Sob minha pele

45 Capítulo 45


Mel.

Alguns meses depois...

Passaram-se cinco meses desde que eu dei a luz, e nesses cinco meses não recebi nenhuma ligação de John, nenhuma noticia. Isso me faz pensar que ele desistiu, e eu deveria estar feliz com isso. Afinal, não era isso o que eu queria?

Sim!

Então porque me sinto mal com isso? Não tenho o direito de pensar que ele desistiu de mim e de Max, porque ele nem ao menos sabe de sua existência.

Apesar de pensar muito no assunto, e em tudo o que aconteceu naquelas duas semanas, eu já me acostumei à ideia. Me acostumei a pensar que ele não é mais meu. E gosto de pensar que ele está feliz aonde quer que ele esteja. Isso me ajuda a trazer paz para o meu coração e para a minha consciência.

Max está cada vez mais esperto, e já me reconhece. O sorriso em seu rostinho e o brilho em seus olhos verdes me dizem que sim. As primeiras semanas com um bebê recém-nascido foram complicadas, mas nada que eu não me virasse, e eu tive muita ajuda tanto de Ana, quanto de Julia. Mas eu já peguei seu ritmo. Já conheço todas suas manhas. Cada dia que passa ele se parece mais com John. Acho isso incrível, e olhando para ele, eu não posso deixar de pensar no quanto ele se sentiria orgulhoso por ter um filho.

As coisas pareciam estar se encaixando, e eu não poderia estar mais feliz por ter meu filho em meus braços, mas assim como eu já deveria estar acostumada, minha vida não é um mar de rosas.

Há algumas semanas meu avô teve uma recaída, e eu tive que sair às pressas para levá-lo ao hospital. Ele fez alguns exames, mas não tivemos bons resultados, então doutor Carlos achou melhor que ele ficasse em observação. Ele ficou dois dias internado, e eu me intercalava, e me dividia em três para ficar com ele no hospital, cuidar dos assuntos do restaurante, e cuidar de Max que tinha apenas alguns meses, e eu ainda o amamentava. Mas a correria e o estresse foram tanto para mim que meu leite acabou secando. Fiquei triste, mas por outro lado foi um alivio, pois eu não precisaria mais tirar leite.

Meu avô voltou para casa, mas precisou ficar de repouso, não preciso dizer que ele odeia ficar em repouso. Mas é necessário.

— Está confortável aqui? – Pergunto ajeitando seu travesseiro.

Ele bufa irritado.

— Eu odeio ficar aqui sem fazer nada. – Mesmo ele tentando ser durão, eu percebo pelo som da sua voz o quanto ele está fraco, e isso faz algo se quebrar dentro de mim.

— Você quer que eu arranje alguma coisa? – Pergunto querendo deixá-lo o mais confortável possível.

— Você já está fazendo bastante. – Ele diz apertando minha mão. Seu aperto antes firme agora está fraco. E eu me seguro para não me desmanchar em lágrimas outra vez.

— Qualquer coisa vovô. – Digo apertando suas mãos na minha. – Qualquer coisa me chame.

Ele me dá um sorriso fraco.

— Pode deixar.

— Quer que eu traga Max para ficar com você? – Pergunto. Sei o quanto ele fica alegre quando Max está por perto. E eu também sei o quanto ele ama meu filho. – Julia estava dando banho nele, provavelmente ele irá dormir agora.

Um sorriso rasga seu rosto.

— Traga ele! – Diz animado. – Vai começar os episódios do nosso programa!

Como meu avô passa muito tempo repousando e Max sendo um bebê não dá praticamente nenhum trabalho, eu venho deixando ele com meu avô. Segundo meu avô ele adora os episódios antigos do Batman. Eles dois ficam aqui tranquilos e eu posso trabalhar sem me preocupar.

— Eu vou ver se ele já está arrumado.

Desde que eu não tenho tempo, e nem como fazer tudo sozinha, meu avô me autorizou a arrumar outra pessoa para ajudar no restaurante. Luíza ficou encarregada de fazer meu trabalho de antes, agora eu cuido apenas da parte burocrática. Ficou ótimo para mim, assim eu posso passar bem mais tempo com meu ursinho.

Antes de chegar ao meu quarto eu já posso ouvir a voz completamente abobalhada de Julia, e as gargalhadas do meu garotinho que fazem meu coração bater mais forte no peito.

— Quem é o bebê mais lindo desse mundo? – Pergunta Julia colocando os sapatinhos em Max.

