Sob as Asas

7 Capítulo 6 - Intensidade


Notas iniciais
Boa leitura!

Senti um arrepio ao ouvir aquela voz me chamar por meu nome, eu me virei. Zophiel vinha apressado.

– Sim?

– Está de saída? Vou consigo.

Eu o olhei feio. Ele estava piorando as estórias sobre nós. Em resposta ele me deu aquele sorriso cheio de sedução. Eu me segurei para não reagir aquele sorriso.

Nós dois saímos juntos pela porta. Assim que a porta se fechou ás nossas costas eu dei um tapa no ombro dele. Ele riu.

– O quê?

– O quê? Não seja irônico. E não minta para mim. Você está gostando desses boatos de que estou traindo Leon com você, não é?

– Talvez. É engraçado ver todos a olharem-me de maneira diferente, não como era antes. As mulheres olham-me como se eu fosse ainda mais desejável e a maioria dos homens como se eu fosse admirável.

– Ah! É? Enquanto isso todos me olham como se eu não fosse confiável. Como se eu fosse um abominação. Se é para toda a parte ruim cair sobre mim, que pelo menos os boatos fossem reais...

Olhei Zophiel e vi que ele tinha corado. Era a primeira que eu via Zophiel corando. Ele não tinha mais o sorriso nos lábios. Eu entrei na minha carruagem. Não me arrependia do que tinha dito. Achei que Zophiel tinha se assustado demais com o que eu disse, mas cinco segundos depois ele estava ali dentro comigo.

Ele me olhou nos olhos. Ainda tinha um pouco do rubor, mas não estava como antes.

– Tem a certeza do que disse? – ele quis saber.

– Cada palavra.

Ele se encostou e ficou pensativo. Depois de um tempo vi ele balançar a cabeça como se tentasse se livrar de algo incomodo.

Eu só fiquei olhando-o. Mas ele nada disse.

– Quer ir para casa hoje? – ele questionou depois de um tempo.

– É para lá que estou indo – afirmei.

– Tem a certeza?

Eu o olhei de olhos arregalados, então afastei a cortina para olhar pela janela, me encontrei na estrada de terra que ia a casa dele. Eu o olhei assustada.

– O quê...?

– Importa-se?

Ele me olhava indagador.

– Bom... Acho que não...

Ele sorriu.

– Acho que já sabe que temos de começar do zero.

– Sei.

– Será uma grande coisa para os boatos...

– Sei disso também. Mas acho que isso já está demorando demais. Quanto antes terminarmos melhor.

– Também penso assim. Mas ainda acho que devia rever o caminho que está a tomar.

– Sei muito bem o caminho que estou tomando.

– Anda sabendo muitas coisas, Sra. Shaw.

– Não me chame assim. E eu sei só o necessário.

Ele riu do que eu disse.

Não demorou muito e descemos em frente à casa ele. Foi aí que vi que o cocheiro era Edkiel.

– Onde está Ray?

– Em qualquer lugar que ele quiser, gastando o dinheiro que ganhou. Não vai aparecer na sua casa antes de si.

– Se está dizendo.

Nós entramos. Edkiel me olhava torto como sempre.

Zophiel subiu as escadas e logo voltou com roupas mais confortáveis e o grande livro de famílias londrinas que ele tinha.

Ele jogou o livro na mesinha que ficava no meio dos sofás e nós dois nos sentamos no belo e confortável tapete, que tinha ali, para lê-lo. Ali tinha o nome e arvore genealógica de todas as famílias nobres que hoje habitavam Londres.

Quando já era tarde da noite ouvi passos. Quando olhei para trás vi que Edkiel ali nos olhando.

– Não vai dormir, senhor?

– Quando eu terminar aqui, Edkiel. Agora pare de nos assombrar e vá dormir antes que eu o mande para lá eu mesmo.

Edkiel fez uma careta de desagrado, mas logo desapareceu.

– Tenho a leve impressão de que ele não gosta muito de mim.

– Tem razão. Mas eu já expliquei isso.

– Sim, você me disse que mente para ele.

– Não fale assim.

– Mas é a verdade.

– Eu sei. Mas prefiro não pensar nisso dessa forma.

