Sob minha pele

41 Capítulo 41


Notas iniciais
Cá estou eu de novo! Capítulo novo! Esperando comentários...

Mel.

Passei a noite inteira pensando, e repassando em minha mente o que parece ser a conversa mais difícil que eu vou ter em toda a minha vida.

Eu costumava pensar que a conversa mais difícil seria quando eu tivesse que dizer ao meu avô que eu iria para a faculdade, e que eu só voltaria para casa nos fins de semana. Mas é claro que tudo isso não importa mais! Eu não vou conseguir dar conta de tudo. Do meu avô, do restaurante, faculdade, e de um bebê recém-nascido. Claro que alguma coisa vai ter que ser deixada de lado.

E eu não preciso pensar muito para saber o que vai ser.

Desde o enfarte do meu avô eu venho tentando deixá-lo o mais sossegado possível. Não quero sobrecarregá-lo com nenhum dos problemas do restaurante. Então eu venho me encarregando de tudo, e eu estou me dando bem. Não é tão difícil.

Qualquer coisa para deixá-lo o melhor possível.

Qualquer coisa para que ele se recupere mais e, mais a cada dia.

Apesar de tudo isso eu não posso deixar de sentir medo, de como ele irá reagir quando eu disser que vou ter um bebê, e além de tudo, quando ele souber que eu venho escondendo tudo isso há algum tempo.

Espero que ele entenda...

A água morna do chuveiro me faz relaxar. Meus músculos relaxam, meu bebê está relaxado. Acaricio minha barriga e um sorriso se forma em meu rosto. Não tenho como descrever o alivio enorme que sinto apenas de saber que ele ainda está aqui. Seguro. Dentro de mim.

Eu ainda não acredito que é um menino.

Com quem ele irá se parecer?

Comigo ou com John?

Afinal, nós somos tão diferentes.

Eu tenho os cabelos escuros, os olhos castanhos, a pele muito pálida. John é o meu oposto. Ele tem cabelos castanhos claros — quase loiros, mesmo que ele não admita isso -, os olhos de um verde escuro, da tonalidade de uma folha, a pele bronzeada...

Fecho os olhos e eu posso vê-lo perfeitamente em minha frente. Seu sorriso sedutor, seu olhar apaixonante.

Tenho certeza de que o nosso filho será uma mistura de nós dois.

E ele será perfeito.

Saio do chuveiro e enquanto visto minha lingerie, eu paro e me observo em frente ao espelho. Minha barriga está de um tamanho avantajado, redonda.

Isso é tudo tão maravilhoso!

Eu me sinto muito orgulhosa por carregar este bebezinho dentro de mim. Eu já o amo tanto, e eu mal posso esperar para ver seu rostinho, para beijar suas bochechas, e fazer tudo o que uma mãe muito coruja faz.

— Hoje é um dia muito importante. — Digo mirando minha barriga e passando delicadamente a mão por ela, como se fosse preciosa demais. — Eu vou conversar com seu bisavô, vou dizer que você está chegando. E eu também preciso tomar coragem para ligar para o seu papai.

Um frio na barriga me toma.

Como eu vou dizer a ele que eu estou grávida?

De um menino!

E se ele não acreditar em mim?

Não posso pensar nisso agora. Eu preciso me trocar, e conversar o quanto antes com meu avô. Meu assunto com John eu resolvo depois.

Coloco um vestido azul rodado, e de alcinhas. Solto meu cabelo e o deixo caído por sobre meus ombros em longas mechas castanhas. Dou uma última conferida no espelho, e eu estou ótima.

Eu ainda sinto falta dele, eu ainda o amo muito, e sua ausência ainda me machuca de um jeito que eu nunca vou poder me livrar, mas meu filho abranda isso. Meu bebê faz ser suportável, meu bebê me dá um brilho especial, meu bebê me faz ver uma luz no fim do túnel.

Ele é minha maior alegria agora!

Desço as escadas e encontro Julia e Gabriel abraçados em frente ao restaurante.

— Bom dia! — Digo assustando os dois.

— Bom dia Mel! — Diz Gabriel vindo e depositando um beijo em meu rosto. — Está se sentindo melhor? Julia me ligou ontem no maior desespero. — Olho para Julia e ela está com um sorriso tímido no rosto, como se estivesse envergonhada. — Como está o meu afilhado? — Pergunta com a mão apoiada em minha barriga.

