Sob a Luz do Sol
9 Independentes Até Um Limite
Notas iniciais
Alicia
Quando Alicia e Davi chegaram no Bloco C, uma parte importante da tarefa já tinha sido realizada: localizar os profissionais. Haviam três líderes de reciclagem, que estavam de pé na frente de todos os alunos, que estavam sentados no chão.
A primeira era uma mulher de cabelos longos e grisalhos, de vestido roxo, que checava algo em um livro. A segunda era uma moça que não devia ter mais de 30 anos. Seu cabelo negro estava trançado em várias trancinhas finas presas em um rabo de cavalo. O terceiro era o único que tecnicamente não estava de pé, estava sentado em uma cadeira de rodas. Era um homem de cabelos loiros e repicados. Ele usava uma calça de algodão branca e uma regata laranja e ria e conversava com uma aluna.
Davi e Alicia sentaram-se discretamente ao lado de Naomi, que lançou um olhar de gozação para os dois atrasados.
A senhora de vestido roxo começou a chamar atenção dos alunos, que fizeram silêncio quase imediatamente.
–Bom dia, pessoal – os alunos responderam em coro — meu nome é Izadora, essa é a Melissa, e ali o Nenê. Como vocês mesmos falaram, vocês têm quatro tópicos para explorar sobre a nossa profissão, é isso? Quais são mesmo?
–Tarefas do dia-a-dia, vantagens e desvantagens, função para o funcionamento de Luz do Sol e entrevistas pessoais com vocês. –Uma voz respondeu
–Ah, ok, certo. Somos três, e vocês têm quatro tópicos. Eu quero ficar com vantagens e desvantagens, e vocês? Quais querem? – Izadora apontou para os dois colegas.
–Eu fico com a função para o funcionamento de Luz do Sol! – Nenê exclamou, sorrindo. Alicia comemorou mentalmente, porque aquele era seu grupo e Nenê parecia de longe o mais simpático dos líderes de reciclagem.
–Ok, sobra pra mim explicar as tarefas e ser entrevistada. –Melissa riu e deu de ombros.
Cada grupo reuniu-se em um ligar. Nenê era carismático e muito alegre. Ele levou o grupo para uma sombra debaixo de uma grande árvore para conversar. Depois de duas horas e muito bate papo, Guito apareceu e chamou toda a turma para voltar para a escola. Ele cumprimentou calorosamente Nenê e contou que eram colegas de quarto na república de Luz do Sol.
–Vocês não imaginam como é morar com esse cara, gente! Ele usa tudo que é meu, roupa, cama, escova de dentes... – Nenê brincou, rindo.
–É tudo mentira, pessoal, tudo mentira! – Guito respondeu com um tapinha na cabeça de Nenê.
Todos se despediram e agradeceram calorosamente aos três instrutores. Voltaram para a Casa 7, onde Guito já tinha preparado o almoço: salada, lasanha de abobrinha, arroz integral, feijão preto e alguns poucos filés de frango, já que a maior parte dos alunos era vegetariana.
Os alunos se espalharam pelo cômodo, sentados à grande mesa, sentados nos pufes e sofás, no chão. Nos vinte minutos que se passaram após o almoço, os alunos podiam fazer o que quisessem. Podiam cochilar, reunir seus grupos para concluir a tarefa, conversar, etc. Todos os dias três alunos eram sorteados para arrumar a cozinha. Naquele dia, Heitor, Ubirani e Ayaka foram os encarregados. Passado intervalo, Guito pediu para que o primeiro grupo se apresentasse.
A mesma menina que Alicia viu lavando a louça, de olhos puxados, chamada Ayaka, foi até o centro da sala. Ao lado dela, o único menino do grupo dela, um gordinho de franja chamado Chico.
–A Zona de Reciclagem busca ao máximo reutilizar o lixo que nós produzimos para que eles nos sirvam novamente. – Ayaka começou.
–Nossas vassouras, vasos, bolsas, utensílios de cozinha, embalagens de comida, solas de sapato e tantas outras coisas do dia-a-dia são produzidas na Zona de Reciclagem e é pra lá que voltam quando ficam inutilizáveis. – Chico disse timidamente.
–Nossos papeis são 100% reciclados e nosso pouco alumínio também. Acontece que a função do líder de reciclagem é conferir a divisão do lixo e atender às ideias e sugestões dos funcionários. Ele tem que ser muito criativo para criar produtos novos para atender as necessidades da população e lançar campanhas do tipo, sei lá – Ayaka parou para pensar – “Não esqueça de jogar fora seu papel”, por exemplo.
–É, todo dia eles checam se a divisão do lixo está correta e trabalham calculando se as necessidades da população e da zona estão batendo. Se a zona está recebendo menos papel, ele faz uma campanha, que nem a Ayaka falou. É preciso ser muito criativo e um líder natural. Acabou.
–Certo, Ayaka, Chico, muito bom! Gostei muito da apresentação, falaram muito bem. Quem mais está no grupo? – Guito perguntou. Pela cara dele, Alicia achou que talvez ele falasse aquilo para todos os grupos, mas ela não culpava ele. Eram quatro apresentações diárias, quatro dias por semana. Ficava difícil ser muito criativo com as respostas.
–Tá a Lígia, a Lu, o Chico, eu e a Vitória.- Ayaka respondeu já sentada no sofá. Guito anotou, concordou com a cabeça e chamou o próximo grupo.
Duas meninas do grupo 2, Nara e Rita se levantaram. Nara tinha longos cabelos escuros e Rita era exatamente o oposto, tinha cabelo curto e anelado.