Foi do nada que eu percebi que nós dois estávamos ali sozinhos e corei. Estávamos encostados no sofá, ele com um braço sobre o meu ombro, minhas pernas encolhidas e apoiadas na perna dele. Zophiel estava me olhando e nossos rostos perto demais. Senti meu coração disparar, o frio na barriga chegou com força total, meus pulmões pediam por mais ar. Eu fiquei extremante sensível a tudo que vinha dele. Senti as pernas dele embaixo da minha, senti o braço dele roçar meu pescoço... Senti a respiração dele acariciar a pele do meu rosto. Ele pareceu ficar ciente da mesma coisa. Fiquei olhando o nos olhos. Ele me retribuía sem desviar o olhar.

Zophiel ficou sério. Eu fiquei totalmente distraída com os olhos profundamente azuis dele até que senti sua mão em meu rosto, eu entre abri a boca e fechei os olhos para sentir seu toque. Aos poucos ele levou a mão à minha nuca. Eu senti meu corpo estremecer quando os lábios dele tocaram os meus. No mesmo instante eu abracei o pescoço dele e o beijei com desejo. Os braços dele envolveram a minha cintura e ele me puxou mais para ele, com isso me fez sentar em seu colo de frente para ele. Mas ele não parou de me beijar nem por um instante. Quando eu já estava sem ar, ele desceu os lábios para o meu pescoço beijando e passando a língua por ali. Meu corpo inteiro se arrepiou. Senti suas mãos subirem pelas minhas costas até à gola do meu vestido e começou a abri-lo. Eu apertei os cabelos dele com força. Nem eu mesma acreditava no que estava acontecendo. Era como um sonho. Eu sentia como se fosse a primeira vez que eu sentia o corpo forte de um homem junto ao meu, eu estava tão ou mais nervosa do que a estive na primeira vez de verdade. Cada toque dele me trazia sensações novas, o que eu achei que era impossível. O olhar dele me hipnotizava. Os beijos dele me extasiavam. Seu toque deixava minha pele em chamas.

Quando eu acordei, ainda no tapete da sala, estava completamente nua. Zophiel, em igual estado, estava ao meu lado. O meu vestido cobria-nos da cintura para baixo. A mesa que antes ficava a meio metro do sofá estava encostada na lareira. Havia peças de roupas por todas as partes. Eu mesma estava com a cabeça em algum pano que eu não fazia ideia do que era, não me incomodei em olhar também. Olhei pela janela e vi que o brilho do sol começava a aparecer. Mas aquilo tudo parecia tão insignificante. Eu estava tão feliz, era uma felicidade verdadeira, forte de uma maneira que nunca senti na vida. Eu fiquei ali fitando o teto aproveitando aquele momento de paz que eu nunca tinha tido igual.

Foi quando um grito de susto atravessou meus ouvidos. O grito de um homem. Eu me sentei assustada olhando em volta, Zophiel me imitou. Me deparei com um Edkiel horrorizado. Ele nos olhava com os olhos arregalados e a mão sobre a boca. Percebi que ele olhava para os meus seios e eu os cobri com os braços. Zophiel pegou uma blusa dele que estava por ali e me entregou. Eu a usei para me cobrir, mas não a vesti.

– Senhor? – a voz de Edkiel soo triste.

Triste de uma maneira que me deixou com pena.

– Se acalme, Edkiel. Precisamos de conversar. Vá para a cozinha, logo te encontro lá.

Edkiel fez o que Zophiel pediu, mas ele andava como um robô.

– Zophiel? Eu...

Zophiel levou a mão à minha nuca e me puxou me beijando. Levei a mão à cintura, que foi a parte do corpo dele que encontrei mais rápido, e retribuí. Foi um beijo rápido, mas não deixou de ser ótimo.

– Não te preocupes com o Edkiel. Vou conversar com ele e tudo ficará bem. Veste-te, para podermos comer algo.

Eu assenti. Ele se levantou. Vestiu uma calça e seguiu para cozinha atrás de Edkiel.

