Sob minha pele

40 Capítulo 40


Notas iniciais
Olá! Capítulo novo! Comentem!

Mel.

Eu estou assustada. Acho que nunca estive tão assustada em toda minha vida. Estou com medo de perder meu filho antes mesmo de conhecê-lo. Eu não quero perde-lo. Eu não suportaria.

A dor continua sem me dar trégua, mas mesmo assim eu consigo senti-lo. Ele ainda está agitado. Ele deve estar assustado assim como eu. Eu tento não fazer muitos sons por medo de acordar meu avô. Tenho medo de que ele me veja deste jeito. Não é assim que eu quero que ele saiba.

Levo minha mão ao meu ventre, acariciando meu bebê. Implorando internamente, em silêncio, para que ele não me deixe. Tentando passar calma para ele. Dizem que os bebês sentem tudo o que a mãe sente. Sendo assim eu não quero que ele se assuste ou fique com medo.

Mamãe vai te proteger!

Sempre.

Ana está me puxando para o carro que está estacionado em frente ao restaurante. Eu não consigo cessar minhas lágrimas. Eu só vou ficar tranquila quando eu ouvir do médico que está tudo bem. Que meu bebê está bem. Que nada de ruim aconteceu. Que foi apenas um susto.

Eu quero tanto você. Eu quero tanto ver seu rostinho. Suas mãozinhas. Apesar de como tudo aconteceu, eu sei que este bebê é um presente. É alguém que vai precisar de mim para sempre. É alguém que eu vou amar e cuidar incondicionalmente. É um pedaço de mim, e um pedaço da pessoa que eu mais amo no mundo. É uma prova de tudo que de mais bonito houve entre mim e John.

Ele é nosso!

Como eu queria que ele estivesse aqui!

Eu queria tanto dividir isso com ele!

Queria ouvir sua voz dizendo que vai ficar tudo bem. Que nosso filho vai ficar bem. Eu me sinto tão sozinha. Não dividir isso com ele está me matando. Ele saberia o que fazer, saberia o que dizer para me acalmar.

Ele sempre sabia.

Este bebê é tão meu, quanto dele!

Ele é nosso!

Nosso bebezinho!

Eu estou tentando ser forte. Tentando não chorar muito. Tentando suportar o máximo que eu consigo, mas está tão difícil. As dores estão mais controladas agora, mas mesmo assim o medo está emaranhado dentro de mim. Me sufocando.

— Sente-se aqui Mel. – Diz Ana baixinho me colocando no banco traseiro do carro. – Tente não se preocupar muito, é pior.

Eu nem ao menos estava me dando conta de que estava andando. Meu pensamento está no meu bebê. E em seu bem estar.

Sinto uma pontada o que me faz gemer e segurar seu braço com força.

— Calma. – Ela diz acariciando meu cabelo. – Vai ficar tudo bem. Já vamos para o hospital.

Aceno afirmando que eu estou ouvindo o que ela está dizendo.

Eu confio nela. Ela sempre cuidou de mim. Ela vai cuidar do meu anjinho também.

— O doutor Rafael já está esperando. – Diz Julia aflita segurando o celular com força. – Eu dirijo. – Diz se encaminhando para o banco do motorista.

Entretanto Ana segura seu braço.

— É melhor você ficar. – Diz Ana calmamente.

— O quê? – Grita Julia incrédula. – Não tia, eu preciso ir com ela. Ela precisa de mim. Eu não vou conseguir ficar aqui sem noticias. Por favor, não faça isso comigo. Não me peça para ficar! – Julia está quase chorando.

Mas eu entendo porque Ana quer que ela fique.

— Julia, não podemos deixar o José sozinho. E se ele acordar e não encontrar ninguém em casa. Ele irá se assustar. Não podemos brincar com isso. Fique aqui. Eu te ligo. – Diz Ana apressada indo em direção ao banco do motorista. – Por favor, me obedeça.

