Sob a Luz do Sol
3 Eu só queria enxergar
Alicia
Alicia estava surpresa. A mãe havia enchido sua cabeça com ideias sobre Luz do Sol. “É uma tribo de pessoas irracionais.”, “Não há nenhuma tecnologia”, “São violentos”. O que ela estava vendo era exatamente o oposto. Todos ali pareciam pensar muito bem, a tecnologia para construir aquela cidade toda parecia bem avançada, e a violência parecia algo totalmente utópico enquanto ela estava no meio daquelas pessoas.
A menina do centro da praça começou a cantar “Dançando”, de uma banda que ela descobriu se chamar Agridoce.
Ela começou a observar as árvores de copas altas, os jardins simples, mas lindos. As nuvens fofas no céu azul, coisa que em São Paulo não era visto há muitos anos. “Eu sei que lá no fundo, há tanta beleza no mundo. Eu só queria enxergar” Ela de repente se tocou. Nunca havia visto beleza no mundo. É claro, as modelos que saiam em revistas eram belas. As obras de arte eram belas. Mas ela nunca tinha visto realmente a beleza.
“As tardes de domingo, o dia a mim sorrindo. Eu só queria enxergar” As nuvens no céu, o verde das árvores, o som dos pássaros, a umidade do ar e a harmonia das pessoas. Ela finalmente estava sentindo.
“O mundo acaba hoje e eu estarei dançando” O mundo não acabou naquele dia. Só o mundo de uma garota. O mundo de Alicia acabou, mas o espaço foi preenchido por outro mundo. Um mundo novo, muito melhor, em cores e ao vivo. E ela subitamente começou a dançar. A energia preencheu seu corpo e começou a dançar por ela.
Naomi viu a cena e foi ao encontro da convidada.
– Oi – Naomi puxou papo
– Oi.
–Música boa, né?
– Aham, gostosa demais.
– Cê já tinha escutado ela?
– Não, esse tipo de música não é muito comum em SP. – Ela fez uma pausa- Mas a daqui é bem melhor.
Naomi riu.
– Quantos anos você tem?
– Eu tenho 16, e você? – Alicia respondeu meio sem graça
– Eu tenho 15. –Naomi notou a expressão de Alicia – Não parece, né? Eu sou a mais miúda daqui. Me falaram que é porque eu corro muito e como de menos. Fui sempre magrela assim.
–Entendi. Como é o nome da moça que tá cantando? Ela canta bem demais! E olha que tá ao vivo hein.
–Ah, é a Diana. Ela é minha irmã, tem 17 anos. E o homem é o Flávio, namorado dela, tem 22.
Alicia ficou um pouco chocada com a diferença de idade.
–E seus pais deixam?! Tipo, mesmo com 5 anos de diferença?
–Claro, uai. Por que não deixariam?
Ela então percebeu que as pessoas ali não tinham aquela maldade. Pedofilia não devia nem ser pensada naquela cidade.
– Nada não, esquece. Então, o que vocês fazem pra se divertir por aqui?
– Ah, temos muitas coisas. Fazemos projetos na escola, separamos o lixo no Bloco C, colhemos frutos e damos umas voltas pelo bosque. Também tem o lago, e algumas vezes um cinema ao ar livre é montado no Bloco 3, porque lá tem alguns lotes vagos, e a gente assiste filmes de outros distritos hippies. Depois do almoço eu posso te mostrar o que quiser, mas agora, a gente realmente precisa ficar aqui na Praça. Depois do almoço eu passo lá na casa da Dora e te levo pra conhecer algumas coisas.
*************
Duas da tarde, Alicia ouviu uma voz aguda gritando na rua, chamando por Dora e batendo palmas. Dora andou lentamente com seus passos de idosa pela casa, e atendeu a porta pacientemente.
– Olá menina. Como vai?
–Eu tô ótima, Dora, e a senhora, como está?
– Melhor impossível. Você aceita uns biscoitinhos? Acabei de assar um bolo de fubá, tá quentinho ainda, vamos, entra.
– Muito obrigada, Dora, mas eu vim aqui hoje pela Alicia mesmo. Outro dia eu venho aqui pra gente bater um papo. Ela tá aí?
Dora deixou Naomi sentada na sala e foi chamar Alicia. A menina saiu do quarto com roupas bem mais simples do que as que usava de manhã. Ela já estava chegando à porta, quando seu pai a chamou.
–Filha, onde cê tá indo?
– A filha daquele homem, Naomi, vai me levar pra conhecer umas coisas, pra gente se divertir um pouco.
–Tá levando o celular?
–Não, uai.
– Por quê não?!
– Pai, aqui não tem sinal, não tem perigo, não vou me perder e não tenho ninguém pra ligar.
– Você não pode sair confiando em qualquer um, Alicia. E se acontecer alguma coisa? E se...
– Pai, tô indo. – ela o interrompeu – beijo.
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