Sob minha pele

46 Capítulo 46


Mel.

Não sei direito há quanto tempo eu estou sentada nesta cadeira, em um corredor frio e vazio. Eu não sei o que eu devo fazer a seguir. Eu estou tão perdida agora. Eu achei que tudo o que havia acontecido em minha vida já tinha destruído o meu coração. Eu achei que já tinha sentido a pior dor de todas. Eu fui inocente. Nem em um milhão de anos eu estaria preparada para sentir o que eu estou sentindo agora. Eu sinto um nó em minha garganta, e por mais que eu me esforce eu não consigo desatá-lo.

Eu estou encarando a janela a minha frente, encarando as estrelas que brilham no céu. Levanto-me devagar sem nunca tirar meus olhos delas. Apoiando minhas mãos eu encaro o céu escuro e estrelado com lágrimas nos olhos.

Será que estão todos lá em cima?

Minha mãe? Minha avó? Meu avô?

Se toda a minha família está lá, porque eu ainda estou aqui?

Sozinha?

Eu não suporto essa palavra.

Por que todas as pessoas que eu amo sempre me deixam? Sempre me abandonam? Eu estou tão cansada de sempre ser deixada para trás. Por que elas não podem simplesmente ficar comigo? Por que essa necessidade de sempre quebrar o meu coração?

Passo minhas mãos pelo meu rosto tentando secar as lágrimas. Eu ainda não liguei para ninguém. Eu não sei o que dizer. Eu não posso consolar ninguém, e ninguém poderá me consolar. A única pessoa que podia não está mais aqui comigo.

Apenas ao me lembrar do que aconteceu eu já sinto meu estômago embrulhar. Eu já sinto minhas pernas cederem. Meu mundo desabando. Restando apenas a minha ilha de sofrimento, de onde eu acho que nunca poderei escapar.

Não restou ninguém.

Se não fosse Max eu acho que eu não sobreviveria. Meu filho é a única coisa que me restou. É a única coisa a qual eu posso me agarrar e nunca mais soltar. A única coisa a qual eu tenho certeza que não vou perder.

Volto a me sentar na cadeira desconfortável. Enterro meu rosto em minhas mãos. Deixando que toda a minha angustia seja colocada para fora. Talvez se eu apenas chorar eu me sinta melhor. Talvez se eu apenas chorar...

Os soluços estão cada vez mais fortes, e mais altos. Eu acabei de perder minha única família. E isso está doendo demais. Está machucando demais. Fecho os meus olhos e consigo ver meu avô à minha frente. Consigo ouvir seu último suspiro. Eu vi em seus olhos que ele não estava assustado. Acho que ele já estava preparado. Mas eu não estava. Tenho certeza de que ele pôde ver isso nos meus, e mesmo assim me deixou.

A raiva se mistura a dor, e eu sinto outra parte minha morrer. Elas estão morrendo aos poucos. Eu posso sentir eu mesma escorrer.

Sumir.

— Mel! – Alguém me chama.

Ergo os olhos e me deparo com Rafael vindo em minha direção. O rosto aflito. Levanto-me e jogo meus braços ao redor de seu pescoço. Eu choro. Um choro sofrido e incontrolável. Ele acaricia minhas costas. Seus braços me apertam com força. Eu só preciso me sentir segura. Isolada.

— Vai ficar tudo bem. – Ele murmura com os lábios colados ao meu cabelo.

— Não, não vai. – Choramingo sem reconhecer minha própria voz. Quebrada. – Meu avô se foi Rafael. Eu estou sozinha.

Rafael engole em seco. Seus braços me apertam mais.

— Você não está sozinha. Lembre-se que Max precisa de você, ele é sua família. Ana também, Julia, Gabriel. – Ele acaricia meu rosto com delicadeza e ergue meu rosto até que meus olhos se encontrem com os seus. – E você também me tem. Enquanto você me quiser eu vou estar ao seu lado. – Eu posso sentir o carinho irradiar de suas palavras e atingirem direto o meu coração.

Ele limpa minhas lágrimas com ternura e eu sinto como se ele estivesse juntando os meus pedaços. Todos os cacos. Seus lábios se encostam a minha testa. E eu apenas deixo que ele me dê seu carinho. Deixo que ele me envolva. Que ele não deixe eu me sentir sozinha.

[...]

Doutor Carlos apareceu há uma hora. Eu precisava resolver a papelada. Tem muitas coisas que precisam ser feitas, mas eu não consigo me mexer. Não quero pensar nisso tudo agora. Tudo o que eu quero é abraçar meu filho. Eu preciso dele perto de mim, ou eu vou enlouquecer.

Rafael disse que resolveria tudo, e eu confio muito nele. Ele ligou para Ana e deu a noticia. Eu não saberia como falar.

