Sob as Asas
6 Capítulo 5 - Mau negócio
Notas iniciais
Leon veio até mim assustado. E me levou até ao sofá onde me sentei. Ele tinha se esquecido de tudo o que me disse anteriormente.
– Eu estou bem.
– Bem nada. Vou mandar chamar um...
– Médico? Já mandei – afirmei.
– Como?
– Um garoto que estava na rua.
– Pode confiar?
– Sim. Acho que ele gostou do dinheiro. Será confiável enquanto tiver a possibilidade de ganhar mais.
Minha mentira tinha sido tão confiável, que até eu quase acreditei. Mas de qualquer modo não era uma boa hora para tocar no nome de Zophiel.
Eu fiquei ali com os pés para cima. Ele latejava de dor, e eu sabia que não passaria tão cedo. O médico chegou depois de um tempo e depois de algum tempo examinando meu pé ele o imobilizou.
– Foi uma torção feia. Por sorte acredito que nada esteja quebrado. Só os nervos estão um pouco irritados e talvez tenha um pequeno trincado no osso. No mínimo duas semanas sem pôr o pé no chão, ou teremos um problema de verdade. Eu volto no fim desse prazo para ver se é o suficiente. Boa noite.
O médico saiu pela porta, Leon a fechou e veio até mim.
– Você ouviu. Nada de abusar.
Eu concordei com a cabeça. Mas já estava odiando a ideia. Leon me pegou no colo e me levou até ao quarto, que antes era nosso. Ultimamente era só dele, eu tinha passado para o quarto ao lado. Dormia no antigo quarto só quando tinha visitas. Não fazia sentido eu dormir com ele, se já não tínhamos uma vida de casados. Era melhor até para ele que não teria a tentação de me ter ao lado dele. Mas também não queríamos que ninguém soubesse que o casamento não existia.
– Esse quarto, mas... – eu ia protestar.
– Você terá muitas visitas nesse meio tempo, não acha? Se quiser eu vou dormir no quarto ao lado para não lhe incomodar.
– Ok. Você está certo, eu terei. Mas você pode ficar, só não...
– Eu não vou toca-la, Morgan.
Eu vi o quanto aquilo doía nele. Mas eu não podia engana-lo, seria como enganar a mim mesma. Eu não podia ficar com ele apaixonada por outro.
– Obrigada – agradeci a ele.
– Sem problemas.
Foi o que ele disse, mas não era o que sentia. Ele se importava, eu via que sim. E de certo modo isso me incomodava.
Para mim era muito difícil me obrigar a ficar o tempo todo em uma cama. Eu me sentia péssima. Todo o planejamento feito com Zophiel havia ido por agua abaixo. Lauren apareceu uma noite para me dar notícias. O animal estava rondando a casa, mas no estado em que me encontrava nada podia fazer.
Mais de uma semana se passara e toda a corte londrina havia aparecido, com exceção de dos dois homens mais poderosos, o rei e Anthony Marshall.
Eu sentia falta de tudo. De poder andar por aí, de ir ao banheiro e tomar banho quando quisesse, tudo me fora tirado. Mas o que mais me fazia falta era ver Zophiel. Eu já me sentia estranhamente solitária sem a companhia dele. Leon não era má companhia, mas ele estava apaixonado por mim e às vezes me olhava de forma estranha.
Era uma noite como todas as outras. Ainda era possível ver a linha clara do sol no horizonte, através da janela. Leon estava em sua poltrona fumando um cachimbo enquanto eu lia, ali presa àquela cama. Quem visse aquela cena diria ser uma família feliz.
Estava tudo tão em paz que até me assustei quando a bateram à porta com força. Leon franziu o cenho, mas desceu para ver quem era. Não demorou para a porta se abrir, mas eu congelei quando vi quem estava ali. Era Mantus. Senti meu corpo estremecer e o medo me tomou.
– O que ele faz aqui? Por que o deixou entrar? – perguntei assustada.
– Não deixei. Ele entrou sem ser convidado – Leon explicou.
Leon estava confuso. Sem entender o que temia tanto.
– Vá embora! – eu mandei.
Eu joguei o livro sobre a cama e fiquei olhando.
– O que é isso, linda? Eu só vim aqui para toma-la para mim.
– O que você disse?
Leon foi em direção a ele. Mas quando Leon ficou perto o suficiente, Mantus bateu com a mão no rosto dele, que voo na parede e caiu no chão desacordado.
– Leon! – eu gritei.
Levei a mão à boca e fiquei olhando Leon, torcendo para nada de grave tivesse acontecido. Nunca quis que nada de mal acontecesse com ele. E eu não podia fazer nada.
