Sob a Luz do Sol

11 Alegria, luta e esperança


Davi

Davi ouviu o barulho de passos no corredor e em seguida a porta de seu quarto se escancarou com uma Naomi animada entrando sem pedir licença.

–Oi gatinho – ela disse, fazendo bico e pulando na frente dele.

–Olá menina-que-aparentemente-não-sabe-bater-na-porta. Tá fazendo o que aqui por essas redondezas? Mais conhecidas como minha casa, meu quarto, mais especificamente? Esse perfume todo é pra me ver? – ele respondeu levantando o olhar de seu livro. 1984, de George Orwell.

–Ah, nem sei, me perdi por aqui, achei que tava indo pra cozinha e apareci no seu quarto. – Eles riram, e Davi acrescentou um “Nunca se sabe, né? Vai que...?” por entre as risadas — Seu besta, eu tô aqui pra ser sua melhor conselheira e te lembrar que o senhor tem uma festa hoje. Eu tô cheirosa, mas você não. Não vai no lual, não?

–Vou, ué. Mas ainda são 18:20, Naomi. Ainda faltam quarenta minutos pra eu sair.

–Exatamente! Faltam quarenta minutos e você tá largado, sem camisa, sem banho, lendo aí pela quadragésima vez o mesmo livro, na paz.

–Sem comentários sobre o livro. Já falei com você que só lendo pra entender esse amor que eu tenho por ele. Tá, e você tá com a roupa que você usou de manhã, só lavou o cabelo. E ainda tá gastando o seu tempo aqui na minha casa. – ele disse com um ar de vitória.

–Eu estou aqui pra uma troca de favores.

–E eu poderia saber a quais favores a senhora se refere, madame?

–Você vai segurar o meu cabelo enquanto eu arrumo minha franja. Por favor.

–Você inventou isso agora, Naomi. Eu te conheço. – ele disse com os olhos semicerrados.

–Tá, eu inventei isso agora. Mas escuta a parte que te interessa. Eu vou te ajudar a escolher uma roupa legal pra você impressionar a Alicia, porque ela parece o tipo de pessoa que liga pra roupas.

–E o que te faz pensar que eu quero impressionar ela?

–Você não quer? – ela disse com a sobrancelha erguida.

Ele se levantou e andou em direção ao banheiro.

–As blusas ficam na terceira gaveta. – Davi disse, dado por vencido.

–EU SABIA! – Naomi gritou e saltou até o armário.

Alicia

Se olhou no espelho, analisando o visual geral. Não estava muito produzida, apesar de ser uma festa a noite, ainda era um lual.

Os cabelos loiros estavam frouxamente presos com uma presilha. Ela usava um vestido branco justo no tronco e com mangas até o cotovelo, mas que se alongava a partir da cintura e descia como uma bata pelas coxas. Seu batom era suave e combinava com o detalhe de sua sapatilha branca.

De repente, o pai bateu na porta e entrou no quarto.

–Tá saindo, princesa?

–Vou em um lual. – Ela disse, dando uma voltinha em frente ao espelho.

–Você enturmou mesmo com esse pessoal, hein? – Ela assentiu com a cabeça.- Eu tenho alguma chance de fazer você mudar de ideia? – Ela negou, silenciosamente sem olhar para ele. – Então, tá. Juízo. Tem um menino ali na rua te chamando. Juízo, Alicia.

–Pode deixar, pai. Boa noite.

Ela andou até a porta e espiou Davi pela janela. Ele estava sentado no meio-fio. Se levantou bruscamente ao ouvir o som da porta se abrindo.

–Oi. – ele disse timidamente.

Eles se cumprimentaram desajeitadamente, sem saber como se abraçar.

–Opa. A bicicleta que eu tô usando ficou lá no ponto. Vou a pé até lá. – Alicia disse.

–Que a pé, o que, sua louca! Sobe na garupa aí – Davi apontou o pequeno suporte para cargas traseiro com a cabeça, com um sorriso aberto.

Ela subiu na traseira, tentando se sentar, mas só encontrava posições desconfortáveis. Eles chegaram ao ponto de bicicletas que ficava no final do quarteirão. Alicia saiu da bicicleta reclamando da posição. Mas para a surpresa deles, não havia bicicleta alguma no estande.

–Eu achei que haviam bicicletas para todos. – ela murmurou.

–E tem. Devem estar na manutenção, sei lá.

–E como a gente faz agora?

–Você vai ter que ir na garupa até lá.

–Ah, sério? – ela choramingou.

–Olha, faz assim. – ele montou na bicicleta com os pés no chão.- Agora sobe na garupa, com o pé na grade.

–O pé?

–É, o pé. Olha, me dá a mão. Isso. Agora coloca o pé. Isso. Apoia a mão no meu ombro e vamo!

–Isso não vai dar certo. Eu vou agachada. Tô sentindo que eu vou cair.

Alicia se agachou na garupa e Davi começou a pedalar; ele pedalava firme na trilha lisa e uniforme que formava a rua. Alicia apertou mais forte o ombro de Davi e se levantou.

Eles já haviam passado da praça central e desciam o morro que era o Bloco 3. A descida era suave e a avenida tinha fartas árvores que faziam sombras enormes no chão. O luar passava por entre as folhas e formava manchas brancas no chão. O vento fazia os longos cachos de Davi roçarem nos braços de Alicia. Ela ria das cócegas e da situação.

Ela estava em pé, na garupa da bicicleta de um garoto que ela conhecia há apenas três dias mas que atraía de uma maneira quase magnética. A confiança no seu jeito de andar, a sinceridade em seu sorriso, e o brilho de seus olhos claros que mostravam a felicidade e a luta caminhando juntas e se transformando numa coisa só. Alicia estava a caminho de um lual em um distrito tão novo como Davi para ela, onde o tempo era diferente e o ar era mais leve. Ela sentia coisas que não sabia colocar em palavras e não se lembrava de alguma vez ter se sentido tão feliz. Por muito tempo ela se alimentaria da lembrança daquele momento.

Davi

Tentava “dirigir” a bicicleta da maneira mais confiante e segura o possível, mas a posição de Alicia na garupa não favorecia. A barra de seu vestido fazia cócegas nos cotovelos dele. Seu perfume era cítrico e suave, e ele pensava nela. Pensava em seu riso frouxo, na maneira delicada que ela andava. Como ela pensava diferente dele e tinha vivido coisas que ele não imaginava, mas como eles se entendiam bem. E como se entendiam! O olhar dela lhe trazia paz e ele nem sabia por quê.

–Tá tudo bem aí? Tô te atrapalhando? – ela perguntou, e pela voz, ele percebeu que ela estava sorrindo.

–Relaxa, tá tudo bem. Na verdade, só falta uma coisa pra ficar perfeito.

–O quê?

Davi freou a bicicleta e botou os pés no chão. Ele segurou as mãos de Alicia e puxou-a para baixo. Ela pulou para o chão e passou o braço ao redor do pescoço dele. Ele enlaçou a cintura dela e os dois se juntaram em um beijo que unia almas. O corpo deles se encaixava perfeitamente, como se tivessem sido feitos para aquele momento. Ela acariciava o cabelo de Davi e ele a fazia rir passando a mão pelas costas e pela cintura dela. E ali ficaram, na beirada da avenida deserta, sob a luz pálida da lua, Davi sentado na bicicleta para ficar da altura de Alicia, que ria baixinho.