Estou com a cabeça encostada à parede. Tentando controlar os soluços involuntários. Sinto algo se encostar em meu joelho. Abro meus olhos e Rafael está a minha frente. Posso ver o brilho da compaixão em seus olhos.

— Você precisa descansar um pouco. Eu já preparei tudo. – Diz devagar. Posso ver a dor em seus olhos. – Dói muito em mim te ver sofrer desse jeito Mel. Se eu pudesse fazer qualquer coisa para aliviar sua dor eu faria. – Em meio a tudo isso ele consegue arrancar um sorriso genuíno de mim.

— Por favor, me leve para casa. – Eu imploro baixinho. – Eu preciso do meu filho.

Ele acena que sim.

Quando estou de pé, ele tira o casaco e o coloca por sobre meus ombros.

— Está frio lá fora. – Diz se explicando. Passa os braços por meus ombros e me ajuda a chegar até o carro.

[...]

Está tudo silencioso, eu não sinto a menor vontade de conversar. Eu estou tão cansada, com tanto sono, mas mesmo assim eu não consigo fechar meus olhos e descansar. Sinto um peso enorme em minhas costas e em meu coração dilacerado. Sinto Rafael me olhando de esguelha de tempos em tempos. Ele está preocupado comigo. Eu posso sentir. De repente uma pergunta se instala em minha cabeça.

Como ele sabia onde eu estava?

— Quem te disse? – Pergunto virando meu rosto para encará-lo.

Ele suspira como se fosse um alivio para ele eu ter dito alguma coisa.

— Ana me ligou. – Diz sem tirar os olhos da estrada, porém uma de suas mãos vem em encontro a minha. Sua mão aperta a minha mão em um consolo silencioso. Me sinto confortada com esse gesto. – Eu sabia que você devia estar mal...

— Obrigada. – Digo sincera. – Obrigada por sempre se preocupar comigo. Obrigada por sempre estar disposto a me ajudar desde o primeiro momento.

Lembro-me do quanto ele esteve ao meu lado durante minha gravidez. Ele foi muito mais que um médico, ele foi um amigo. Durante os dois dias em que fiquei no hospital depois de dar a luz, ele sempre estava por perto, sempre fazendo muito mais do que a obrigação de médico. Sempre cuidando de mim e do meu filho. Sem nunca pedir nada em troca.

— Você não precisa me agradecer. – Murmura tímido. – Eu faria qualquer coisa por você. – Ao dizer isso seus olhos encaram os meus com uma intensidade que eu conheço muito bem. Eu via essa intensidade sempre que John me olhava. Porém eu não perco o ar, não sinto meu coração acelerar, e nem minhas mãos soarem. Não tem o mesmo efeito que John causava em mim, mas eu reconheço a intensidade, e isso me entristece, porque eu não posso correspondê-la.

[...]

Achei que a pior parte já tinha passado, mas eu estava enganada, outra vez. Chegar em casa sem meu avô me causa uma dor insuportável. Ele nunca mais virá aqui. E eu não suporto esse pensamento.

A porta da frente se abre e uma Ana em um choro descontrolado me encontra no meio do caminho. Eu achei que minhas lágrimas já haviam acabado. Outro engano. Ana me abraça com força e eu choro com meu rosto enfiado em seu pescoço. Ela acaricia meu cabelo e beija meu rosto.

— Eu sinto tanto Mel. – Sussurra. Seus olhos estão vermelhos. Seu rosto está vermelho. E olhando em seus olhos eu sei que ela sofre tanto quanto eu.

— Eu quero ele de volta Ana! – Digo sentindo meu corpo inteiro tremer com a intensidade do meu choro. – Eu não quero ficar sem ele. Não quero! Eu quero meu avô de volta!

Ana me encara com compaixão. Ela não me diz nada, pois ela sabe que não há nada nesse mundo que ela possa dizer para aliviar a dor que me destrói por dentro.

Abro meus olhos a tempo de ver Julia se aproximando com a mão na boca em uma tentativa de cessar os soluços. Eu a abraço e não dizemos nada uma à outra. Eu apenas preciso sentir as pessoas que amo ao meu redor. Ao contrário do que eu pensava quando estava sozinha no hospital, eu não estou sozinha no mundo. Eu ainda tenho as duas, e meu filho. Meu maior presente.

— Como você está? – Pergunta Julia analisando meu rosto. – O quê eu posso fazer Mel?

— Eu estou me sentindo tão mal Julia! – Digo com tristeza. – Por que todos sempre me deixam? – Minha voz sai com sofreguidão.

— Eu nunca vou deixar você! – Ela enfatiza olhando bem no fundo dos meus olhos. – Eu vou sempre estar aqui, assim como minha tia também.

