Sob as Árvores
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Cheirou a fruta redonda e amarela uma última vez antes de mordê-la, deixando o cheiro doce preencher seus pulmões. Sua boca salivava, mesmo estando morrendo de sede. Com sorte, a fruta seria bastante hidratada, para lhe saciar um pouco a vontade de beber água. Não era. E nem era tão saborosa. Não era tão doce e deixava um sabor rançoso no final da língua, mas, foda-se, era o melhor que ele tinha conseguido até agora, e, depois de devorar duas frutas em segundos, deixando os dentes cheios de fiapos amarelos e as mãos sujas do seu suco viscoso e pegajoso, decidiu se encostar na palmeira que lhe fornecera tamanho banquete, para descansar. Jogou-se contra o tronco da palmeira, exausto, como se de repente todas as forças de seus músculos houvessem sumido.
E aquela tinha sido mais uma de suas péssimas decisões.
Sentiu uma dor profunda penetrar em suas costas, como se tivessem enfiado dois milhões de agulhas ao mesmo tempo. Urrou de dor, a dor tão forte que fez sua vista embaçar. Se jogou no chão, gritando, sem saber o que estava acontecendo, e foi pior. Ao cair no chão, de costas, as agulhas pareceram adentrar ainda mais em sua pele, que agora queimava e latejava. Virou-se de lado e jogou um dos braços para trás, para sentir o que estava lhe furando. Eram espinhos, enormes, de 10 cm de comprimento cada, espetados em suas costas como se ele fosse um maldito porco-espinho. De tão afiados, rasgaram sua camisa e perfuraram sua pele. Olhou para a palmeira onde havia se encostado e percebeu horrorizado que o tronco da árvore era completamente coberto por espinhos. Onde ele se encostara não havia mais espinhos, eles se quebraram e agora estavam em suas costas, deixando na árvore um pedaço de tronco desprotegido, no exato formato de seu corpo. Ficou ali no chão deitado de lado, chorando, tentando tirar os espinhos que conseguia alcançar, mas sua mão estava trêmula, e quando puxava um espinho ele se partia na base, e a ponta permanecia enterrada na carne.
Tentou se acalmar, como Lucas fazia, respirando fundo e contando de 1 até 10. Respirou e contou, enquanto seu coração desacelerava, a dor diminuía e sua mão parava de tremer. Quando chegou em 50, sua mão já não mais tremia. Começou então a tirar os espinhos um por um, sem quebrá-los, e jogava-os ensanguentados em sua frente, contando-os. Ao puxá-los ainda doía, mas não gritava mais, apenas gemia. Tirou 40 espinhos. Naquele momento desejou um punhado de gelo. Metade para chupar, pra aliviar a sede e o calor, e metade para colocar nas costas, para aliviar a dor.
Lembrou-se de um dia em que, depois de uma briga (nem lembrava mais o motivo dela), Lucas se levantara do sofá e dera as costas para ele, indo em direção ao quarto. Você não vai dar as costas pra mim! Gritou, e foi em direção a ele, dando um soco em suas costas. Lucas caiu no chão, de bruços, colocando uma das mãos no local onde havia levado o soco. Não gritou, não chorou, não gemeu, só ficou ali deitado com a mão nas costas, fitando a parede, sem se mexer, como um inválido. Silvério contraiu os lábios e balançou a cabeça. Por que ele tinha que fazer aquilo? Deu a mão para ajudá-lo a se levantar e o guiou de volta para o sofá, deitando-o. Foi até a cozinha, colocou um punhado de cubos de gelo enrolados em um pano e sentou-se no sofá, colocando a cabeça de Lucas em seu colo, e dando o pano com gelo para ele colocar nas costas. Ficaram ali por um longo tempo, em silêncio, Silvério acariciando a cabeça de Lucas, quando Lucas finalmente disse, ao mesmo tempo em que uma lágrima descia de seu olho:
— Eu te amo.
Silvério ficou calado, refletindo. Por que ele ainda me amava? Depois de tudo o que eu fiz, ele ainda me ama? O que mais ainda tenho que fazer?
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