Mantus tinha um sorriso vitorioso no rosto e andava calmamente em minha direção.
– Vamos lá, linda. Poupe-me um pouco de trabalho e tire esse crucifixo.
– Nem sonhando. Fiquei longe de mim.
Eu me encolhia a cada passo que ele dava.
– Você é surdo?
Pulei de susto e meu coração disparou com a voz estrondosa que veio de perto da janela. Olhei e lá estava um elegante homem de cartola e bengala com um cristal no alto. Na hora reconheci Zophiel.
– O quê? Como...? – Mantus gaguejou.
– Penso que disse que não a deixaria. Eu não estava a brincar. Vai-te daqui, Mantus.
Senti as lagrimas de alivio descerem por meu rosto. Eu odiava chorar, mas odiava mais os demônios, depois do que vi, o que eles faziam a um homem muito mais forte que eu como Flint, passei a teme-los ainda mais. Além do mais, já tinha encontrado alguns, mas esse era de longe o que mais me apavorava.
Mantus virou as costas e sumiu pela porta. Zophiel e eu nos encaramos, eu sentia falta dele. Então ele começou a andar, mas foi em direção a Leon. Chegou a ele e colocou o dedo no pescoço.
– Ele só está desacordado, logo voltará a si – Zophiel informou.
– Obrigada... – eu falei com a voz ainda embargada com o choro.
Ele me olhou de imediato e então veio até mim. Se agachou ao meu lado, com um joelho no chão e levou a mão ao meu rosto para enxuga-lo. Senti a pele formigar onde ele tocou.
– Oh, minha querida, não chore. Você não combina com choro.
– Eu estou aliviada. Odeio aquele demônio maldito!
– Não se preocupe, não vou deixar que ele lhe faça mal.
Coloquei uma mão no joelho dele que estava mais perto, num gesto de pura gratidão. Ele sorriu para mim, que retribui. Eu estava com saudades de tê-lo perto de mim, ele me trazia tanta paz, junto com muitas outras coisas, mas isso não importava agora.
– Morgan?!
Olhei para porta e senti um frio na barriga. Era Megan. A cena entre Zophiel e eu ali era intima de mais para quem olhava de fora. Se fosse Bethan eu poderia explicar bem, mas Megan... Megan era mais antiquada, mais ligada aos costumes. O que ela viu agora era um escândalo.
– Megan...
– O que está acontecendo aqui? Quem é esse?... O que houve com Leon?
A cada pergunta o tom dela parecia mais surpreso. E eu mais sem graça, sem saber o que dizer a ela. Zophiel se levantou calmamente como se Megan não fosse nada. Ele se apoiou na bengala e me olhou.
– Pare de chorar. Aquele homem não os irá incomodar mais.
– Obrigada – voltei a agradecer.
Ele se virou. Escorou a bengala na mesinha ali perto, foi a Leon e o pegou por baixo dos braços o puxando em direção a cama, então o jogou sobre a cama com uma facilidade incrível e o deixou lá.
– Ele ficará bem.
Vi que Megan já olhava Zophiel encantada.
Zophiel se virou em direção a porta para ir.
– Marshall? O que faz aqui?
Leon havia acordado e estava sentado na cama olhando Zophiel.
– Eu vim visitar a Sra. Shaw, é claro. Todos vieram, não? Mas temo não ter aparecido num momento oportuno. Eu só coloquei aquele homem porta fora – Zophiel afirmou.
Eu estava tão acostumada com Zophiel sendo ele mesmo, que me esquecia que ele era mais conhecido como o queridinho do rei.
– Como? – Leon me pareceu surpreso.
– Acho que sabe muito bem como, Leon Shaw, filho de Joseph Shaw.
Leon ficou sem saber o que dizer.
– Bom, eu vou indo. Volto outro dia, em condições melhores e durante o dia – Zophiel completou.
Zophiel seguiu em direção à porta. Megan continuava lá olhando Zophiel como se ele fosse a coisa mais encantadora que ela já vira.
– Que-quem é você?
Zophiel parou na frente dela, eu imaginei, como um sorriso no rosto.
– Anthony Marshall, ao seu dispor. Mas agora eu realmente tenho de ir.
Ele contornou Megan e seguiu seu caminho, mas não sem antes me olhar outra vez.
Eu suspirei e levei a mão à testa. Meu olho ardia um pouco pelo meu choro anterior. Estava cansada como se tivesse corrido o dia todo. Então olhei para Leon.
– Se sente bem?
– Depende. Fisicamente? Estou ótimo. Psicologicamente? Estou péssimo, meu ego está altamente ferido.
