Sob a Luz do Sol
12 No mesmo tom
Naomi
Naomi sorriu ao ver Davi entrando pelos portões da casa de mãos dadas com Alicia. Ele cutucou Rudá, que estava sentado no lençol ao seu lado, na grama.
– Eu disse
– É... eu não acreditei que seria tão rápido. — ele riu junto com Naomi e os dois observaram de longe o casal. Logo Alicia e Davi localizaram os amigos dentre os vários lençois no gramado, os dois rindo por terem sido localizados.
–Oi Alicia. Oi Davi. — Rudá fez uma cara safada.·.
–Oi Rudá. Como vai você?- Davi zombou do amigo.
Eles ficaram numa conversa engraçada e insinuante, e Alicia e Naomi trocaram informações silenciosamente. Um garoto moreno de barba chamou Rudá do outro lado do quintal, e ele se levantou e foi até.
– Eu tô tão feliz por vocês dois. — Naomi disse com um gritinho.
– Eu também — Davi disse, apertando a mão de Alicia. Em situações normais, ela se assustaria com a melação de Davi. Ela o conhecia há três dias, tinham se beijado pela primeira vez há meia hora e já se comportavam como um casal. Mas tudo bem. Estava tudo bem. As coisas pareciam certas.
–Boa noite pessoal! — o garoto moreno falou do alto de uma cadeira e todos responderam em coro. — A maior parte me conhece, mas pra quem esqueceu, eu sou o Vitor, sou o sortudo do namorado da Nádia — algumas pessoas, Diana entre elas, gritaram e aplaudiram — e ela ainda não chegou, tá meio atrasada com as coisas no hospital, mas deve estar chegando já já. Eu vou contar uma música pra ela, chamada À Flor da Pele, que eu compus, e o meu parceiro Rudá e a amiga da Nádia e minha amiga também, Diana, vão me dar uma força aqui. Eu queria que vocês me apoiassem e tal, colaborassem aí. Boa festa, galera!
Ele chegou a descer da cadeira, mas alguém cochichou algo em seu ouvido e ele subiu novamente.
–E a galera da produção — ele olhou pro lado, rindo do colega que havia lhe avisado- a galera da produção pediu pra avisar que vai ter sanduíche e suco sendo servidos na varandinha. Valeu, galera, recado dado.
Passados alguns minutos, Nádia entrou pelo portão, e mesmo sabendo que a festa estava acontecendo, se surpreendeu com o número musical. Vitor estava em pé, com o violão pendurado a frente do peito, Rudá sentado no chão tocando o outro violão e Diana fazia o backing vocal. A música era mal escrita e a voz de Vítor era esganiçada, o que tornava a cena bem engraçada, mas ao mesmo tempo linda e romântica.
Vítor estava em pé, com o violão pendurado à frente do peito, Rudá estava sentado no chão com outro violão, e Diana estava ao seu lado, fazendo o backing vocal. Todos tentavam fazer silêncio, mas não conseguiam deixar de rir da voz esganiçada do garoto e da letra sem sentido da música, que terminava assim:
“E eu não ligo se a gente não combina
No final, com certeza
Você é minha sina
E essa letra criativa é única
Porque você é única e não se encaixa
Nem na mais bela faixa de som
Mas no fim, mesmo sem afinação
A gente vive no mesmo tom”
E todo mundo repetia “no mesmo tom” baixinho enquanto Nádia se jogava nos braços de Vítor, chorando.
Rudá e Diana continuaram tocando por um tempo, e logo Eduardo, um homem negro e alto com dreads até a cintura, juntou-se a eles tocando tambor. Por algum tempo, meia hora talvez, as conversas silenciaram-se. Só o som dos três e a voz de algumas pessoas acompanhando a música baixinho.
Naomi observava atentamente as pessoas ao seu redor. A casa era a última do bloco, então tinha um longo quintal que se unia ao bosque que cercava o distrito. No gramado do quintal, uma variedade de lençóis e toalhas de mesa onde sentavam as cerca de quarenta pessoas que estavam ali. A maioria delas admirava as estrelas, alguns casais cochichavam entre si e em alguns lençóis as pessoas se balançavam levemente ao som da música calma.
De repente uma menininha que devia ter por volta de seis anos saiu da casa e anunciou que os lanchinhos estavam prontos e podiam ser pegos na sala da casa. A música parou e Davi, Naomi e Alicia se entreolharam.
– Quem vai lá buscar? – Alicia perguntou, sentando-se.
–Tá longe... E aqui tá tão bom... – Davi puxou Alicia para que ela se deitasse novamente em seu ombro esquerdo, e cutucou Naomi, que estava deitada em seu obro direito. – Tá dormindo, Nai?
–Não tô mais. Deixa o Rudá voltar a gente pede pra ele... – ela murmurou sem abrir os olhos.
–Eu tô aprendendo a ler pensamento, vocês sabem, né? – Rudá falou rindo, sentando na ponta do ponta do lençol e botando a bandeja de lanches em frente de si. – Seus espaçosos! Sentem pra comer, pelo menos! Não vou dar na boca!
Davi sentou-se com um pulo, derrubando Alicia e Naomi no chão.
–Cara, não sei se eu já mencionei que eu te amo muito.
–Desculpa, Alicia. Perdeu, agora ele é meu pra sempre. – Rudá disse e Alicia mostrou a língua em resposta. – Olha, esses são de tomate seco e manjericão, esses são de patê de frango e esses últimos são de salpicão. – Ele dizia, apontando para os pequenos pãezinhos.
Davi
O silêncio se instalou enquanto eles se empanturravam, mas Alicia o quebrou.
–Gente, o que vocês querem fazer? Tipo, de profissão?
–Assunto polêmico. – Rudá disse com a boca cheia de frango.
–Eu não faço a mínima ideia. E isso é um grande problema porque eu faço quinze anos depois de amanhã e no final do mês eu e a Naomi vamos para a Casa 8 e eu não sei nem qual sanduiche eu quer comer agora, imagina minha profissão.
–Calma, Davi. Respira. – Naomi disse, passando a mão na perna dele.
–... e eu passei dois anos, dois anos!, na Casa 7, onde eu deveria aprender o que eu gosto de fazer, e adivinha? Não adiantou nada! Não adiantou naaaada!
–Davi, relaxa. Tá tudo bem. – Alicia disse, segurando os ombros dele, vendo que algumas pessoas já começavam a olhar de longe. – Eu também não faço nem ideia do que eu vou fazer da vida.
–Tá tudo bem, relaxa. Vamos mudar de assunto, vamos cantar, porque agora a festa já tá silenciosa demais. – Rudá sugeriu. Naomi cochichou algo em seu ouvido, e ele assentiu com a cabeça e saiu para buscar seu violão.
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