Sob minha pele
47 Capítulo 47
Mel.
Algum tempo depois...
As coisas estão diferentes agora, mudaram com o tempo, com o passar dos meses, dos anos. No começo o que era difícil de superar, o que era difícil de me acostumar acabou virando rotina. Eu sou uma mulher diferente do que já fui. Agora eu sou mãe, e uma adulta responsável. Cuido do restaurante, cuido do meu filho, e tento cuidar de mim.
As coisas do passado não passam de lembranças, dependendo das noites são felizes, às vezes tristes, às vezes amargas, porém às vezes são só lembranças, e eu consigo mantê-las assim.
As coisas foram mudando junto com o tempo. Julia e Gabriel se mudaram para Barcelona durante um ano. Eles vinham nos visitar de tempos em tempos, assim como eu também às vezes tirava um tempo para poder respirar novos ares também. Mas mesmo assim fiquei muito feliz quando ela voltou.
Rafael viajou para fora do país para fazer sua especialização, e eu estaria mentindo se eu não dissesse que senti muito a sua falta. Nós combinamos de tentar, e tentamos por uma semana até que ele teve que fazer sua viagem. Porém ele deixou bem claro que quando ele retornasse nós voltaríamos de onde havíamos parado. Nós mantínhamos contato sempre. Ele me ligava todos os dias pelo menos umas três vezes ao dia, logo depois ele começou a me enviar cartas, e eram todas tão lindas, me deixavam suspirando o dia todo. Ele falava sempre como o meu sorriso o deixava bobo, dizia o quanto ele gostava de me beijar – mesmo que tenham sido apenas algumas vezes -. Rafael é o tipo de homem romântico, e eu já reparei nisso. Com o tempo eu aprendi a amá-lo. Não da forma intensa como um dia eu já amei, mas amava. Ele é um homem bom, mesmo estando longe se mantêm presente, ama o meu filho, e para mim isso é o mais importante.
Max fez dois anos há alguns meses. O jeito como ele cresce e fica mais esperto a cada dia me deixa boba. Tudo aconteceu tão rápido. Os primeiros dentinhos, as primeiras palavras – mesmo que às vezes eu não conseguisse entender nada -. Lembro-me de como eu ficava aterrorizada de tanto medo quando ele saia engatinhando pela casa, ou como o meu coração se partia quando ele se machucava, era como se eu tivesse me machucado também. Os tombos enquanto ele tentava dar seus primeiros passos, a primeira vez que me chamou de mamãe. Acho que eu nunca tinha sentido tamanha felicidade antes.
Ele é meu filho, e eu sou sua mamãe.
Estamos em março. Estou nervosa em expectativa. Rafael chegou de viagem no último final de semana. Nós vamos jantar juntos hoje à noite. Ele disse que iria me levar em um lugar que eu iria adorar.
Estou curiosa.
Dou uma última conferida no espelho. Conferindo o vestido vermelho na altura dos meus joelhos. Meus cabelos estão mais curtos um pouco acima dos seios, na altura do pingente de coração que está sempre perto de mim. Eu não mudei muita coisa nos últimos anos, Ana diz que ainda vai descobrir o que eu tomo para não envelhecer nunca. Não sei o que ela esperava. Não se passou tanto tempo assim. Eu tenho apenas vinte e dois anos. Sou jovem ainda.
Começo a arrumar os brinquedos de Max que estão espalhados pelo quarto. Às vezes eu não tenho onde pisar direito. Max não sabe com o que brinca, e acaba que eu fico sem espaço, por esse motivo eu estou começando a montar seu quarto, mesmo já sabendo que vai ser uma luta fazê-lo ficar lá sem mim. Ele é muito apegado e não me solta por nada.
E eu não reclamo disso. Nem um pouco.
Meu filho é o que eu mais amo no mundo.
Depois de colocar seus brinquedos em suas respectivas caixas, eu saio a sua procura. Passando pelo corredor de paredes completamente brancas, eu paro e percebo que já não estão mais tão brancas assim. Várias marcas de pequenas mãozinhas pintadas de verde pintam o branco. Eu consigo contar nitidamente seus cinco dedinhos.
Ele não teria como achar!
Teria?
Eu disse para o Gabriel que não era uma boa ideia dar tintas para um garotinho de dois anos. Então claro que eu as escondi, mas às vezes a esperteza do meu pequeno anjo me assusta.
— Max! – Eu chamo por ele.