— Eu estou tão cansada de ser abandonada. – Sinto a tristeza me apertar por dentro. – Todos sempre se vão. Eu estou cansada de sempre ter que recolher os meus próprios caquinhos. – Ela sabe do que eu estou falando. Ela sabe que também falo de John. E sei que ela pode ver nos meus olhos a pessoa a quem eu mais preciso agora.

Eu preciso dele...

Eu preciso que ele me abrace...

Eu não estou aguentando...

— Eu preciso do meu filho. – Digo me virando para Ana. – Onde ele está?

— Ele está dormindo no seu quarto Mel. – Diz Ana enxugando as lágrimas com um lenço.

Sinto os olhos de Rafael me queimarem. Ele está parado me encarando com as mãos enfiadas nos bolsos da calça jeans escura.

— Eu não vou embora. – Diz devagar como se para me acalmar.

— Obrigado. – Murmuro agradecida.

Entro no restaurante e parto em direção as escadas. Passo depressa em frente ao quarto do meu avô. Eu não consigo nem encarar a porta. Eu sei que ele não está lá, e isso me destrói mais. Abro a porta do meu quarto e está tudo escuro. A luminosidade baixa do abajur não serve de nada. Max está deitado na cama enrolado por um lençol grosso. Vou até ele e o pego em meus braços. Ele se mexe. Eu sei que vou acordá-lo, mas eu preciso senti-lo perto. Nos meus braços. Apoio sua cabeça em meu peito, meus braços o apertam com força. Lágrimas escorrem por minha bochecha, e eu tento chorar o mais baixo possível para não assustá-lo.

— John. – Murmuro apertando meu filho contra o meu corpo. – Eu estou precisando tanto de você. – A angustia está tão dolorosa. Fecho meus olhos e imagino que ele está aqui. Comigo. – Estou cansada de ser forte. Eu preciso de você. Preciso tanto.

Desejo que ele possa me ouvir...

Desejo que ele sinta o quanto eu preciso dele...

Desejo que nossa ligação não tenha desaparecido...

Desejo que ele ainda me sinta bater dentro do seu peito...

[...]

O velório do meu avô, assim como seu enterro, foi um tipo de prova de resistência para mim. Todos pareciam estar contando os minutos até que eu desabasse. Permaneci o tempo todo com Max em meus braços. Tê-lo perto de mim me trouxe um consolo, e uma paz, imensurável. A cidade toda estava presente. Ele era muito querido por todos. Porém, quando o velório acabou, e o enterro também, todos voltaram a suas vidas normais. Todos voltaram a suas casas. Nessa altura eu já nem sabia mais qual era o meu normal. O peso da partida de John ainda estava sobre mim, e agora tinha se somado ao peso da perda do meu avô. Erguer a cabeça e seguir adiante nunca pareceu tão difícil.

Mateo compareceu ao enterro do meu avô, mas não trocou mais de duas palavras comigo. Fora que ele nem conseguia encarar o meu bebê. Confesso que isso me deixou chateada. Acho que seu orgulho é muito maior do que eu havia imaginado.

Estou deitada em minha cama, completamente encolhida, encarando o pequeno anjo que dorme em minha frente. Seus dedinhos apertam com força o meu. Sua mãozinha pequena de certa forma segura minha alma, a melhor parte dela. Fecho meus olhos com força quando sinto a memória chegar devagar...

— Eu tenho medo. – Eu disse baixinho mirando meus dedos.

Meu avô havia acabado de colocar o capacete em minha cabeça. Todos na minha escola já sabiam andar de bicicleta. Menos eu. E eu morria de vergonha disso.

Meu avô sorriu.

— Você confia em mim? – Perguntou com a sobrancelha arqueada.

— Confio vovô. – Eu disse baixinho olhando para a bicicleta rosa com meu nome escrito do lado. – Mas e se eu cair? – Perguntei ainda com medo de ter que ir para a escola com o joelho ralado no outro dia.

Meu avô soltou uma gargalhada.

— Se você cair, eu vou estar sempre aqui para te levantar. – Disse com os olhos brilhando. – Agora vamos Mel! Não pense no que pode dar errado, pense no que vai dar certo! Você é a garotinha mais corajosa e linda que eu conheço! E eu posso te contar um segredo? – Perguntou em um tom conciliatório. – Joelhos ralados se curam depressa, os machucados mostram o quão forte você é, eles nos mostram o quanto vale a pena tentar de novo, porque no fim, eles sempre se curam. Se você cair hoje encare como um prêmio. O prêmio pela persistência, e pela vitória no fim.

Eu tinha sete anos. É uma das memórias mais felizes que eu tenho. Eu caí mais de dez vezes naquele dia, e ele sempre me ajudava a levantar.

Eu vou sentir muita a sua falta, todos os dias, até o fim da minha vida.