Max agita as mãos e faz sons incoerentes, e eu fico mais apaixonada ainda.

Ele está cada dia mais lindo!

— Terminaram? – Pergunto adentrando o quarto.

— Olha quem chegou! — Diz Julia fazendo graça.

Assim que seus grandes olhos verdes me encontram ele fica agitado, louco para que eu o pegue logo. Ele está usando um macacão verde escuro que faz um contraste lindo com seus olhos da mesma cor.

— Já que você chegou, eu vou descer para dar uma mãozinha. Max parece não me querer mais. – Diz Julia se levantando da cama. Sorrio orgulhosa. – Como está seu avô?

Respiro fundo.

— Cada vez que eu olho para ele, ele parece mais fraco. Parece que todos os meus esforços estão sendo em vão. Isso é desesperador. – Digo levando minha mão ao rosto tentando me recompor.

Max observa nossa conversa, os dedinhos enfiados na boca, e eu sorrio ao olhar para ele.

— Você conversou com o médico ontem, não foi? – Pergunta me fitando com os olhos sérios.

— Ele disse que tudo o que podíamos fazer já foi feito, ele não pode ser operado. – Digo repetindo as palavras que tive que ouvir há uma semana. – Eu só posso rezar, e torcer para que ele fique bem.

Eu tento ser forte o tempo inteiro, e otimista, mas todos nós sabemos o que isso significa. Inclusive meu avô. Porém eu saber, e ter forças para pronunciar a terrível palavra são duas coisas muito diferentes.

— Vai ficar tudo bem. – Diz Julia apertando meu braço em um consolo silencioso. – Sei que vai.

— Espero.

Não quero me sentir derrotada. Mas o fardo é pesado demais, e eu tenho medo de não suportar.

— Eu vou descer agora. Você coloca o Max para dormir. Ele está com muito sono. – Julia vai até ele e deixa um beijo estalado em suas bochechas rosadas.

Vou até ele e o pego em meus braços.

— Onde está sua chupeta? – Pergunto para ele fazendo graça.

Ele está cada vez mais esperto. Ele já sabe seu nome, bem, pelo menos sempre temos uma resposta quando o chamamos de Max.

Reviro os lençóis procurando sua chupeta e não encontro. A encontro do lado da foto de meu avô vestido de papai Noel com o Max no colo. Max ainda era um recém-nascido. Esse foi o Natal mais feliz, e mais triste de toda minha vida. Foi agridoce. Já fez um ano desde que eu vi John pela primeira vez, e um ano desde que eu o vi pela última. O tempo passou tão rápido, e tudo mudou de uma forma assustadora.

— Mamãe achou ursinho! – Digo para ele pegando a chupeta.

Eu o chamo assim, porque mesmo seu cabelo tendo caído muito, o que é normal para um bebê, ele ainda tem muito cabelo. Seu cabelo tem um tom lindo. Loiro. É bem mais claro que o meu, com toda a certeza. Olha-lo me faz lembrar a foto que vi de John, de quando ele era criança. É o mesmo tom de cabelo, o que me faz deduzir que ele será sua cópia quando estiver grande.

Eu o balanço em meus braços cantarolando uma música baixinho. Ele me encara quietinho apenas ouvindo o som da minha voz. Seus olhos parecem enxergar dentro de mim. E eu pareço amá-lo cada vez mais, e mais. Agora sim eu entendo o significado de amor incondicional. Por que isso é exatamente o que eu sinto pelo meu filho. Um amor incondicional que cresce a cada dia. Eu faria tudo por ele. Eu o defenderia de tudo. Seus olhos piscam algumas vezes. Ele está caindo no sono. Beijo seu narizinho.

— Vamos deitar com o vovô? – Pergunto acariciando sua bochecha.

Quando chego ao quarto do meu avô ele está absorto encarando a televisão.

— Olá! – Digo da porta.

Meu avô sorri.

— Ele já está dormindo? – Pergunta meu avô enquanto eu deito Max ao seu lado entre as cobertas.

— Ele acordou, e me acordou, muito cedo. – Digo para o meu avô. – Ele está cansado. Mas eu vou deixá-lo aqui, porque eu preciso resolver algumas coisas.

— Está tudo bem lá embaixo?

Eu sei que ele se preocupa e se sente culpado por não poder estar tão ativo quanto ele costuma. Mas eu não quero que ele se sinta assim.