Passo meus olhos por todos os cantos possíveis. Procuro no quarto que era do meu avô, já que ele gosta de brincar lá, precisamente dentro do guarda-roupa. Dá última vez que ele se escondeu lá eu quase enlouqueci procurando por ele.
E não. Ele não está lá!
Eu o encontro na sala, todo pintado de verde, enfiando as pequenas mãos gordinhas no pote de tinta. Ele sorri quando me vê, o sorriso que puxa as cordas do meu coração. Ele sorri como se não estivesse fazendo nada de mais. Acho que ele não percebe minha cara de espanto.
Meu filho virou um pequeno Hulk!
— Max – digo indo até ele e me ajoelhando à sua frente. Tiro o pote de tinta de suas mãos, e ele faz cara de choro. – O que a mamãe disse sobre mexer nos potes de tinta?
Ele pisca seus grandes olhos verdes para mim.
— Não pode. – Diz baixinho espalhando ainda mais tinta pelos dedinhos.
Seu rosto está cheio de manchas verdes, assim como seu cabelo e seus braços.
— Então porque você mexeu? – Pergunto encarando-o.
— Queria brincar. – Diz fazendo biquinho. O que amolece meu coração.
— Você pode brincar meu amor, mas nada de sair por ai pintando as paredes ou a si mesmo. — Digo o repreendendo do jeito mais amável possível. – Você pode desenhar no papel, não nas paredes!
Ele é apenas uma criança, e é preciso ter paciência.
— Não pode mexer nas tintas, mamãe? – Pergunta me encarando com seu jeitinho angelical.
Ele ainda fala com seu jeito embolado. Mas na maioria das vezes eu consigo entender o que ele diz. Afinal, eu sou sua mãe. Passo minhas mãos por seus cabelos loiros, completamente pintados de verde.
— Com as tintas não. – Digo suavemente. – Você não comeu, não é? – De repente essa ideia passa por minha cabeça, e eu acho que vou ter um ataque cardíaco, mas então ele nega com a cabeça.
— Brava comigo mamãe? – Pergunta tristinho.
Sorrio e beijo sua bochecha.
— Não meu amor.
Como eu posso ficar brava com ele? Com a única pessoa que faz minha vida valer a pena. Com a pessoinha que mais amo no mundo?
— Meu deus! – Alguém exclama.
Viro-me a ponto de ver uma Ana completamente horrorizada parada na porta. Ela cobre a boca com as mãos. E eu rio enquanto pego Max nos braços e me levanto.
— Maximilian Richard, eu não posso te deixar sozinho nem por cinco minutos? – Diz Ana fazendo cara de brava, colocando as mãos na cintura.
Acho engraçado, pois era exatamente assim que ela fazia quando eu era criança. Max esconde seu rosto em meu pescoço. Ele sabe que fez alguma coisa errada.
— Ana, eu vou dar um banho nesse mocinho, e pode deixar que eu limpo tudo aqui depois que eu colocá-lo para dormir. Já passou da hora da soneca dele. – Digo acariciando suas costas.
— Pode deixar que eu me viro por aqui Mel. Não se preocupe. – Diz Ana vindo até mim. – Max. – Ela chama. Max passa seus bracinhos por meu pescoço e me aperta mais forte. Enterra seu rosto em meu pescoço como se estivesse envergonhado. – Max, eu estou te chamando.
Encosto meus lábios em seu ouvido e sussurro:
— Peça desculpas para a Tia Ana.
Ela levanta o rosto e passa os dedinhos pelos olhos, seu biquinho me diz que ele está prestes a chorar.
— Desculpa. – Murmura com seu jeito doce.
Ana sorri para ele. E eu sinto meu coração derreter dentro do peito.
— Está desculpado. – Diz Ana dando um beijo em sua bochecha. – Mas você tem que obedecer a mamãe. – Diz com ternura.
Ele sorri como se estivesse feliz, e depois boceja e eu percebo minha deixa.
— Agora vamos, mamãe vai te dar um banho e te colocar para tirar o soninho da tarde. – Digo para ele.
— Soninho da tarde? – Pergunta curioso.
Rio de sua inocência que é a coisa mais fofa do mundo.
— Soninho da tarde. – Repito rindo.
[...]
Depois do banho coloco Max para dormir, essa tarefa é minha e ninguém pode tirar. Ele não quer que ninguém além de mim o coloque para dormir. Eu o deixo enrolado em cima da cama, abraçado com seu ursinho.
