Sob a Luz do Sol

10 Olhos Abertos


Notas iniciais
Olá! Esse capítulo é um dos meus preferidos porque fala de coisas que eu realmente penso na primeira parte e de relações muito parecidas com as que eu tenho, na segunda. Eu sei que a primeira parte ficou meio deslocada, mas ela ficou bem curtinha e não dava para eu fazer ela ficar em um capítulo só. Obrigada por ler, e não esquece de deixar um comentário. Espero que goste

Davi

A noite estava estrelada e Davi apreciava o infinito, deitado na rede de seu quintal. Ele pensava se alguém a meros quilômetros de distancia via as mesmas estrelas. Ele sabia que não, que a luz artificial impedia os cidadãos das cidades de conhecerem pessoalmente as estrelas, de sonhar com todas as possibilidades do infinito que eles não viam com os próprios olhos. Ele sabia que as pessoas viviam encaixotadas em prédios, não viam as estrelas surgirem e irem pela manha, eles simplesmente assistiam as rachaduras surgirem em seus tetos.

Ele pensava em seu dia. Pensou em tudo que Alicia lhe contou sobre a capital. A falta de água, de caráter, de valores, de espaço, de eletricidade, de amor. Ele pensou sobre como vivia em um lugar rico.

Ele pensou sobre as guerras que ocorriam no mundo, com milhares de jovens inocentes que morriam todos os dias como se fossem descartáveis. Seus sonhos e famílias eram destruídos todos os dias. Cada morte em Luz do Sol era especial, era lembrada todos os anos e estava marcada em diferentes lugares da comunidade. Todos os dias milhares de soldados morriam nas batalhas, crianças morriam de fome, pestes matavam cidades inteiras ao longo de alguns países, pessoas eram assassinadas em troca de valores materiais. Todos eram solenemente ignorados e esquecidos.

Pensou sobre as inúmeras pessoas que não tinham um teto para cobrir-lhes nos dias de chuva, não tinham uma casa para ir ao fim do dia quando estivessem cansados. Não tinham um lugar seguro, comida o suficiente, reviravam os restos de quem fingia que eles eram invisíveis.

Ele entendeu o que Alicia quis dizer falando que Luz do Sol era uma bolha. Um pequeno lindo mundo colorido adormecido e alheio ao caos.

Davi não fechou os olhos naquela noite.

****

Naomi

Naomi acordou com o cheiro de manjericão inundando o quarto. Ela olhou para as camas ao seu lado, já vazias e arrumadas. Ela andou em direção à porta ouvindo um zumbido crescente. Abrindo-a, ouviu claramente a voz de Silas e Diana na cozinha.

“Meu amor, essa é a última oração”

Ela andou na direção do som, com o cheiro de manjericão só aumentando.

“Pra salvar seu coração”

Diana e Silas dançavam na cozinha, Silas passando queijo nas torradas e Diana picando tomate e misturando numa vasilha enorme. Naomi encostou-se ao batente e assistiu seus irmãos por alguns versos.

“Coração não e tão simples quanto pensas,

Nele cabe o que não cabe na despensa

Cabe o meu amor”

O menino levantou os olhos e viu Naomi.

“Cabem três vidas inteiras” — Silas cantou mais alto, apontando pra Naomi e puxando-a pela mão para dentro da cozinha.

“Cabe uma penteadeira,

Cabe nós dois,

Cabe até o meu amor!” – E os três cantaram de novo e de novo, até que as torradas estivessem prontas e suas bocas estivessem ocupadas.

–Vamos ao cinema hoje a noite, gente? – Silas sugeriu entre uma mordida e outra na sua torrada.

–Eu animo, ouvi falar que tá passando um filme novo. Vamos, Dia?

–Hoje não dá, vai rolar um lual da Nádia, mas eu animo ir ao cinema amanhã. Você pode ir ao lual se quiser, Nai. Chama o Davi, vai ser legal.

–Eu posso ir? Eu posso ir?? – Silas pedia de mãos erguidas e com a boca cheia.

–Silas, a gente já conversou sobre isso. Você não tem idade para essas coisas. – Diana falava calma e didaticamente, quase como uma professora.

–Mas a Naomi pode, e eu não?

–Eu tenho 15 anos, Silas. Você tem 8. Tá mais que óbvio que não é a mesma coisa, guri. – Naomi falou irritada e virando os olhos.

– Relaxa aí, Naomi. Silas, você tem oito anos. Não pode fazer tudo que a Nai faz, a Nai não pode fazer tudo que eu faço, e eu não posso fazer tudo que o papai faz. Supera.

–Mas eu quero ser grande logo, Dia! Eu não posso fazer nada, não posso sair, não posso ir em lual, não posso dormir tarde. Um saco! – Silas gritou estridente.

–Você pode brincar. Eu tenho saudade de ficar na Casa 4 a tarde toda. Um dia você chega aos 15, aos 16, aos 90. Relaxa. – Diana disse delicadamente, vendo as lágrimas brotarem nos olhos do irmão. — Não chora. Não... Não chora, vem cá.

Naomi observou Diana confortando o corpo pequeno de Silas em seus braços. As unhas longas faziam carinho em seus braços suavemente. Ele se sentou encolhido em seu colo, com a testa apoiada nos joelhos. Ela falava baixinho no ouvido dele, e fazia carinho nos cabelos com a outra mão. Logo ele parou de soluçar e olhou pra ela, afastando a franja da testa. Ela parecia saber exatamente o que estava fazendo.

****

–Gente, cês vão fazer alguma coisa hoje? – Naomi perguntou, sentando-se à mesa da Casa 7.

–Eu e a Ariel vamos numa festa da nossa prima. – Rudá falou.

–Eu não vou nem responder. –Alicia disse. Naomi reparou na expressão que Davi tinha ao olhar para ela.

–Eu, pra variar, nada planejado. – Davi disse sorrindo. – Tem algum programa?

–Já te falo. Rudá, qual o nome da sua prima? – Naomi perguntou, virando se para ele.

–Hmm, Nádia, por quê?

–Ah, olha só! Sua prima é amiga e cunhada da minha irmã! E então... Pera... Você é primo do meu cunhado, o Flávio! Quase família já!

–Não entendi nada, só que nós temos algum parentesco. –Rudá disse, sob concordadas com a cabeça veementes de Davi e Alicia.

–Mas enfim, eu ia convidar vocês pro lual da Nádia-amiga-da-minha-irmã-e-prima-do-Rudá. Eu não sei qual é a do lual, mas acho que vai ser legal. Diana vai e me chamou.

–Eu vou se vocês forem. Pessoalmente, eu animo demais. – Alicia confessou.

–Nossa, também animo demais, adoro lual! – Davi disse empolgado imediatamente, e Naomi segurou o riso.

–Fechou então. Alicia, você precisa ir com alguém, pra ir aprendendo o caminho. A casa dela é no final do bloco 3. Com quem você vai? – Rudá perguntou.

–Pode ser com a...- Alicia começou, mas foi interrompida por Davi.

–Vai comigo. Te pego às sete?

–Pode ser, então.

Naomi deu uma piscadela discreta para Davi e Rudá o chutou de leve por debaixo da mesa. Guito anunciou o começo de uma aula que pareceu interminável para Davi e Alicia.

Notas finais
Eu não sei você, mas eu fico muito empolgada querendo saber o que acontece no próximo capítulo ;)