Ouço batidas na porta.

— Pode entrar.

Julia adentra o quarto segurando uma bandeja.

— Você não comeu nada. – Diz enquanto coloca a bandeja em cima do criado mudo. – Você deve estar exausta. Por que você não come um pouco e depois tenta dormir? – Pergunta carinhosa.

— Não consigo dormir. – Digo engolindo em seco. – Apesar de estar com muito sono. – Admito.

— Eu sinto a mesma coisa. – Ela diz se inclinando para trás e apoiando a cabeça em minhas pernas.

— Onde estão todos? – Pergunto acariciando o rostinho de Max. Ele faz um biquinho lindo quando está dormindo, exatamente como John.

Sorrio ao me dar conta disso.

— Gabriel e Rafael já foram, eles mandaram um abraço. Rafael estava muito preocupado com você.

Ele sempre está...

— Eles são bem legais, não é? – Digo me apoiando em meu braço para poder encará-la.

— São. – Diz suspirando. Julia encara seus dedos e pela primeira vez eu enxergo a aliança. Arregalo meus olhos. Um sorriso se abre em seu rosto quando percebe minha reação.

— É o que eu acho que é? – Pergunto hesitante.

— Ele me levou para jantar. – Diz encarando a aliança. Ela respira fundo. – E me pediu em casamento, e eu aceitei. Dá para acreditar nisso?

Sento-me abruptamente e jogo meus braços ao seu redor.

— Você vai se casar! – Digo realmente feliz por ela. – Meus parabéns Julia! Você não poderia ter encontrado pessoa melhor!

Ela abaixa os olhos até nossas mãos entrelaçadas.

— Eu queria que fosse em circunstâncias diferentes. – Choraminga. – Eu não consigo me sentir feliz agora, é como se fosse errado.

Coloco uma mecha do seu cabelo atrás de sua orelha e a fito com carinho.

— Não tínhamos como adivinhar, e eu sei que onde quer que meu avô esteja ele está muito feliz por você. – Digo com a voz embargada.

Julia me abraça forte.

— Eu também vou sentir falta dele Mel! – Diz com a voz chorosa.

— Todos nós vamos Julia. – Murmuro com meu rosto enterrado em seu pescoço.

Julia segura meu rosto em suas mãos, e me encara com intensidade.

— Você ainda vai ser muito feliz Mel – diz com lágrimas escorrendo de seu rosto – tenho certeza de que você vai ser recompensada por tudo o que você já sofreu. Um dia você vai ser tão feliz, mais tão feliz, que você nem vai se lembrar do que é estar triste.

Sorrio para ela e deixo que suas palavras se infiltrem em meu coração.

[...]

Os dias tem se passado, e tem sido dias difíceis de sobreviver. Acho que se não fosse por Max eu não conseguiria me reerguer de novo. Apenas de olhá-lo eu já sinto minhas forças renovadas para tudo o que está por vir.

As responsabilidades do restaurante ficaram todas para mim já que eu sou a única da família Guillén que ainda restou. Eu sinto sua falta todos os dias, e durante todos os segundos do meu dia. Eu ainda me pego chorando à noite, ainda me pego conversando sozinha, e eu sei que pode parecer estranho, mas eu sinto como se meu avô estivesse me ouvindo, sinto como se ele estivesse me aconselhando de onde quer que ele esteja, e isso me traz um consolo enorme.

Já se passaram alguns meses, e hoje é meu aniversário de vinte e um anos. Não consigo evitar me sentir triste. Meu avô sempre esteve ao meu lado em meus aniversários, ele sempre era o primeiro a me desejar felicidade, a me abraçar, a me beijar. Hoje está tarefa ficou para Max. Na próxima semana ele completa oito meses. Ele está tão grande, e sua semelhança com John às vezes me assusta.

O contorno das bochechas, os lábios finos, a cor dos olhos, e seus olhos carregam a mesma intensidade. A cor dourada dos cabelos...

Ele é sua cópia perfeita.

Ana fez questão de fazer um bolo, e há poucos minutos eu estava soprando a vela. Meu desejo foi simples, e do fundo do meu coração. Desejei que as coisas melhorassem, e que coisas ruins parassem de acontecer.

Estamos todos sentados ao redor da mesa. Estou com Max em meus braços, ele está todo sujo de chocolate, e parece não se importar. Suas mãozinhas gordinhas atacam o bolo a sua frente o que faz todos gargalharem.

