferente. Deve ter passado por alguma reforma. As luzes do lado de fora estão apagadas, mas posso ver que as de dentro do estabelecimento estão acesas.

Aperto o volante a minha frente com força. Juntando toda a coragem que ainda me resta. Parece que depois de tanto tempo, estar aqui de novo, me faz perder a coragem.

— Se controle John. – Murmuro baixinho apoiando minha cabeça ao volante. Tento respirar devagar, já que parece que tudo dentro de mim decidiu parar de funcionar.

Eu não posso dar para trás agora.

Abro a porta do carro, e em um impulso decido ordenar as minhas pernas que andem. Parado em frente à entrada sinto meu coração bater desesperado no peito. Eu hesito por alguns minutos. As portas estão abertas. Ouço vozes abafadas vindas lá de dentro.

— Você não tem jeito Ana. – Diz alguém rindo.

Minha respiração para. Tudo para de funcionar. Eu sei de quem é essa voz, tudo em mim sabe a quem pertence essa voz, por que assim como ela, todo o meu ser também pertence a essa pessoa.

Eu preciso ser corajoso.

Respiro fundo e finalmente passo pelas portas.

Mel está no balcão encarando alguns papéis a sua frente. Ela usa um vestido vermelho de alcinhas. Seu cabelo está preso em um rabo de cavalo, ela coloca uma mecha insistente atrás da orelha. Seus grandes olhos castanhos analisam o papel, e eu sinto meu coração parar. Todo o ar fugir dos meus pulmões. De repente o tempo não passou. De repente eu me sinto novamente como há três anos. Parado embasbacado a admirando sem ela ao menos me notar. Ela ri de alguma coisa que eu não consigo entender. Um sorriso se abre eu meu rosto, por que eu amo vê-la sorrir. Eu senti muita falta do seu sorriso, senti muita falta do seu jeito meigo.

Eu a amo tanto.

Seu rosto se ergue, e seu sorriso vai se desfazendo aos poucos, assim que ela me nota ali parado. Seus olhos se arregalam, e antes com um sorriso, agora seus lábios se abrem em um ”O” perfeito.

— John? – Pergunta ainda com os olhos grandes e castanhos vidrados em mim, como se não estivesse acreditando no que eles viam.

Sorrio, porque realmente não sei se consigo fazer outra coisa nesse momento.

— Mel. – Digo o nome da dona do meu coração.

E depois de tanto tempo tentando me encontrar, eu finalmente me sinto em casa...