Julia vem até minha janela com lágrimas nos olhos.

— Vai ficar tudo bem Mel. – Ela diz com um sorriso reconfortante nos lábios. Porém seus olhos marejados e vermelhos mostram que ela também está com medo. – Eu vou ficar aqui te esperando, e esperando meu afilhado também.

Dou um sorriso fraco para ela. Tentando me apegar a isso.

Nós vamos ficar bem.

[...]

A estrada esburacada faz meu desconforto aumentar. A estrada está escura. E meu medo aumenta cada vez mais. O que me conforta são os chutes que sinto. Como se fossem um sinal, como se fosse ele dizendo:

Eu estou bem mamãe!

Eu já amo tanto esse bebezinho. Eu já me imagino com ele em meus braços. Já me imagino o embalando. Contando histórias antes de ele dormir. E eu quero muito que essas coisas se concretizem. Eu quero muito ser mãe.

Ana conversa comigo tentando me distrair.

— Com quanto tempo de gravidez você está Mel? – Ela pergunta sem tirar os olhos da estrada.

— Quase cinco. – Digo suspirando.

As dores estão suportáveis. Entretanto o que me assusta, é que eu sei que eu não deveria estar sentindo dor alguma.

— Já está bem adiantado. – Diz Ana. Posso ver seu sorriso no reflexo do espelho. – Você já sabe o que é? — Pergunta. Posso sentir o nervosismo em sua voz. Sei que ela está se controlando.

Eu sei que ela quer me manter distraída. Talvez funcione. Sempre quando o assunto é o meu bebê eu desato a falar como uma tagarela.

— Ainda não. – Digo acariciando minha barriga com carinho. – Eu não consegui ver da última vez, ele quer fazer mistério.

Ana faz uma curva, e mesmo na escuridão, eu reconheço o lugar. Estamos perto. Uma onda de alivio me invade.

Estamos quase lá!

— Eu não preciso perguntar quem é o pai. Porque isto está na cara. – Ainda bem que ela sabe, e, além disso, seria um insulto. Eu nunca fui para a cama com nenhum outro homem a não ser John. – Eu só quero te fazer uma pergunta. Ele sabe? Vocês acabaram com tudo tão rápido. E se ele foi embora sabendo da sua gravidez, ele realmente não é o homem que eu penei que fosse.

John jamais faria isso!

Disso eu tenho certeza. Ele não iria me abandonar se soubesse que eu estava carregando um filho dele.

Eu queria tanto que ele soubesse. Eu queria tanto que ele estivesse aqui. Que ele protegesse a nós dois. Que ele me abraçasse e dissesse que tudo iria ficar bem, como ele fazia quando eu me sentia angustiada. Apenas de estar em seus braços eu já sentia um alivio imenso, porque eu sabia que acontecesse o que acontecesse, ele sempre estaria ao meu lado.

— Não. – Murmuro. – Eu não contei.

Ana suspira como se estivesse aliviada pela constatação de que ele não é um canalha.

— Meu deus Mel! – Diz Ana frustrada. – Você não pode esconder isso dele. Ele vai ser pai. Essa criança vai precisar do pai também. Imagina só, o que você pretende? Ter esse bebê sozinha?

Ela acha que eu não sei disso?

Tudo o que eu queria era poder gritar para ele que nós vamos ter um filho.

Nós dois!

Mas ao lembrar de tudo o que ele me disse. Das palavras que ele usou, eu me sinto com raiva outra vez. E ei tentei falar com ele, mas ele não quis me atender. Ele sabia que era eu. Ele sabia. Quantas vezes nós já conversamos por telefone? Ele sabia. Mas escolheu me ignorar.

E ninguém além de mim sabe o quanto isso machuca.

— Eu tentei – digo soluçando sentindo o vazio me invadir outra vez. Sentindo as lágrimas de dor com as quais eu já estou tão acostumada, molharem o meu rosto. – Ele não atendeu o celular! Se ele não atendeu é porque ele não quer falar comigo. Ele ainda deve estar chateado, não sei!

