Apoiou-se com a mão cheia de sangue no chão para se levantar. Em pé, pôde ver que mais na frente, a uns 50 passos, havia uma claridade maior, onde o sol conseguia tocar o chão sem obstáculos. Na penumbra da mata, aquilo era como um oásis de luz. Uma luz no fim do túnel. Caminhou lentamente, as costas latejando, a camisa rasgada grudada no sangue e no suor. Tinha sede. Espero que seja uma cachoeira, pensou, espero que seja o acampamento. Quando chegou lá, era uma clareira perfeita. Perfeitamente esférica, como uma pista de pouso para extraterrestres. Estava quase limpa, sem muitos arbustos ou folhas no chão, apenas um pequeno mato que crescia na altura do tornozelo.

Aqui e ali havia alguns troncos caídos, limpos, como que abandonados por alguma madeireira. Caminhou até o centro, onde deitou de bruços sobre um tronco, evitando encostar suas costas e ali ficou. Aqui é um lugar perfeito para morrer, pensou. Com as pálpebras meio caídas, sem forças para sustentá-las, fitou uma árvore que se destacava na clareira, uma sobrevivente, que não permitiu ser derrubada, que permaneceu ali firme e forte, robusta, em pé, enquanto tudo ao seu redor era derrubado e massacrado, preparando sua vingança e revanche. Produziria suas sementes e as dispersaria ao redor, reflorestando, fazendo seu entorno crescer novamente e voltar a ser belo. Lentamente a árvore foi se transformando em Lucas, e então ele estava ali, no lugar da árvore, parando e olhando-o, com os olhos semicerrados e o cenho franzido. De seu nariz escorria um filete de sangue. Seu olho esquerdo estava roxo e inchado. Deu um sorriso. E então pôde ver que faltava um dente em sua boca.

***

O garoto, que ele nem lembrava mais o nome, cavalgava sobre suas pernas, com as mãos apoiadas em seu peito, quando deu um sorriso com o canto da boca e disse:

— Teu namorado fode bem assim, como eu? Lucas, não é, o nome dele? Ele te aguenta como eu?

Silvério não respondeu, apenas continou fazendo o que estava fazendo. Como ele sabe que eu namoro? Como ele sabe o nome de Lucas? Ele me conhece? Mas é claro que ele conhece, todo mundo me conhece. Já havia comido mais da metade da cidade e o resto estava para comer. Se Lucas já não soubesse que estava sendo traído quase todos os dias, com certeza saberia amanhã. Ao terminar, vestiu sua roupa e voltou para casa – naquela altura ele nem se importava mais em tomar banho antes, para tirar o cheiro de sexo que ficava impregnado.

Chegou tarde naquela noite, era uma sexta-feira, e Lucas estava sentado no corredor, bebendo vodca direto da garrafa. Antes que Silvério pudesse perguntar por que porra ele estava sentado no corredor bebendo vodca pura sozinho, Lucas se levantou num pulo e o beijou, enfiando a língua em sua boca.

— Sua boca está com gosto de cu – falou, dando um passo para trás e dando uma gargalhada.

Silvério ficou atônito, sem crer no que havia acabado de acontecer. Nunca tinha visto aquele garoto agir dessa forma. Mas ele não parava de rir, como se estivesse rindo da sua cara.

— Cale a boca! – Gritou, dando um tapa com toda a força que pôde na cara de Lucas.

Lucas então deu um gole na vodca, fez um bochecho demorado e teatral, e cuspiu a vodca ao seu lado, gritando:

— Você é imundo! – E voltou a gargalhar. Ainda mais intensamente que antes. Agora parecia um louco, um maníaco.

Não podendo mais suportar aquela insolência, Silvério empurrou Lucas contra a parede, fazendo-o derrubar a garrafa de vodca no chão, quebrando-se em mil pedaços pontiagudos e derramando o conteúdo (que já não era muito), e deu um soco em seu estômago. Lucas parou de rir, finalmente, o silêncio tomando conta do apartamento, o barulho apenas da respiração dos dois. Lucas, curvado, com dor, tentando recuperar o fôlego. Quando se recuperou, endireitou-se. Silvério pôde ver um sorriso começando a se formar em sua boca novamente, e, antes que ele voltasse a gargalhar – não suportava mais aquela risada ensadencida -, deu outro soco em seu estômago, e, puxando-o pelos cabelos, arrastou-o até a cama. Lucas estava descalço, e, ao pisar nos cacos da garrafa de vodca partida, deixou um rastro de sangue no chão – você vai limpar essa merda amanhã -, murmurou Silvério.

— Pare de rir! – gritava Silvério, enquanto jogava Lucas na cama. – Pare de rir! – Pôs-se de joelhos sobre ele, imobizando seus braços. – Pare de rir, merda! – Gritava, enquanto esmurrava, três vezes, o rosto de Lucas. Um soco no olho, que imediatamente começou a inchar – Pare de rir! – Um soco no nariz, quebrando-o, fazendo jorrar sangue no colchão. E um soco na boca, esse machucou sua mão, quebrando um dente de Lucas, que voou até o outro lado do quarto – Pare de rir, pare de rir! – Mas Lucas não ria mais, apenas chorava, engasgado no sangue empoçado em sua boca faltando um dente.