O dia começava a escurecer. A noite chegara. A árvore que havia se transformado em Lucas continuava lá, parada, fitando-o. Vá embora, tentou dizer, mas não teve forças. Me ajude, pensou. Fechou os olhos. Não queria ver a escuridão tomar conta de tudo, tinha medo. Pôde perceber os barulhos da noite chegarem. Grilos, cigarras, animais sinistros observando-o na escuridão. O chacoalhar das plantas se intensificava. A qualquer momento seria picado ou mordido por um animal peçonhento e morreria agonizando 3 horas depois.

Lucas não saiu da cama por três dias. Não comia, não bebia, não falava. Apenas dormia ou ficava deitado na cama com um olhar assustadoramente vazio, fitando o nada. Por um momento, Silvério chegou a pensar que o havia matado. O orientador do doutorado de Lucas o havia ligado três vezes, seus amigos inúmeras vezes, mas enfim pararam, quando o celular dele descarregou. No quarto dia, Silvério estava no sofá, assistindo à televisão desligada, Lucas finalmente se levantou. Tinha tomado banho e trocado de roupa.

— Vou no hospital. Meu nariz está quebrado – falou. E saiu.

Silvério não falou nada. Ficou encarando a porta fechada. É isso, é o fim, acabou. Ele não vai mais voltar. Ele vai chamar a polícia. Havia finalmente passado dos limites – como se não houvesse passado antes -, e não tinha mais jeito, seria preso. Havia batido nele outras vezes, mas nada muito sério, Lucas sempre o perdoara, o amava. Mas dessa vez não, não houve pedidos de desculpas, não houve perdão, não houve eu te amo. E, pela primeira vez, ele se arrependia. Arrependia-se porque amava Lucas. Ou achava que amava. Ou o amou no início, logo quando o conheceu. Queria que aqueles tempos voltassem, que se amassem incondicionalmente, que não brigassem. Queria que Lucas voltasse, queria cuidar dele, tratar suas feridas e hematomas, dizer que o amava, que jamais o machucaria novamente. Perdoa-me, falaria.

Lucas voltou no final da tarde, com um curativo no nariz. Não pôde ver se ele havia consertado o dente que tinha caído – ou sido arrancado -, pois ele não abriu a boca nem sorriu. Nunca mais sorriria. Os dias foram se passando e o silêncio entre os dois continuava. Silvério tentava falar alguma coisa, puxar assunto, dar bom dia, mas Lucas nem sequer o olhava nos olhos. Dormiam juntos na cama sem se tocar, virados para lados opostos, o mais distante do outro possível. Quando os hematomas no rosto de Lucas sumiram, ele voltou ao trabalho. Silvério não mais procurava outros garotos para saciar seus desejos, pois tudo que ele queria agora era Lucas. Mas Lucas estava cada vez mais imerso no trabalho, nos estudos do doutorado. Suas viagens de campo eram cada vez mais frequentes, passando dias e até semanas acampando na floresta sem celular nem internet. Aos poucos, ele foi voltando. Começou a dar bom dia. Um dia, acordou com o braço de Lucas sobre seu peito. Algum tempo depois, Lucas voltou de uma viagem de 3 semanas e deu um beijo em sua boca. Naquela noite fizeram sexo. Conversaram, pelados, por horas, deitados na cama. Silvério fumava um cigarro enquanto Lucas contava histórias de sua viagem. Contara que adentraram tão profundamente na floresta, seguindo a trilha de uma onça, que quase se perderam. Que um indígena da região os ensinara a seguir trilhas deixadas por animais ou pessoas. Que um dia, acampados numa cachoeira, um estagiário havia se perdido na mata, mas rapidamente o acharam seguindo seus passos. Fizeram promessas, que nunca mais brigariam, que não se machucariam. Silvério prometeu não se distanciar mais, nunca mais gritar, prometeu que o ia amar como jamais amara, que tentariam sair mais vezes juntos, que, finalmente, ia dar chances para os amigos de Lucas e sair com eles, sem reclamar. Chegou até a prometer que iria com Lucas para uma dessas suas viagens de campo.