Sob a Luz do Sol

2 Conhecendo um outro mundo


Notas iniciais
Toda a história é organizada em personagens, embora seja sempre narrada em terceira pessoa, o capítulo do personagem X foca em seus sentimentos, e coisas que acontecem ao seu redor.

2087, Distrito de Luz do Sol, interior do Estado de São Paulo, Brasil

Naomi

Naomi acordou de manhã cedo para tomar o desjejum na praça. Era um domingo, e nos domingos todos iam à Praça, levavam seus lanches para partilhar, cantavam e dançavam alegremente ate o meio dia. Nessa hora alguns núcleos iam pra casa almoçar e alguns outros ficavam para esvaziar as lixeiras e levar o lixo para a Zona de Reciclagem, no Bloco C.

A menina se vestiu, atravessou a pequena casa e encontrou-se com seu irmão mais novo, Silas, e sua mãe na porta da frente.

– A Dia não vem não? – Silas perguntou. Ele se referia a Diana, sua irmã mais velha.

–Ela e o Flávio vão cantar hoje na praça. Ela foi mais cedo. Silas, tem uma remela enorme no seu olho esquerdo – a mãe respondeu sem olhar para o filho, enquanto ajeitava a gola do vestido de Naomi.

– Tá, e o papai, cadê? – Naomi perguntou

–Ah, um jornalista de São Paulo vem aí hoje. Acho que vêm ele, a filha dele e um cinegrafista. Vão ficar aqui um tempo, e seu pai foi recebê-los. – A mãe de Naomi, Clara, respondeu.

–Eles vão ficar aqui? Tipo, aqui em casa? – Naomi estava eufórica

–Não. Vão ficar na casa da Dora, no final do bloco 1, perto da 1D.- Clara respondeu, fazendo Naomi murchar. – Agora vamos logo pra praça porque a gente tá em cima da hora.

Os três montaram em suas bicicletas e se dirigiram lentamente até a Praça.

–Mãe, o que eles vêm fazer aqui? – Silas perguntou

– O homem... Acho que o nome dele é Rodrigo, vem fazer uma reportagem sobre a independência de distritos. Desde o êxodo ninguém realmente pensou nisso. Eles já têm muitos problemas pra se preocuparem com a gente

– Que tipo de problemas? – Naomi perguntou enquanto pegava uma flor de uma moita.

–Bem... Não sei se vocês vão conseguir entender bem... Lá fora, as pessoas lidam com dinheiro. Dinheiro é um pedaço de papel que vale as coisas. Se você quiser uma blusa, ela vale, hmm, suponhamos, 15 reais. Real é o nome do dinheiro do Brasil. Daí você paga esses 15 reais para a pessoa que fez a blusa, que guarda uma parte pra ela, e usa outra pra pagar para comprar – é, o nome disso é comprar – mais pano para fazer mais blusas. E alguém tem que comprar essas blusas, mesmo já tendo o suficiente. Isso chama consumismo, é quando as pessoas consomem mais do que precisam. E todo mundo fica sempre querendo dinheiro, e não fazem mais nada porque querem, ou por amor, mas só pelo dinheiro. Lá as pessoas amam menos, e os recursos naturais são escassos, porque todo mundo usa eles de qualquer jeito pra conseguir mais dinheiro... É muito complicado...

– Eu não entendi muita coisa, mas porque eles gostam de complicar? Porque eles não vivem como a gente? – Silas perguntou

Mas ele nunca foi respondido. Eles chegaram logo na praça, e o assunto acabou. As árvores estavam decoradas com flocos-de-coisas-coloridas-recicladas-não-identificadas, o dia estava ensolarado e a música não parecia sair do centro da praça, onde um pequeno palco se erguia, mas sim das flores e folhas que brilhavam ao sol.

No centro, Diana de regata branca, uma saia rodada azul, buscando com o olhar pela família. Ela localizou a mãe e Silas, mas não chegou a localizar Naomi. A menina já havia partido em direção ao Bloco D, onde seu pai deveria estar recebendo o homem, sua filha e o cinegrafista.

Em Luz Do Sol, poucos lugares eram trancados, então foi fácil para Naomi entrar na estação rodoviária, o único ponto que conectava o mundo lá de fora e o pequeno distrito. Era o único lugar do distrito onde se viam carros e vans, e mesmo assim muito raramente.

Quando Naomi chegou, uma Kombi estava estacionando no extremo da rua. Um homem quase careca, baixinho, e com grandes óculos saiu da Kombi, carregando três malas marrons junto a si. Atrás dele veio uma garota de cabelos loiros super lisos, de vestido e tamanco, carregando uma bolsa a tiracolo. Por fim, saiu do carro um homem alto de cabelo e barba grisalhos e terno, com uma postura muito séria. O último homem andou firmemente até Naomi e seu pai. O pai de Naomi, Jonas, cochichava confuso para a filha, tentando entender sua presença ali, mas parou logo que o homem começou a falar.

–Bom dia! Tudo bem? Você deve ser o, hmm, Jonas? – a voz do homem era surpreendentemente mais leve e menos séria que sua aparência.

Jonas estava agitado, a altura do homem o intimidava, e a presença de Naomi o deixava confuso. Ele parecia sentir medo do visitante quando sua voz trêmula saiu.

–Claro, isso mesmo. Co-como vai, Rodrigo?

–Vou bem, obrigado. E como é o nome dessa moça? – disse, se referindo a Naomi.

–Ah, que falta de educação a minha! – Ele deu um sorriso amarelo e notou que o homem baixinho e a garota loira estavam vindo em sua direção – Rodrigo, essa é a Naomi, minha filha. Naomi, esse é o Rodrigo, jornalista de São Paulo.

–Oi Naomi. Essa é a minha filha Alicia – ele disse abraçando os ombros dela – e esse é o Marinho, nosso amigo cinegrafista. Nós vamos começar agora a já filmar algumas coisas por aqui, ok?

Jonas concordou, e levou os três visitantes para conhecer a comunidade. Primeiro mostrou um mapa do distrito, para que entendessem a organização. Depois, levou-os para a casa de Dora, onde ficariam hospedados, para que guardassem suas malas. Mostrou todos os blocos e explicou um pouco sobre cada um, e depois seguiram para a praça.

A voz de Diana anunciou firme no centro da praça:

– Agora, antes da próxima música, um anúncio de Jonas Dalíu.

Jonas subiu desajeitadamente na pequena plataforma.

– Bom dia pessoal, um minutinho aqui pra mim, por favor. Talvez alguns de vocês já saibam que nós temos visitantes aqui em Luz Do Sol. Aquele ali é o Rodrigo Santiago – ele disse indicando com a cabeça – e ao seu lado é a filha dele, Alicia e seu cinegrafista, Marinho. Eles vieram fazer uma reportagem sobre distritos independentes. Eles ficarão na casa da Dora, no bloco 1, pra quem quiser falar com eles. Obrigado. – um moço subiu tímido ao palco e disse algo em seu ouvido – Ah! E mais uma coisa! Os núcleos responsáveis pelo lixo de hoje são: Jaci, Santos do bloco 3, e Guabeira.

A maioria das pessoas continuou seu domingo como o habitual, menos uma garota na plateia. Uma garota que viveria o domingo menos habitual da sua vida.

Notas finais
Bem, é assim que a história começa (: por favor, se você tá logado, deixa um comentário aí, mesmo que só tenha lido até a segunda linha (e me explique porque você parou na segunda linha, mocinho.) Críticas construtivas são muito bem vindas!