Eu não poderia ter escolhido padrinhos melhores para o meu filho.

— Foi um susto, mas já passou. — Digo para tranquilizá-lo.

Ele sorri docemente para mim.

— Rafael me ligou e pediu para eu ficar de olho. — Ele ri como se estivesse achando graça de alguma coisa. — Eu vou ligar para ele quando eu sair daqui! — O sorriso maroto estampado em seu rosto me deixa intrigada.

— Ele está bem interessado, não acha? — Diz Julia enlaçando o braço de Gabriel.

Franzo minha sobrancelha para os dois.

— Eu realmente não sei do que vocês acham tanta graça! — Digo cruzando os braços. — Ele está preocupado como médico, afinal, é ele quem está acompanhando meu menininho.

Um sorriso ameaça rasgar o rosto do Gabriel em dois.

— Eu sabia que iria ser um menino! — Ele diz animado. — Mal posso esperar para ensiná-lo a jogar futebol, e brincar de carrinho! Nós vamos fazer tantas coisas legais!

Tenho certeza de que John amaria ensinar tudo isso ao nosso filho.

Pensar nisso me entristece de um jeito que eu não gostaria de me permitir. Isso deveria ser o trabalho de um pai. Ensinar seu filho a jogar bola, brincar de carrinho...

Mas apesar de tudo adoro o entusiasmo dele. Nós nos tornamos muito próximos, mas devo ressaltar que isso também é por Julia.

— Já vi que vamos ter um problema para aguentar toda essa empolgação. — Diz Julia segurando o riso. — Vai demorar muito até isso Gabriel!

— Eu não me importo de esperar, não me importo de esperar os nossos também. — Ele diz baixinho com um sorriso despontando nos lábios.

Julia arregala os olhos.

— Meu deus! Nós começamos a namorar agora!

Não consigo conter a gargalhada.

— Vocês dois são uma fofura. — Digo tentando conter o riso por conta do olhar ameaçador de Julia. — Mas querem um conselho? Não façam como eu! Esperem um pouco. — Digo fazendo graça da situação.

— Não fala assim do meu afilhadinho! Ele pode ouvir e ficar triste! — Diz Julia fazendo bico e se aproximando de mim. — Ele pode não ter sido planejado, mas ele já é muito amado!

— Com toda a certeza é sim. — Digo toda boba.

Tenho certeza de que ele irá chegar para trazer muita luz, e muita felicidade para todos nós.

Meu pequeno anjinho.

— Nós temos que pensar em um nome. — Diz Julia de repente. — Agora que sabemos que ele é um garotinho, não podemos ficar o chamando de bebê, ele pode ficar irritado e chutar sua bexiga.

Sorrio.

— Ele já faz isso. — Digo para Julia. — E eu acho que já sei que nome vou escolher, fiquei pensando durante um bom tempo. Mas eu não vou contar agora. — Digo a alertando de que não adiante me pressionar. — Primeiro eu quero contar ao meu avô.

O sorriso de Julia se desfaz. É como se ela estivesse tão apreensiva quanto eu.

— Você vai falar com ele hoje? — Pergunta timidamente.

Respiro fundo.

— Sim. Na verdade, eu já estava indo falar com ele.

— Ah não! Não senhora! Não sem antes dar o café da manhã do meu afilhado.

Sorrio para ela.

— Tudo bem. — Digo revirando os olhos.

— E Mel, — diz Gabriel colocando a mão em meu ombro e dando um leve aperto tranquilizador — eu sei que seu avô vai ficar feliz. Ele é um homem bom.

— Espero que você esteja certo. — Digo num murmuro. — Espero.

[...]

Julia me forçou a comer duas torradas, mesmo meu estômago estando recusando qualquer tipo de comida agora.

Meu nervosismo só aumenta.

Ana foi até a cidade buscar encomendas, estamos apenas eu e Julia. Gabriel teve que voltar ao hospital.

Acho incrível a dedicação que ele tem com ela. Sempre que ele tem a chance ele vem vê-la. Ele está vindo até com mais frequência almoçar aqui. Mesmo que seja mais longe para ele.

John também fazia isso. Não importava a distância. Ele sempre preferia ficar perto de mim. Pelo tempo que fosse.

— Quer que eu vá com você? — Pergunta Julia baixinho.

Eu bem que gostaria, mas isso é algo que eu preciso fazer sozinha.