— Que se dane se ele está chateado, ou não! – Diz Ana exasperada. – Não importa mais. Essa briga de vocês não é mais importante que essa criança Mel. Você precisa engolir esse orgulho. Se ele não atende o celular, liga na empresa. Uma hora ele vai te atender. E quando você disser o que está acontecendo, eu sei que ele virá correndo!

Eu não sei se seria assim. Era tudo o que eu queria.

Eu quero ele perto do nosso filho? Claro que sim! Mas eu não quero, e nem vou, rastejar atrás dele por isso.

— Eu não quero pensar nisso agora. – Murmuro.

Mesmo querendo com todas as forças que ele estivesse ao meu lado, eu não estou preparada para contar. Não sei se estou preparada para engolir meu orgulho. Engolir tudo o que ele me disse e simplesmente perdoa-lo. Por ele ter me magoado tanto. Perdoa-lo por suas palavras duras que abriram feridas que ainda não se cicatrizaram.

[...]

Quando Ana finalmente estaciona o carro em frente ao hospital, eu consigo respirar tranquila. Eu sei que vai ficar tudo bem. Vejo que Rafael já está a minha espera.

Ele abre a porta.

— Mel – diz com a voz preocupada. Seus olhos azuis se fixam em mim. – O que está sentindo?

Ele me pega em seus braços e me coloca em uma cadeira de rodas.

— Eu estava sentindo cólicas, mas eu pensei que fosse normal, mas aí então elas pioraram, e ficaram fortes, pontadas, e teve um sangramento. Por favor, não me deixe perder ele. Não deixe. – Imploro para Rafael, já em lágrimas outra vez.

Eu não consigo conter. É um medo muito grande.

— Eu não vou. Se acalme vai ficar tudo bem. Você vai ver. – Seu sorriso reconfortante me acalma. Eu confio muito nele, e eu sinto que posso confiar.

Rafael empurra a cadeira até uma sala de exames. Durante todo o caminho ele tira dúvidas de Ana. Parece que sua calma foi pelo ralo, e ela está tão nervosa quanto eu. Principalmente por não estar sabendo da gravidez até menos de duas horas atrás. Ela pergunta sobre o pré-natal. Sobre a minha saúde. Rafael responde tudo com uma paciência admirável.

E eu o admiro muito. Por tudo o que ele tem feito por mim.

[...]

Julia já deve ter ligado umas mil vezes. A todo instante Ana atende ao telefone com um: Ainda não Julia!

Eu sei que ela está muito preocupada. Nós temos sentido tudo juntas. A ansiedade, a alegria. Ela foi a primeira pessoa a sentir meu bebezinho mexendo. E ela ficou tão feliz quanto eu.

Ela também está ansiosa por conhecê-lo.

[...]

Eu estou deitada em um leito no hospital esperando Rafael voltar com noticias, com os resultados dos exames. Eu estou tão nervosa. Eu já fui medicada, e finalmente me sinto mais aliviada. As dores foram embora, dando lugar ao sono. Inclino minha cabeça no travesseiro. Fecho os olhos e sou transportada no tempo.

— Mel. – Ele disse baixinho. Fazendo todos os pelos do meu corpo se eriçarem. Fazendo meu coração bater desesperado no meu peito, ao seu comando. Apenas com o som da sua voz...

— O quê? – Eu disse tentando disfarçar o turbilhão de sensações que ele estava me causando. E mesmo não querendo admitir na época. Eu não queria que ele parasse. Nunca.

— Nada. Estava apenas testando. Você não me disse seu nome. É um nome muito bonito. Combina com você. – Ele disse com seu jeito provocador, com seu sorriso malicioso. O sorriso que me conquistou. O sorriso que eu ansiava, anseio, por ver a cada segundo do meu dia.

— Vocês não vão gostar daqui. Tem galinhas cantando pela manhã.