— Não poderia estar melhor. – Digo para assegurá-lo. – Não se preocupe com nada. – Digo deixando um beijo em sua testa.

Ele sorri para mim.

— Você está me deixando muito orgulhoso sabia? – Diz me encarando com seus olhos castanhos.

— É tudo o que eu quero. Não quero te decepcionar mais. Nunca mais. — Murmuro.

Ele franze as sobrancelhas como se eu o tivesse deixado confuso.

— Se com "decepcionar" você se refere ao Max, eu peço que você nunca repita essas palavras outra vez. Ele não é uma decepção para mim, ele é um presente. Assim como você também foi.

Essas palavras significam muito para mim, e ele sabe disso. Não me arrependo nunca de ter tido meu filho, e meu avô sente o mesmo. Eu o abraço forte, com tudo o que tenho. Sinto um nó na garganta de imaginar o amanhã, um amanhã que eu possa estar sem ele. Eu não saberia o que fazer. Pois em tudo, ele sempre está comigo, e eu sempre procuro por ele quando me sinto triste. Ele é como um porto seguro.

Tudo o que eu tenho!

Nós temos conversado muito sobre John, e sobre o que houve entre nós. E meu avô é muito seguro em dizer que eu deveria falar sobre Max. Mas agora é muito tarde. As coisas já aconteceram, e já são da maneira que são. Com o tempo ele aprendeu a respeitar minha decisão, e a me apoiar. Sempre quando me sinto triste ele sabe como me confortar. Com um abraço e um carinho que apenas ele pode me dar.

Dou um beijo em Max que dorme pacificamente e outro em meu avô.

Desço as escadas e o movimento já está perto do fim. Algumas mesas ainda estão ocupadas, mas são poucas pessoas.

— Você vai hoje fazer as compras? – Pergunta Ana sem tirar os olhos do que está fazendo.

— Não tenho escolha. Além das coisas que estão faltando aqui, Max já está ficando sem leite, e nós sabemos como ele fica quando está com fome. – Digo brincando com Ana.

Da última vez que seu leite acabou, ele fez um escândalo de madrugada. Ana teve que sair às pressas até o mercado mais próximo.

— Não podemos deixar o leãozinho com fome. – Diz Ana rindo. – Você vai pedir para Julia ir com você?

— Acho melhor não. Ela me disse que ia sair com o Gabriel, e eu não quero atrapalhar seus planos. Eu posso ir sozinha. Eu pego o carro.

— Mas é muita coisa. – Diz Ana se virando para mim.

— Eu peço a ajuda de algum rapaz do mercado, não tem problema.

— Onde está Max? – Pergunta Ana mudando de assunto.

— Eu o deixei com o meu avô.

— Eles não se desgrudam. – Diz Ana sorrindo.

— Acho ótimo que ele goste tanto de ficar com o Max, assim ele se distrai.

— Concordo com você.

Vou até a gaveta do armário para procurar a lista que eu e Julia havíamos feito de manhã na hora do café.

Estou entretida checando a lista.

— Que cheiro bom. – Diz uma voz atrás de mim.

Viro-me e Rafael está parado atrás de mim com um sorriso capaz de rasgar seu rosto em dois. Seus olhos azuis brilham. Ele carrega um urso enorme do braço.

— Olá! – Digo realmente feliz por vê-lo. – O quê é isso? – Pergunto apontando para o urso.

— É um presentinho para o Max. – Ele diz radiante. – Um urso, para o ursinho. – Diz brincando.

Ele me ouviu chamar Max de ursinho uma vez, e isso bastou para ele pegar no meu pé.

— Presentinho? – Digo arregalando os olhos. — É bem maior que o meu ursinho! – Digo aceitando seu presente. Amo ursos. E este é tão fofo que instantaneamente sinto vontade de abraçá-lo.

— Vi em uma loja a caminho daqui e não resisti. – Diz dando de ombros.

Arqueio minha sobrancelha para ele.

— Você nunca resiste. Você vai acabar estragando ele, de tanto dar presentes. – Digo o repreendendo de brincadeira.

— Fazer o quê? Eu adoro esse garotão! Onde ele está?

— Ele está dormindo com o meu avô. – Digo para ele. – Você estava indo para algum lugar?

Ele abaixa seus olhos como se estivesse sem jeito.

— Na verdade, eu vim ver você e o Max. – Diz com a voz baixa.

Pisco algumas vezes surpresa com sua resposta.