— Não. Melhor não. — Levanto-me da cadeira e Julia me acompanha. — É melhor eu fazer isso de uma vez. — Digo decidida.

Eu não sou mais uma garotinha. Não sou mais uma menina. Agora eu sou uma mulher, e uma futura mãe, e tenho que encarar de frente meus desafios.

— Boa sorte. — Ela murmura.

— Obrigada. — Digo sorrindo tentando apaziguar o momento. — Espero que ele não me expulse de casa. — Digo brincando.

Julia faz uma careta.

— Ele jamais faria isso. Você é a pessoa que ele mais ama no mundo. Tenho certeza de que ele vai te apoiar. E que também ele irá mimar muito esse menininho, assim como eu.

— Você tem razão.

— E depois nós vamos conversar sobre esse nome. Por favor, não me deixe curiosa. — Diz Julia juntando as mãos em frente ao rosto, como se estivesse rezando.

— Pode deixar.

Saio da cozinha e subo as escadas em direção ao escritório, e já consigo escutar os acordes de uma música tocando baixinho. Hesito por um momento antes de bater na porta.

Eu preciso ter coragem.

Dou algumas batidas hesitantes.

— Entre. — Diz meu avô.

Assim que coloco os pés para dentro do escritório, sou recebida com um sorriso acolhedor.

— Não sei o porquê de você insistir em sempre bater na porta. — Ele diz rindo.

Hoje talvez fosse para adiar o momento...

— Costume. — Digo dando de ombros.

— Sente-se aqui. — Ele diz me apontando a poltrona ao seu lado.

Em passos hesitantes eu vou me aproximando dele. Sento-me na poltrona. Ergo meus olhos até se fixarem nos seus.

— Tudo bem? — Ele pergunta com a testa franzida. — Você me parece estranha.

Talvez ele já tenha percebido...

— Tudo. — Digo baixinho apertando sua mão. — Eu preciso te contar uma coisa. Uma coisa muito importante.

Ele estreita os olhos para mim. Empertiga-se em sua poltrona. Sinto meu coração acelerar.

— Pela sua cara é coisa séria. – Ele diz desconfiado. – O que seria?

Respiro fundo repassando mentalmente o texto que eu havia ensaiado noite à fora.

E eu não sei por onde começar.

— Primeiro eu quero dizer que o senhor é muito importante para mim, e eu não aguento mais esconder nada, e nem gosto de esconder nada de você. – Ele abre a boca para dizer algo, mas eu peço que ele pare. – Se o senhor me interromper eu vou perder a coragem.

Ele assente.

Posso sentir a tensão no ar, mas eu não posso parar agora, ou eu vou sair correndo por aquela porta.

— O senhor me conhece melhor que ninguém e sabe que eu nunca faria nada para te desapontar – digo sentindo as lágrimas queimarem meus olhos – e eu sinto muito se o que eu te disser agora vá te magoar ou te deixar triste, mas eu ... – paro por alguns segundos encarando a confusão em seus olhos castanhos, e aproveitando a pausa para tomar um pouco de ar em meus pulmões – apesar de tudo, eu estou muito feliz, e eu espero de coração que o senhor também fique.

Ele coça o queixo sem tirar os olhos de mim, e eu não posso parar de falar.

— Não te entendo Mel. – Ele murmura.

Claro que não!

Eu estou sendo vaga, eu estou dando voltas e mais voltas querendo adiar o máximo possível ter que enxergar a decepção em seus olhos.

Não a outro modo de falar. Eu preciso ser direta.

Miro meus dedos entrelaçados, sinto as lágrimas molharem meu rosto, sinto o medo apertando meu coração, sinto a angústia não querendo me deixar...

Eu preciso me livrar de tudo isso.

Levanto o meu rosto e o encara de cabeça erguida.

Eu não devo me envergonhar do meu filho.

Nunca!

— Eu estou grávida. – Digo de uma vez, e no mesmo instante eu já me sinto leve como se eu tivesse tirado o mundo das minhas costas.

Na verdade, eu sinto a culpa me deixar, a culpa por esconder isso dele.

Seus olhos se arregalam, e eu posso ver que estão marejados. Ele passa a mão pelos cabelos brancos como se estivesse decidindo o que dizer.

