Sob a Luz do Sol
13 A vida tem muito mais pra oferecer
Ele voltou para o lençol e começou a cantar junto com Naomi.
Agora eu quero te dizer
Você não vai me convencer
Que não existe razão pra se viver
Que tudo isso é em vão, não tem por quê
Agora eu quero entender
Você vai ter que me explicar
O que te faz levantar toda manhã
Te faz seguir e tentar outro divã
Algumas pessoas se aproximaram do lençol deles, entre elas o homem de dreads que tocava tambor. A rodinha se abriu pra que todos coubessem.
O que te faz viver
O que te faz amar
O que te faz querer
Um dia a mais sob a luz do sol
Um dia pra tentar encontrar
O amor que traz a vida e o farol
Pra noite escura iluminar
Agora toda a festa já se reunia em volta deles, em um círculo enorme. A maioria conhecia a música e cantava à plenos pulmões. A energia era como mil pontinhos subindo pelas pernas, chegando ao rosto, iluminando o olhar.
Agora eu quero ver você
Mudar o mundo sem querer
Deixando a vida passar e sem saber
Tentando continuar em seu clichê
Agora tudo pode ser
Melhor do que se pode ver
E a liberdade está em perceber
Que a vida tem muito mais pra oferecer
A música acabou, e todos bateram palmas e logo emendaram outra música. Todos cantavam juntos, e logo começaram a dançar. Alicia sentiu novamente a energia que sentira no domingo. Rudá ainda tocava violão no centro da roda, com os olhos fixos em Naomi, que retribuía o olhar mesmo estando distante, dançando com Davi e Alicia. Alicia dançava de olhos fechados, sob o olhar terno de Davi, que puxou-a para um beijo apaixonado durante o refrão.
Ele sabia que devia estar indo rápido demais, beijando em público a garota que conhecia há dois dias. “Foda-se”, ele pensou. Não tinha outra pessoa com quem ele quisesse estar naquele momento. Aquela menina era a menina. Era especial, não era alguém que ele tivesse vergonha de andar junto, como algumas outras meninas já haviam sido. Ela era parte dele, e ela tinha uma parte dele.
“Eu te amo”, ele pensou. “É loucura, mas eu te amo. Não faz o menor sentido, mas com você, as peças se encaixam. Obrigado por existir, Alicia Santiago.”
Naomi e Rudá começaram a rir da maneira que a menina sobrava ao lado do casal.
Rudá
Naomi ria para Rudá quando um rapaz mais velho se aproximou dela. Era alto e magro, de rosto e fino e pele bronzeada. Devia ter por volta de dezoito anos, e havia passado o braço pela cintura dela.
“Ela não te quer, seu babaca” – Rudá disse mentalmente para o rapaz, que ele lembrou que se chamava Daniel, apesar de ser conhecido apenas por Dorrí.
Naomi sorriu e lentamente virou se para Dorrí. Ele passou os dois braços pela cintura dela e olhou nos olhos dela.
“Não ouse descer essa mão, Dorrí”
Dorrí disse algo baixinho no ouvido dela. Ela riu e olhou para o lado. Alicia e Davi separaram-se do beijo e ficaram abraçados olhando Naomi e Dorrí discretamente. Alicia notou a expressão de Rudá, mas ficou calada. Naomi concordou com a cabeça e sussurrou algo com um sorriso no rosto.
“Eu não acredito que você quer esse babaca, Naomi. Você não percebe que você é só mais uma pra ele?”
Dorrí puxou Naomi pela mão até o corredor lateral da casa. Davi ergueu uma sobrancelha e o queixo de Alicia caiu.
“E ele é só mais um pra você” – Rudá pensou. Ele parou de tocar a música, disse que estava muito cansado e que ia pra casa dormir. Naomi teve tempo de se virar rapidamente antes de entrar no embalo de um longo beijo com Dorrí.
Alicia
Alicia e Davi agora estavam sentados em um banco, conversando.
–Achava a Naomi toda fofinha! Tô chocada com essa safadeza toda! – Alicia disse rindo.
–Pois é, né. Quando você conhece a Naomi fofa, criançona, que adora correr e andar de bicicleta, é difícil imaginar o sucesso que ela faz com os mais velhos. – Davi respondeu.
–É mesmo. Aquele lá é quem?
–O nome dele é Dorrí. Daniel, na verdade, mas acho que até a mãe dele chama ele de Dorrí. Pegou, sei lá. Até onde eu sei é a terceira vez que ele e a Naomi ficam.
–Nossa. Ele é especial, então, né?
–Que nada, aquilo é só diversão pra eles.
–Quantos anos ele tem? Uns 18, 19?
–Tem 17, só é muito alto. – Davi respondeu, e houve um silêncio entre os dois por algum tempo.
–Fiquei com dó do Rudá. – Alicia disse.
–Rudá? O que o Rudá tem com isso, menina?
–Não fala que você não notou ele encarando ela, e coincidentemente saindo logo que a Naomi foi com o Dorrí pro cantinho da safadeza. – Ela disse, apontando pro corredor escuro onde nem o contorno dos dois era possível ver mais. Eles tinham afundado no escuro da noite.
–Não notei, não. Mas agora que você falou, faz bastante sentido. Coitado.
–Ele já comentou alguma coisa com você sobre isso?
–Acho que não. Ele já disse que gostava de alguém, mas não disse que era a Nai. Não dei muita bola na época. Eles seriam um casal bonitinho, mas duvido muito que a Nai namore ele. E ele ficaria de coração partido se fossem uns beijinhos e só isso.
–Ai Davi, como você é pessimista também, hein? Quem sabe dá certo?
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