Eu fui um pouco mais lenta, mas logo estava toda vestida. Era difícil me vestir sozinha, por isso levei certo tempo. Assim que terminei de me vestir organizei tudo ali na sala e me sentei no sofá. Quando eu olhei pela janela e vi minha carruagem é que me lembrei de Leon. Senti um aperto no peito de culpa. Não havia arrependimento. Mas a culpa estava ali, gritando que eu tinha traído uma pessoa que confiava em mim. Levei a mão à cabeça e fiquei ali pesando tudo o que tinha acontecido. Cheguei à conclusão que tinha tudo valido a pena. Não importa o quanto eu evitasse uma hora isto ia acontecer e podia ter sido pior.

Zophiel voltou da cozinha com o café da manhã, depois de comer decidi que era melhor voltar para casa. Na porta Zophiel me abraçou e me beijou.

– Tu nunca mais vais escapar de mim agora – ele disse.

– Nem tenho vontade de tentar – respondi.

Ele sorriu e me beijou mais uma vez. Edkiel levou a carruagem até uma casinha quase em Londres. Ali Ray apareceu com uma cara de extremo cansaço e me levou para casa. Quando cheguei em casa, o sol ainda não tinha saído completamente. Entrei em casa pelos fundos que tinha como abrir por fora. Fui direto ao quarto de visitas e ali deitei. Acabei por dormir de novo.

Acordei com Leon me chamado.

– Morgan? Quando foi que você chegou? Onde você estava? Quem te disse que tem o direito de sumir assim?

Eu me sentei na cama e olhei para Leon calmamente.

– Eu não tenho, mas você tem?

Ele abriu a boca para falar, mas se calou.

– Ok. Não importa. Onde você estava? – ele finalmente falou. – E não adianta dizer que estava na casa da sua irmã, por que ontem à noite estive lá e ela me disse que você saiu antes de sol se pôr... Com Anthony Marshall.

– Leon? Por que você faz perguntas das quais já sabe a resposta?

– Eu quero ouvir de você.

– Por que faz isso? Por que pergunta coisas que não quer ouvir? Leon, deixe as coisas como estão. Se o problema é a sua imagem ainda existe a possibilidade de você me botar para fora. Será um belo teatro para você...

– Não! O problema não é esse, Morgan – ele gritou me interrompendo.

– E qual é?

– Eu estou apaixonado por você. Você entende o quanto isso doí em mim? Você entende o que está fazendo comigo?

Ele estava chorando. Eu não consegui segurar e chorei também.

– Me desculpe. Eu não posso evitar... Eu...

– Você não sabe. Você nunca sentiu o que eu estou sentindo.

– Eu nunca quis te machucar... Nunca tive intenção. É só que eu não posso evitar...

Eu chorava agora mais do que ele. Eu me levantei da cama.

– Nunca quis, mas o fez. Está tudo ferido por dentro. Não existe consolo. Eu já tentei de tudo. Você é minha ascensão e minha ruina.

Eu dei um passo em direção a ele.

– Leon?

– Fique longe de mim! – ele gritou.

Senti as lagrimas aumentarem. Mas eu não o julgava por não me querer por perto.

– Me perdoe.

– Não posso. Não quero te perdoar. Você está-me ferindo, sabe que está e mesmo assim continua.

– Mas o que eu sinto não conta? Você sabe de tudo o que acontece na minha vida. Sabe que é impossível para mim evitar.

Eu dei outro passo em direção a ele.

– Eu disse para ficar longe de mim!

Ele virou as costas e saiu batendo a porta com força.

Me joguei na cama e chorei. Chorei tudo que andava precisando. Eu não tinha o direito de fazer aquilo com ele. Mas eu não conseguia ir contra aquilo. Era impossível ir contra o que eu sentia. Mesmo daquele jeito a felicidade de finalmente estar com Zophiel não me deixou por um só segundo. Eu ia ter de fazer alguém sofrer. E agora era o momento de ser o monstro. De mostrar meu pior lado, o egoísta.

Nos dois dias seguintes foi tudo muito estranho. Leon quase não falava comigo e eu fingia que não me importava. Mas Leon se tornou meu amigo naquele tempo e vê-lo sofrer me magoava. E era pior por eu saber que eu era a culpada por aquilo. Naquela noite seria o baile do rei. Eu cheguei a perguntar a Leon se ele não queria que eu ficasse, mas ele disse que eu devia ir.