— Que pena, que ele está dormindo. – Digo para ele tentando não transparecer o quanto sua resposta me deixou desconcertada. – Eu estava indo até o mercado.

— Quer que eu vá com você? – Pergunta com seu jeito tímido e muito educado.

— Você está de folga, não quero te aborrecer com essas coisas...

Ele nem me deixa terminar.

— Não vai me aborrecer Mel. – Diz sorrindo com seus olhos azuis me estudando, e me deixando completamente sem graça. – E ainda tem uma chance de quando chegarmos o Max já ter acordado. Assim eu posso vê-lo!

Ele é sempre tão gentil, e parece gostar tanto do meu bebê...

— Tudo bem então! – Digo dando o braço a torcer. – Eu vou levar o senhor Ursão lá para cima, e já desço.

— Vou te esperar no meu carro. – Diz satisfeito por eu ter dado o braço a torcer.

Subo as escadas carregando o urso enorme nos braço quando sou parada por uma Ana com uma expressão que faz meus extintos ficarem alertas. O sorrisinho em seu rosto revela que ela vai continuar com um assunto que eu não quero retomar.

— O doutor Rafael está aí! – Diz toda animada. Animada de mais para o meu gosto.

Reviro os olhos.

— Eu sei Ana. Ele vai comigo ao mercado. – Digo sem muito entusiasmo para ela não pensar em coisas impossíveis de acontecer.

— Ele é sempre tão gentil, e ele é muito bonito também. – Diz como quem não quer nada.

Ela só pode achar que eu sou cega!

Ela acha que eu não percebi?

Rafael é alto, tem um bom porte, o que mostra que ele deve fazer academia. Seus cabelos são revoltos, curtos, e muito escuros. O que faz um contraste perfeito com seus olhos azuis e sua pele clara.

— Eu sei Ana. – Digo desanimada. Querendo, e pedindo aos céus, que ela pare de me dizer isso a cada dez minutos sempre que encontramos com ele.

— Eu digo isso porque você sabe o que eu penso. – Diz com firmeza.

Lá vem ela com isso outra vez!

— Ana, nós já conversamos sobre esse assunto, e você também sabe o que eu penso. – Digo decidida.

É meio chato ela querer falar por mim, sentir por mim...

— Ele gosta de você Mel, qualquer um pode perceber isso. Ele adora o Max! Você deveria dar uma chance para ele. – Diz com doçura.

Sei que ela pensa que é o melhor para mim.

— Eu não consigo. Pelo menos não agora. – Digo triste.

Não me sinto pronta para um relacionamento. Eu só penso em meu filho. E não há espaço para mais nenhum homem em minha vida.

Ana acaricia meu rosto com ternura. E sua expressão se suaviza.

— Já faz mais de um ano Mel! Você tem que deixá-lo para trás! — Diz suavemente.

Como explicar para ela que eu não posso me envolver com outra pessoa. Não enquanto John ainda toma todas as partes dentro de mim. Como eu posso ficar com Rafael se eu ainda amo John.

Eu não estou pronta para me entregar à outra pessoa. Não quando eu ainda não pertenço nem a mim mesma. Eu ainda pertenço a ele.

— Ana, eu estou atrasada, ele está me esperando. Podemos conversar depois? – Digo tomando todo cuidado possível para que ela não me entenda mal.

Ela parece meio relutante, mas acaba cedendo.

— Tudo bem, mas nós vamos ter essa conversa outra vez mocinha! – Diz com o dedo em riste para mim.

O quanto eu puder fugir desse assunto, eu irei fugir.

Coloco o urso junto dos outros brinquedos de Max, o que são muitos. Eles tomam quase que o quarto por completo. O certo seria eu e Max dividirmos o quarto, mas quem entra aqui percebe que o quarto é muito mais dele do que meu.

Antes de descer eu dou uma conferida em frente ao espelho, e aproveito para prender meu cabelo em um rabo de cavalo no alto da cabeça. Confiro meu vestido. E está tudo ótimo.

Eu voltei muito rápido ao meu peso normal depois do parto. O que eu agradeço muito. Confesso que eu tive medo de nunca conseguir voltar ao meu corpo.

Encontro Rafael ouvindo música no carro e tamborilando os dedos no volante. Ele sorri quando me vê chegar. Abre a porta do carro e vem até mim para me ajudar a sentar. Volta para seu acento e passa o cinto de segurança pelos ombros.

