Sob as Asas
3 Capítulo 2 - Grande baile
Fui até ela e a fiz olhar para mim.
– Bethan, você é linda. Não existem belezas iguais. De um jeito ou de outro se tem beleza. E você é linda de todas as maneiras possíveis.
– Mas Leon...
– Leon é um idiota. Não dê confiança. Pode perguntar a qualquer um, você é linda.
Bethan sorriu, mas ainda não parecia totalmente convencida.
Bethan realmente era linda. Tinha cabelos castanhos e olhos verdes, os mesmos que Megan e eu tínhamos. De nós Megan era a mais magra, e Bethan a mais gordinha. E quando digo gorda, não é da maneira ruim, e sim de uma maneira linda. Eu era um meio termo agora, mas já tinha sido como Bethan. Foram meus treinos com Leon que me emagreceram e fizeram criar músculos. Eram treinos duros, ainda me lembro de como o início foi difícil para mim.
Bateram na porta.
– Sim? – respondi saindo dos meus devaneios.
– Senhora? Tenho um convite.
– Entre.
Dana entrou trazendo um grande envelope dourado.
– Aqui, senhora. Eu ia entregar ao senhor, mas ele saiu a cavalo.
– Não tem problemas, pode deixar comigo.
Dana fez uma reverencia e saiu. Eu abri o selo vermelho do rei e li. Era um convite para um baile. Aniversario da princesa; o rei estava atrás de um bom pretendente para a filha. Isso queria dizer um pretendente com dinheiro, o resto não importava.
– O que é? – Bethan quis saber.
– É um convite para o baile de aniversário da princesa.
– Hum. Eu nunca estive no palácio.
– Acho que será sua chance. Vão convidar todos os nobres da região. E você, mesmo não sendo casada, é uma nobre, é uma Palmers.
– Tomara que tenha razão.
– Eu tenho.
– Então vou para casa esperar meu convite.
– Ok. Peça a Ray que te leve para casa, na carruagem.
Ela me abraçou e saiu correndo. Eu ri dela.
Bom, a festa seria em três dias. Eu não me iria preocupar com isso agora.
Fui para o escritório, onde eu passava a maior parte do tempo pesquisando.
Peguei a chave do grande cofre, onde ficavam os livros mais importantes. e o abri. A chave ficava dependurada ao meu pescoço como um colar, junto com minha cruz alada.
Eu já tinha lido quase tudo ali. Peguei os três grandes livros que eu ainda não tinha lido, um deles por estar trancado.
Mas hoje eu tinha um forte pressentimento de que o que eu queria estava ali trancado. Olhei com atenção os outros dois livros, para ver se existia alguma citação sobre o que eu queria. O primeiro nada tinha, o segundo tinha uma pequena nota que em nada me ajudou.
Então me voltei àquele livro trancado. O livro parecia milenar, raro como se fosse único, mas hoje eu tinha de abri-lo.
Tentei de tudo, durante o resto da manhã, em vão. E foi durante o meu almoço solitário, já que Leon não apareceu, que eu tive uma ideia. Peguei uma faca de mesa feita em prata e voltei ao livro.
O que prendia o cadeado eram placas de cobre presas à capa do livro por pressão, eu só tinha que desprendê-la da capa. Eu enfiei a ponta da faca sob a placa e tentei move-la, mas nada aconteceu. Minha força não era o suficiente. Eu tentei a tarde toda, tendo algumas vezes jogado a faca longe, mas não demorava a pega-la de volta e tentar de novo.
Foi depois de todas as tentativas, e eu já estava sentada a poltrona derrotada, quando a porta se abriu e lá estava Leon.
– O que está fazendo? – ele questionou.
– Tentando abrir esse maldito livro. O que quero está aí.
– Como sabe?
– Só sei. Você sumiu o dia todo.
– Eu fui ver meus pais. Precisava espairecer um pouco.
– Está certo... Abra.
Estendi a faca a ele.
– Como?
Me levantei e fui até a mesa.
– Vê? São placas presas por pressão, se a bambear um pouco podemos desencaixar da capa e abrir.