Desço as escadas e Ana está sentada em uma das mesas. Ela parece escrever em um bloquinho. Creio eu que sejam as compras do mês.
— Você vai sair hoje? – Pergunta sem tirar os olhos do bloquinho.
Sento-me ao seu lado.
— Rafael me convidou para jantar hoje à noite. Você se importa em cuidar do Max para mim? – Pergunto mesmo sabendo que ela não irá se importar nem um pouco.
Ela sorri para mim.
— Claro que não me importo. Você sabe o que eu acho, e sabe também que eu torço muito que as coisas deem certo entre você e o Rafael.
Ela repete a mesma coisa desde sempre.
— Ana, nós estamos saindo apenas como amigos. – Digo para que ela entenda que eu não quero acelerar nada.
Ela estreita os olhos para mim.
— Amigos? – Ela diz sarcástica. – Amigos não se despedem com beijo na boca.
Sinto minhas bochechas esquentarem.
Rafael e eu jantamos juntos no inicio da semana. Nós somos amigos, mas também estamos tentando algo a mais. E por isso eu deixo que ele me beije quando nos despedimos, mas nada além disso.
— Ana, eu quero que as coisas aconteçam devagar, não quero passar pela mesma coisa outra vez. – Digo encarando meus dedos entrelaçados em meu colo. – Dessa vez eu não quero correr.
Não quero ter pressa. Não quero que as coisas aconteçam como aconteceram com John. A situação é diferente, eu sei, mas mesmo assim eu prefiro ter cautela. Até porque Rafael não merece que eu o engane. Não posso negar que nos últimos tempos ele conquistou um lugar especial no meu coração e na minha vida. Eu gosto de estar com ele, gosto de conversar com ele, e sinto que eu venho gostando a cada dia mais. Mesmo assim, eu sei que não é o mesmo que eu sentia com John e nem o mesmo que eu continuo sentindo. Mesmo ele estando longe. Mesmo já tendo se passado três anos desde que eu vi o pela última vez, o que eu sinto por ele ainda está bem vivo dentro de mim, e nem Rafael e nem ninguém poderá apagar.
— Uma hora você vai se dar conta do homem maravilhoso que você tem na sua frente. Rafael não vai te esperar para sempre Mel. Você tem que deixar o John para trás. Já passou tempo demais e as coisas continuam na mesma, se você quer mesmo ser feliz eu aconselho que você caia de cabeça, e aposte nele. Se você ficar se reprimindo como sempre faz, você nunca conseguirá esquecer o John. – Ela me encara com seriedade. – Isso tem que partir de você Mel.
— Eu sei, mas não é fácil, realmente não é. Toda vez que eu olho para o Max é como se eu estivesse olhando para ele, e isso não me deixa esquecer. – Digo sem jeito.
Olhar para o meu filho não me permite sequer ter outro homem em meus pensamentos.
— Então é melhor você se acostumar a viver sempre a sombra daquele amor. E nunca ser feliz. – Diz com a voz firme. Sei que ela me acha uma idiota, e sei que ela está sendo dura de propósito. – Sinto muito se eu estou te magoando, mas eu me sinto na obrigação de abrir seus olhos. Você tem que enxergar o quanto você está sendo burra!
— Eu sei Ana. – Murmuro baixinho.
Esse tipo de conversa sempre me deixa abalada. Todo mundo acha que sabe o que eu tenho que fazer. Eu sei o que eu devia fazer. Mas colocar em prática é muito mais difícil do que só falar.
Caminho até o lado de fora do restaurante. Sento-me em um dos banquinhos. Fecho os olhos e deixo que o sol, e o calor, penetrem em mim.
É meio ridículo uma parte minha ainda esperar por ele?
É ridículo eu ainda o amar?
Pode até ser, mas eu não sei como parar de sentir. Durante a noite em meus sonhos eu ainda me pego pensando em tudo, e em como ele ainda está em tudo.
O que eu faria se ele aparecesse por aqui?
Eu tenho medo dessa resposta. Por que ao mesmo tempo em que eu quero que ele volte, eu também morro de medo que isso aconteça. Morro de medo do que aconteceria caso ele visse Max. Bastaria um olhar para ele ligar um mais um. Ele não teria nenhuma duvida. Parece até castigo o fato de Max não parecer nada comigo, parece castigo Max ter tudo de John, ele é simplesmente sua cópia perfeita. É uma piada de mau gosto do destino.