Julia e Gabriel estão nos falando sobre os preparativos para o casamento. Julia veio conversar comigo, ela achou que deveria adiar o casamento por causa do luto, mas eu conhecia bem o meu avô, e sei que ele ficaria triste com algo assim. Ele sempre quis nos ver feliz. Então eu disse que não via o porquê de ter que adiar o casamento. Sendo assim, está tudo marcado para o próximo mês. Gabriel vai precisar fazer uma especialização em outro estado, talvez dure um ano, e ele não quer se afastar de Julia por tanto tempo, e, além disso, de jeito nenhum Ana permitiria que Julia viajasse com ele. Então, como eles já estavam falando sobre casamento, decidiram fazer tudo logo.

Rafael também irá fazer essa tal especialização. Talvez eu fique um bom tempo sem vê-lo.

— Eu não quero nada muito grande – diz Julia animada falando sobre os preparativos do casamento. – Eu quero algo apenas para os mais próximos.

Gabriel apenas fica a admirando. E eu acho isso à coisa mais fofa do mundo. Tudo o que ela diz e resolve para ele está maravilhoso.

Por um momento eu sou transportada para a época em que eu e John falávamos sobre esse assunto. Sinto um aperto no coração. Se tudo tivesse sido diferente, com toda a certeza já estaríamos casados por essa hora.

— Mel? – Julia estala os dedos em frente ao meu rosto.

— Desculpa – digo piscando algumas vezes, saindo do meu transe. – O quê foi?

— Onde você estava? – Ela pergunta achando graça. – Parecia até que estava em outro planeta.

— Eu só estou distraída. – Digo deixando um beijo na bochecha de Max que balbucia suas palavras de bebê que ninguém consegue entender.

— Eu estava falando sobre o vestido de madrinha. Nós escolhemos vermelho. Ele é tão lindo tia – diz Julia agarrando as mãos de Ana que tenta manter a compostura. Eu sei o quanto ela está feliz por Julia, mas eu também sei o quanto ela sente por ela estar finalmente batendo as asas. – Mel vai ficar linda com o vestido. – Diz Julia me lançando uma piscadela.

Sorrio encabulada.

— Mel fica linda com qualquer coisa. – Diz Rafael sorrindo para mim. Ele não disfarça mais, e eu não tenho mais a desculpa de dizer que não percebo suas intenções, porque todos já perceberam. – E eu sou um sortudo por ser seu par. – Finaliza levando a garrafa de cerveja aos lábios.

— É um sortudo mesmo! – Reitera Ana. Já deu para perceber que ela simpatiza muito com ele.

Eu tento disfarçar o máximo possível, mas não sou cega e posso ver o sorrisinho no rosto de todos à mesa. Eu sei o que eles acham. Acham que eu deveria dar uma chance para o Rafael, e Julia já me disse que não entende o porquê de eu não ter feito isso ainda. O problema é que eu não consigo sentir nada mais que amizade e eu não acho certo me envolver com uma pessoa enquanto se está pensando em outra.

Mesmo que essa outra pessoa não mereça.

Não se manda no coração.

— Exagerado Rafael. – Digo sem encará-lo tentando amenizar o clima. – Mas obrigada pelo elogio.

Ele sorri.

— Aonde vão passar a lua de mel? – Pergunta Rafael se dirigindo a Gabriel.

— Nós ainda não pensamos nisso. – Diz ele encarando Julia. – Acho que estamos muito envolvidos nos preparativos. – Diz Gabriel dando outra garfada no bolo.

Me sinto aliviada por ter entrado em um assunto seguro.

— Bom, então é muita sorte de vocês dois terem padrinhos tão legais assim como eu e o Rafael. – Digo deixando os dois surpresos.

— Sabe que eu concordo Mel. – Diz Rafael com um sorriso conciliatório no rosto. Nós nos entreolhamos. – Nós somos padrinhos maravilhosos!

Julia revira os olhos.

— Será que dá para vocês dois falarem nossa língua! – Diz fingindo irritação, mas eu consigo ver um sorriso despontando em seus lábios.

— Estávamos conversando sobre qual seria o presente perfeito que o casal de padrinhos mais maravilhoso de todo o mundo poderia dar. – Diz Rafael cruzando as mãos atrás da cabeça. Acho que meu rosto ficou pálido com a palavra “casal”, porque Ana soltou uma gargalhada. – Então chegamos à conclusão de que uma viagem para um lugar bem romântico seria perfeito. – Ele termina se sentindo orgulhoso.

Julia arregala os olhos para mim, e eu dou de ombros.

— Então – eu continuo por ele que não tira os olhos de mim – nós chegamos à conclusão de que uma viagem para a Itália seria perfeito. Vocês podem viajar e ter a lua de mel antes de viajarem para Barcelona, para a especialização do Gabriel.

Julia solta um gritinho e todos nós rimos.

— Ai meu deus! – Ela grita estridente. – Isso é maravilhoso, vocês são os melhores padrinhos de todo o mundo!

— Valeu cara! — Diz Gabriel dando tapinhas nas costas de Rafael.

