Sob as Árvores
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Estavam acampados numa clareira ao lado de uma cachoeira. Ao redor, sapos e grilos cantavam, à espreita. Alguns animais venenosos. Mosquitos zumbindo em seu ouvido. Naquela noite estavam todos em volta da fogueira, bebendo e contando histórias. Lucas e os amigos dele. Silvério, sem ter assunto para conversar com nenhum deles, e praticamente arrependido de ter embarcado naquela viagem sem chuveiro, sem cama e sem internet, olhava para a fogueira desejando profundamente fumar um cigarro – por favor, sem cigarros na floresta, falara Lucas antes de saírem de casa. Não tinha fumado desde então, o dia inteiro, mas tinha trazido escondido uma carteira de cigarros e um isqueiro, e aquilo era tudo que ele mais queria naquele momento, um lembrete da sociedade urbanizada e cosmopolita à qual ele pertencia e tanto amava. Desejou ter assuntos para conversar com os amigos de Lucas e assim passar o tempo, mas não suportáva-os, era um bando de nerds que só falavam sobre mato e bicho e se achavam mais inteligentes que todo mundo. Odiava Lucas quando estava com eles. Odiava Lucas por tê-lo arrastado até ali, mas havia feito uma promessa. Silvério havia prometido a Lucas que tentaria se aproximar dos amigos dele (que ideia!).
Levantou-se, falou que ia mijar – fazendo um gesto de Não, não precisa, quando Lucas se ofereceu a acompanhá-lo – e partiu em direção às barracas, fora da vista de todo mundo; passou na barraca dele e de Lucas, pegou sua carteira de cigarro, o isqueiro e uma lanterna, e foi para trás da barraca. Quando tirou um cigarro da carteira, pensou imediatamente que dali Lucas sentiria o cheiro de cigarro (ele era bom nisso, em sentir cheiro de cigarro), então, levando-se em consideração a quantidade de álcool que circulava em seu sangue naquele momento, achou uma boa ideia adentrar um pouco na floresta, só um pouco, e assim as árvores barrariam a fumaça. Guardou o cigarro que tinha tirado da carteira em um bolso da frente e a carteira e o isqueiro no bolso de trás da calça. Havia chovido naquela manhã, então dentro da floresta o chão ainda estava molhado. Apenas tinha dado três passos fora da clareira quando escorregou em uma folha molhada e desceu rolando em um barranco íngreme, até que bateu a cabeça em alguma coisa dura e desmaiou.
Acordou sabe-se lá quanto tempo depois, atordoado, sem saber muito bem o que tinha acabado de acontecer, cheio de terra e folha na boca. Estava tonto, enjoado. Sua cabeça latejava. E o pior, estava completamente escuro e ele não conseguia ver nada, nem a lua, que deveria estar ali no céu. Tateou em sua volta e não achou a lanterna. Levantou-se e pôs a mão no bolso, afim de acender o isqueiro. Mas o isqueiro não estava mais ali. Nem a carteira de cigarros. Sentiu um desconforto no estômago e vomitou, caindo de joelhos. Meu Deus, falou. Pensou em gritar por socorro, mas logo subiu outro vômito em sua garganta, queimando. Tentou andar um pouco, procurando o barranco de onde tinha caído, para tentar subir e chamar Lucas. Mas não encontrou. Não sabia quantos passos havia dado, nem em que direção, e sua cabeça latejava mais e mais. Tropeçou em alguma coisa e caiu no chão. Sentiu outro vômito chegando, mas nada saiu. Desmaiou. Quando acordou, era de manhã. Não fazia a menor ideia de onde estava, não via nenhum barranco e nem sinal do acampamento. Estava perdido.
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