Eu não deveria deixar John influenciar nada em minha vida. Não deveria mesmo. Mas eu simplesmente não consigo parar de pensar, e de fazer isso. Eu ainda deixo que o amor que eu ainda sinto por ele seja maior que tudo, maior até que a minha própria felicidade, e isso é ridículo, por que ele não merece. Depois dele eu nunca permiti que nenhum outro homem tocasse em mim. Eu ainda continuo sendo apenas dele.
E para que eu me guardo?
Duvido muito que ele ainda sequer pense em mim, não depois de todo esse tempo.
O problema é que o que nós vivemos juntos deixou muitas marcas em mim, e qualquer coisa que possa acontecer comigo depois daquilo parece insignificante, é como se ninguém pudesse superá-lo. É como se ninguém chegasse aos seus pés, ninguém pode substitui-lo. Eu o coloquei em um pedestal, e agora eu preciso tirá-lo de lá.
Estou cansada!
Cansada de me reprimir. Ana tem razão eu tenho que cair de cabeça, tenho que valorizar quem sempre esteve ao meu lado, quem nunca me abandonou. Rafael já me deu mais de mil provas de que seu amor é verdadeiro.
Rafael é atencioso, faz tudo para me agradar e eu nunca correspondo, às vezes ainda fico surpresa com o fato dele não ter desistido depois de todo esse tempo. E pensar nisso me deixa furiosa, Rafael nunca desistiu já John que dizia me amar tanto...
Aquele orgulhoso filho de uma mãe!
Olha lá, já estou pensando nele de novo!
— Ai meu deus! – Digo enfiando minha cabeça entre minhas mãos. – Pare de pensar nele Mel! Pare de ser tão burra! – O pingente de coração pendurado em meu pescoço parece estar zombando de mim. – Eu deveria jogar essa porcaria fora!
Por que eu ainda guardo isso?
Pior!
Por que eu ainda uso?
Deixo o momento de fúria tomar conta de mim. Fúria por ser uma completa idiota. Fúria por depois de tantos anos ele ainda ser dono da maior parte de mim. Fúria por ainda me lembrar com riqueza de detalhes todos os momento em que passamos juntos. Desde a nossa primeira noite até a última. Lembro-me do tanto de vezes em que ele disse que nunca me deixaria. Que nunca iria conseguir ir embora sem mim.
— Por que você não me esperou? – Digo sentindo as lágrimas queimarem meus olhos, mas eu me recuso a chorar. Não outra vez. Não por ele.
Eu queria poder arrancá-lo. Apagar tudo a seu respeito. Começar do zero. Ao mesmo tempo em que essa ideia passa por minha cabeça eu me arrependo de sequer ter pensado nisso. Apesar de tudo ele me deu Max. Meu maior presente.
Olhando para o pingente eu decido que não irei jogar fora, porque ela é uma corrente muito bonita e combina com vários dos meus vestidos, e só por isso. Não é por outra coisa.
— Não mesmo. – Resmungo.
[...]
Max está na sala deitado assistindo ao seu desenho preferido. Eu tento sempre incluir o inglês em seu dia-a-dia. Ele é pequeno, mas é muito inteligente, e ele já sabe algumas coisas. Julia diz que eu faço isso por John. Mas eu faço por que eu quero que meu filho tenha uma ótima educação desde pequeno.
— Mel, ele só tem dois anos! – Diz Julia fazendo cara de cética. – Ele é um bebê ainda. Ele nem saiu das fraldas!
Reviro os olhos para ela.
— Julia, eu acho importante, é de pequeno que se aprende. – Digo sentando no sofá e puxando Max para o meu colo. – E ele adora! Você não adora Max? – Pergunto fitando sua imensidão verde.
— Max gosta, mamãe. – Diz tirando a chupeta da boca e depois a colocando de volta. Ele repousa a cabeça em meu peito e se aconchega em meus braços. Beijo seus cabelos.
— Viu! – Digo fuzilando Julia.
Agora ela revira os olhos.
— Você não me engana! – Diz apontando o dedo para mim. – Sei muito bem porque tudo isso. Você quer que ele aprenda para se um dia ele se encontrar com o pai dele.
A fuzilo com os olhos.
— Papai? – Pergunta Max me encarando.