Eu queria ao máximo disfarçar o quanto ele estava me afetando, o quanto ele estava me encantando devagar, chegando como quem não quer nada.

Eu estou me sentindo fraca. Talvez seja o medo, e o estresse cobrando seu preço. Eu não me importo em sofrer, com tanto que meu bebê não sofra, com tanto que ele fique bem.

Fecho os olhos e posso ouvir sua voz melodiosa sussurrar ao pé do meu ouvido.

— Eu te amo.

Eu sinto tanta sua falta.

Eu te amo tanto John!

Esse amor não acaba, nem diminui. Ele só aumenta com o passar dos dias, dos meses, desde que ele se foi. Desde que ele deu as costas para mim, me deixando arrasada e destruída, como apenas ele poderia deixar.

Eu queria tanto que ele voltasse, e que nos esquecêssemos de tudo. Mas a quem eu quero enganar? As coisas não mudaram. Ele não iria ficar aqui. Assim como eu não poderia deixar meu avô agora. Eu apenas sinto por não ter explicado as coisas direito, explicado o porquê de eu não poder ir com ele. Eu ainda me irrito! Ele não me deixou explicar. Ele não deixou!

Cabeça dura!

Como as coisas mudaram, e evoluíram desde aquele primeiro encontro. Eu sabia que ele iria me marcar para sempre. Nosso filho é a prova disso.

— Mel. – Uma voz me chama.

Abro os olhos devagar, tentando me adaptar a luz forte do quarto completamente branco. Me deparo com os olhos azuis e bondosos do doutor Rafael.

— Está cansada, não é? – Pergunta segurando minha mão com força.

Rafael é muito amigo do doutor Gabriel, e eu nunca vou poder agradecer o tanto que ele já fez por mim. Ele é um homem muito bom, além de ser muito bonito. Qualquer mulher se sentiria no céu apenas por estar ao seu lado.

Ele se tornou um bom amigo.

Ele se importa de verdade com meu bem estar, e com o bem estar do meu bebê.

Aperto sua mão de volta.

— Eu já olhei o resultado dos exames. – Ele diz sério, tomando sua postura de médico.

Sinto meu corpo gelar. Meu anjinho precisa estar bem! Eu estou ansiosa. Ansiosa por saber o que eu fiz de errado! Eu não quero nunca colocar a vida do meu bebê em risco.

— Você teve deslocamento de placenta. – Ele parece perceber a confusão em meu rosto. Eu realmente não sei o que isso significa. – Eu vou tentar simplificar para você poder entender melhor. – Ele explica muito paciente. – Tudo o que você precisa saber é que este é um risco para o bebê – um soluço alto sai da minha garganta, e em menos de dois segundos Ana já está ao meu lado. Isso não me parece bom. – calma. Vocês foram rápidas. Seu bebê continua se mexendo, esse é um bom sinal, um sinal de que está tudo bem.

Eu não posso descrever o tamanho do meu alivio. Como se um peso enorme tivesse saído das minhas costas e do meu coração.

Ele está bem!

Meu bebezinho, pequeno e indefeso!

— Mesmo assim, você precisa ficar atenta a isso. É muito perigoso, tanto para você, quanto para o bebê. – Ele puxa uma mesa com uma máquina enorme para perto. Eu já sei o que é. – Nós vamos fazer uma ultrassom para te tranquilizar. Assim você pode ver com seus próprios olhos que tudo não passou de um susto.

Um sorriso se abre em meu rosto.

Eu vou ver meu bebê!

Eu preciso vê-lo para tranquilizar meu coração. Para poder respirar aliviada outra vez.

Meu bebezinho precioso!

— Mas antes, eu quero te fazer algumas recomendações. – Ele diz sério, e ele tem minha total atenção. Qualquer coisa para o bem do meu filho! – Esse tipo de deslocamento é perigoso. Você precisa repousar, e ficar tranquila, ou o seu bebê pode nascer prematuro, e isso é na melhor das hipóteses. Na pior você pode acabar sofrendo um aborto, e eu sei que não é isso que você quer.