Os minutos se passam e eu estou cada vez mais agoniada. Ele não diz nada. Eu estava esperando que ele brigasse comigo ou coisa parecida, mas ele apenas fica me encarando, e eu gostaria de sumir, bem agora.

— Por favor, por favor, vovô diz alguma coisa. – Choramingo em desespero. Inquieta com sua reação. – Qualquer coisa. – Eu imploro em lágrimas.

Eu sinto o gosto salgado das lágrimas em minha boca.

Ele fecha os com força.

— É do americano? – Ele pergunta ainda de olhos fechados.

Sinto meu coração murchar.

— É. – Digo baixinho. Tão baixo que nem tenho certeza se ele me ouviu ou não. – Eu sinto muito se eu te desapontei, mas eu estou feliz. Eu amo muito o meu filho, e eu quero ser a melhor mãe do mundo pare ele. – Sinto um desespero enorme, mas eu não posso parar de falar. — Eu sei que não é o que o senhor esperava, e nem eu, mas aconteceu.

Meu avô assente.

Os segundos nunca pareceram durar tanto.

— Eu sinto muito. – Digo sentindo meu coração despedaçar no peito.

Ele inspira.

— Lembra-se de quando você era criança, depois do acidente, quando nós trouxemos você para cá? – Ele pergunta hesitante com os olhos marejados.

Eu estava tão assustada. Eu me lembro de perguntar pela minha a todo o momento. Eu só queria vê-la outra vez, abraça-la outra vez, mas ninguém me dizia nada, ninguém me dizia onde ela estava. Eu não entendia o porquê dos meus avós terem ido me buscar, e o porquê de eu ter que viver com eles a partir daquele momento. Eu só queria pegar a minha boneca e voltar para a minha casa, voltar para a minha mãe. Porém depois com o passar dos dias eu fui percebendo que ela não iria voltar, e que eu não iria vê-la de novo, nunca mais.

— Lembro. — Murmuro sentindo minha garganta secar, e meu coração doer com as memórias dolorosas.

Como eu poderia esquecer?

— Você lembra do que eu te disse? – Pergunta com um sorriso no rosto.

E eu acho que meu coração vai parar.

As lembranças chegam como avalanches. Mesmo estando muito triste com toda a mudança na minha vida, meus avós ainda faziam de tudo para me alegrar. Mesmo eles mesmos estando sofrendo muito pela morte da única filha dos dois. Eles fizeram de tudo para que eu me sentisse em casa.

Antes do acidente eu costumava visitar meus avós com minha mãe aos domingos. Nós almoçávamos juntos sempre que podíamos. Mas nos outros dias eram apenas nós duas, e eu amava isso. Amava o jeito que ela escovava meus cabelos depois do banho. Amava as histórias que ela me contava antes de dormir. Eu sofri muito quando ela se foi, e pensar naquilo tudo ainda me deixa mal.

Eu tive que lidar muito cedo com a perda. Primeiro da minha mãe, e depois com a minha avó, e eu faria de tudo para não perder o meu avô.

Foi ele que sempre cuidou de mim, e que sempre curou todas as minhas feridas, tanto as de tombos quanto as de alma.

— Eu disse que a partir daquele momento eu seria seu avô, seu pai, sua mãe, tudo o que você precisasse, e que eu estaria sempre aqui de braços abertos, sempre que você precisasse de mim. – Ele diz com a voz embargada. – Isso nunca vai mudar, porque eu amo você mais que tudo, desde o primeiro momento em que te peguei em meus braços quando você era apenas um bebezinho. Eu amei mesmo quando sua mãe veio me contar aos prantos exatamente como você está fazendo agora que iria ter um bebê. – Ele diz se inclinando para frente. – Sabe o que eu disse para ela? – Ele pergunta, e eu balanço a cabeça negativamente. – Eu disse que nada no mundo me deixaria mais feliz do que ser avô de uma bonequinha!

Um sorriso se abre em meu rosto e eu acho que eu amo ainda mais esse homem a minha frente. Por ele sempre estar ao meu lado. Por ele sempre me mostrar que não há nada no mundo que eu não possa dividir com ele.

— Eu vou dizer a mesma coisa agora. – Ele se inclina e aperta minhas mãos entre as suas. – Nada no mundo me deixaria mais feliz do que ser bisavô desse bebê!

Nesse minuto eu me jogo em seus braços o abraçando forte como se de outro jeito eu não conseguisse demonstrar o quanto isso significa para mim, o quanto significa ele estar me apoiando agora.

