Sob a Luz do Sol
14 Notas sobre o silêncio
Rudá
Rudá passou os olhos de cima a baixo pela sua imagem no espelho. Chinelo de dedo, panturrilhas morenas definidas, joelhos ossudos. Naquele dia usava uma bermuda cinza de seu irmão mais velho e uma camiseta laranja justa ao corpo, mas que mesmo assim não tocava o abdome magro do garoto. Ombros largos, braços grossos. “Um pouco desproporcionais ao resto do corpo”, ele pensou. Subiu o olhar para o rosto. Queixo largo, boca definida e carnuda, que era ligada ao nariz largo por uma dobra marcada no rosto. Olhos negros miúdos e cansados. Cabelos crespos e curtos, quase raspados. Era um tipo bonito, embora ele não se achasse tanto assim.
Seu pensamento pousou por um momento em Dorrí. Forte, alto e bonito na medida certa. Além de tudo, era simpático, extrovertido e conhecido por todos. Ele procurou pensar em outra coisa e tentou dizer para si mesmo que não sentia inveja do rapaz.
Ele pensou na mãe. Não se encontravam há quase um ano. Ela vivia em Pernambuco, estado onde toda a família – Mônica e Rogério, seus pais, suas irmãs Ariel e Sara – vivia alguns anos antes. Mônica não se adaptara à vida em Luz do Sol, e foi uma das muitas a deixar a cidade. Muitas pessoas não se adaptavam ao distrito e voltavam para suas antigas casas. Era difícil fazer as coisas por amor, e mais difícil ainda era desapegar do dinheiro. Mônica era policial, e seu emprego exigia uma cidade muito mais movimentada para se tornar interessante.
Havia casos de crimes, confusões, desentendimentos em Luz do Sol, mas eram raros e julgados individualmente pela comunidade. Não havia necessidade de existirem muitos guardas, e após a saída de Mônica, apenas uma pessoa permanecera trabalhando nesse ramo. Gisele era a delegada da cidade, e resolvia todos os tipos de conflitos. Como eram raros, se dedicava também a organizar os arquivos da cidade.
Por causa de casos como o de Mônica, 85% da população de Luz do Sol era nativa, e os jovens da época faziam parte da terceira geração de cidadãos do distrito. Rudá não se adaptava verdadeiramente à cidade. Herdara muito mais da mãe do que gostava de admitir; muito mais do que joelhos ossudos e lábios carnudos, Rudá pegara também as características mais particulares de sua mãe. O gosto pela matemática; a busca por ser sempre melhor; o hábito de sempre esperar demais das pessoas, de tudo. Ele só permanecia no distrito por uma razão.
Pela menina que o recebera quando ele chegou pela primeira vez em Luz do Sol. A menina que dormira no seu colo na época da Casa 5. A menina que ria das suas piadas e chamava-o de Gracinha quando estavam sozinhos. A menina que lhe ensinara a andar de bicicleta e o ajudara com a matéria de biologia da Casa 6.
A menina que chamava atenção dos garotos mais velhos, os mais babacas que poderiam ser. A menina que o chamava de amigo. Ele era apaixonado por ela haviam seis anos, e ela nem desconfiava. Talvez ela não o achasse bonito o bastante, talvez fosse muito criança – era quase um ano mais novo – mas o mais provável e que ele fosse muito Rudá para Naomi. Apena o Rudá. O bom e velho Rudá.
Naomi
Na tarde de quarta feira, depois de voltar da escola, Naomi observava com certa empolgação a conversa entre Jonas e Rodrigo, pai de Alicia. Marinho ajustava o tripé da câmera, apontada para o sofá onde ocorria a entrevista. Jonas estava um pouco nervoso, mas não deixava isso transparecer e passava uma imagem firme e simpática de alguém que conhecia cada detalhe do lugar onde trabalhava – a administração de Luz do Sol.
Sua mãe estava estranha. Ela se recusara a dar entrevista e estava em seu quarto, e pedira pra não ser incomodada. Rodrigo escolhera entrevistar quatro famílias; a de Naomi, pois seu pai era administrador do distrito; a de Davi, pois Alicia havia dito ao pai que Oceano era da família fundadora de Luz do Sol; também conversaria com Dona Bárbara, a mulher mais velha de Luz do Sol; e a quarta família Naomi não sabia qual era.
-Hoje eu converso com Jonas Dalíu, que é um dos administradores do distrito independente de Luz do Sol. Conta pra gente um pouco de você, Jonas. – Rodrigo disse com um sorriso, se virando para o homem.
-Bom dia – ele pensou rapidamente se o programa seria exibido durante o dia ou da noite – ou boa noite, não sei, né? – e soltou uma risadinha nervosa – Como o Rodrigo já disse, meu nome é Jonas Dalíu, moro em Luz do Sol há quase 30 anos, mudei pra cá quando eu era moleque ainda. Minhas mães vieram comigo e meus irmãos, são dois mais velhos, com a intenção de sair da bagunça que era a nossa vida antes. Eu nasci e fui criado na estrada, em um trailer, mas minha mãe Nina tava cansada da nossa vida nômade e a gente resolveu dar uma paradinha aqui e acabamos ficando. Conheci Lorena quando ela chegou com uma amiga, eu já morava aqui há muitos anos e trabalhava há dois. Fui eu que a recebi, assim como recebi você, Rodrigo. Um ano e meio depois a gente se casou, tivemos três filhos. Diana, de 17 anos, Naomi de 15 e Silas, que tá com 8 anos. Esse ano completo vinte e um anos trabalhando na administração de Luz do Sol, comecei com 22. Eu me dou muito bem com esse trabalho, gosto de lidar com as pessoas, de tentar melhorar a vida delas e fazê-las mais felizes, sabe?
Jonas e Rodrigo conversaram por mais alguns minutos de frente para a câmera conversando sobre trabalho, vida, família, vizinhança, dinheiro. Ao final da entrevista, Rodrigo pediu para tirar uma foto da família inteira. Naomi foi chamar a mãe e os irmãos, e a mãe simplesmente colocou a cabeça pra fora da porta do quarto e disse que estava com enxaqueca e que não queria sair. Naomi notou o seu rosto inchado e as olheiras profundas, mas estava empolgada demais para dizer qualquer coisa.
Falhara por não escutar os olhos do amado. Silêncio ensurdecedor guardado no olhar.
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