— Não. – Digo aflita. – Eu não quero perde-lo.

Sinto meu coração se apertar. Minhas mãos vão a minha barriga quase que mecanicamente, correndo para proteger o pedaço mais precioso de mim.

— Disso eu sei. – Diz Rafael chegando para mais perto de mim. Ele coloca sua mão por sobre a minha. – E também vamos fazer de tudo para que ele não nasça prematuro.

Prematuro?

Ele não pode nascer agora!

Ainda não está na época. E eu sei muito bem que crianças que nascem muito cedo, nascem fracas, e podem não resistir.

— Não. – Digo assustada. – Mas ele é tão pequeno. Ele não pode nascer agora! Ele precisa crescer e ficar forte. – As lágrimas já descem em cascatas pelo meu rosto, e eu não consigo fazê-las parar.

Eu morreria se algo acontecesse ao meu bebê!

— Por isso mesmo – ele diz sorrindo, como se para mostrar que vai ficar tudo bem. — Você precisa repousar. Ainda está longe até o parto. Você acaba de entrar no quinto mês. Queremos esse bebê bem forte, não é? – Aceno que sim. Ele sorri e acaricia meu rosto com ternura. – Então eu peço que você se cuide.

— Ela vai – diz Ana com a voz chorosa – pode ter certeza de que ela vai, porque eu vou ficar no seu pé mocinha – diz sorrindo em meio às lágrimas. – Eu vou cuidar de você e desse bebezinho, assim como eu cuidei da sua mãe, e de você também.

Sorrio para ela.

Eu sei que sempre posso confiar de olhos fechados nela. E isso me tranquiliza. Saber que existem pessoas que me amam, e que também vão amar o meu bebê.

— Bom, já que estamos conversados. Vamos ver o que esse bebê anda aprontando na barriga da mamãe! – Diz Rafael animado.

Sorrio ansiosa.

Eu quase explodo de tanto amor antes de vê-lo. Ele é tão importante.

Ele já é o meu tudo!

Rafael levanta a roupa hospitalar. Ana arregala os olhos ao ver o quanto minha barriga já está avantajada. O quanto ele está crescendo. Eu sou uma mãe muito bobona e orgulhosa. Agora ele está espalhando o gel – gelado, devo acrescentar — em minha barriga, o bebê deve ter sentido. Ele se revira, e um sorriso enorme ameaça rasgar meu rosto em dois.

— Olha ele aqui – Diz Rafael apontando para o serzinho formado que aparece na tela do computador. Meu coração se enche de amor ao ver meu filho, meu bebê.

Como eu queria que você pudesse vê-lo John. Eu queria que você se orgulhasse dele também. Ele está sendo forte, e me deixando orgulhosa.

— Como você pode ver, ele está muito bem! – Diz Rafael com um sorriso enorme no rosto. – E olha só, ele resolveu te recompensar pelo susto – olho para o Rafael sem entender nada. – Já consigo ver o que é!

As lágrimas não param, mas agora não é de tristeza. É de alegria. Eu estou tão animada, ansiosa, eufórica. Eu quero tanto saber...

— O que é? – Pergunto curiosa.

Posso ver Ana completamente animada ao meu lado. Um sorriso enorme revela que ela está feliz. Assim como eu!

— É um belo de um meninão!

— É um menino? – Pergunto sem acreditar.

Meu deus! Meu coração vai pular pela boca.

— É um menino! – Digo emocionada olhando para o pequeno bebê que aparece na tela do computador. Consigo ver suas mãozinhas, e seus pés, seu nariz, ele mexe os dedinhos agitado. E ele é perfeito!

Eu nunca me senti tão feliz em toda minha vida.

Eu vou ser mãe de um menino! Eu estou esperando um menino! Eu mal caibo dentro de mim de tanta emoção de tanta felicidade. Ana me abraça. Beija minha testa.