Sinto meu coração murchar no peito. Meus olhos se enchem de lágrimas. Eu morro do medo do dia em que ele irá me perguntar sobre o pai dele. Eu sei que esse dia vai chegar. Eu fazia a mesma coisa quando eu era criança. Mas ele é muito pequeno.
— Lembra o que a mamãe disse? – Pergunto acariciando sua bochecha. – O papai está viajando. – Sinto um nó em minha garganta. Me sinto a pior pessoa do mundo por ser obrigada a mentir para o meu anjinho.
É a terceira vez que ele pergunta algo assim.
Há uns dois meses eu o levei ao parque na cidade. Depois de brincarmos muito eu o levei para comprar algodão doce, lembro que tinha uma garotinha com seus pais. A garotinha chamou o homem de papai. No caminho de volta Max ficava repetindo essa palavra o tempo todo. Eu tive que explicar para ele que o pai dele estava viajando.
Não sabe o quanto isso ainda dói.
— Viajando? – Ele pergunta de novo. As sobrancelhas claras franzidas como se estivesse confuso.
— Viajando. – Repito. – Agora assista seu desenho. Mamãe já volta.
Levanto-me e encaro Julia de um jeito que ela já sabe o que está por vir. Chegando ao corredor do lado de fora da sala eu a encaro.
— Desculpa – diz piscando os olhos – eu não deveria ter falado sobre isso na frente dele.
— Não fale de John perto dele Julia! – Digo furiosa, mas mesmo assim tentando falar o mais baixo possível para que Max não ouça. – Ele vai ficar me perguntando agora! O que eu vou dizer para ele?
Julia bufa.
— Ele é um bebê Mel! Ele vai esquecer. – Diz como se não fosse nada de mais.
— Você sabe que não é assim! – Digo a fuzilando com os olhos. – Você sabe o quanto ele é curioso. Ele pode ter apenas dois anos, mas ele é muito esperto. E eu não quero ter que ficar mentindo para ele.
Julia arqueia a sobrancelha para mim.
— Você só pode estar brincando. – Diz cruzando os braços. – Você já mente para ele! Papai está viajando. – Diz desdenhando minhas palavras e fazendo aspas no ar.
— Não se envolva nisso. – Eu a advirto. – Eu sei o que devo dizer ao meu filho. Ele é muito pequeno para entender essas coisas, então é melhor evitar falar sobre esse assunto perto dele.
— Às vezes eu não tenho tanta certeza de que você sabe o que está fazendo. Porque na verdade você não sabe o que está fazendo, você continua tão perdida quanto no dia em que descobriu que estava grávida.
Ela só pode estar de brincadeira.
— Eu não estou perdida! – Digo mal conseguindo me controlar. – Eu cuido muito bem do meu filho! Eu assumo minhas responsabilidades de mãe!
— Disso ninguém pode dizer o contrário, você é uma ótima mãe. Mas não minta para mim. Eu vi a sua cara quando Max olhou para você. Você nem sabe o que dizer para ele. Imagina quando ele estiver na escola! Quando ele ver que os amiguinhos dele tem pais e mães e ele não. Ele vai te perguntar Mel! E o que você vai dizer? Você vai contar que o pai dele nem sabe que ele existe? Ou vai dizer que o papai está viajando?
Nossa! Um soco teria doido menos.
— Vai demorar muito até isso acontecer. – Digo sentindo a raiva irradiar de mim. Julia parece nem ligar. – E o que você quer que eu faça? Eu não posso voltar atrás!
— Mesmo que demore, é melhor você se preparar. – Diz e então volta para a sala.
Fico um tempo em pé, sozinha, pensando em suas palavras. Como sempre ela está certa, e isso é irritante! E eu sei que tomei a decisão certa. Como iria ser? Max passaria metade do ano comigo e metade do ano com ele? Não daria certo. Ele é meu, e só meu.
[...]
Depois das oito eu desço as escadas em direção ao restaurante. Estou com um vestido preto simples, meu cabelo está preso num rabo de cavalo. Me dei ao luxo de usar um salto essa noite.
Rafael está com Max nos braços. Ele conversa com ele enquanto Max examina o carrinho que com certeza foi outro presente de Rafael. Seus olhos brilham assim que ele me nota.
— Boa noite! – Diz com um sorriso de apreciação nos lábios.
— Boa noite. – Respondo tímida.
— Você está linda. – Diz me olhando dos pés a cabeça. – A mamãe não está linda? – Sussurra ele no ouvido de Max.
— Linda mamãe! – Diz Max abrindo os bracinhos para que eu o pegue.