— Nós sabemos! – Diz Rafael passando as mãos pelos cabelos escuros.

— Convencido. – Murmuro o fazendo rir. – A ideia foi minha!

— É verdade, vou deixá-la levar o crédito. – Diz segurando minha mão por sobre a mesa.

Acho que alguma coisa dentro de mim acabou de parar de funcionar, porque eu não estou conseguindo respirar direito.

— Eu não acredito que a minha garotinha vai casar! – Diz Ana sem conseguir conter o pranto. Julia passa os braços por seu ombro e beija sua bochecha.

— Tia, eu não vou para longe, eu vou morar bem pertinho. – Diz Julia achando graça. – Você vai ver que vai passar bem rápido o tempo que vou passar em Barcelona. Logo eu vou estar aqui!

Sorrio com a cena. Solto a mão de Rafael e desvio meus olhos para o meu braço, e Max está dormindo com o rosto todo sujo de chocolate.

— Eu preciso cuidar desse aqui. – Digo apontando para o meu ursinho comilão. – Preciso dar um banho nele.

Levanto-me da cadeira com Max em meus braços.

— Boa noite para vocês! E muito obrigada pelo bolo! – Digo agradecida por eles estarem sempre fazendo o possível para me deixar feliz.

— Não foi nada! – Diz Rafael se levantando e caminhando até mim. Ele me dá um abraço apertado e beija a maçã do meu rosto. Seus os olhos se fixam nos meus. – Eu faço qualquer coisa para te fazer sorrir. – Ele acaricia meu rosto, e sinto um sorriso desabrochar em meu rosto.

— Obrigada. – Murmuro sem desviar meus olhos dos seus.

Subo as escadas com Max adormecido em meus braços. Chegando ao quarto eu tento acordá-lo, pois ele não pode dormir todo sujo. Ele choraminga um pouco. Quando finalmente desperta me presenteia com um sorriso que puxa as cordas do meu coração. Beijo a pontinha de seu nariz.

— Seu nariz está com gosto de chocolate. – Digo rindo, o que o faz rir também. – O que eu faço com você Maximilían Richard?

Max dá um gritinho de pura felicidade e eu o levo para a banheira, onde ele esparrama água para todos os lados me deixando completamente encharcada. Ele balbucia suas palavras de bebê como se quisesse me dizer algo e meu peito parece que vai explodir de tanta felicidade.

Depois do banho eu o visto e me deito ao seu lado na cama. Ele demora a pegar no sono, acho que o banho o despertou. Mesmo demorando a dormir ele não faz bagunça, ele apenas fica me encarando com seus olhos grandes e verdes. E eu não consigo deixar de sentir. É como se John estivesse olhando direto para mim.

Isso só pode ser um tipo de castigo.

Uma penitencia.

— Por que você tem que parecer tanto com ele? – Pergunto acariciando seus cabelos. Os fios claros passam por entre meus dedos. Lembro-me de fazer muito isso em John, lembro do quanto ele gostava. Max parece gostar também. Seus olhos vão se fechando devagar. E eu sinto uma lágrima solitária escorrer por minha bochecha.

Assim que Max pega no sono eu me levanto e vou em direção à gaveta. Embaixo de todas as roupas está uma caixa com a camisa, e com a pulseira que John me deu no dia em que me pediu em casamento.

Passo meu dedo pelas letras, que escrevem:

Com todo o meu amor

Do sempre seu.

John.

Levo o pingente de coração aos lábios e o beijo. Pego uma das minhas correntinhas e tirando o pingente da pulseira eu a coloca na corrente. Prendo a corrente envolta do meu pescoço. Pelo menos assim eu posso tê-la por perto, e estando em meu pescoço eu posso escondê-la e ninguém irá ver.

Não quero admitir que ainda o amo com todas as minhas forças. Não quero que me achem uma idiota por ainda ter esse sentimento dentro de mim. Eu apenas não consigo esquecer. Acho que vou levá-lo em meu coração para sempre.

Eu amo tanto o nosso filho. E ele não me deixa esquecer nem por um segundo tudo que aconteceu entre mim e John. Ele é a prova de tudo de mais bonito que já aconteceu em minha vida.

Confesso que às vezes eu me sinto tentada a aceitar Rafael. Talvez de algum jeito ele me ajude a esquecer John, e a parar de sofrer por ele. Mas ao mesmo tempo eu não acho justo. Então eu simplesmente acabo em uma batalha interna, porque mesmo que eu não queira admitir, uma parte minha não quer esquecê-lo, quer apenas continuar o amando.

[...]

Semanas depois.

