Sob minha pele
31 Capítulo 31
Notas iniciais
Mel.
Eu senti tanta a falta dele. No fundo eu sabia que ele não iria me enganar, entretanto eu fiquei tão cega com o ciúme e com a raiva. Eu estou me sentindo estranha nos últimos dias. Os sentidos a flor da pele.
Eu me senti com raiva por estar sozinha, por ele estar longe, e ainda mais com o ciúme que senti, apenas de imagina-lo com outra mulher. Mesmo sabendo que eu vou ter que conviver com isso, talvez para sempre.
Talvez ele me entenda.
De um certo modo, eu vi aquele telefonema como um jeito de fazer esta conversa ser menos dolorosa. Eu estava enganada. Eu nunca estive tão assustada antes. Eu queria poder adiar isso.
Era muito mais fácil acreditar, do que ter certeza de tudo o que eu iria perder. Eu não quero perdê-lo, mas isso quem irá decidir vai ser ele.
Quando eu era criança eu morria de vontade de ter um bichinho. Qualquer que fosse, porém minha mãe me achava muito nova para ser responsável por um bichinho de estimação. Então ela me levou em uma loja de brinquedos e disse que eu poderia escolher qualquer coisa que eu quisesse. Eu fiquei em dúvida entre uma boneca do meu tamanho, e outra que parecia um bebê de verdade. Eu fiquei um bom tempo tentando me decidir, até que finalmente minha mãe teve pena de mim e me deixou ficar com as duas. Eu me lembro de ter achado que tomar aquela decisão seria tão difícil, ter que escolher entre duas coisas que eu queria muito. Claro que minha escolha agora vai ter uma dimensão maior. Agora eu tenho algo a perder, dos dois lados. E minha mãe não está mais aqui para tornar as coisas mais fáceis.
Eu preciso decidir sozinha. E desta vez, eu não vou poder ter os dois.
— Então você sentiu minha falta. – Diz John com a voz rouca de contentamento.
Ele acaricia meu cabelo. Eu estou deitada em seu peito, no lugar onde eu me sinto mais segura, mais amada.
O quarto está escuro a não ser por uma fraca luz que ultrapassa as grossas cortinas. Parece tudo tão calmo. E eu gosto disso. Gosto de um pouco de calmaria no meio do furacão.
— Por que você está tão quieta? – John pergunta.
Em resposta eu apenas agarro sua cintura com mais força o abraçando com tudo o que eu tenho. Tenho medo de abrir a boca e acabar com tudo isso. Eu só preciso de mais alguns minutos de calma, de sossego. Estou tão cansada de estar sempre em movimento, de estar sempre com a cabeça a mil. Eu só quero que tudo pare, para eu poder respirar. Seu peito sobe e desce com sua respiração suave. Sua respiração é como música para os meus ouvidos. Ele está aqui. Ele está perto. Ele está comigo.
— Você não me respondeu. – Ele diz suavemente.
— Nada. – Respondo suspirando. – Eu só estou meio cansada eu acho. — Digo não querendo me aprofundar no assunto. Minha menstruação deve estar perto. Eu sempre me sinto estranha naqueles dias.
— Você devia descansar mais. Você trabalha demais. – Ele beija o topo da minha cabeça com docuça. — Às vezes eu tenho a impressão de que os únicos momentos em que você para é quando está comigo.
Não é uma impressão.
Levanto-me e viro-me para vê-lo e ele sorri para mim. O sorriso que faz meu coração disparar, o sorriso que faz todos esses dias em que estivemos juntos valerem a pena. Cada segundo.
— Eu te machuquei? — Pergunto me sentindo culpada. Ele parece estar confuso com a minha pergunta. – O prato que eu joguei em você. – Digo sem jeito me sentindo uma louca completa.
O problema é que eu sou muito impulsiva. Eu não consigo me segurar. Eu quero sempre resolver tudo na base da pancada. E eu estava com tanta raiva dele, eu realmente queria machucá-lo, assim como eu estava me sentindo machucada.
— Não. Eu me protegi com os braços. – Ele dá uma gargalhada e eu sinto minhas bochechas corarem. – Aquilo sim foi uma surpresa. Eu não estava esperando. Nenhuma mulher havia me atacado daquela forma antes.