– Vai estragar...
– Não me importa com a capa. Quero o conteúdo.
– Se está dizendo.
Até Leon teve certa dificuldade com o livro. Depois de um bom tempo ele conseguiu. Eu sorri. Fui até ele e lhe beijei os lábios. Quando me voltei para o livro, vi pelo canto de olho que Leon levou a mão aos lábios, como se meus gesto fosse de grande importância. Franzi o cenho. Mas agora minhas atenções estavam no livro intitulado “Criaturas raras”, sem autoria.
Passei dois dias analisando o grande livro até encontrar o que queria. Era uma citação pequena, mas muito melhor que a anterior. Me deu mais esperanças de conseguir chegar ao meu objetivo. Estava assim:
Anjos: são as criaturas mais belas de que se tem relato. Sua verdadeira forma nunca foi vista por humanos. Mas quando humanos, são de uma beleza inigualável, a qual não é alcançada nem pelo mais belo demônio. Anjos em sua plena atividade raramente são vistos na terra. Os que aqui se encontram são os decaídos por pecados, sendo os de maiores pecados mandados direto ao inferno. Esses que aqui se encontram não tem seus poderes completos, mas mesmo assim alguns desses podem ser mais poderosos que qualquer ser na terra existente. Eles são subdivididos em vários grupos, como querubins, arcanjos, serafins, virtudes e outros, mas pouco se sabe sobre essas divisões e seus níveis de poder.
Não era muito, mas me renovou a esperança. Eu tinha a chance de matar aquela criatura, afinal. Eu só tinha que encontrar um anjo caído, de preferência um poderoso.
Depois de achar isso me dei por satisfeita, eu já tinha encontrado tudo que podia na teoria, agora tinha de procurar na prática, entre as criaturas. Sai do escritório e fui para o meu quarto. Assim que entrei vi Leon sentado na cama fumando um charuto. Eu nada disse, fui direto tirar o vestido para me trocar
– Voltou cedo hoje – ele afirmou.
Na noite passada quando vim dormir Leon já estava apagado. Mas hoje eu não ia dormir.
– Achei o que queria.
Eu terminei de tirar o vestido e o coloquei no armário. Foi quando senti os braços de Leon envolverem minha cintura. Ele beijou meu pescoço me fazendo arrepiar. Eu podia não ser apaixonada por Leon, mas ele me fazia me sentir mulher.
– E o que procurava? – ele quis saber.
– Anjos.
Ele me virou para ele e me olhou nos olhos.
– Esqueça os anjos por enquanto e dê um pouco de atenção ao seu humano.
Eu ri do que ele disse, que deu um charmoso sorriso de lado e me beijou.
Ele levou a mão à barra do meu vestido de baixo e o puxou para tira-lo, mas eu o parei.
– Não. Vou sair.
Ele se afastou e me olhou de boca aberta, eu podia dizer que até um pouco irritado.
– O quê?
– Você me ouviu.
Não gostei do tom autoritário dele. Então me desvencilhei dos braços dele e voltei ao armário.
– Mas, Morgan, você já saiu essa semana – ele reclamou.
O tom de voz tinha mudado, era quase uma suplica agora.
– Eu sei, e preciso ir de novo.
– Está certo, com você não adianta pedir nem discutir, não é?
– Eu não sou tão má assim.
Coloquei outro vestido, mais surrado, e minha capa.
– Não, mas é um pouco.
Eu sorri do que ele disse e o olhei. Ele estava sentado na cama me olhando.
– Estou indo – avisei.
– Não pense que vou deixar passar de novo, vou estar te esperando quando voltar.
Eu balancei a cabeça.
– Está bem, Leon.
Acenei para ele e saí. Fiz o meu caminho de sempre para as partes pobres da cidade, tinha de encontrar Lauren outra vez. Ela talvez tivesse mais informações para mim. Qualquer coisa, uma pessoa que conheceu um anjo não teria saído de perto de mim, sem eu ter feito muitas perguntas. Eu ia até o barracão abandonado onde eu a encontrei, provavelmente ainda estaria lá.