Rafael o passa para os meus braços.
— Quem te deu esse carrinho? – Pergunto examinando seu rosto. – Você não tinha esse antes.
Max examina o carrinho por alguns segundos, como se o brinquedo fosse muito interessante. Depois ergue seus olhos para mim e responde:
— Tio Fael. – Diz fazendo bico. Não resisto e o encho de beijos. E o abraço o mais forte que posso.
— Podemos ir? – Pergunta Rafael.
— Claro!
Ele com certeza deve ter feito uma reserva. É bom não nos atrasarmos.
Entro com Max dentro de casa e sou seguida por Rafael.
— Você vai ficar com a titia Ana porque a mamãe vai dar uma saidinha. – Explico para Max enquanto o passo para os braços de Ana.
— Não mamãe! – Diz fazendo cara de choro.
— Mamãe jura que não demora. – Acaricio seu cabelo. – Logo, logo a mamãe volta.
— Nós podemos assistir aquele filme que você gosta enquanto sua mãe não volta. – Diz Ana tentando animá-lo. Porém suas sobrancelhas que estão franzidas me dizem o contrário. Incrível como até nisso ele se parece com seu pai.
— Quero a mamãe. – Diz emburrado.
Rafael se ajoelha em frente a Max.
— Eu juro que trago a mamãe rapidinho. – Diz segurando a mãozinha de Max. – Quando ela chegar você pode colocar a mamãe para dormir.
Sorrio com isso.
Seus olhos verdes vão de mim até Rafael. Ele não diz mais nada. Só continua emburrado. Às vezes eu me esqueço que ele tem apenas dois anos. Ele age como um perfeito homenzinho mandão.
Beijo sua bochecha.
— Eu te amo, meu ursinho. – Digo sorrindo. – Você não vai me dar um beijo? – Pergunto fazendo cara de triste. Ele se inclina e deposita um beijo molhado em minha bochecha. – Agora sim!
[...]
A viagem de carro durou quase uma hora. O restaurante é distante. Eu e Rafael fomos conversando durante todo o caminho. Ele tem me falado muito sobre o curso que fez, e admito que o ouvindo falar eu também sinto vontade de fazer alguma coisa. Eu tinha esses planos, mas a chegada de Max mudou tudo. Meu mundo gira em torno dele desde que eu o tive em meus braços pela primeira vez.
Chegamos ao restaurante, e eu realmente me sinto surpresa por nem saber que ele existia. Rafael reservou uma mesa. A mesa fica do lado de fora e tem uma vista de tirar fôlego. Eu quase posso contar todas as estrelas no céu.
— Gostou? – Pergunta puxando a cadeira para que eu me sente. Ele parece meio nervoso. Como se minha opinião fosse muito importante.
É melhor eu tranquiliza-lo.
— Eu amei Rafael. – Digo sorrindo para ele.
Ele se senta a minha frente e abre seu sorriso encantador, e eu praticamente posso vê-lo exalar em alivio.
— Eu quero que tudo seja perfeito hoje. – Ele diz segurando minha mão por sobre a mesa. — Você estando aqui comigo já é meio caminho andado. – Diz nervoso.
— Eu também quero Rafael. – Digo com sinceridade.
Quero muito!
Essa noite eu quero começar uma nova vida. Já decidi. Eu vou enterrar o passado e vou olhar para frente literalmente. Vou olhar para o homem que está a minha frente. Para o homem que me ama, que ama meu filho.
Quando o garçom chega fazemos nossos pedidos. Deixo isso por conta do Rafael já que eu nunca vim aqui antes. Quando o garçom se afasta ele me olha com seus olhos azuis brilhantes.
— Você já viu que o parque está na cidade? – Pergunta casualmente.
— Pensei que já tivessem ido embora.
— Não foram. – Diz apertando minha mão outra vez. – Eu estava pensando. Domingo eu não vou estar no hospital, vou ter o dia livre, nós poderíamos levar o Max. Nós três como uma família.
Fico surpresa com suas palavras, e até me sinto um pouco mal.
— Ele vai adorar. – Digo dando um sorriso amarelo.
— Eu sei. – Diz Rafael animado. – Eu vi que tem até carrinho de bate-bate. Eu estou louco para levá-lo lá, ele gosta tanto dessas coisas. – Diz sorridente.