Eu sei que não é fácil, sei que não é o que ele esperava para mim, afinal eu só tenho dezenove anos.

— Obrigada vovô. – Digo com a voz embargada. – Muito obrigada.

Ele me aperta forte contra seu peito, e eu me sinto com oito anos outra vez. Assustada, com medo de tudo o que possa vir pela frente, mas mesmo assim me sentindo confortada, no melhor lugar do mundo.

— Espera. – Ele diz me fazendo encará-lo de perto. Seus dedos enxugam meu rosto com ternura. – Esse rapaz foi embora há algum tempo. Com quantos meses você está?

Sorrio para ele.

— Quase cinco. – Confesso.

— E você está escondendo isso durante todo esse tempo? – Diz me repreendendo.

— Eu precisava de tempo também. – Digo sem jeito. Eu precisava organizar as coisas primeiro. Organizar minha vida, minha cabeça, meu coração. – E desta vez não vai ser uma bonequinha. – Digo feliz mudando de assunto.

Não quero falar sobre John...

Um sorriso enorme rasga seu rosto.

— É um menino?

Meu avô sempre quis ter um filho. Minha avó teve dois abortos depois da minha mãe. Ele me disse uma vez que se ele tivesse tido um filho ele teria dado o nome do seu pai, que para ele, foi o melhor homem do mundo.

— É vovô. – Digo mal me contendo. Espero que ele goste. – Eu já escolhi um nome para ele.

Meu avô sorri e coloca uma mecha do meu cabelo atrás da minha orelha.

— Você tem um bom gosto. Tenho certeza de que vai ser um lindo nome.

Eu não tive que pensar muito para encontrar o nome perfeito...

— Maximilían. – Murmuro, sabendo exatamente o efeito que isso terá nele.

Ele arregala os olhos, e em seguida os pisca algumas vezes como se estivesse associando a ideia.

— O nome do meu pai? – Ele pergunta quase sem voz. Eu tenho certeza de que isso o emocionou.

— Eu acho um nome muito lindo. – Digo também emocionada por poder fazer isso. — E vai combinar direitinho com ele.

— É sim. – Diz me abraçando outra vez. – Você é tão novinha. – Diz com pesar. – Mas sabe, eu sei que além de tudo você é muito madura, e não duvido de que você será uma ótima mãe.

Ele acaricia meu cabelo, e eu suspiro de contentamento.

Eu espero ser pelo menos um terço do que ele tem sido para mim...

— Você já contou ao pai do Max? – Pergunta meu avô.

Sorrio.

Max.

Agora temos como chamar o meu bebê.

— Não. – Fecho os olhos com força, tentando cessar as lágrimas que insistem em cair, sempre que eu penso no assunto. – Eu tentei ligar para ele, mas ele não atendeu. – Digo triste. – Eu vou tentar de novo. Mas eu não sei o que fazer. Eu queria muito contar, mas ...

— Por que você me parece tão triste ao falar disso? – Pergunta com a sobrancelha arqueada.

— Não é tristeza. – Claro que é.— Eu só...

Ele me corta.

— Vocês não tiveram um término muito bom, não é? – Seu tom de voz denuncia que ele já sabe a resposta.

— Não. – Admito.

— Você ainda o ama?

Sempre.

— Sim.

— Então eu te aconselho a ligar para ele, e a dizer que vocês vão ter um filho. Max vai precisar do pai dele. – Diz meu avô apoiando a mão em minha barriga. Ele sorri ao constatar o quanto já está avantajada. – Acho que ele concorda comigo. – Diz ao sentir um pequeno chute.- Ele já está chutando. – Diz meu avô todo bobo.

— Nem imagina o quanto. — Sorrio orgulhosa.

Meu homenzinho!

— Maternidade não é brincadeira Mel – ele diz delicadamente – é uma coisa séria. E ele tem o direito de saber que neste mundo está prestes a chegar um pedaço dele. Sangue do seu sangue.

—Eu sei, mas eu não sei como dizer. – Fecho os olhos com força. Estou em uma batalha agora, de dizer ou não. Miro meu avô, e tomo minha decisão. – Nós tivemos uma discussão feia antes dele ir embora. Ele foi sem falar comigo, e ele não deve estar querendo me ouvir agora!

