Sob as Asas
4 Capitulo 3 - Desejos
Notas iniciais
Eu me virei e lá estava Anthony Marshall. O que era esse cara? Ele assustou demais uma vampira para ser um simples humano.
– Talvez. Talvez você seja a pior delas.
– Por que diz isso?
– Porque para você tê-la assustado dessa maneira, deve ser algo no mínimo mais poderoso do que ela.
Ele sorriu.
– Acho que insistir em como sou um humano não mais a irá convencer. Conhece demasiadas coisas.
– Nunca me convenceu. Para mim será um demônio até que me prove o contrário.
– Já lhe disse que um demônio não se aproximaria de si com isso no pescoço. Na verdade, existe um que sim, mas ele não está por aqui. Nunca esteve.
– Do que está falando?
– De Lúcifer, minha querida. De Lúcifer, aquele que traz luz, sem assim preferir. O mais famoso dos anjos decaídos. O que hoje governa o inferno.
– O que o fez citar tal criatura?
– Não o chame assim. Ele é um anjo, mesmo que a maioria tente negar isso.
– Anjos também são criaturas.
Ele voltou a sorrir.
– Sim, eles são. Mas não gostam de serem chamados assim.
– E como você pode saber de tal coisa?
Quando foi que o assunto aqui se tornou anjos? Eu estava em busca de um, mas ele não sabia disso.
– Eu sei bem o que sinto quando me chamam assim.
– Te chamam...? Você está dizendo que...
Ele seria um anjo? Não pode ser. Seria coincidência demais. Eu nunca imaginei que encontraria um tão fácil, ou melhor seria encontrada por um. Mas isso não significa que ele me ajudaria de qualquer modo.
– Zophiel, o espião de Deus. Pelo menos era assim que eu era conhecido no céu.
Ele me fez uma reverencia ao se apresentar.
– Você é um anjo!
Era impossível para mim esconder a surpresa de estar a presença de tal ser.
Ele veio até o muro que cercava a sacada e se apoiou nele.
– Na verdade, eu fui um anjo. Hoje sou só um humano com poderes sobrenaturais.
– Por que está aqui?
– Fui banido do céu. Banido pelo próprio arcanjo Zadkiel, o que está ao lado de Deus. Banido por me apaixonar por uma humana. Quando descobriram a minha relação com ela baniram-me; quando descobriram que eu fui viver com ela, levaram-na.
Eu o olhava, horrorizada. Isso era de uma crueldade imensa. Era difícil de imaginar anjos fazendo isso, aqui se tem uma imagem tão boa deles.
– Eles a mataram?
– Exatamente. E eu nem sei para onde a sua alma foi. Foi uma tortura no início, mas agora acho que me tornei humano demais. Já não sinto tanto a falta dela. Ainda a amo, nunca deixarei de amar, mas já posso amar outra pessoa.
– Eu sinto muito.
– Eu também. Mas não se incomode com isso. Não é coisa para se preocupar, minha querida.
Ele me estendeu a mão. Eu o olhei sem entender. Ele assentiu. Eu levei a mão a dele. No instante em que sua mão se fechou em volta da minha eu senti uma paz sem tamanho me tomar. Era como se nada mais importasse. Como se tudo aquilo que fazemos todos os dias para nos saciar não fosse mais necessário. Eu poderia viver feliz sem regalo nenhum. Era bom demais sentir aquilo. Não havia mais preocupações. Não havia mais nada que pudesse me abalar. Eu o encarei de boca aberta. Ele sorriu docemente para mim. Então ele me soltou e grande parte daquilo se foi, mas não tudo.
– É assim que sente?
– Não. É assim que eu me sentia. Hoje sou igual a vocês. Sinto desejo ao tiver com qualquer homem sensato nesse lugar. Mas ainda posso dar isso às pessoas que o desejam.
– Pode fazer com que uma pessoa se sinta assim o tempo todo? – eu me impressionei.
– Sim. Basta ela desejar. Mas você não deseja. Precisa dos seus desejos e vontades, se não tudo se tornaria demasiado estranho.
– Acho que tem razão.
Do nada eu senti que estava sendo observada. Quando olhei para traz vi Leon ali nos observando. Pelo jeito que ele olhava estava ali há muito tempo. Ele devia ter visto Zophiel segurando minha mão. Eu ia até ele, para falar com ele, mas ele se virou e sumiu entre as pessoas.
– Droga! – eu xinguei.
– Desculpe – Zophiel pediu.
– Você não tem culpa de nada. Leon anda estranho ultimamente, esses dias quase bateu no meu cunhado por minha causa.
Zophiel sorria como se soubesse mais do que eu.
– Já reparou que ele está apaixonado por você.
– Ele... Mas...
– É seu marido. Convive consigo todos os dias. E a senhora é linda e é um amor de pessoa. Não me impressionaria se ele estivesse apaixonado.
– Mas eu não estou...
– Nem sempre este tipo de coisa é como queríamos que fosse.
– Eu... Eu tenho que ir.
– Adeus, Sra. Shaw.