— Para que mercado vamos? – Pergunta animado, como sempre.

Às vezes me pego pensando se ele sempre age com esse jeito animado, se está sempre de bom humor, e se é sempre essa pessoa especial que ele demonstra ser quando estamos juntos. Que todos gostam dele, isso eu não posso negar. Afinal, eu também faço parte desse grupo.

Vamos o caminho todo conversando. Nós conversamos sobre tudo e temos muita facilidade em entrar em qualquer assunto. Eu me sinto muito a vontade com ele, entretanto não posso deixar de me sentir surpresa quando ele pergunta pelo pai do Max pela primeira vez.

— Mel? – Pergunta me tirando dos meus devaneios. – Não queria ser invasivo. – Diz hesitante. — Só queria saber se ele é daqui.

Miro meus dedos entrelaçados em meu colo. Não o culpo por se sentir curioso. Eu nunca toco no nome de John quando estamos juntos. E é óbvio que ele sabe que eu tive alguém. Max não é apenas meu, ele é de John também.

Respiro fundo.

— Ele não é daqui. – Confesso baixinho olhando pela janela, olhando o caminho que fiz algumas vezes com John. – Ele estava no país a trabalho.

— E você acabou se apaixonando por ele? – Pergunta com a voz baixa.

E continuo apaixonada...

— É. – Digo sem olhá-lo. – Nós nos apaixonamos e ficamos juntos. — Digo evasiva.

— Ele sabe sobre Max?

Sei que eu não tenho obrigação de dizer nada, mas ele está sempre ao meu lado. Ele trouxe meu filho ao mundo. Não é segredo para ninguém o que aconteceu, então não tem porquê eu esconder.

— Não. – Murmuro. – Nós brigamos antes dele ir embora, e eu também não sabia que estava grávida, e eu também acabei decidindo esconder por um tempo. Mas eu nunca contei para ele.

Às vezes eu sinto uma vontade enorme de ligar e dizer. Mas eu não tenho coragem. E já se passou tempo demais...

— Não acha que ele deveria saber? – Olho para ele sem entender aonde ele quer chegar com toda essa conversa. – Se ele descobrir que você escondeu isso dele, que você escondeu um filho, você não acha que seria pior?

Eu sei que isso acabaria com ele. Porém eu não teria feito, não teria escondido, se eu não tivesse a certeza de que eu nunca mais iria vê-lo.

— Não tem como ele descobrir Rafael, ele vive em Nova Iorque. – Digo com certeza em minha voz. – Ele deixou bem claro que queria esquecer esse lugar. Por que ele voltaria aqui?

Não vejo motivo para isso...

Se ele fosse voltar, ele já teria o feito...

— Por você. – Diz num sussurro. Olho confusa para ele. – Por você eu voltaria. Se eu fosse ele eu não desistiria tão fácil de você, e por você eu voltaria. – Diz com os olhos azuis focados na estrada.

Sinto meu rosto esquentar.

— Ele não me ama mais. – Digo triste lembrando-me da noite em que liguei para ele para contar que eu estava grávida.

— Você ainda o ama? – Pergunta me olhando de esguelha.

Viro meu rosto para janela. Tomando todo o meu autocontrole para impedir que as lágrimas caiam.

— Sim. – Sussurro.

Se Ana estiver certa, e Rafael realmente gostar de mim, ele merece que eu seja sincera. Ele merece saber que eu ainda não esqueci o pai do Max. E que eu não sei se um dia eu serei capaz de esquecê-lo.

[...]

É que como se a conversa séria nem ao menos tivesse acontecido. Rafael me anima como ninguém além de John jamais conseguiu. Fomos ao mercado, e depois a farmácia, além de Max eu também estou precisando de algumas coisas. Rafael me segue sempre muito paciente.

Quando estamos no caminho de volta ele me conta como foram seus anos como aluno de medicina. Ele terminou a faculdade há dois anos.

— Agora que você tocou nesse assunto eu posso ser sincera. – Digo brincando com ele, que sorri divertido. – Eu fiquei com medo quando te conheci. Te achei muito novo, e pensei: ele que vai fazer meu parto quando chegar a hora? – Digo com os olhos arregalados.

Ele gargalha jogando a cabeça para trás.

— Acho que subi no seu conceito então! – Diz orgulhoso.

— Com certeza. Você trouxe ao mundo meu maior presente. – Digo contente. Só de pensar em meu filho já sinto meu peito se comprimir de tanto amor. – Quantos anos você tem? – Pergunto curiosa.