—Eu bem que estava desconfiado. – Diz e posso sentir a tristeza em seus olhos. – Depois que ele se foi, era como se toda a alegria tivesse te deixado.

Me sinto mal por ele pensar assim. Não quero que ele pense que eu não me sinto feliz aqui, em meu lar.

—Eu amo este lugar vovô. – Digo para tranquiliza-lo. – E amo viver aqui com o senhor, as coisas com John eram diferentes. Eu fiquei triste por ele ter ido, mas não tinha nada que eu pudesse fazer.

Estou sendo totalmente sincera agora.

——Você tem que pensar no assunto. Esta é uma decisão sua.

—Eu sei. – Digo cabisbaixa. — Mas caso eu diga. Como faremos? Com ele lá e eu aqui? Meu filho não irá para longe de mim de jeito nenhum! Por que eu não vou deixar!

—Isso vocês dois precisam decidir. Mas você não pode tomar essa decisão por ele Mel.

Ele tem razão.

Ele sempre tem.

— Obrigado vovô. – Digo agradecida por tudo.

— Eu só quero que você siga o seu coração. O que você decidir para mim vai estar decidido.

Como sempre, ele sempre está ao meu lado...

— Eu sei o que eu devo fazer. – Digo me levantando decidida. – Eu vou ligar para ele, eu vou conversar com ele.

Meu avô sorri para mim como se estivesse orgulhoso. Se ele soubesse o quanto eu estou assustada agora...

Saio do escritório com a cabeça à mil.

Eu sei o que eu tenho que fazer.

Encontro Julia na cozinha.

— E aí, como foi? – Ela está apreensiva. Sorrio para ela.

Nem sei por que eu estava tão assustada. Eu não poderia esperar outra reação do meu avô. Ele é o melhor homem do mundo.

— Foi muito melhor do que eu pensava. Ele não ficou irritado, pelo contrário! Ele me apoiou! E vai continuar me apoiando até o meu bebê nascer.

Julia faz cara de alivio.

— Eu sabia! – Ela explode. – Estou tão aliviada Mel! Por deus! Finalmente tudo isso acabou! E sabe a melhor parte? – Ela não consegue se conter, e, se caso se contesse, não seria Julia! – Agora nós podemos comprar coisas para o bebê!

Rio de seu entusiasmo. Pego suas mãos nas minhas.

— Nós vamos ter muito tempo para fazer tudo isso, mas agora eu preciso da sua ajuda. – Ela parece curiosa. – Eu vou ligar para ele. E eu preciso que você fique do meu lado.

Ela sorri e acaricia meu rosto com ternura.

— Vamos lá! – Diz tirando o avental.

Posso sentir meu coração bater desesperado no peito. Posso sentir minhas mãos suando. Posso sentir meus joelhos fraquejarem.

Mas eu não posso fraquejar agora!

Chegamos ao meu quarto e Julia se senta ao meu lado na cama com as pernas dobradas. Ela parece ansiosa. Se ela está ansiosa, o que diabos eu estou sentindo?

Parece até que eu corri uma maratona. Eu não consigo respirar. Tudo parece girar.

— Toma! – Diz Julia me passando o celular. – Tenta primeiro no celular.

— É o único numero que eu tenho mesmo. – Resmungo.

Disco seu número e como de costume não ouço nada do outro lado da linha, mas ao contrário da outra vez, desta vez eu não ouço nem ao menos tocar.

— A linha está muda.

— Talvez tenha acontecido alguma coisa com o celular. Só pode ser isso.

— Não acredito que seja isso – digo desconfiada, e magoada. – Mas se for, como vou conseguir falar com ele?

Já sinto o desespero se apoderar de mim.

Agora que eu parei para pensar. Eu não sei nada dele. Sei apenas seu nome, e onde ele trabalha.

— Podemos procurar na internet! – Diz Julia animada.

Bufo frustrada.

— Isso pode durar o dia inteiro. – Digo irritada.

Será que aquele idiota não podia me poupar o trabalho e me ligar para acabar de uma vez com tudo isso?

— Não seja pessimista Mel! – Diz ela empurrando meu ombro. – Afinal, não temos escolha. Temos? – Sua sobrancelha está arqueada, e ela me desafia a dizer o contrário.

— Não. – Digo derrotada.

Eu me odeio por estar correndo atrás dele. Eu me odeio por sentir essa expectativa. Eu me odeio por sentir essa vontade insana de ouvir sua voz outra vez.