— É um pequeno milagre Mel. – Ela diz contente.

— É o meu milagre. – Digo para ela.

O que ele estaria fazendo agora? O que ele pensaria? Qual seria sua reação se ele soubesse que vamos ter um menininho? Um pedaço de nós dois. Ele estaria tão feliz quanto eu? Emocionado quanto eu? Ele já o amaria tanto quanto eu amo?

Sinto um pequeno incomodo na barriga.

Aperto a mão de Ana com força.

— O que foi? – Ela já está alarmada.

— Outra cólica, porém menos dolorosa que antes. – Digo para tranquiliza-la.

— Eu vou te medicar outra vez, pelo menos para fazer essas cólicas passarem, e não se preocupe. Vai ficar tudo bem com seu filho.

Meu filho!

Meu menino!

Estou louca para saber a reação da Julia. Ela vai pirar. Eu também preciso o quanto antes avisar ao meu avô. Eu preciso dizer que ele vai ter um bisneto. Sorrio com esse pensamento. Não é possível que ele não vá amar este bebezinho. Meu avô é um dos homens mais doces que eu conheço. Meu filho não tem culpa de nada. Ele é inocente. Ele só veio para encher minha vida de luz e de felicidade.

— Eu posso ir para casa depois? – Pergunto ansiosa.

Eu quero contar o quanto antes!

— Sim. Mas não se esqueça de tudo o que eu disse. – Ele me lembra.

— Não vou esquecer.

— E, por favor, eu peço que me ligue assim que chegar em casa, se não fosse o plantão eu faria questão de te acompanhar – ele pisca algumas vezes – quer dizer, acompanhar vocês duas. Mas eu realmente não posso. – Ele sorri sem jeito.

— Claro, muito obrigado por tudo Rafael. – Eu tenho um carinho muito grande por ele.

Um sorriso se ilumina em seu rosto.

[...]

Estamos no caminho de volta para casa. Estou mais tranquila sabendo que meu menininho está bem, e que ele continua seguro dentro de mim.

Eu preciso começar a preparar as coisas para recebê-lo. Seu enxoval. Tudo o que um bebê muito amado pode precisar.

— Eu não acredito que eu não percebi isso antes. Eu estava desconfiada de que estava acontecendo alguma coisa, vocês estavam muito esquisitas. – Diz Ana incrédula. – Mas você está do mesmo jeito, e esses vestidos disfarçam muito. – Ela continua. – Julia sabia de tudo, não é? – Ela não espera minha resposta. – É claro que sabia! Suas malandrinhas. Me enrolaram direitinho!

Sorrio, porque eu não consigo parar de sorrir. Nem se eu quisesse eu conseguiria aplacar essa felicidade que está em mim.

— Eu vou falar com meu avô amanhã. – Digo decidida. – Eu não posso esconder mais.

— Eu concordo com isso. Esse menininho está chegando, e ele não quer saber de esperar!

Mal posso esperar por esse momento.

Tem outra pessoa que precisa saber de sua chegada. Eu preciso avisá-lo. Eu preciso dividir isso com ele também. Eu sei que ele ficará feliz!

Apesar de tudo eu não posso esconder isso dele. Seria uma maldade da minha parte. Assim ele poderá fazer sua escolha. Ele pode virar as costas para o nosso filho, — o que eu duvido muito que vá acontecer,— ou ele pode voltar, e dividir essa felicidade comigo, mesmo que seja por pouco tempo. Mesmo que ele precise voltar para sua cidade outra vez.

Amanhã.

Amanhã eu vou tentar outra vez. Eu não posso guardar essa mágoa para sempre, e nem ele. Já se passou algum tempo, e eu ainda não consegui esquecê-lo. Não acredito que ele já tenha se esquecido de mim. Me dói apenas levantar esta hipótese. Será que nós conseguiríamos recomeçar? De onde paramos? Existe algo maior, bem maior agora! E ele irá precisar de nós dois!