— Tenho vinte e nove. E você não precisa me dizer a sua porque eu já vi na sua ficha. – Diz me dando uma piscadela.

Impossível eu não me divertir, e não me esquecer nem que seja um pouco dos meus problemas quando estou ao seu lado.

[...]

Quando chegamos ao restaurante Gabriel está por lá, e acaba nos dando uma mãozinha com as compras. Quando tudo já está na cozinha eu agradeço aos dois. Se não fosse por eles ei teria que me virar sozinha. John não está mais aqui para me ajudar com essas coisas.

Subo rápido até o quarto, e Max e meu avô ainda estão cochilando.

Sorrio com a imagem dos dois dormindo lado a lado.

Volto para o restaurante.

— Onde está Julia? – Pergunto para Gabriel que está sentado em uma das mesas com Rafael. Puxo uma cadeira e me sento à mesa com eles.

— Ela subiu para se arrumar. Nós vamos jantar fora. – Diz com seu sorriso apaixonado. – Vocês bem que poderiam vir com a gente! Vai ser legal!

Vejo que Rafael me olha esperançoso.

— Não posso. Já fiquei a tarde toda fora, e agora eu tenho um filho, lembra? – Digo cutucando seu ombro. – Max não pode ficar tanto tempo sem mim.

— Max não pode, ou você não pode ficar sem ele? – Pergunta com a sobrancelha arqueada.

Sorrio. Ele sabe a resposta.

— Deixa para outro dia. – Diz Rafael sem tirar seus olhos de mim.

De repente o ar ficou carregado, e eu me sinto completamente sem jeito aqui. Rafael sempre tem um olhar muito penetrante, mas o jeito como ele olha para mim agora me deixa desconcertada.

Ouço passos na escada, e me viro aliviada por poder escapar da eletricidade daqueles olhos.

— Eu terminei de me arrumar, e já estava descendo quando ouvi esse menininho chorando. – Diz Julia descendo as escadas com Max no colo.

Vou até ela e o pego.

— Você estava chorando, meu amor? Mas eu acabei de ir dar uma olhadinha em você! – Pergunto com meu rosto colado ao seu. – Meu avô não acordou com o choro dele? – Pergunto desconfiada.

— Não. Ele está num sono profundo.

Isso me deixa inquieta. Muito inquieta, e faz um arrepio nada bom tomar todo o meu corpo.

— Olá garotão! – Diz Rafael vindo até mim e pegando Max em seus braços. – Eu já estava com saudade de você. – Diz beijando sua bochecha.

Sorrio para os dois.

Ficamos mais alguns minutos conversando até que Gabriel e Julia partem. Rafael fica brincando um pouco mais com Max, e então também se despede.

Estou com Max deitado em meu colo enquanto ele devora a mamadeira. Ana já fechou o restaurante. Agora ela brinca com os pezinhos de Max enquanto ele mama.

— Sinto vontade de morder esses pezinhos gordinhos! – Diz Ana toda boba.

Quando Max acaba eu o passo para os braços de Ana.

— Eu vou olhar meu avô. Estou preocupada. – Digo para ela. – Mamãe já volta! – Digo beijando Max.

Subo para o quarto do meu avô. Está tudo muito quieto quando eu abro a porta. Vou até sua cama e o chacoalho algumas vezes, mas ele não responde.

Meu coração acelera e uma sensação ruim toma meu corpo.

— Vovô. – Digo analisando seu rosto. Ele está pálido, e sua respiração está curta. – Ai meu deus! De novo não! Vovô! – Grito o chamando na esperança de ele abrir os olhos, mas isso não acontece. Ele apenas permanece imóvel. – Por favor, vovô! – Imploro para ele.

Eu preciso chamar ajuda!

Corro até o topo da escada.

— Ana! – Grito o mais alto que posso. Ela aparece com Max no colo. – Ana, acho que meu avô desmaiou!

— Ai meu deus! – Diz ela apavorada.

— Onde está o telefone do doutor Carlos? – Pergunto sentindo as lágrimas descerem por meu rosto.

— Está no escritório. – Diz Ana já subindo as escadas.

— Fique com ele no quarto, eu vou ligar para o doutor Carlos!

Saio depressa indo em direção ao escritório. Procuro na agenda pelo número do telefone e quando o encontro disco o número as pressas. Tenho uma conversa breve com o médico e ele diz que irá mandar uma ambulância.