Eu sou uma burra!

Julia se levanta de repente.

— Aonde você vai?

— Vou pegar o notebook. Para pesquisarmos. Onde está o seu?

— Está no escritório do meu avô.

— Eu vou lá buscar. Me espere aqui. Nem pense em fugir. – Diz com o dedo em riste para mim.

Como ele irá reagir quando ouvir minha voz? O que eu vou dizer? O que eu devo dizer? Eu tenho certeza que vou travar!

— Você precisa ajudar a mamãe. – Choramingo acariciando minha barriga. – Seu pai é um filho da mãe. Um cabeça dura!

Julia volta com o notebook, e volta a se sentar em minha frente.

— Vamos começar. – Diz estalando os dedos. – Vamos procurar o nome dele em listas telefônicas, vai demorar, mas vamos acabar encontrando. Qual é o nome completo dele?

— John Richard Ackes. – Digo emburrada.

— Ele é de Nova Iorque, mas ainda assim é muito vago. Precisamos de referencia. Você sabe alguma coisa de onde ele mora?

De repente imagens de nós dois enrolados nos lençóis, enrolados um no outro povoam minha cabeça. Nós conversávamos, e ele me dizia que vivia em frente ao...

— Central park. – Murmuro de repente. – Ele me disse uma vez que vivia em frente ao central park. O seu apartamento fica em frente.

Ele disse que eu amaria viver lá.

Talvez ele tivesse razão.

— Bom, já temos alguma coisa. Precisamos procurar um John Richard Ackes que mora em frente ao central park!

Ela faz parecer tão fácil.

[...]

Estamos a tanto tempo enfurnada neste quarto que lá fora o dia já deu lugar à noite. Talvez eu não ligue hoje, eu não sei que horas pode ser lá. Quer dizer, se conseguirmos o bendito número.

— Eu achei uma coisa. – Diz Julia chamando minha atenção. – Não é o celular dele, mas tem um John neste prédio. E o telefone é da recepção. – Ela faz uma careta. – A gente pode ligar para ver.

Sinto meu estômago se revirar.

Eu ainda não estou pronta!

— Vamos deixar isso para lá. – Choramingo.

Eu sou uma covarde.

— Não. – Enfatiza Julia. – Eu ligo e pergunto!

— Mas já está tarde. – Eu tento argumentar, mas ela parece irredutível. – Ele pode estar dormindo, não sei.

— Mel – diz Julia carinhosa – você não pode fazer isso. Não pode adiar. – Ela passa a mão em meu rosto, e só agora eu percebo que estou chorando. – Eu ligo.

Ela pega o celular das minhas mãos e começa a discar o número. Meu coração parece que vai parar, e Max, como se estivesse a par do que está acontecendo não para de me chutar.

— Olá! – Diz Julia em inglês. Ai meu deus! Está acontecendo. Eu vou falar com ele. – Eu estou procurando por uma pessoa... – Ela escuta por alguns segundos. Meus olhos não desgrudam dela. Droga! Isso é muito desesperador! – O nome é John Richard Ackes. – Seus olhos se arregalam, e eu tenho vontade de sair correndo pela porta. – Sim. Então ele mora aí... Claro pode não ser, mas eu prefiro arriscar. Você pode me passar o número? É realmente muito importante! – Ela pega seu celular e disca o número. – Obrigado, você me ajudou muito Natan! Obrigado mesmo! Tchau!

Ela desliga o celular e me encara.

— Eu consegui um número. – Ela morde o lábio, um sinal de inquietação.

Eu sei que ela quer resolver isso logo, mas eu não... Eu não me sinto pronta!

Mas quando eu vou estar?

Já se passou tanto tempo.

— Eu posso ligar...

Eu a corto.

— Não. – Sussurro sem fôlego. Engulo em seco. – Eu faço isso.

Eu preciso.

Ele é o pai do meu filho...

O homem que eu amo...

Por que estou tão assustada?

Até parece que ele é um estranho.

Disco os números.

Meu coração bate ritmicamente a cada toque do telefone, os segundo parecem horas, é como se o tempo tivesse parado, e eu gostaria que parasse. Seria maravilhoso se parasse.

Alguém atende do outro lado da linha. Meu coração vai à garganta. Eu ouço sua respiração...

— John? – Murmuro quase sem voz.