Gosto da aproximação dos dois. Gosto que ele goste tanto do meu filho. Rafael o trata como se ele fosse seu. Me entristece pensar que John não poderá ter isso. E de certo modo eu tirei isso dele.
— Tudo bem? – Seus olhos azuis avaliam meu rosto. Suas sobrancelhas estão franzidas. – Eu disse alguma coisa de errado? – Posso ver o pânico em seu rosto.
Droga! Esse não é o lugar para eu pensar em John!
— Não, você não fez nada. – Digo usando meu melhor tom. – E acho que vai ser muito divertido.
— Vai sim.
[...]
Estamos no caminho de volta e eu não consigo tirar as palavras de Rafael da cabeça, e nem a culpa do meu coração.
— Eu fiz aquela reforma em minha casa. – Diz Rafael sem tirar os olhos da estrada.
— E ficou boa?
Pelo o que eu sei ele iria fazer uma mudança grande em toda a casa, e ele aproveitou o tempo em que estava fora para começar a obra. Eu fui a sua casa umas duas vezes com Julia e Gabriel.
— Ficou. Eu fiz um quarto reserva. – Diz como quem não quer nada, mas eu sei o porquê do quarto reserva. Julia já havia me alertado. Rafael contou para Gabriel que seria um quarto para Max. – Queria que você desse uma olhada.
Pisco algumas vezes tentando me livrar do frio em minha barriga.
— Claro, eu vou adorar.
— Podemos ir agora. Ainda é cedo. – Diz me olhando de esguelha.
Eu sei a o que isso vai levar e eu não posso evitar estar nervosa. Faz muito tempo. Mas como se fosse para me dar um impulso as palavras de Ana me veem a cabeça.
— Se você ficar se reprimindo como sempre faz você nunca conseguirá esquecer o John!
Não posso deixar que ele ainda seja dono dessa minha parte. Eu tenho que deixar isso para trás. Eu preciso tentar ser feliz. E para isso eu tenho que enterrar John. Não posso passar o resto da minha vida vivendo de lembranças. Vivendo de um amor que já devia ter morrido há muito tempo. Pelo menos para ele eu desconfio que foi assim.
Já morreu!
Então para que eu vou insistir com isso?
— Então vamos. – Digo decidida.
A casa de Rafael fica a meia hora do restaurante. É um condomínio novo, a rua é muito sossegada, e todos que moram ali parecem ser muito importantes, com altos cargos. Quando chegamos eu desço do carro e consigo ver a lua cheia no céu. Luto para afastar as lembranças de uma certa noite, há um tempo atrás.
— Vamos? — Rafael me estende sua mão e sem hesitar eu entrelaço a minha na dele.
Passamos por um pequeno jardim. Rafael tira a chave do bolso e abre a porta. A sala é bem espaçosa, e a casa tem bem a cara de um homem solteiro. Quase não tem móveis.
— Acho que você se esqueceu de mobiliar a casa. – Digo achando graça.
Ele ri e passa as mãos pelos cabelos, parece sem jeito.
— Eu vivo sozinho, e tenho tudo o que eu preciso. Nunca fui muito ligado em decoração, e, além disso, não tenho muito tempo. O tempo que me sobra do hospital eu gosto de aproveitar com você.
Sorrio encabulada para ele.
— Nós estamos passando muito tempo juntos, não é? – Digo sem jeito. Olhando para tudo a minha volta, menos para ele.
Rafael caminha a passos lentos em minha direção. Levanto meu rosto para encará-lo assim que ele para a minha frente. Ele acaricia meu rosto com ternura. Cola seu rosto ao meu.
— Eu passaria todo o tempo do mundo com você sem reclamar por nem um minuto. – Sussurra. E então deixa um beijo delicado em meus lábios.
Sorrio para ele.
Tento parecer calma, mas por dentro eu estou uma pilha de nervos. Não lembro de ter ficado tão nervosa com John. Bom, talvez antes de tudo acontecer, porém, no momento em que suas mãos tocaram a minha pele, e seus lábios tocaram os meus, eu me esqueci de tudo.
Droga!
Por que diabos eu estou pensando nele agora?
Para me livrar desses pensamentos, para me livrar daqueles olhos verdes que me assombram, para me livrar do seu cheiro que ainda está impregnado em mim, eu me atiro nos braços do Rafael e o beijo com tudo o que tenho. Ele hesita por alguns segundos, mas logo seus braços enlaçam minha cintura me puxando para ele com força.