Corro para o quarto do meu avô e me sento ao seu lado na cama. Pego suas mãos nas minhas e sinto sua pulsação fraca, isso quase me faz perder o chão. A única coisa que me mantém de pé é a certeza de que ele precisa que eu fique firme, e que eu seja forte.

A ambulância chega depois de uns quarenta minutos, o que foi muito rápido, considerando que moramos no meio do nada. Os enfermeiros retiram meu avô da cama, e o levam numa maca até a ambulância.

— Ana, por favor, cuide bem do Max. – Imploro para ela que tem os olhos vermelhos por conta do choro. Max parece perceber o clima ao seu redor e desata a chorar.

— Eu vou cuidar Mel. – Ela diz me abraçando.

— Tchau meu amor. – Digo dando um beijo na testa de Max. – Mamãe, já volta!

Parte meu coração deixar meu filho em um choro inconsolável, mas meu avô precisa de mim agora!

Durante todo o caminho dois enfermeiros monitoram meu avô. Eu já passei por essa situação algumas vezes, mas alguma coisa dentro de mim me diz que esta é diferente. O semblante preocupado dos paramédicos me diz isso. Eu sinto meu coração encolher no peito. Eu quero me agarrar a ele e não deixar que ele parta.

— Por favor – murmuro entre as lágrimas. – não me deixe sozinha.

Assim que chegamos ao hospital doutor Carlos corre para atendê-lo, e seu rosto me diz que a situação é muito mais séria do que eu havia imaginado. Eu já não controlo a mim mesma e não consigo parar de chorar. Eles levam meu avô a uma sala, e dizem que eu preciso esperar. E eu me pego sozinha naquela sala de espera gelada demais, chorando inconsolavelmente com medo do que possa acontecer.

[...]

Eu já estou a mais de duas horas na sala de espera. O café que uma das enfermeiras me trouxe já esfriou em minhas mãos. Minhas mãos tremem pelo nervosismo. E eu nunca quis tanto alguém para que eu apenas pudesse encostar minha cabeça em seu ombro, fechar meus olhos nem que fosse por alguns segundos.

Eu me sinto sozinha, e desamparada!

Exatamente como eu me senti quando John foi embora!

A espera está me matando e ninguém me diz nada. Decido ligar para Ana. O telefone toca algumas vezes até que sua voz chorosa atende ao telefone.

— Ana? – Pergunto já me sentindo melhor por poder falar com ela.

— Como está tudo Mel? – Ela pergunta preocupada.

— Eu ainda não sei! – Digo soluçando. Levanto-me da cadeira desconfortável e começo a andar de um lado para o outro me sentindo inquieta, sentindo um pressentimento horrível. – Eles o levaram, e não me deram nenhuma noticia ainda. – Choramingo.

— Vai ficar tudo bem, você vai ver! – Diz tentando me animar.

Passo as mãos em meu rosto limpando as lágrimas. Ficar aqui sozinha só está piorando meu desespero.

— Como está Max? – Pergunto com meu coração apertado no peito.

— Ele está bem. Está dormindo. – Diz para meu alivio. – Ele chorou um pouco, mas eu consegui acalmá-lo.

Queria tanto estar com meu filho agora. Ele sempre me traz consolo, paz, e é tudo o que eu estou precisando agora.

Olho para frente e vejo doutor Carlos se aproximando.

— Ana, eu preciso desligar, depois nos falamos. – Digo encerrando a ligação e indo de encontro ao médico.

— Mel – ele diz num fio de voz que quase faz meus joelhos cederem.

— Como ele está? – Pergunto sentindo medo de sua resposta.

Eu preciso ser forte!

— Tudo indica que ele teve uma parada respiratória durante o sono Mel. – Diz mantendo sua postura formal. Mas eu posso ver a tristeza em seus olhos. É como se fossem o reflexo dos meus. – Ele está muito fraco, não há mais nada que eu possa fazer agora.

Neste instante eu não ouço mais nada eu apenas caio em uma das cadeiras com um choro tão intenso e doloroso que faz o meu peito doer.

Doutor Carlos se ajoelha em minha frente e segurando minhas mãos entre as suas diz com lágrimas nos olhos.

— Tenho certeza de que ele iria gostar que você ficasse ao seu lado Mel.

— Eu não quero vê-lo morrer. – Choramingo sem forças. – Eu não vou suportar.