Não vi nada diferente do normal daquele lugar naquela noite. A mesma sujeira e descaso de sempre, a grande culpa era nossa, dos nobres, por deixá-los na pobreza, mas o descaso que eles mesmos tinham uns com os outros era nojento.
Eu parei em frente ao barracão e foi nisso que escutei barulho lá dentro, parecia uma luta, na hora me assustei. Droga, alguém estava tentando matar Lauren. Me apressei em entrar. Quando meus olhos se acostumaram com a escuridão do barracão eu reconheci Lauren, que fugia de um homem, Garret Flint. Maldito! Eu tinha dito a ele. Lauren me parecia exausta e então caiu em um canto. Flint tirou um estaca de madeira de dentro da capa, ao mesmo tempo que eu tirava uma faca da minha. Ele atirou a estaca em direção a Lauren, eu respirei fundo e torci para a sorte estar ao meu lado hoje e atirei a faca para interceptar a estaca, felizmente consegui o que queria. Tinha treinado para fazer esse tipo de coisa durante um ano, e não era ruim. A estaca caiu no chão perto da parede e minha faca parou fincada na parede. Os dois rapidamente se viraram para mim.
– Morgan! – Lauren falou aliviada – Ele é...
– Um caçador – completei. E segui em direção a ele. – Maldito! Eu disse que não era para interferir nas minhas coisas. E vem logo tentar matar a vampira do qual te avisei!
– Como eu poderia saber?! – ele perguntou meio irritado.
– Você é um caçador ou não? Se quisesse mesmo saber conseguiria.
– Senhorita?... – ele começou.
– Senhora.
– O quê? – ele ficou sem entender.
– Me chame de senhora.
Ele franziu o cenho.
– Me perdoe – ele pediu.
– Um descaso da sua parte, se o que queria era nossa união. Confio mais na vampira que em você agora.
– Mas...
Eu levantei a mão para ele, que para meu espanto se calou. Eu fui até Lauren que continuava no mesmo lugar.
– Você está bem? – questionei.
– Sim, estou. Você conhece esse cara?
– Infelizmente sim. O conheci ontem depois que saí daqui. O avisei sobre você, mas ele parece não se importar...
– Eu me importo. Já pedi que me perdoe. Eu a encontrei matando uma mulher, perdi a cabeça. Não vai acontecer de novo. Agora sei quem ela é – ele falou se aproximando lentamente.
– Vá embora, Lauren. Antes de voltar aqui de uma boa olhada, eu me viro com ele. Qualquer coisa me procure.
Ela assentiu e logo em seguida se levantou e saiu o mais rápido que conseguiu.
– Me desculpe, ok? Eu não penso realmente quando encontro um deles atacando – ele se desculpou outra vez.
– Tudo bem. Pare de pedir desculpas. Já entendi com você funciona. Eu sei que você salvou minha vida, mas como posso confiar em alguém que não tem controle sobre si mesmo.
– Eu tenho controle...
– Eu vi mesmo...
– Nunca matei um humano.
– Mas isto vai além, Flint. Preciso de alguém que saiba quem matar, e não que mate tudo o que não seja humano e cruze seu caminho...
– Eu posso fazer isso – ele afirmou.
– Pode mesmo?
– Posso. Eu podia não ter tentado matá-la, eu só não me lembrei do que você me disse ontem quando a encontrei. Eu não estava tão desesperado para matá-la, tanto que não tentei mais depois que você me impediu. O que eu teria feito, se eu fosse tão obcecado quanto você diz.
– Ótimo. Porque se por acaso você não sabe, vamos precisar de uma dessas criaturas para matar o que perseguimos.
Ele me olhou surpreso e irritado.
– E já não temos a vampira? – ele questionou.
Eu ri.
– Esse tipo de criatura correria para os seus braços em busca de abrigo por medo do que caçamos, falo de criatura que você nunca caçou e nunca mataria – contei.
– Está falando do quê?
– Anjos, meu caro. De preferência um que ainda tenha algum poder.
Ele me olhou com a boca aberta e o cenho franzido.