Ele afasta seu rosto do meu. Sua respiração está ofegante. Seus olhos me olham com um desejo mal disfarçado.
— Você quer isso? – Pergunta me encarando de perto. – Porque eu quero muito, mas só se você quiser. Eu não te trouxe aqui para te forçar a nada.
Sorrio para ele. Rafael é um perfeito cavalheiro, ele nunca faria nada que eu não permitisse. E eu não posso mais ficar em cima do muro. Eu preciso escolher. E nesse minuto eu escolho tentar ser feliz. Eu escolho agarrar a minha oportunidade para uma nova vida sem fantasmas do passado.
— Eu quero. – Sussurro.
Minha decisão está tomada. É hora de dizer adeus a John. É hora de dizer adeus à antiga Mel.
Ele parece aliviado. Antes que eu pudesse dizer qualquer coisa ele me levanta em seus braços. Dou um gritinho de susto o que o faz rir. Rafael sobe as escadas comigo ainda em seus braços. Quando chegamos ao seu quarto ele me coloca no chão. Me puxa para bem perto colando seu corpo ao meu.
— Eu vou fazer ser muito especial. – Diz com os olhos brilhando.
— Já está sendo. – Respondo.
E nesta noite, eu deixo que ele tire um pedacinho do meu coração. Deixo que ele faça parte da minha vida. Deixo que ele me mostre como é ser amada outra vez. Deixo que ele comece a apagar essa parte em mim que existe apenas John e mais ninguém
[...]
Estamos em frente ao restaurante e Rafael não consegue afastar suas mãos e nem seus lábios de mim. Mas eu não reclamo. Eu gosto dos seus beijos. Gosto dos seus braços ao meu redor. Gosto de me sentir protegida.
— Eu preciso entrar. – Murmuro com meus lábios ainda roçando nos seus. – Acho que Max deve estar me esperando.
— Acho que ele já deve estar dormindo. – Diz Rafael acariciando meu cabelo. Deito meu rosto na palma de sua mão. – Você é linda. E essa noite foi simplesmente inesquecível. – Diz com um sorriso bobo e posso ver a admiração em seus olhos.
Sorrio porque também será inesquecível para mim. É o começo de tudo para mim. Uma vida nova.
— Para mim também. – Sussurro e me inclino para beijá-lo outra vez. Ele aprofunda nosso beijo até nos faltar o ar. – Agora é sério preciso entrar. Você não sabe como o meu ursinho é manhoso, ele não dorme sem mim. Provavelmente ele deve estar lutando contra o sono agora mesmo.
Rafael joga a cabeça para trás enquanto ri.
— Agora ele vai ter que dividir a mamãe comigo. – Diz fazendo graça.
— Você vai ter que dizer isso para ele. – Respondo com petulância.
— Acho que eu posso encarar essa!
Quando Rafael vai embora entro em casa e vejo que eu estava certa. Meu garotinho está deitado no sofá abraçado ao ursinho Ted. Ana está ao seu lado já cochilando.
— Mamãe! – Diz pulando no chão todo desajeitado e vindo correndo até mim do melhor jeito que ele consegue.
Eu o pego em meu colo.
— Por que está acordado Max? –Pergunto com meu rosto colado ao seu. – Já está tarde, você deveria estar na cama!
— Esperando a mamãe. – Diz puxando as cordas do meu coração. Posso ver o quanto ele está cansado. Seus olhos estão quase se fechando.
Ana se mexe no sofá, e desperta assim que me vê.
— Ainda bem que você chegou, eu tentei de tudo, mas ele quis te esperar! – Diz se espreguiçando. – Agora eu que vou dormir!
— Obrigada por cuidar dele Ana. – Agradeço.
— Sem problema. Onde está meu beijo? – Pergunta Ana inclinando sua bochecha na direção de Max. Ele tira a chupeta da boca e a beija. – Durma com os anjos. – Murmura.
Subo para meu quarto com Max. Troco de roupa rapidamente. Deito-me em minha cama e o puxo para os meus braços o deixando bem aconchegado perto de mim. Não demora muito para que ele caia no sono. Não tenho a mesma sorte. Meus pensamentos estão a mil por hora. Meus pensamentos estão em minhas últimas decisões e em como tudo será de agora em diante. Estou decidida a apagar John, e depois de esperar alguma coisa sua por três anos, sei que tomei a decisão certa.
Talvez seja o melhor...
Talvez eu já devesse ter tomado essa decisão há muito tempo...
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