Julia está uma pilha de nervos desde a hora em que acordamos bem cedo. Já está tudo preparado para a cerimonia, mas mesmo assim ela parece achar que a qualquer segundo alguma coisa vai dar errado. Eu e Ana tentamos acalmá-la, e eu me desdobro para fazer meu papel de madrinha, ao mesmo tempo em que cumpro o meu de mãe. Afinal de contas, Max é apenas um bebê. Ele precisa de mim para tudo.

Um sorriso vem ao meu rosto quando percebo que Julia já está pronta. Ela está se admirando em frente ao espelho. Seu vestido é simples, porém muito bonito. Acertamos em cheio na escolha, e lembrando que tivemos que fazer tudo em tempo recorde. Ficou tudo perfeito. Enquanto Ana ficava com Max, eu arrumei seu penteado. Ela está com um coque bem preso acima da cabeça, enfeitado com uma coroa pequena, e muito delicada. Nada de maquiagem pesada. Ela está linda. Sinto meus olhos marejarem. Afinal, quantas vezes nós não sonhamos com este momento quando éramos crianças? Nós apostávamos quem iria casar primeiro.

— Você está tão linda. – Murmuro enxugando as lágrimas. – Queria que meu avô estivesse aqui para vê-la.

Eu simplesmente não consigo esquecê-lo. Não consigo não desejar que ele estivesse aqui.

Julia aperta minha mão com força. Posso ver que ela está se controlando ao máximo para não deixar que as lágrimas escorram. Afinal de contas, ela é a noiva! Ela tem que estar impecável. Não pode borrar a maquiagem.

— Eu também queria que ele estivesse aqui. – Choraminga baixinho. – Lembra que ele dizia que iria levar nós duas ao altar?

Um bolo se forma em minha garganta.

Isso nunca vai acontecer.

— Tenho certeza de que ele está muito feliz agora. – Diz Ana sorrindo para nós duas.

Nós duas sorrimos. Julia me olha dos pés a cabeça, e dá um assovio.

— Eu não sou a única que está linda de morrer! – Diz animada. Rio com isso. – Rafael já te viu? Ele vai ter um treco. Vai babar mais do que já baba normalmente.

Eu estou com um vestido vermelho rodado na altura dos joelhos. O vestido é de alcinha e tem um decote modesto. Julia insistiu para que eu deixasse meus cabelos soltos. Bom, tenho que admitir. Estou bem bonita. Pelo menos foi isso o que o espelho me disse da última vez em que me olhei.

Estreito minhas sobrancelhas e faço cara de desgosto.

— Ele não baba! – Protesto.

Julia e Ana se entreolham.

— Se você diz. – Diz Ana se contorcendo para evitar a gargalhada.

Reviro os olhos.

[...]

A cerimônia durou mais ou menos uma hora. O casamento foi na pequena capela da cidade vizinha. Era tudo muito aconchegante, e com a decoração tudo teve um ar muito romântico. Rafael conduziu Julia ao altar, e a um Gabriel incrivelmente nervoso. De onde eu estava eu podia perceber suas mãos tremerem. Durante a cerimônia Rafael ficou o tempo todo ao meu lado. Eu podia sentir seus olhares furtivos em minha direção. E ele estava tão bonito. Ele estava muito feliz por seu amigo, assim como eu estava por minha irmã de coração. Julia merece tudo de bom nessa vida, e eu sempre soube que um dia ela encontraria um homem que a valorizasse.

Quando finalmente os noivos disseram sim, todos nós fomos encaminhados até o jardim da capela onde aconteceria a festa.

Estou admirando Julia e Gabriel. Eles estão dançando. Eles não conseguem parar de se tocar. Os olhos deles brilham na direção um do outro. Me pego pensando se em algum dia eu poderei olhar para outra pessoa assim. Se algum dia eu vou voltar a me apaixonar. Instintivamente minha mão vai ao pingente pendurado em meu pescoço.

Max está brincando com os guardanapos. E eu estou distraída em meus pensamentos quando sinto uma mão se encostar ao meu ombro. Levanto meu rosto e vejo um Rafael com um sorriso convidativo no rosto. Ele retirou o paletó e o nó de sua gravata está praticamente desfeito. Tem um brilho diferente em seus olhos. Arrisco a dizer que é o resultado de muito vinho, misturado a muito champanhe.

— Quer dançar? – Pergunta cordialmente.

Sorrio para ele.

— Eu estou cuidando do Max. – Digo sem graça.

Seu sorriso se desfaz, ele faz cara de desgosto e eu me sinto um monstro.

— Não seja por isso. – Se intromete Ana. – Eu fico com ele, e você vai dançar!

Um sorriso volta a iluminar o rosto de Rafael. Ele me estende a mão, e sua expressão parece me dizer: Agora você não tem para onde correr!

— Obrigada Ana! – Diz Rafael piscando para ela.

— Tudo bem! – Digo passando Max para os braços de uma Ana sorridente. – Já que parece ser tão importante para você.