Aquele nome me soou estranho como se não fosse feito para mim.
– Adeus, Sr. Marshall.
Eu corri pela festa atrás de Leon. Mas não o encontrei em lugar nenhum. Depois de algum tempo perdi a paciência, peguei Bethan e fui embora para casa. Lá ele teria de aparecer uma hora. Bethan ficou por entender, mas eu nada disse a ela. Cheguei em casa e fui direto ao quarto. Me sentei na cama e fiquei esperando Leon aparecer.
Ele apareceu já era quase dia. Com sinais de embriaguez. Aquilo me deu uma raiva imensa. Eu o encarei por um tempo, ele também me encarava bravo. Eu me levantei da cama passei ao lado dele e saí do quarto. Indo dormir no quarto de visita ao lado.
Acordei já bem tarde sem me importar com nada. Não queria nem saber como ou onde Leon estava. Desci para tomar meu café já era quase ora do almoço. Provavelmente o dia em que acordei mais tarde. Comi e voltei ao escritório. Li mais uma boa parte do livro sem parar para nada. Mas não havia mais nada sobre anjos no livro. Quando finalmente saí dali já era noite. Andei pela casa e percebi que todos já deviam estar dormindo. Fui a cozinha comi de novo e fui me deitar segui direto para o meu quarto. Quando entrei lá encontrei Leon debruçado a janela só usando uma calça. Não usava camisa nem sapatos. Ele se virou para mim assim que eu entrei pela porta.
– Te procurei o dia todo. Onde estava? – ele quis saber.
– Adivinha...
– Não...
– Eu estava no escritório. Estive lá o dia todo – eu o cortei.
Ele se aproximou.
– Morgan, eu só queria pedir desculpas pelo meu comportamento ontem. Eu não sei o que me deu.
– Eu sei. Estava com ciúme.
– Ciúme? Bobagem.
– Leon?
Ele me olhou sem entender.
– O que?
– Você está apaixonado por mim?
Ele arregalou os olhos e engoliu em seco.
– Eu...
– Não! Você não pode.
– Não? É uma coisa tão abominável eu estar apaixonado pela minha esposa.
– Abominável? Eu nunca disse essa palavra. E não, isso não é ruim, ruim é sua esposa não lhe retribuir isso.
Leon se aproximou de mim e me abraçou pela cintura. Eu não senti o desejo que isso costumava me fazer sentir.
– Não importa. Desde que você esteja aqui. Desde que você seja minha
Ele me beijou, mas o beijo dele não me cativou, eu não tinha vontade nenhuma de ir para cama com ele e aquilo nunca tinha acontecido. Eu o afastei e ele me olhou como se eu tivesse lhe dado um tapa.
– O que...?
– Desculpe, mas eu não tenho vontade.
Eu dei as costas a ele. Eu nunca tinha me negado a ele. Quando eu já estava trocada e deitada para dormir Leon continuava no mesmo lugar olhando para o nada com os olhos cheios de tristeza. Eu não queria vê-lo daquele jeito, mas eu não me forçaria a nada. Me virei para o outro lado, demorei a dormir, mas nem nesse tempo ele se deitou. Quando acordei ele não estava ali.
Eu me levantei já com uma coisa em mente. Eu vesti um vestido que eu havia mandado fazer especialmente para que eu pudesse andar a cavalo. Coloquei a capa e desci as escadas correndo. Fui até Ray, nosso cocheiro e pedi a ele um cavalo.
– Cavalo. Mas vai chover logo. Devia ir de carruagem.
– Faça o que eu digo!
– Sim, senhora.
Ele saiu resmungando mais logo voltou com um cavalo.
Eu o montei imediatamente e saí.
– Aonde a senhora vai?! – Ray perguntou.
Eu nem olhei para traz. Peguei o rumo do lugar onde eu queria ir. E galopei pelas partes de Londres e logo cheguei a estrada de terra. Depois de algumas horas cavalgando forte eu vi a fazenda onde eu queria ir.
Cheguei a duvidar do tempo que levei para chegar ali, pois parecia que a noite estava chegando. Mas quando olhei para o céu eu vi que eram as nuvens que estavam muito negras. Faltava menos de um quilometro para que eu chegasse à fazenda, mas a chuva resolveu me pegar por ali mesmo. Quando eu cheguei à entrada da fazenda eu estava completamente encharcada. Desci do cavalo, o amarando no portão e terminei de chegar à porta. Bati com força, para ser ouvido através do toda aquela chuva, com seus relâmpagos e trovões.
Demorou menos do que imaginei, para que a porta se abrisse. Lá estava um homem bem apessoado, com um rabo de cavalo marrom amarado a nuca. Usava roupas impecáveis.
– Senhora? O que faz nesse temporal. Entre.
Eu entrei chegando a um imenso saguão simplesmente magnífico.
– Obrigada.
– O que traz a senhora aqui?
– Estou a procura de Anthony Marshall.
– Ah! Claro. Vou chama-lo me aguarde aqui um instante.
O rapaz saiu em direção a uma porta que ficava sob a escada.
– O que é que o Zophiel andou a aprontar... – O rapaz andava resmungando.