– E onde pretende encontrar um anjo? Eu nunca vi um em toda minha vida.
– Por isso eu disse que vamos precisar. Se eu tivesse um não estaria aqui agora. Mas tem de haver um na Inglaterra, não é? Mesmo que não seja em Londres.
– Esse seu jeito de falar quer dizer que já estamos juntos nisso? – ele quis saber.
– Mais ou menos. Eu ainda não me esqueci do que acabou de fazer. Era com ela que eu ia falar sobre o anjo...
– E o que ela saberia sobre um anjo?
– Não a esnobe, bonitão. Pelo que sei, ela é a única de nós que viveu mais de quinhentos e já esteve em varias partes da Europa, tendo a chance de estar pessoalmente com um anjo, coisa que você mesmo disse que não teve. Foi ela que me disse que as nossas chances seriam maiores com um anjo. Acredito que você não sabia disso, não é? Então me deixe fazer as coisas do meu jeito que eu pareço estar conseguindo mais que você, não é mesmo bonitão?
Ele ficou sério.
– Está certo, madame.
– E não me chame assim!
– E chamo como?
– Sra. Shaw, Sra. Palmer, Morgan. Pode escolher, não é tão difícil.
Me virei e segui em direção a saída, mas antes que eu chegasse lá senti Flint segurar meu braço, me segurando, me virou e ficou na minha frente me empurrando em direção a parede lateral, chutou a porta do barracão que fechou com um barulho alto e fez poeira cair. Eu fiquei com as costas presas a parede de madeira enquanto ele segurava meus braços. Flint tirou o chapéu que usava e o jogou em direção a porá onde ele parou em cima das duas travas da porta. Então se virou para mim, soltando um dos meus braços para usar a mão para tirar o cabelo do rosto. Eu tinha praticamente perdido voz com a surpresa e a rapidez do que ele fez.
– O que está fazendo? – perguntei finalmente.
Ele sorriu.
– Olha, eu gosto do seu jeito, sabe? Você é corajosa e tem objetivo. Gosto disso. Vai ser bem interessante sermos parceiros nisso, e você parece bem inteligente também, atenta. Acho que chagaremos onde queremos. Mas... Eu não viajei por dias para chegar a Londres e ser tratado como moleque por uma dona de casa mais nova do que eu. Então entenda uma coisa. Eu não vou tocar na vampira, já entendi que ela é valiosa, mas não atrapalhe minhas caçadas, estamos entendidos? Da próxima vez eu não vou só terminar minha caçado como você vai aparecer na porta de casa sem saber como foi que isso aconteceu. Eu não estou aqui para brincar. Estamos entendidos?
Eu estava séria agora. Estava quase com raiva, queria começar a chuta-lo, mas eu bem sabia que isso só ia resultar no pior para mim, então escutei quieta, como ele bem disse eu era mais esperta do que isso.
– Estamos – falei de mal gosto.
Nisso Flint levou a mão ao meu capuz, que eu odiava tirar nessa região, e o puxou para trás deixando o cair, revelando meu rosto irritado. Ele tinha um sorriso no rosto.
– Mesmo tão brava continua a mulher mais linda que já vi na vida. Como tem olhos lindos.
Uma de seus mãos foi ao meu rosto e ele acariciou meu lábio com o polegar. Foi quando percebi que ele se aproximar para me beijar, meu coração disparou, e eu senti um frio na barriga, por algum motivo eu também queria beijar aquele atrevido. Mas não faria. Levantei minha mão livre e dei um soco nele com a maior força que eu tinha. Flint me soltou e saiu com a mão no rosto.
– O que pensa que estava fazendo? – perguntei.
– Nada. Eu só tinha que tentar.
Eu bufei indignada.
– Vou pra casa.
– Eu vou com você... – ele falou.
– Prefiro que fiquei longe de mim.
– Eu não vou te atacar.
Ele me seguia e eu me virei para encara-lo.
– E o que você acabou de fazer?
– Eu disse que tinha que tentar. E tentei. Não seu certo, não farei de nova. Já falei para parar de tratar como moleque – ele falou sério.