— É importante sim. – Murmura contente.

Ele não consegue parar de sorrir, e isso é contagiante.

Quando chegamos à pista de dança Rafael enlaça minha cintura. Seguro firme em seu ombro. Seu rosto está bem perto do meu pescoço. Rafael é muito alto, e mesmo eu estando usando salto meus olhos ficam na altura do seu nariz.

— Você está linda. – Sussurra em meu ouvido. – Quando eu te vi chegar eu pensei que meu coração fosse parar.

Ergo meus olhos para encarar os seus. Por um momento eu pensei que ele estivesse brincando, mas seus olhos, e sua expressão me dizem exatamente o contrário. Isso faz um arrepio subir por minha espinha.

— Por que está me dizendo isso? – Pergunto desconcertada.

Tenho certeza de que meu rosto está corado. Eu sinto o sangue fervilhar.

Ele suspira.

— Talvez o vinho tenha me dado coragem de pela primeira vez desde que coloquei meus olhos em você de dizer a verdade. De dizer o que eu sinto.

Ai meu deus!

Acho que meu coração vai parar bem agora.

— Não entendo Rafael. – Murmuro olhando para o botão de sua camisa.

Por favor! Não continue com isso!

— Eu estou apaixonado por você. – Diz com sofreguidão. – Desde a primeira vez que te vi. E eu venho te amando, e te amando mais a cada dia. Eu sei que você não sente o mesmo, e eu juro que tentei parar de sentir, mas eu não consegui. – Diz quase sem voz.

Estou me sentindo tão mal agora. Meus olhos de repente não sabem para onde olhar. E eu não tenho coragem de encarar os seus.

— Sei também que esse não é o lugar ideal para eu te dizer isso – ele engole em seco. – Mas eu não sei quando vou ter a coragem de te pedir uma chance outra vez. – Suas mãos vão até o meu rosto e acariciam minhas bochechas. Ele levanta o meu rosto e eu tenho certeza de que ele pode ver as lágrimas em meus olhos. – Eu amo você, e eu quero te fazer feliz. Eu consigo ver a tristeza em seus olhos e você não sabe o quanto isso me destrói. — Sua expressão está tão séria agora. Eu acho que eu nunca o vi falar tão sério. — Você pode não me amar agora, mas eu sei que com o tempo, talvez – ele dá de ombros – você possa me amar, pelo menos um pouco.

— Eu já amo você Rafael – digo tentando encontrar as palavras certas -, mas não desse jeito.

Posso ver que isso acabou de feri-lo. E esta não era minha intenção, mas eu não quero mentir para ele.

Rafael se inclina e encosta seu rosto ao meu. Suspira baixinho como se estivesse reunindo forças.

— Se você tentasse – diz quase implorando o que quebra meu coração – com o tempo, você poderia sentir algo mais forte por mim. Eu amo você – diz com intensidade – mesmo que você não sinta o mesmo, eu não tenho vergonha de dizer o que eu sinto por você. – Seus dedos se entrelaçam aos meus, e eu sinto algo dentro de mim ceder. – Eu também amo o Max. Amo aquele garotinho como se ele fosse meu. – Eu sei que ele está sendo sincero. –Você sabe que eu vou passar um tempo fora, então você pode usar esse tempo para pensar. Sem pressão. — Seus olhos azuis olham bem no fundo dos meus, e sinto meu coração ter um descompasso. – Eu não iria me perdoar nunca se eu não tentasse pelo menos uma vez.

John seguiu adiante.

Porque eu não posso fazer o mesmo?

— Eu não quero te magoar. – Admito baixinho.

E se não der certo?

E se eu nunca conseguir esquecer John?

— Você só vai me magoar se não me der uma chance. – Diz com o rosto bem colado ao meu. – Só uma Mel. Juro que vou tentar não te encher mais se não der certo.

Rio com isso.

— Você nunca me enche. – Digo sorrindo.

— Isso é um sim? – Pergunta animado. O sorriso parece querer partir seu rosto em dois, o que é adorável. – Por que eu acho que foi um sim.

— Isso é um talvez.

— Para mim já basta. – E ao dizer isso cola seus lábios nos meus. De repente ele está me beijando, e ao contrário do que eu imaginei, eu não me sinto mal sendo beijada por ele. Pelo contrário. Eu me sinto amada outra vez. As mãos de Rafael se emaranham em meus cabelos, e ele suspira de contentamento enquanto seus lábios se moldam aos meus.

De repente eu me lembro de que estamos no meio de uma festa. Me afasto dele.

— Rafael. – Eu o repreendo.

Ele sorri.

— Obrigada Mel. – Diz beijando minha testa. – Obrigado por me dar uma chance.

Espero não me arrepender disso.

Espero conseguir parar de pensar nele...