–A gente tem que falar sobre as Vantagens e Desvantagens do cargo. De acordo com a Izadora, ela vê que a maior vantagem é que o líder de reciclagem é uma peça fundamental no funcionamento da Zona de Reciclagem. Ela vê que sem o trabalho dos líderes, as coisas não iriam pra frente. – Rita disse, gesticulando com exagero.
–Mas ela considera que a maior desvantagem é não estar diretamente relacionada nos processos de reciclagem, não mexer nos materiais, não fazer os trabalhos. Uma característica marcante que ela não sabe dizer se é boa ou não é que é um trabalho que carrega muita responsabilidade. E é isso. Não tem muita coisa pra falar disso, não.
–É isso? Bom, pessoal, bom. Podiam ter aprofundado mais, vocês falaram muito pouco. Nomes?- Guito perguntou.
–Eu, o Jude, a Rita, o Shizuka e o Benício. – Nara respondeu, e Guito chamou o próximo grupo, que finalmente era o de Alicia.
Naomi e Rudá se levantaram.
–Como todos sabemos, Luz do Sol produz tudo que utiliza. – Rudá começou, mas foi interrompido por Naomi.
–Quase tudo.
–Quase tudo. Existem coisas que não dá pra gente produzir, tipo gasolina pro carro funerário, tratamentos diferentes e especiais nos hospitais, preservativos, e peças de bicicleta, e coisas assim. Essas coisas a gente consegue fazendo trocas com o pessoal lá de fora por meio do dinheiro. – Rudá deu a deixa para Naomi.
–Então às vezes nós vendemos nossos excessos, e “nos rendemos um pouco ao mundo lá fora”, usando palavras do Nenê, para podermos segurar as pontas aqui dentro. Nós somos independentes até um limite, mas se quisermos manter a vida aqui numa margem confortável, sem precisar levar nossos doentes pra fora para serem tratados, por exemplo, temos que usar o dinheiro.
“É claro” Alicia pensou. Aqueles caderninhos reciclados, os vasos de plantas decorados, coisas que eram vendidas na feira com um pequeno selo verde com um sol. Aquelas coisas vinham de Luz do Sol.
Os alunos esboçaram uma expressão surpresa.
–Uau, galera, muito bom! Aposto que a maioria do pessoal não sabia disso. No final da aula a gente discute mais esse assunto, que eu acho bem interessante pra todo mundo né? – Guito levantou-se abraçando o ombro de Rudá – Nomes do grupo?
–Sou eu, a Nai, o Davi, a Tulipa... O Heitor e a Alicia. –Rudá respondeu, abraçando de volta o professor, que anunciava o grupo 4.
Gael, um garoto franzino se levantou e foi até o centro da sala junto de Iara, uma garota ruiva.
–E aí pessoal – Gael disse, e turma toda riu do jeito engraçado que ele tinha. – a gente entrevistou a Melissa Guabeira. Ela tem 26 anos.
–Mora no Bloco 3 com seu marido, Samuel, sua irmã, Camila, e sua filha adotiva de três anos, Lara.
–Trabalha como líder de reciclagem há 7 anos, é casada há 5. Seus pais são Lilian e Flávio Guabeira. Melissa mora em Luz do Sol desde os quatro anos. Ela é muito séria e focada, mas se considera muito criativa. Acho que é isso. – Iara finalizou.
–Espera aí, só isso? Duas horas de papo e vocês conseguiram meia dúzia de fatos sobre a moça? Falem mais sobre a aparência, sobre a filha adotiva, sobre a vinda pra Luz do Sol, sei lá. – Guito sugeriu abanando as mãos teatralmente.
–É... Ela é negra, de cabelo trançado, todo trançado. O rosto dela é fino, os olhos são muito escuros e profundos, a boca é cor de vinho, e a voz dela é firme e melodiosa. Ela é alta e forte. – Gael descreveu lentamente cada detalhe.
–Então foi isso! O Gael não prestou atenção no que a Melissa dizia, gente! Prestou atenção na voz, nos olhos... Boa, Gael! – O professor gozou do aluno, e todos riram.
–Eita Gael! Continuando... A Lara, filha dela, nasceu numa cidade no estado da Bahia, na família da Melissa. Tá com três anos hoje em dia, mas veio pra cá com seis meses. – Iara tentou manter o foco da turma inutilmente.
–Melhorou. Mas que o Gael se entregou agora, ele se entregou... – Guito riu alto – Quem mais tá no grupo, pessoal?
–Haha! Como vocês são engraçados! – Gael fez uma careta — No grupo tem eu, o Carlos, a Iara, o Ubirani e a Clarice.
–Pede para o Gael descrever cada um, Guito! – Tulipa gritou e mandou um beijinho para o amigo, vendo-o corar.
–Beleza, galera! Muito bom! Me surpreenderam com a qualidade das apresentações e das pesquisas que fizeram. Nós temos que melhorar essa coisa de serem sempre as mesmas pessoas a apresentar. Gostei de ver a Iara, o Chico, Rudá, falando aqui pra todo mundo... Eu espero que essa aula tenha servido pra vocês esclarecerem um pouco mais o que vocês querem ou não para o futuro. Vocês são o futuro desse lugar, hein? Alguém tem algo pra acrescentar?
E a discussão durou horas, discutindo sobre a independência de Luz do Sol, êxodo, dinheiro, Melissa Guabeira e Gael, e tantas outras coisas.
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