— Ele não pode ficar sozinho. – Diz doutor Carlos limpando minhas lágrimas. – Eu te conheço desde criança, e eu sei o quanto você é forte. Ele te ama muito. Você é a pessoa mais especial no mundo para ele.

— Eu também o amo. – Choramingo sentindo meu coração partido no peito.

— Então você sabe o certo a fazer.

Eu sei. Mas eu não sei se consigo. Tudo ao meu redor parece estar se passando em câmera lenta. Levanto-me e a passos lentos doutor Carlos me acompanha até onde meu avô está. O corredor grande e estreito parece se fechar ao meu redor. Eu preferiria nunca ter que andar por ele.

— Ele está aqui. – Diz o doutor apontando para uma porta branca a minha frente. – Eu vou deixar vocês sozinhos.

Aceno com a cabeça.

Tento me recompor um pouco antes de finalmente abrir a porta e ver meu avô deitado, indefeso, em uma cama de hospital. Seu rosto está pálido, ele tem uma máscara de oxigênio no rosto. Sento-me em uma poltrona ao lado da cama e seguro sua mão na minha. Sua mão está muito fria, eu sinto lágrimas escorrerem por meu rosto. Deito minha cabeça em sua mão, e choro baixinho. Depois de alguns minutos sinto um carinho fraco em meu cabelo e quando levanto a cabeça para olhá-lo meu avô está olhando para mim.

— Vovô – choramingo – vai ficar tudo bem. – Digo acariciando seu cabelo. — Logo você irá para casa de novo!

Um sorriso fraco se forma em seu rosto, e eu sinto uma parte minha morrer.

— Que bom que você está aqui. – Sua voz sai baixa, muita baixa, com um esforço enorme. Ele parece tão cansado, e falar parece estar custando muito para ele.

— Não fale. – Digo me sentando ao seu lado na cama. – Não se esforce. Depois nós conversamos quando você estiver melhor. – Digo sorrindo me agarrando a esperança que ainda tenho em meu coração.

— Eu quero me despedir. – Diz baixinho.

Um soluço forte sai do meu peito e eu acho que eu não vou aguentar. Eu deito minha cabeça em seu peito o abraçando, muito devagar ele coloca sua mão em minhas costas.

— Não diz isso vovô! Despedir não! O quê eu vou fazer sem você? – Pergunto com eu rosto colado ao seu peito, lutando para tentar conter os soluços. – Você não pode me deixar! Eu preciso de você! Max precisa de você!

Eu queria que o tempo voltasse. Queria poder ser criança outra vez. Queria voltar até as noites em que eu acordava de madrugada assustada, tendo pesadelos, nas noites em que meu avô me embalava e dizia que tudo iria ficar bem. Eu implorava para que ele nunca me deixasse como minha mãe havia feito, e ele me prometeu que nunca me deixaria.

— Eu amo você. – Diz quase sem fôlego. – Tenho muito orgulho de você.

— Você prometeu que não me deixaria. – Digo para ele aos prantos. – Eu te amo muito vovô. Muito. – Digo desolada. As lágrimas pesadas escorrem como pedaços do meu coração partido me deixando.

Ele sorri.

— Acho que não vou poder cumprir.

Eu não quero que ele se vá. Não quero ficar sem ele. Pego sua mão e levo até meu rosto e a beijo.

— Eu amo muito você. Você é o melhor avô, e o melhor pai de todos. – Digo soluçando. – Eu tenho muito orgulho de ser sua neta. Eu amo muito você. – Digo quase me engasgando com as palavras.

Isso traz um sorriso em seu rosto. Tudo fica em câmera lenta. Não sinto nada ao meu redor, tudo o que eu quero é aproveitar o máximo que eu puder. Seus olhos fitam os meus, e eu não desgrudo os meus dos seus. Beijo sua mão outra vez. Até que sinto seu braço pender, e seus olhos se fecharem devagar. A dor que me atingi por dentro me diz que ele não voltará a abri-los. Eu choro tão alto que acho que todos podem me ouvir, meus gritos são tão altos que parecem rasgar minha alma. Nada pode me consolar.

— Vovô. – Eu grito o abraçando outra vez, porém desta vez suas mãos não acariciam meu cabelo, seus braços não me envolvem como de costume, e eu me sinto desolada e completamente sozinha no mundo.

Ele se foi...

Assim como minha mãe, e minha avó...

E eu nunca mais vou vê-lo...