Se nenhuma mulher nunca havia ficado louca de ciúmes por sua causa, então eu tenho certeza de que nenhuma outra mulher já o amou como eu o amo.
— Eu sinto muito. – Eu digo baixinho encarando seu peito. – Eu não deveria ter feito aquilo.
— Está tudo bem. – Ele diz gentilmente acariciando meu rosto com as pontas dos dedos com uma ternura que faz meu corpo todo amolecer. – Vamos deixar isso para trás certo. Mas antes eu preciso te contar uma coisa.
Olho séria para ele.
— Não precisa me olhar desse jeito. – Ele diz com um sorriso encantador desenhado em seus lábios. Apoio minha cabeça em seu ombro. Me aninho a ele o mais perto que posso. E eu queria nunca sair daqui. – É sobre a mulher que ligou. Eu não quero que ela fique entre a gente. Eu quero deixar tudo o mais claro possível entre nós dois. Não quero que haja mais brigas por esse motivo. Principalmente quando estivermos em Nova Iorque. – Isso traz um aperto tão grande ao meu peito, faz lágrimas brotarem em meus olhos. — Nós dois realmente terminamos a muito tempo, mas nós tivemos alguns encontros depois. E ela nunca me deixou em paz. Ela diz essas coisas porque no fundo ela tem esperança de que nós dois voltemos a ficar juntos.
— E você não quer mais? – Pergunto receosa.
Talvez ele a queira, quando eu não estiver mais por perto...
— Eu nunca mais vou querer ninguém a não ser você. – Ele me abraça forte. – Até que não foi tão ruim. A parte da reconciliação é ótima, mas deve ser porque é com você.
Ele se aproxima mais de mim e eu o deixo me abraçar e me beijar, porque é tudo o que eu quero no momento. Seus lábios se encostam em meu pescoço e seus beijos fazem meu corpo inteiro se incendiar. Seu carinho parece completar uma parte em mim que estava faltando.
— Eu amo você. – Ele sussurra.
E essas foram as palavras mais sinceras que eu já ouvi em toda minha vida.
— E eu também te amo.- Digo o abraçando forte.
Eu o amo demais. Demais. Eu nunca vou ser capaz de sentir o mesmo por outra pessoa porque o meu amor e o meu coração eu entreguei a ele. E só a ele.
John se posiciona por cima de mim, suas mãos vagueiam pelo meu corpo me arrancando suspiros. Minhas unhas se cravam em suas costas.
Ele agora está deixando beijos molhados em meu umbigo. Ele sobe aos poucos com seus lábios ainda roçando em minha barriga, onde ele deposita um beijo carinhoso, suas lábios sobem até eu não ter mais forças para olhar por onde eles andam. Eu o sinto em mim. Ele deixa beijos delicados entre meus seios, e sobe voltando ao meu pescoço. Logo ele cobre meus lábios com os seus. Em um beijo apaixonado.
— Sabia que eu ainda não posso ficar sem camiseta. – Ele diz achando graça de alguma coisa.
— Por quê? — Pergunto quase sem forças para formular qualquer frase que fosse.
— Por causa do nosso último encontro. – Ela diz com o rosto escondido em meu pescoço. — Na cabana. Naquele dia de chuva. Nós precisamos fazer aquilo de novo amor.
Aquele dia irá ficar em meus sonhos para sempre. Nada poderia ter sido melhor. Sua barba faz cócegas em meu pescoço e me fazem soltar risinhos.
— Ainda bem que tudo acabou bem.- Ele diz com a voz baixa. – Eu estava morrendo de medo de perdê-la. Morrendo de medo de ter que ficar sem você. De nunca mais poder tocá-la, de nunca mais poder fazer amor com você. – Essa frase acelera o meu coração.
Eu não consigo formular nenhuma palavra. Eu apenas sorrio para ele. Por que eu não vou saber fazer nada disso sem ele. Ele é o único que eu quero. O único que é dono de mim.
— E seu avô? Ele está melhor? – Seus olhos me examinam com intensidade.
E esses olhos verdes são demais para mim. Eu não posso encará-lo. Não sem ter vontade de gritar e chorar.
Por que o mundo é tão cruel?
Por que eu não posso ser feliz com o homem que eu amo?
Por quê?