– Ego não ajuda ninguém a sobreviver. Fico feliz em saber que está bem.
– Ok. Ok. Eu não estou entendendo nada. O que houve aqui? – Megan se pronunciou.
– Nada... – eu afirmei.
– Nada? Aquele não era Anthony Marshall? Sabia que estão dizendo por aí que está traindo Leon com Marshall. E agora eu o encontro aqui dentro do seu quarto com Leon desmaiado... O que quer que eu pense?
– Não importa o que eu quero que você pense, você vai pensar o que quiser independente do que eu queira. Eu sei o que houve aqui. Leon sabe, e é o que importa para mim.
– Por que não pode contar para mim?
– Porque você nunca entenderia. Melhor modo de te explicar seria... Um bandido invadiu nossa casa, pegou Leon de surpresa. Marshall chegou e afugentou o bandido – falei.
– Foi exatamente isso que aconteceu. Por que acha que me sinto um fracasso? – Leon afirmou.
Megan parecia confusa. Sem saber se acreditava no que dizíamos ou não. Depois de um tempo pensando perece que se convenceu.
– Bom... Mas que isso foi estranho foi.
– Coisas estranhas acontecem. Tem que entender isso – eu disse.
– Não gosto de coisas estranhas.
– Ninguém gosta. Mas mudando de assunto... E esse bebê nasce ou não nasce?
– Claro que nasce, mas ainda tem um tempo pela frente.
Com isso a conversa ficou mais amistosa e Leon desceu para conversar com Kyle, que se negou terminantemente a vir ao quarto. Eu imaginava o porquê. Depois de algum tempo de conversa Megan pareceu esquecer do acontecido. Falamos sobre o casamento de Bethan que seria no fim dessa semana. Megan disse que ela andava nervosa. Eu então nem sabia como iria ao casamento, mas daria um jeito.
Megan foi embora já bem tarde. Eu dormi logo em seguida. Nem vi Leon vir dormir.
O casamento de Bethan foi uma cerimônia bonita na casa de Rhys Wright. Eu fui de carruagem e passei todo casamento sentada em uma poltrona que a mãe do noivo me ofereceu. Era confortável, mas eu estava entediada. Zophiel estava lá, mas não se aproximou, só ficou me olhando de longe. Não importava quanto tempo eu passasse sem vê-lo, no instante que batia o olho nele eu sentia um frio na barriga, meu coração disparava e aquela vontade de tê-lo perto de mim me invadia. Eu já não sabia o que fazer, eu não podia mais combater aquilo.
Depois de pouco mais de uma semana o médico veio e disse que eu já podia andar poucas distâncias e sem pôr muito peso. E que se eu fizesse tudo direitinho em uma semana já estaria correndo. Bom eu esperava que ele estivesse certo.
Meu tornozelo já tinha desinchado quase totalmente e eu já andava muito bem. Já podia correr como o médico tinha dito. Mas só tinham passado três dias da última visita do médico. Mas eu não estava nem aí. Em três dias aconteceria mais uma grande festa do rei. Anúncio do noivado da princesa. Ainda não se sabia com quem, e não me importava de qualquer jeito.
E os meus planos para pegar o maldito animal? Voltaram ao zero. O casal da família Smith haviam sido mortos na noite passada. Lauren me avisou, mas já não me valia de nada. Agradeci a ajuda dela e disse que voltaria a procura-la. Ela ainda ficou um tempo comigo naquela noite, Leon tinha saído e voltou tarde naquela noite.
Hoje eu tinha acordado com vontade de sair de casa. Então decidi visitar a casa nova de Bethan. Saí de carruagem só na companhia de Ray. Não demoramos a chegar lá. Assim que bati à porta fui atendida por uma mulher de sorriso simpático.
– Olá, em que posso ajudar?
– Vim visitar minha irmã.
– Ah! É irmã da Sra. Bethan...
Era estranho ouvirem chamar minha irmãzinha de senhora.
– Sim.
– Entre, por favor. Fique à vontade vou chama-la.
A casa era boa, bem bonita, quase tão grande quanto a minha. Muito bem mobiliada com um ar bem agradável.
Bethan surgiu nas escadas com um sorriso, o sorriso aumentou quando ela me viu.
– Morgan? Que saudades de você. Achei que não viria nunca.
– Ah! Não seja dramática. Eu não estava podendo andar.
– Eu sei. Mas sente-se.
Logico que o primeiro assunto que ela puxou foi o baile. Eu perguntei a ela sobre o casamento e o semblante dela ficou triste eu não gostei nada disso.