Não demorou muito e ele voltou acompanhado de Zophiel.
– Sra. Shaw? O que a traz aqui? – Zophiel perguntou.
– Eu...
Olhei para o mordomo como se dissesse que não queria que ele ouvisse.
– Claro. Edkiel, volte aos seus afazeres.
O rapaz fez um reverencia, irritado, e saiu em direção oposta à que tinha ido buscar Zophiel.
– Ele é...? – Eu comecei indicando Edkiel.
– É um virtude decaído, extremamente irritante.
– Virtude?
– É uma subdivisão dos anjos, na verdade anjo também é uma subdivisão. Mas virtude são os anjos que fazem os milagres, são responsáveis pelo fortalecimento da fé na terra. Mas Edkiel acabou decaindo, na verdade por minha causa, ele decaiu depois que descobriram que ele sabia que eu tinha me envolvido com humanos e não contou a ninguém.
– Hum. Acho que entendi.
– O que deseja, na verdade?
– Bom, eu tinha de vir conversar com você. Tem uma coisa muito estranha acontecendo comigo.
– O quê?
Eu corei só de pensar em contar a ele.
– Bom... Eu não sinto mais desejo pelo meu marido. Isso me assustou, pois nunca tinha acontecido antes.
Ele fez cara de culpa.
– Céus! Eu exagerei.
– Com o quê?
– Com o que fiz consigo na festa. Eu só queria oferecer-lhe um pouco de paz, mas parece que esse pouco foi demais.
– Pode desfazer? – eu quis saber.
– Claro! Mas isso não vai ser nada agradável.
– Não me importo.
– Claro que não. Será desagradável para mim.
– Se não quiser tudo bem...
– Não. Não, está tudo bem. Você não pode continuar assim. Eu vou fazê-lo.
– Obrigada.
Ele se aproximou muito de mim de uma maneira que me deixou desconfortável. Eu vi que os lábios dele vinham em direção aos meus.
– Não! Senhor Zophiel. Não faça isso.
Vi o olhar de Zophiel ficar irritado. Ele levantou a mão esquerda com a palma em direção ao virtude que vinha correndo em nossa direção. O virtude parou no mesmo instante que viu o que Zophiel tinha feito. Então como se algo tivesse agarrado Edkiel ele voltou em direção a porta como se fosse arrastado.
– Não, senhor! Essa mulher será sua perdição definitiva...
Ele passou pela porta, que bateu com violência silenciando os gritos do virtude.
Eu me virei para Zophiel o olhando assustada.
– O que você fez?
– Eu só o tranquei na cozinha.
– Ele disse que eu serei sua perdição.
– Edkiel ainda acredita na minha volta ao céu. Isso não acontecerá. Eu já estou perdido.
– Por que está perdido?
– Só voltam ao céu aqueles de pecados menores, que nunca provaram do pecado original. Edkiel ainda acredita que não o provei.
– Você já...
– Acho que eu lhe contei que meu pecado foi amar, minha querida. Assim que me baniram pelo amor, a primeira coisa que eu fiz foi me casar com ela. Eu vivi com ela seis meses antes deles me tirarem-na.
– Você é poderoso – eu afirmei.
Ele sorriu.
– Eu só consegui manter alguns de meus poderes. Nem todos conseguem isso. Mas agora é hora de eu concertar o meu erro. Aliás, não conte ao Edkiel sobre eu ter provado do pecado original. Deixe o pobre achar que ainda tenho salvação. Ele viverá mais feliz assim.
– Claro.
Zophiel voltou a se aproximar de mim. Ele colocou as mãos ao lado do meu rosto e se aproximou até seus lábios tocarem os meus, fui como um beijo, ainda mais profundo que aquele primeiro selinho que Leon me deu.
De início eu só senti um frio na barriga por causa do beijo. Mas alguns segundos depois eu senti que o desejo ia consumindo meu corpo. Meu coração disparou e meus pulmões pediam por mais ar. Eu nunca tinha sentido tanto desejo na vida, eu queria sentir o corpo daquele anjo colado ao meu, só pele com pele. Eu já não resistia, eu ia levar a mão a nuca dele e beija-lo de verdade quando ele se afastou.
Eu estava vermelha e meu coração martelava forte no meu peito. Olhei para Zophiel. Ele tinha a boca entreaberta e a respiração forte, as mãos se contorciam como se ele estivesse evitando reagir a algo.
– Acho que isto é o suficiente.
– Você está bem? – eu perguntei.
A voz dele tinha soado calma, mas seu corpo me dizia outra coisa.
– Eu vou ficar. Eu disse que isso não seria fácil para mim.
– Você está...
– Sentindo o mesmo que você, eu acho. Mas muito mais forte.
Eu mordi o lábio. Não, ele não podia estar sentindo o mesmo que eu. Ele estava enganado.
Eu o olhei tentando ter certeza se o que ele disse era real, mas não foi uma boa ideia. Ele passou a língua nos lábios para umedecê-los e aquilo foi demais para mim. Eu queria provar a língua dele.
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