— Ele está melhor. — Digo fazendo desenhos com a ponta do dedo em seu abdômen. — Ontem ele até já queria se levantar da cama, e eu não deixei. O que ele teve o deixou fraco e ele precisa de alguém por perto. – Digo sem encará-lo. Mantendo meus olhos baixos.
— Você ficou muito assustada? — Ele pergunta com a voz mansa cheia de preocupação.
— Eu tenho muito medo de perder ele. – Digo fungando.- Eu já perdi minha mãe, e minha avó. Eu tenho medo de perder ele e de ficar sozinha. Sem ninguém. — Digo confessando meus medos mais profundos.
Ele é a única família que eu conheço.
— Você nunca vai ficar sozinha. Você tem à mim. E eu te amo muito. Nós vamos nos casar e vamos envelhecer juntos. – Ele sorri para mim. Seus olhos brilham de felicidade, e eu já não consigo enxergar o mesmo brilho nos meus.
Eu não sei como dizer. As palavras estão presas em minha garganta. Eu não quero ficar sem ele. Talvez nós dois pudéssemos dar um jeito de continuarmos juntos. Eu pensei muito, e eu já cheguei a uma decisão. Ela não é o que vai me fazer feliz, mas é o certo, no momento.
— Eu não posso deixa-lo sozinho. – Eu confesso em um murmurio baixo.
— Você não vai deixa-lo sozinho. Ele tem a Ana. E eu sei que ela irá cuidar muito bem dele. – Ele diz obrigando-me a encará-lo. A intensidade em seus olhos me mostram que ele não vai entender, e isso faz uma pequena parte de mim morrer.
— Não é a mesma coisa. – Eu sussurro sem querer olhá-lo nos olhos. – Eu sou a única família que ele tem. Que tipo de pessoa eu seria se o deixasse sozinho. Se eu o abandonasse agora que ele mais precisa de mim?
Eu nunca iria me perdoar. Ele sempre cuidou de mim. Que tipo de pessoa eu seria se não estivesse aqui para cuidar dele agora?
John se afasta de mim. Ele me encara com os olhos estreitos.
— Não sei o que você quer dizer. – Ele parece confuso. – Você quer que ele venha com a gente?
Isso seria uma solução para tudo. Porém eu sei muito bem que isso não vai acontecer. Meu avô nunca que iria aceitar ir embora daqui.
— Ele não iria embora daqui John. E eu nem iria propor isso para ele. Ele ama esse lugar. Ele sempre viveu aqui. Todas as lembranças que ele tem da minha avó e da minha mãe estão aqui. – Tento explicar.
John se levanta da cama sem olhar para mim. Ele vai até uma de suas malas procura por algo. Eu me sento na cama puxando o lençol para cobrir minha nudez. Encaro meus dedos tentando me controlar ao máximo para não chorar. Meus olhos se voltam até ele, e ele está com uma cueca boxer preta agora. Devia ser isso que ele estava procurando. Ele continua de costas para mim. Ele está colocando sua calça jeans. E com isso eu sei que nossos momentos acabaram, e eu tenho medo do que está por vir.
— John. – Eu chamo baixinho sentindo meu coração despedaçar.
— Eu estou me esforçando. – Sua voz sai rouca. Ele está tenso. Eu posso ver. Eu posso sentir. – Eu estou tentando entender o que você quer dizer. Mas por mais que eu me esforce eu não consigo entender.
Ele se vira para mim e a confusão e preocupação estão estampados em seus olhos. É demais para mim. A expressão em seu rosto faz outra pequena parte minha se esvair. É como se ela estivesse indo aos poucos.
— O que você não consegue entender? – Pergunto me levantando e procurando por minhas roupas. Sinto seus olhos em mim. Eles me queimam. Eu sinto a intensidade.
— Não se faça de desentendida. Você sabe do que eu estou falando. Você está falando que não pode deixar o seu avô sozinho. Você sabe que eu vou embora daqui a dois dias. Eu já comprei as passagens. Você pelo menos já disse a ele que você vai vir comigo? – Ele parece irritado.
— Eu não tive chance. — Digo simplesmente.
O que ele queria que eu fizesse?
Olá vovô sinto muito em dizer isso neste momento, mas eu estou indo embora!
Encontro meu vestido e o visto rapidamente.
