Sob as Árvores
1 Capítulo 1
Além do barulho de sua própria respiração ofegante, tudo o que Silvério podia escutar era o barulho das folhas mortas e úmidas embaixo de seus pés sendo esmagadas por suas botas, completamente cobertas de lama e algumas folhas coladas, enquanto andava a esmo. Parava somente quando ouvia algum barulho em sua volta, que quebrava seus pensamentos desesperados, um arbusto sendo chacoalhado ou algo se arrastando sob as folhas ali perto. Nesses momentos um arrepio percorria sua espinha e brotava dentro de seu ser uma vontade incontrolável de chorar – mas o pânico era tão grande que não havia lágrimas para expelir. Quase podia sentir enormes aranhas venenosas escalando suas botas, com suas patas peludas, e entrando por baixo de sua calça (mesmo que estas estivessem enterradas por baixo de suas meias, para evitar tal coisa), mas o medo é um ser irracional, então também podia sentir cobras coloridas e traiçoeiras enrolando-se em seus tornozelos, ou então uma caindo de uma árvore em cima de sua cabeça, agarrando-se ao seu pescoço e sufocando-o até a morte, mas não antes de dar uma picada extremamente dolorosa. Queria se sentar, suas pernas tremiam e seus pés doíam, mas não tinha onde, não queria sentar no chão repleto de folhas mortas (como era mesmo que Lucas dizia? Serrapilheira...), não ousava nem se apoiar em uma árvore e correr o risco de meter a mão em uma aranha gigantesca.
Enquanto estava em pé, parado, olhando para os lados e sem saber para onde ir, nem saber de onde veio, o silêncio reinava. De vez em quando algum pássaro cantava distante, ou alguma ave misteriosa passava voando sobre sua cabeça (Lucas saberia o nome daquele bicho), e Silvério tinha certeza que passava voando julgando-o, olhando-o com aqueles olhos esbugalhados e pensando Olha lá aquele trouxa, depois cantava, rindo da cara dele. Pensou em seguir o pássaro, pois certamente aquele era um conhecedor da floresta e sabia para onde estava indo, mas então, dando-se conta da estupidez de seu próprio pensamento, percebia que, mesmo que pudesse alcançar a velocidade do pássaro, os dois provavelmente não queriam ir para o mesmo lugar. Meu Deus, como eu vim parar aqui? Perguntou-se. Perguntou-se também quantas vezes havia perguntado aquilo nas últimas duas horas. Às vezes podia jurar que ouvia passos, mas olhava ao redor e nada via. Gritava por socorro e ninguém respondia.
Estava calor, suas roupas estavam ensopadas de suor. Podia sentir seu próprio cheiro desagradável, e tinha dúvidas se o cheiro de suas axilas não estava atraindo animais que comiam carne podre. Apesar da sombra que as árvores faziam (quase não era atingindo por raios solares), o ar estava extremamente abafado, o que contradizia suas ideias de que dentro de florestas o clima era sempre fresco, agradável e respirável. Nada ali era agradável. Queria tocar fogo naquela merda e derrubar todas aquelas árvores e construir um estacionamento gigantesco ou um shopping ou seja lá o que for que não tenha esses insetos asquerosos. Podia sentir os mosquitos picando seus braços, mesmo cobertos por sua camisa de mangas compridas. Mas havia sido tão picado desde a noite anterior, que nada mais coçava. Agradeceu-se por ter tomado as vacinas antes daquela maldita viagem, então pelo menos não contrairia nenhuma doença daqueles mosquitos. Pelo menos isso. Lembrou-se de uma vez que Lucas voltara de uma viagem de campo cheio de carrapatos na perna. Havia pego na floresta, falou que se encostasse em qualquer coisa na floresta os carrapatos estavam lá. Aquele pensamento lhe deu uma angústia insuportável, provavelmente sua virilha estava cheia de carrapatos sugando seu sangue. Quando eu sair daqui, pensou, não vou ter nem coragem de olhar.
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