– Está bem. Que não se repita.
Eu segui na frente, mas ele logo me alcançou e seguiu ao meu lado. Não conversamos muito pelo caminho, ele me deixou no mesmo lugar desta vez sem mais galanteios, ele já tinha passado dá cota essas noite. Só me desejou boa noite e se foi. Eu entrei e fui direto a cozinha beber agua, parecia que eu tinha ficado dois dias sem agua. Depois de beber bastante agua foi para quarto. Leon estava na cama todo jogado, devia ter dormido tentando me esperar. Eu fui trocar de roupa, tirei a capa e vestido e guardei, em seguida coloquei minha camisola. Quando eu ia me virar Leon estava ali me olhando.
– Demorou.
– Desculpe. Tive alguns problemas, mas nada grave.
– Tudo bem... Se nada aconteceu.
Leon me abraçou pela cintura e me beijou. Senti as mãos dele deslizarem pelo meu corpo, até a barra da minha camisola e ele a tirou e me empurrou em direção a cama...
Quando acordei naquela manhã ainda estava nua, porém sozinha. Me levantei, me vesti e desci para o saguão. Vi que tinha alguém lá. Quando olhei direito percebi que era Bethan.
– Você acorda tarde – Bethan acusou.
Ela me olhava sugestivamente. Eu sabia o que ela queria dizer e não podia dizer que ela estava errada. Não hoje, pelo menos. Eu sorri sem negar e Bethan me olhou como se não acreditasse que eu tinha confessado tal coisa.
– Ok. Ok. O que traz a senhorita aqui tão cedo? – eu quis saber.
– Quero ajuda com o vestido para o baile.
– Megan não podia te ajudar?
– Ah! Kyle está enchendo o saco com a gravidez. Nem queria ir ao baile, mas Megan o convenceu.
– Está bem. Quer olhar os meus?
Os olhos dela até brilharam.
– Sim...
– Então fiquei a vontade.
– Qualquer um?
– Qualquer um.
Bethan correu escada acima para o meu quarto. Eu a segui, só que mais devagar. Quando cheguei lá, ela já estava mexendo em meu guarda roupa. Eu fiquei observando-a.
Leon entrou pela porta com uma grande caixa e veio a mim.
– Tome o vestido para ir ao baile hoje. E da próxima vez lembre-se de me avisar da ocasião.
Ele colocou a caixa sobre a cama.
– Me desculpe, andei meio distraída.
– Eu sei, sem problemas. Vou ao centro da cidade, não demoro.
Eu assenti. Ele se aproximou e me beijou, ele foi aprofundando o beijo, mas eu o afastei. Ele me olhou de cenho franzido. Eu só fiz um pequeno gesto para indicar Bethan. Leon olhou e então me soltou, se afastando de olhos arregalados.
– Ah! Bethan! Está aí. Desculpe, não tinha lhe visto... Eu...
– Vá logo – eu disse.
Ele assentiu sem jeito e saiu.
Beijar na frente de outras pessoas era uma abominação. Eu mesma nunca tinha visto ninguém se beijando. E eu acabara de fazer isso na frente da minha irmã. Não que eu achasse isso horrível, mas talvez ela achasse. Apesar de parecer bem mais nova, era só um ano mais nova que eu, já tinha opinião formada sobre a maioria das coisas.
Eu a olhei. Ela ainda me olhava de olhos arregalados.
– Bethan, eu agradeceria se não contasse que viu isso a Megan.
– Nenhuma palavra. Isso foi... Estranho!
– Desculpe – pedi.
– Nada. Foi um acidente.
Eu sorri para ela
Bethan olhou cada vestido e foi separando os que achou mais bonitos, colocando-os sobre a cama. Depois de olhar todos ela se voltou aos que separou. Foi aí que ela viu a caixa com o vestido que Leon havia trazido. Ela virou sua atenção para a caixa, indo até lá a abrindo. Dentro havia um vestido vermelho com detalhes em prata.
– Mas é magnífico! – Bethan exclamou.
Eu ri.