Então a noite eu estava pronta e nós seguimos para lá. Eu realmente não queria ir. Quando entramos no salão eu me senti desconfortável. Eu sempre entrava conversando e de braços dados com Leon, mas desta vez ele nem me tocou.

Assim que cheguei ao meio do salão eu rumei para uma das sacadas. Eu tinha a intenção de ficar por lá até a hora de ir, mas no meio do caminho encontrei Bethan. Eu adoro minha irmã, mas a última coisa que eu queria agora era conversar.

– Morgan? Tudo bem?

– Sim e com você? – respondi.

Eu mesma percebi que soava desanimada e magoada.

– Bem. Mas você está mentindo. Não me parece nada bem.

– Olha, Bethan. Sei que além de minha irmã você é minha amiga... Mas eu realmente não quero falar sobre isso...

– Tudo bem. Mas agora você me deixou preocupada.

– Não fiquei. Eu vou ficar bem...

– Quando? – ela quis saber.

– Não acredito que vá demorar.

– Tenho um pressentimento de que isso não vai ser bom...

– Talvez... Depende de como você vê – afirmei.

– O que você quer dizer?

– Não quero falar sobre isso.

– Ok. Vamos mudar de assunto. O que está achando da festa?

Eu não tive escolha, a não ser ficar ali conversando com Bethan. Mas nem uma hora havia passado e eu já estava louca para ir embora. Eu nada disse. Ia esperar Leon se decidir.

Eu conversava distraidamente quando vi uma mão surgir ao meu lado, empurrar Bethan, que deu dois passos para trás, ao mesmo tempo que um braço envolvia minha cintura e me puxava para trás. Naquele momento eu vi, como se fosse em câmera lenta, uma faca passar voando exatamente onde minha cabeça devia estar segundos atrás.

Senti um frio na barriga quando minhas costas colaram num peitoral forte e aquele cheiro invadiu minhas narinas... Era Zophiel, eu não tinha dúvida nenhuma. Olhei para o lado e vi Zophiel fazer um gesto quase imperceptível com a mão. Eu poderia ter deixado passar, se o homem que estava ali, segurando uma outra faca, não tivesse caído como se alguém tivesse lhe dado uma rasteira. Zophiel me soltou e foi em direção ao homem caído. Eu fiquei exatamente onde estava, paralisada, com as mãos juntas na frente da minha barriga, o meu único movimento foi olhar para onde Zophiel estava.

Assim que o homem viu Zophiel começou a tremer descontroladamente, o olhava com os olhos arregalados de medo. Ao chegar ao homem, Zophiel o pegou pelo pescoço sem dó e o levou arrastando pelo chão até a porta e o jogou para fora indo atrás em seguida. Eu o perdi de vista, mas continuei na mesma posição.

Eu poderia estar morta neste instante. Mas por que tentaram me matar? Minha respiração estava rápida, meu coração pulava com força contra meu peito. Eu continuava imóvel. Vi Leon aparecer ali perto, mas não o olhei. Bethan falava comigo, mas levei uma eternidade para entende-la.

– Morgan? Morgan? Você está bem? Está me ouvindo? Morgan!?

Ela começava a chorar por minha falta de resposta. Eu a olhei. Ela me encarou.

– Você está bem? – ela repetiu.

– Não.

Bethan praticamente pulou em mim e me abraçou.

– O que está acontecendo?

– Eu não sei, Bethan...

Então senti uma mão em meu ombro. Quando olhei para trás me deparei com os olhos azuis de meu anjo da guarda, acho que eu podia chama-lo assim.

– Estás bem? – ele perguntou.

– Não sei. O que houve aqui?

– Também não sei. Mas tu eras o alvo.

Eu passei as mãos pelo cabelo em um gesto de extremo nervosismo. Zophiel se aproximou de mim até que sua boca quase relava em minha orelha.

– Não fiques assim. Eu disse que nada de mal te iria acontecer.

Leon nos olhava como se fosse nos matar. Eu franzi o cenho para ele. Mas Zophiel só o olhou, então se adiantou e foi até ele. Parou ao lado dele e falou ao ouvido de Leon, que abriu a boca, a cada palavra mais assustado.

Notas finais
Espero que tenham gostado!