— E quando pretende dizer? – Sinto uma lágrima escorrer por meu rosto. E é como se eu estivesse desmoronando. Eu não respondo sua pergunta. Eu não sei como dizer. – Você pelo menos pretende fazer isso? – Ele parece magoado.
Eu não quero magoa-lo, mas será que ele não percebe o quanto isso está acabando comigo também?
— Eu não posso fazer isso agora. – Eu digo tentando controlar a mim mesma, tentando fazê-lo entender que é um momento delicado.
— Você não pode fazer isso agora? – Sua voz está alterada.
Ele ri com amargura.
— Você tem que entender. – Eu suplico para ele. – Eu não posso deixá-lo. Eu não posso jogar isso em seu colo agora. Seria uma falta de consideração da minha parte.
— E o que você quer dizer com isso? – Seus olhos se fixam em mim. Ele parece tentar se controlar para não explodir.
— Eu não posso ir com você John. – Digo de uma vez.
Essa é a frase que eu mais odeio em todo o mundo.
É como se fosse um impacto para ele. Ele dá um passo para trás como se eu o tivesse acertado com alguma coisa.
— Você não pode? – Ele passa as mãos por entre os cabelos e eu o conheço muito bem para saber que esse é um claro sinal de irritação. – Você está dizendo que não vai comigo! E tudo o que nós planejamos. E nós dois?
— Eu não posso ir embora agora John. – Eu tento me explicar. – Meu avô está doente e ele precisa de mim.
— Eu preciso de você. – Ele diz com uma dor que me atinge em cheio. Como um garotinho carente.
— Eu também preciso de você. — Eu murmuro já não conseguindo mais controlar meus sentimentos. Não conseguindo segurar as lágrimas que eu venho prendendo nos últimos dias. — Eu preciso muito de você, especialmente agora.
— Não é o que parece. – Ele diz ríspido com os olhos faiscando.
Ele parece estar com raiva. Não era isso o que eu estava esperando. Claro que eu não estava esperando que ele saísse pulando feliz, mas eu só precisava que ele fosse compreensivo. Que ele me abraçasse e dissesse que me entende, e que vai ficar tudo bem. Que nada irá mudar.
— Você precisa entender. – As lágrimas escorrem por meu rosto. Minha voz está arrastada. – A gente pode arranjar outro jeito. — Digo com esperança.
— Que outro jeito Mel? – Ele parece incrédulo. – Eu moro em outro país, não tem como dar certo. Eu quero você perto de mim. – Ele leva as mãos ao rosto.
— Eu posso ficar aqui, nós nos falamos por telefone. Até pelo menos tudo se acertar.
— Você só pode estar brincando. – Ele anda até a parede onde ele apoia as duas mãos. – Eu não vou viver em paz sabendo que você está aqui, e que aquele cara está te cercando como um lobo prestes a atacar.
— E você acha que eu daria confiança a ele? – Pergunto magoada com sua falta de confiança em mim.
— Eu não sei. – Ele bate com força na parede me assustando. – Sinceramente eu não sei. Eu saio por dois dias e quando eu volto você já está pendurada no pescoço dele. Imagina o que aconteceria enquanto eu estivesse fora, em outra droga de país!
— Isso não é justo. Mateo pode ter feito muita coisa errada, mas ele gosta de verdade do meu avô, e ele estava preocupado com ele. Ele só veio para ter noticias dele. — Dou alguns passos até ele, mas sua voz gélida me faz parar. -
— Se ele se importa tanto com o seu avô porque ele não estava no quarto ao seu lado? – Eu mal reconheço sua voz. – Por que inferno ele estava grudado em você? — Ele diz em alto e bom som.
Eu não quero brigar.
— Ele estava me consolando. Por que eu estava me sentindo sozinha. – Eu tenho medo do caminho ao qual essa discussão está nos levando.
— Te consolando? – Ele pergunta incrédulo. – Quando eu estiver em Nova Iorque e você se sentir sozinha ele vai vir até aqui para te consolar? — Diz com sarcasmo.
— Eu não permito que você fale comigo desse jeito! – Grito para ele sentindo suas palavras pesarem em mim. – Você não tem o direito de insinuar esse tipo de coisa para mim. Você sabe muito bem que você é o único homem que já existiu em minha vida. O que você acha que eu sou? Algum tipo de vagabunda?