– Realmente, esse é lindo.
– Leon sempre te dá vestidos novos nos dias de festa?
– Não em todas. Mas na maioria. Não pode existir a possibilidade de que eu repita um vestido que o rei já tenha visto.
– Ah! Entendo. Eu também quero ganhar um vestido por festa.
Depois de uma manhã de escolhas, Bethan se decidiu por um vestido azul com detalhes em dourado. Ela passou o dia ali comigo.
À tarde nos arrumamos e entramos os três – Leon, Bethan e eu – na carruagem e seguimos para o palácio.
O palácio estava todo iluminado e enfeitado. Muitas carruagens chegavam ao local, onde um homem recepcionava a todos. Nós entramos na fila, não demoramos muito a chegar à entrada. O homem que estava ali abriu a porta e nós descemos seguindo para o palácio.
– Deus! A Inglaterra inteira está aqui!
Leon parecia impressionado, na verdade todos estavam. Nunca se ouvira falar de uma festa em tal dimensão.
Assim que chegamos a porta, tinham mais de três homens lá, confirmando os convidados em uma grande lista.
– Nomes? – um deles perguntou.
– Sr e Sra. Shaw e Srta Palmers – Leon anunciou.
Eles logo acharam nossos nomes e nos deixaram entrar.
O grande salão estava praticamente indescritível de tão impressionante. Uma pequena orquestra ao fundo embalava as pessoas que dançavam bem em frente ao pequeno palco. Em volta, mesas com comidas em quantidades impressionantes. Todas as janelas e porta, para as sacadas, estavam abertas. Muita gente já estava ali conversando, comendo, dançando... Era um ambiente bem diferente de tudo o que conhecíamos. Magnífico, era como eu podia descrever tudo aquilo.
– Isto lhe cativa minha senhora? – Leon me perguntou.
– Sim. Isto me cativa.
Ele sorriu, pegou minha mão e nós descemos o pequeno lance de escadas até ao meio das pessoas.
Não foram nem dez minutos para que eu já tivesse perdido tanto Leon quanto Bethan de vista, Leon porque os outros homens já o tinham pego em suas conversas e Bethan se impressionava fácilmente e devia ter se distraído em algum canto. Andei pela festa até que dei com as mulheres dos homens com os quais Leon estava e, bom, eu tinha um papel a cumprir. Fiquei ali conversando com elas. Passou-se muito tempo. A princesa foi apresentada a todos. Uma garota estranha e metida, para a qual não deram muita atenção. Eu era uma das que não deu atenção, nada na família real me agradava na verdade, eu não tinha nada contra a garota, mas não tinha que fingir que ligava também. Os interessados eram os que tinham na família um possível candidato a noivo, o que não era o meu caso.
Continuei ali por um tempo.
– Conceder-me-ia a honra desta dança?
Percebi que a voz não era de Leon, a voz de Leon não era tão agradável e atrativa como esta, nem o modo de falar, então logo deduzi que não era comigo. Mas, quando olhei para ver o dono da voz, vi o homem mais lindo que já tinha visto na vida, estendendo a mão para mim. Ele tinha cabelos loiros e curtos, bem penteados, barba de igual cor rente ao rosto, bem conservada, os olhos pequenos de um azul que eu nunca tinha visto, os lábios bonitos, em um sorriso que me deixou hipnotizada; em uma mão segurava uma cartola e uma bela bengala de madeira negra com um cristal na ponta, a outra ele continuava a me estender. Eu meio que automaticamente dei a minha mão a ele. Ele fechou a mão forte e segura sobre a minha e me puxou. Colocou a cartola de volta à cabeça, e a mão na minha cintura ainda segurando a bengala, e eu coloquei a minha em seu braço perto do ombro, pois não alcançava o ombro, muito largo, dele.
Eu me perdi nos olhos lindamente azuis daquele homem. Sentia um frio na barriga e uma insegurança que nunca tinha sentido na vida. Ele me encantava como nunca me encantei por ninguém. Eu nunca tinha visto olhos tão profundos e cheios de mistérios, eles pareciam esconder coisas que eu nunca poderia descobrir, e isso me fazia querer saber sobre tudo. O sorriso nos lábios dele me fazia sorrir com ele.