E ele precisa saber!

[...]

Assim que Ana estaciona o carro, vejo que Julia está sentada coberta com uma manta e, frente ao restaurante. Assim que nos vê ela se levanta e vem correndo até o carro.

Abro a porta.

— Mel, pelo amor de deus! – Ela grita afobada. – Não faça esforço!

— Mas eu preciso me levantar, de que outro jeito eu vou conseguir entrar em casa? – Pergunto rindo de sua reação.

— É que você me assustou tanto – ela diz triste – eu só não quero que nada de ruim aconteça com a minha afilhada.

Eu sei que ela se assustou.

Foi um susto e tanto!

— Eu já estou bem – asseguro para ela – foi um susto. Mas eu tenho uma novidade! – Digo tentando me conter.

Eu não consigo me segurar!

— Não é uma menina Julia! – Digo com um sorriso enorme no rosto. – É um menino! – Digo sem conseguir segurar a mim mesma dando pulinhos, Julia também não se aguenta. E estamos as duas pulando!

— Mel! – Me repreende Ana. – Não pule desse jeito, você quer voltar para o hospital?

— Eu sabia! – Diz Julia com os olhos brilhando. – Eu sabia que era um menino!

Ela só pode estar brincando!

— Você não me engana! – Digo tirando sarro dela. – Você queria que fosse uma menina.

Ela se faz de desentendida.

— Certo, eu admito. Mas no fundo eu sabia que era menino!

Estamos as duas rindo. Ela me abraça forte.

— Estou tão feliz. – Diz contente.

— Eu também.

— Vamos meninas! – Diz Ana afobada. – Vamos para dentro. Está muito frio aqui fora. Amanhã vocês conversam sobre isso tudo, mas agora temos que entrar! Este susto acabou comigo, eu preciso dormir. – Diz Ana rindo de nosso entusiasmo.

[...]

Julia decidiu que não me deixaria dormir sozinha. Ela disse que seu afilhado poderia precisar de alguma coisa, e que ela deveria, e tem a obrigação, comi madrinha de estar por perto.

Não posso discutir com ela.

Mando uma mensagem rápida para Rafael dizendo que cheguei bem em casa.

“Obrigada por se lembrar. Durma com os anjos.

Beijos e boa noite.”

Sorrio ao ver sua resposta.

Julia se encolhe ao meu lado na pequena cama como nós fazíamos quando éramos crianças.

— Ai, será que não é melhor eu pegar um colchão?

— Claro que não. – Digo para ela. – Aqui dá para nós duas!

Quantas vezes eu já não dormi com John em uma cama muito menor? Pensando bem com ele era diferente. Ele me puxava para bem perto. Me apertava em seus braços, como se quisesse se fundir a mim. Eu me sentia tão especial. Ele fazia eu me sentir tão especial, como se eu fosse a luz dos seus olhos. E pensar que em todos esses momentos nosso filho já estava aqui. Escondidinho!

— Nós temos que ir logo comprar tudo o que ele vai precisar! E precisamos de um nome! – Começa Julia a tagarelar.

— Antes de tudo, eu preciso falar com o meu avô. – Digo para ela. Os olhos de Julia me fitam com compaixão. – Eu preciso contar tudo para ele. – Eu olho pela janela, quase me perdendo em pensamentos. – Eu também vou ligar para o John outra vez.

Julia arregala os olhos.

— Você finalmente vai me ouvir? – Diz alegre.

Sorrio para ela.

— Eu não posso esconder isso dele, não seria justo, ele não merece. Independentemente do que houve entre nós dois, isso não é o mais importante agora! – Digo decidida.

— Nisso eu tenho que concordar! – Diz Julia agitada. – Ele não merece.

Amanhã eu vou tentar outra vez.

Espero que ele me atenda, porque depois de amanhã eu não vou mais correr atrás dele...