– Bom... Rhys é meio frio. Não fala muito comigo. Não gostei nada do que ele fez comigo na primeira noite... E agora ele quer todos os dias... Mas não vem a mim para mais nada.
– Oh minha irmã, me sinto tão mal por você...
Ela então me olhou como seu fosse a pessoa mais estranha do mundo.
– Você disse que era bom! – ela acusou.
Eu a olhei com pena. Não pude evitar. A expressão dela mudou de acusação para decepção.
– Espero, com todas as minhas esperanças, que um dia você possa entender o que eu quis dizer aquele dia...
Ela ficou ainda mais triste.
– O que você quer dizer?
– Bethan, você nunca vai gostar, nunca vai se sentir confortável com tal coisa enquanto você não se entregar de verdade. Mas eu não a culpo, como poderia se me disse que teu marido não te dá a mínima atenção...
Ela suspirou.
Eu fiquei o dia todo com ela. Mas eu sempre via a mesma tristeza surgir em seu rosto em certos momentos. Não vi Rhys o dia todo.
Bem à tarde, quando eu já pensava em ir embora, estávamos na sala as duas quando Rhys entrou pela porta. Ele parou quando me viu, seu olhar era como os de todos os homens quando me viam, mas vindo dele me desagradava muito. Ela devia ser da minha idade, quase em seus dezenove anos. Era um rapaz bonito. Ele seguiu até mim.
– Sra. Shaw... Bom saber que está bem...
Ele pegou minha mão e a beijou. Eu o olhei com superioridade como se fosse bem mais velha e experiente que ele e o visse apenas como um garoto ingênuo. Ele percebeu e me pareceu se sentir desconfortável com isso. Eu voltei a me sentar. Vi que ele não deu a mínima para Bethan que estava li. Eu lancei a ele um olhar ameaçador, ele me retribuiu com uma expressão confusa.
Não se passaram nem cinco minutos da chegada de Rhys e a campainha tocou. A empregada seguiu até lá. Bethan que estava sentada de frente para porta abriu a boca como se tivesse visto a coisa mais impressionante na porta. Eu olhei para me certificar e senti um frio na barriga. Aquela cartola e bengala eram impossíveis de confundir. Zophiel estava ali. O que ele fazia ali?
– O-o q-que o senhor deseja? – a empregada perguntou.
– Gostaria de ver Rhys Wright.
– Sim... Sim, senhor.
Zophiel entrou. O sorriso que ele tinha no rosto sumiu por uns instantes quando ele me viu, mas logo ele sorria de novo, só que agora para mim. Ele veio até nós. Primeiro a mim, pegou minha mão e a beijou, mas ao contrário do que fiz com Rhys, eu quase me encolhi perante ele.
– Sra. Shaw, é muito bom saber que se encontra bem. Desculpe não ter ido visita-la outra vez.
– Não se preocupe com isso.
A única coisa que eu agradecia era por ainda conseguir falar normalmente perto dele. Parece que era um dom dele fazer as mulheres gaguejarem. Mas podia ser que eu já estava mais acostumada à presença dele que as outras. Ele foi até Bethan e beijou a mão dela. Ela o olhava ainda mais encantada que Megan.
– Q-quem é... É você?
– Anthony Marshall. Pode-me dizer onde encontrar o seu marido?
Assim que ele disse seu nome Bethan me deu uma olhada de lado, mas logo voltou a olha-lo. Ela só apontou uma porta perto da porta da cozinha e Zophiel seguiu para lá.
Quando olhei Bethan ela tinha a boca aberta e a mão sobre o coração.
– Você está bem? – eu perguntei.
Ela me olhou rapidamente.
– Aquele é o Marshall? – ela quis saber.
– Sim...
– Se estiver traindo Leon com ele eu não lhe julgo.
Eu a olhei com a boca aberta. Bethan era mesmo diferente de Megan, mesmo Zophiel sendo lindo ela nunca diria tal coisa. Mas Bethan não se importava.
– Obrigada pelo apoio, mas não estou traindo ninguém.
– Se está dizendo...
Eu ainda conversei um pouquinho, mas decidi que era melhor que eu fosse embora antes que Zophiel voltasse a passar por aqui.
– Bom... Já é tarde, eu vou indo – avisei Bethan.
– Claro. Mas volte mais vezes, agora já pode andar.
– Sim, e você pode ir lá em casa também, não é só por que tem sua casa agora que vai deixar de ir a minha.
– Não. Pode deixar que qualquer dia desse apareço lá.
Eu sorri, dei um abraço em Bethan e me virei para sair.
– Morgan?!
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