Ele me guiava pelo salão como se flutuássemos, eu nunca tinha conseguido dançar tão bem. A única coisa que eu conseguia ver era o homem à minha frente. Foi depois de algum tempo que eu voltei a mim e percebi que aquele homem não podia ser humano, humanos não tinham tal beleza. Era um demônio, o demônio mais bonito que eu já tinha visto, mas um demônio; além de tudo ele também tinha o poder da sedução. Eu o fiquei encarando tentando ver outras características de um demônio.
– Quem é você? – eu quis saber.
– Anthony Marshall, ao seu dispor. E a senhorita?
Senhorita? Marshall? Marshall era o homem mais próximo do rei, seu súdito mais querido. Pelo que eu sabia era viúvo há anos.
– Senhora Morgan Alisha Palmers Shaw – respondi a ele.
– Ah! Mulher de Leon Shaw. Acaba de destruir as minhas esperanças.
Eu senti um frio na barriga com o que ele disse. Não o respondi. Mas continuei a encara-lo.
– O que foi? – ele me perguntou.
Me dando mais um dose daquela voz irresistível.
– Nada. É só que percebi que você não é humano.
Ele levantou uma sobrancelha, mas não como quem achasse que eu era louca, e sim como quem tentasse entender como eu sabia disso.
– Por que diz isso?
– Porque eu sei que você é bonito demais para ser um.
– E o que sou eu, então?
– Um demônio, talvez.
Ele sorriu.
– Não. Se eu fosse um demônio não me aproximaria de si.
Ele soltou minha mão por um breve momento e apontou o crucifixo alado que eu sempre tinha dependurado no pescoço. Ele estava certo, eu não tinha me lembrado disso.
– Tem razão. Mas então o que você é?
– Nada, sou somente um simples humano.
Não. Isso ele não era de modo algum. Mas parecia determinado a não me contar.
Assim que a música acabou eu me soltei do homem e me virei entrando entre as pessoas indo em direção a uma daquelas sacadas. Meu coração estava descompassado. Se aquele homem não era um demônio, era o que?
Cheguei à sacada e fiquei ali olhando as luzes da conhecida cidade de Londres. Foi quando uma mulher se postou ao meu lado. Eu a olhei e a reconheci na hora. Lauren Barners, a vampira que conheci no subúrbio de Londres.
– Senhora Shaw – ela disse.
– Senhora Barners – eu retribuí.
– Senhorita... Não tive tempo de me casar.
– Senhorita, então. Tem alguma notícia?
– Sim. A criatura é vista com frequência nos vilarejos mais próximos de Londres. Mata pessoas aleatórias como se quisesse só se alimentar. Mas... Ouvi uma notícia de que um casal nobre foi morto há uma semana numa fazenda não muito longe daqui. Circunstância estranhas, atacados por um animal selvagem terrível dentro de seus quartos enquanto dormiam. Parece que o filho deles viu tudo. Um rapaz de dezoito anos.
– Sabe o nome da fazenda?
– Black Roses se não me engano.
– Black Roses... Hmmm... Qual é a família que lá vivia?
– Os Turners – ela me respondeu.
– Sim, isso. O filho é Ethan Turner. Agora me lembro. Tem a minha idade, mas não se casou ainda. Vou ter que chama-lo para uma conversa.
– Ele persiste em ficar na fazenda. Diz que se o animal voltar vai mata-lo.
Eu sorri.
– É, com certeza o animal vai mata-lo.
Lauren riu do que eu disse.
– Esses riquinhos acham que podem tudo. Mas quase morrem de medo quando dão de cara com um de nós – ela comentou.
– A maioria é assim.
– Realmente, é...
Lauren arregalou os olhos e olhou para frente como se temesse olhar para traz. Ela paralisou por um instante. Então sumiu de repente. Eu franzi o cenho sem entender que havia causado tal medo.
– Tem umas companhias estranhas, Sra. Shaw.
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