Naomi

Naomi sorriu ao ver Davi entrando pelos portões da casa de mãos dadas com Alicia. Ele cutucou Rudá, que estava sentado no lençol ao seu lado, na grama.

– Eu disse

– É... eu não acreditei que seria tão rápido. — ele riu junto com Naomi e os dois observaram de longe o casal. Logo Alicia e Davi localizaram os amigos dentre os vários lençois no gramado, os dois rindo por terem sido localizados.

–Oi Alicia. Oi Davi. — Rudá fez uma cara safada.·.

–Oi Rudá. Como vai você?- Davi zombou do amigo.

Eles ficaram numa conversa engraçada e insinuante, e Alicia e Naomi trocaram informações silenciosamente. Um garoto moreno de barba chamou Rudá do outro lado do quintal, e ele se levantou e foi até.

– Eu tô tão feliz por vocês dois. — Naomi disse com um gritinho.

– Eu também — Davi disse, apertando a mão de Alicia. Em situações normais, ela se assustaria com a melação de Davi. Ela o conhecia há três dias, tinham se beijado pela primeira vez há meia hora e já se comportavam como um casal. Mas tudo bem. Estava tudo bem. As coisas pareciam certas.

–Boa noite pessoal! — o garoto moreno falou do alto de uma cadeira e todos responderam em coro. — A maior parte me conhece, mas pra quem esqueceu, eu sou o Vitor, sou o sortudo do namorado da Nádia — algumas pessoas, Diana entre elas, gritaram e aplaudiram — e ela ainda não chegou, tá meio atrasada com as coisas no hospital, mas deve estar chegando já já. Eu vou contar uma música pra ela, chamada À Flor da Pele, que eu compus, e o meu parceiro Rudá e a amiga da Nádia e minha amiga também, Diana, vão me dar uma força aqui. Eu queria que vocês me apoiassem e tal, colaborassem aí. Boa festa, galera!

Ele chegou a descer da cadeira, mas alguém cochichou algo em seu ouvido e ele subiu novamente.

–E a galera da produção — ele olhou pro lado, rindo do colega que havia lhe avisado- a galera da produção pediu pra avisar que vai ter sanduíche e suco sendo servidos na varandinha. Valeu, galera, recado dado.

Passados alguns minutos, Nádia entrou pelo portão, e mesmo sabendo que a festa estava acontecendo, se surpreendeu com o número musical. Vitor estava em pé, com o violão pendurado a frente do peito, Rudá sentado no chão tocando o outro violão e Diana fazia o backing vocal. A música era mal escrita e a voz de Vítor era esganiçada, o que tornava a cena bem engraçada, mas ao mesmo tempo linda e romântica.

Vítor estava em pé, com o violão pendurado à frente do peito, Rudá estava sentado no chão com outro violão, e Diana estava ao seu lado, fazendo o backing vocal. Todos tentavam fazer silêncio, mas não conseguiam deixar de rir da voz esganiçada do garoto e da letra sem sentido da música, que terminava assim:

“E eu não ligo se a gente não combina

No final, com certeza

Você é minha sina

E essa letra criativa é única

Porque você é única e não se encaixa

Nem na mais bela faixa de som

Mas no fim, mesmo sem afinação

A gente vive no mesmo tom”

E todo mundo repetia “no mesmo tom” baixinho enquanto Nádia se jogava nos braços de Vítor, chorando.

Rudá e Diana continuaram tocando por um tempo, e logo Eduardo, um homem negro e alto com dreads até a cintura, juntou-se a eles tocando tambor. Por algum tempo, meia hora talvez, as conversas silenciaram-se. Só o som dos três e a voz de algumas pessoas acompanhando a música baixinho.

Naomi observava atentamente as pessoas ao seu redor. A casa era a última do bloco, então tinha um longo quintal que se unia ao bosque que cercava o distrito. No gramado do quintal, uma variedade de lençóis e toalhas de mesa onde sentavam as cerca de quarenta pessoas que estavam ali. A maioria delas admirava as estrelas, alguns casais cochichavam entre si e em alguns lençóis as pessoas se balançavam levemente ao som da música calma.

De repente uma menininha que devia ter por volta de seis anos saiu da casa e anunciou que os lanchinhos estavam prontos e podiam ser pegos na sala da casa. A música parou e Davi, Naomi e Alicia se entreolharam.

– Quem vai lá buscar? – Alicia perguntou, sentando-se.

–Tá longe... E aqui tá tão bom... – Davi puxou Alicia para que ela se deitasse novamente em seu ombro esquerdo, e cutucou Naomi, que estava deitada em seu obro direito. – Tá dormindo, Nai?

–Não tô mais. Deixa o Rudá voltar a gente pede pra ele... – ela murmurou sem abrir os olhos.

–Eu tô aprendendo a ler pensamento, vocês sabem, né? – Rudá falou rindo, sentando na ponta do ponta do lençol e botando a bandeja de lanches em frente de si. – Seus espaçosos! Sentem pra comer, pelo menos! Não vou dar na boca!

Davi sentou-se com um pulo, derrubando Alicia e Naomi no chão.

–Cara, não sei se eu já mencionei que eu te amo muito.

–Desculpa, Alicia. Perdeu, agora ele é meu pra sempre. – Rudá disse e Alicia mostrou a língua em resposta. – Olha, esses são de tomate seco e manjericão, esses são de patê de frango e esses últimos são de salpicão. – Ele dizia, apontando para os pequenos pãezinhos.

Davi

O silêncio se instalou enquanto eles se empanturravam, mas Alicia o quebrou.

–Gente, o que vocês querem fazer? Tipo, de profissão?

–Assunto polêmico. – Rudá disse com a boca cheia de frango.

–Eu não faço a mínima ideia. E isso é um grande problema porque eu faço quinze anos depois de amanhã e no final do mês eu e a Naomi vamos para a Casa 8 e eu não sei nem qual sanduiche eu quer comer agora, imagina minha profissão.

–Calma, Davi. Respira. – Naomi disse, passando a mão na perna dele.

–... e eu passei dois anos, dois anos!, na Casa 7, onde eu deveria aprender o que eu gosto de fazer, e adivinha? Não adiantou nada! Não adiantou naaaada!

–Davi, relaxa. Tá tudo bem. – Alicia disse, segurando os ombros dele, vendo que algumas pessoas já começavam a olhar de longe. – Eu também não faço nem ideia do que eu vou fazer da vida.

–Tá tudo bem, relaxa. Vamos mudar de assunto, vamos cantar, porque agora a festa já tá silenciosa demais. – Rudá sugeriu. Naomi cochichou algo em seu ouvido, e ele assentiu com a cabeça e saiu para buscar seu violão.