Ele pelo menos tem a decência de parecer constrangido. Seus pulsos estão cerrados. Seus olhos vidrados em mim. O ar está tenso. É como se o tempo tivesse se fechado por sobre nossas cabeças.
Suas palavras fazem sentido de repente.
Ele não confia em mim e eu também não conseguiria viver sabendo que ele está longe, que qualquer outra mulher pode estar perto dele menos eu. Se nós dois não podemos confiar um no outro para fazer isso dar certo é porque não é para ser.
— Muito fácil para você me acusar. Eu não poderia confiar em você. Seria muito fácil para você pegar um telefone e me ligar de vez em quando, enquanto se diverte com outras, como a sua priminha por exemplo. Parece que é o que vocês costumavam fazer. – Digo com nada além de frieza em minha voz.
Suas palavras duras me magoaram, abriram feridas dentro de mim. Ele disse como se eu fosse uma qualquer. E isso não poderia ter doído mais.
— Você deve ter razão. – Me odeio por deixar isso me atingir. – Você também não me deu motivos para confiar em você, e não me julgue por isso.
— Ele é meu amigo e nada mais que isso.
— Ele não quer a droga da sua amizade, porra! – Ele grita irritado.- Ele quer você. E eu tenho certeza que enquanto você estiver aqui ele vai ficar te cercando, e você quando estiver se sentindo sozinha irá ceder. — Ele insinua.
— Você acha que eu seria capaz de te enganar? – Pergunto triste.
Meu mundo está acabando. Minha felicidade está indo embora e por mais que eu tente, eu não consigo agarrá-la.
— Eu não sei Mel. Tudo o que eu sei é que eu não posso ir embora sem você.
— Mas você também não pode ficar. E eu não posso ir embora. – Digo deixando claro que isso não irá mudar. Essa já é uma decisão tomada. E eu não vou voltar atrás.
— Você vai sacrificar tudo?
— Eu não quero sacrificar nada John, eu amo você. Eu amo você demais. – Digo em desespero sentindo meu coração sendo pisoteada dentro do peito. – Mas agora eu não posso pensar só em mim.
— Você tem que parar com isso. Você tem que parar de se sacrificar pelos outros, você é uma mulher crescida, você tem que viver sua própria vida pelo amor de deus! – Ele diz exasperado jogando as mãos para o alto. – Eu vejo o quanto você trabalha aqui e eu quero, e eu posso te dar uma coisa melhor. Você merece mais que isso, que essa vida. — Diz com desdenho.
Não entendo o que ele quer dizer. Eu sempre fui muito feliz aqui, e não há nada de errado com a minha vida.
— O que você quer dizer com isso?
Ele parece pensar um pouco antes de falar. Como se estivesse decidindo se fala ou não.
— Você vive servindo, arrumando, limpando, cozinhando aqui para todo mundo. Pegando no pesado o tempo inteiro. Você é uma mulher inteligente você quer fazer faculdade, você quer ter uma profissão, porém não faz porque podem precisar de você aqui. Você deveria querer mais para você do que isso. – Ele diz com os dentes cerrados.
O jeito como ele diz. O jeito como as palavras soaram. É assim que ele me enxerga?
— Isso? É isso o que você pensa? Do que você está querendo me chamar? – Pergunto irritada, magoada. Por deus! Eu queria jogar alguma coisa nele agora.- Por que você não diz de uma vez? Diz! – Eu grito para ele sentindo todo meu auto controle ir pelo ralo. – Eu sou uma pobre coitada que vive servindo os outros, não é isso? Eu não tenho vergonha disso, porque foi assim que eu sempre tive tudo do que eu precisei, e foi assim que você me conheceu! Era isso o que você queria me dizer?
— Eu não preciso dizer mais, e eu não diria com essas palavras.
E essa frase me atinge como um soco. Uma dor profunda me atinge por dentro. Me rasga, me queima, me destrói.
Ele acaba de confirmar.
Eu nunca me senti tão diminuída em toda a minha vida.
— Você é um cretino! – Digo aos prantos indo até ele e esmurrando seu peito. Ele dá uns passos para trás, até que agarra meus pulsos com força. – Me solta! — Esbravejo me desvencilhando dele. — Eu sou feliz aqui, eu posso não ser rica como você, mas eu não tenho medo de batalhar e ajudar o meu avô no que eu puder. Se você acha que eu sou tão pouca coisa assim então para que você quer se casar comigo?
Me afasto tentando em vão parar de sentir essa dor intensa, e arrasadora, que está me consumindo por dentro, me fazendo enxergar vermelho.
— Você pode alcançar coisas melhores se você quiser. É isso que eu estou tentando dizer. Você quer mesmo passar a sua vida inteira aqui? Trabalhando no restaurante. Vivendo para os outros?
— Quem é você?
Este não é o homem por quem eu me apaixonei.
— Eu me apaixonei pela pessoa que você é. – Ele parece não saber o que dizer. – Eu não me importo que você não tenha dinheiro, que se dane essa merda! Eu não ligo para isso. Mas eu não suporto te ver aqui trabalhando como uma louca!
— Eu não sou de porcelana. – Levo minhas mãos ao rosto tentando me recompor. – Eu não vou quebrar.
— Eu não estou me expressando bem. – Diz com os olhos injetados.
— Você fez isso muito bem até agora. Me mostrou coisas que eu ainda não havia enxergado. Nós temos valores diferentes. Você tem vergonha de mim. – Digo magoada, sem forças para continuar me machucando desse jeito.
— Não foi isso o que eu disse. – Ele me encara com intensidade. E eu não suporto olhar para ele. Para aqueles olhos, para aquele rosto. – Eu apenas acho que você poderia viver melhor.
— Vá se ferrar! – Eu grito para ele. – Você deve achar mesmo que eu sou uma caipira, como o seu amigo disse quando vocês chegaram.
— Essa conversa não está nos levando a nada. – Ele diz exasperado fechando os olhos com força.
— É ai que você se engana. Você é um riquinho metido a besta.
— Você sabe que eu não sou assim. É pecado eu querer dar uma vida melhor para a mulher que eu amo. – Ele grita completamente fora de si. – Eu quero que você venha comigo. — Seus olhos estão vermelhos, ele parece estar fazendo uma força descomunal para não chorar. Mas eu não tenho essa mesma força.
— Eu não vou com você para lugar nenhum! – Eu grito de volta. – Você não é o que eu pensei. Quem me garante que você não vai me largar em casa enquanto sai com seus amiguinhos para a farra!
— Você acha que eu faria isso? Tiraria você daqui para tratá-la mal depois? Eu quero o melhor para você!
— O melhor para mim é perto do meu avô! – Grito com toda a força sentindo meus pulmões arderem.
Seus olhos se arregalam. Ele parece surpreso. Ele entende o que essa frase significa. E eu também entendo. Acabamos de chegar no fim da trilha.
— Isso é um adeus? – Sua voz sai num sussurro mal controlado.
Ele parece incrédulo.
— Eu acho que sim.
Nós dois ficamos nos encarando por segundos, minutos, horas, eu não sei ao certo, mas depois de tantos gritos o silêncio agora parece ensurdecedor.
— Eu não sirvo para você. Eu vou continuar aqui, cozinhando, lavando, servindo, e você pode voltar para a sua vida perfeita em Nova Iorque.
Ele está tão furioso. Os braços em pose de batalha. Sua respiração está mal controlada, é como se ele estivesse a ponto de explodir.
— Você tem razão. Isso vai ser o melhor. — Diz com a voz sem emoções. — Eu achei que você fosse mais forte e mais decidida. Me enganei com você.
Acho que eu poderia morrer agora. Seria o único jeito de essa dor me deixar.
— Não é isso o que você quer? — Ele continua querendo me magoar, não haveria outro motivo para ele usar este tom comigo. — Então é o que eu vou fazer. Você continua aqui com sua vida, já que você gosta tanto, e eu vou voltar para a minha. Maldito o momento em que eu pus meus olhos em você. – Sua voz sem emoções me destrói por completo.
— É assim que você se sente?
— É assim que você está fazendo eu me sentir. Isso é tudo culpa sua. Espero que você consiga viver com isso.
Um soluço alto sai do meu peito.
Ele quer me magoar e está conseguindo. Ele está com raiva, mas eu também estou.
Nesse momento Mark entra no quarto. Seus olhos vagueiam de mim para John.
— O que está acontecendo aqui? Eu estava ouvido os gritos da minha cabana!
Os olhos inexpressivos de John não desgrudam de mim por nenhum minuto.
— Arrume suas coisas, nós vamos embora agora. — Diz John se dirigindo a Mark.
Essa frase faz o chão se mover por sob meus pés.
— Mas as nossas passagens são para daqui a dois dias. – Diz Mark sem entender nada.
— Eu não me importo. Nós vamos arrumar um voo para hoje! Para agora! — Grita com a voz firme.
— Por quê? — Pergunta Mark com os olhos cravados em seu amigo.
— Por que sim. – Diz John irritado. – Eu nunca deveria ter vindo para esse maldito lugar. Eu só quero dar um fora daqui, e esquecer que isso aqui existe. — Suas palavras me descartam de sua vida, como se eu não fosse nada.
Mark olha para mim com surpresa. Porém as palavras dele não me surpreendem mais. Já ouvi muitas palavras duras por hoje.
Eu não acredito que tudo está acabando...
— Eu nunca mais quero ver você de novo. – Junto minhas forças para essa última frase. Cravando meus olhos nos seus. – Nunca mais. — Repito.
Se ele quer ir, eu espero que ele vá de uma vez.
Seu rosto continua inexpressivo e eu saio em disparada pela porta. Não posso acreditar que isso tudo aconteceu. A menos de uma hora estávamos fazendo amor e agora não há mais nada. Está tudo acabado. Tudo acabou. Ele vai embora e eu nunca mais vou vê-lo.
Passo pelo salão do restaurante como um furacão deixando uma Julia boquiaberta para trás. Eu preciso ficar sozinha para eu poder chorar até essa dor ir embora.
Entro em meu quarto e me jogo em minha cama. Eu não reconheço os gritos de dor que saem de mim agora. Uma dor tão forte e desesperadora que eu não suporto. Eu preciso me livrar disso. Está doendo demais.
— Mel! – Julia invade meu quarto e sua postura denúncia que ela não sabe o que fazer, ela nunca me viu assim antes. Ela vem até mim e se ajoelha ao lado da minha cama. – Meu deus Mel! O que aconteceu?
— Ele vai embora Julia! – Não sei se ela consegue me entender, ninguém pode.
— Quem? Quem vai embora? – Seus olhos estão agitados. Ela se senta em minha cama e me abraça.
— John. – Digo soluçando.
Seu nome consegue me arrancar a última parte daquilo de mais bonito que já existiu em mim.
Ela me abraça o mais forte que ela pode. Ela me consola da melhor forma possível.
Por que ele não consegue entender?
Por quê?
Ficamos abraçadas pelo o que parece horas. Minha cabeça parece que vai explodir. Meus pulmões não tem mais forças. Eu não tenho mais forças. É como se eu estivesse morrendo. Ele vai levar um pedaço meu com ele. Eu nunca mais vou ser a mesma.
Ouvimos um barulho do lado de fora.
— O que é isso? – Pergunto para Julia, assustada, já imaginando o que possa ser.
Ela se levanta e vai até a Janela.
— John e Mark estão colocando as bagagens no carro. — Diz Julia surpresa.
Levanto-me me apoiando na cama e vou a passos lentos até a janela.
Ele joga as bolsas com força no banco traseiro do carro. E em uma fração de segundos como se ele sentisse meus olhos sobre ele, ele para o que está fazendo e fixa seus olhos em minha janela, em mim. Eu o encaro. O encaro pela última vez. Encaro pela última vez o homem que amo. E ele me encara do mesmo jeito. Eu o encaro o máximo que eu aguento antes de desabar novamente.
Dou as costas para a janela e vou até a porta onde eu me sento encolhida.
Talvez se eu conseguir ficar o mais pequena possível, essa dor não poderá mais ser tão grande. Eu só quero diminui-la.
Ouço o barulho de um motor ligando e meu coração parece que vai parar. A dor não vai parar. É forte demais. Eu não aguento. Coloco minha cabeça entre minhas mãos enquanto choro baixinho. Ouço o barulho de pneus derrapando.
Ele está indo embora!
Meu deus ele está indo embora!
Levanto minha cabeça para encarar uma Julia com lágrimas nos olhos me encarando com pena, compaixão...
— Ele já foi Mel.
E é isso.
A minha vida acabou.
Ele se foi.
E eu nunca mais vou vê-lo.
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