Sob O Farol E A Lua
6 Plaie Ouverte Sob a Pele
Notas iniciais
Os meses seguintes passaram em um borrão.
Não porque Derek não se lembrasse dos detalhes — o foco da missão foi alterado. Não se tratava mais apenas de achar Erica e Boyd. Havia uma nova ameaça em Beacon Hills, à espreita, pronta para invadir seu território e toda a preparação para um eventual e inevitável banho de sangue.
Isso não significava que ele tivesse parado de procurar pistas dos betas.
Isaac (e Stiles) estavam ajudando. O loiro, sendo um lobo, conseguia cobrir mais terreno que o outro adolescente, enquanto Stiles o ajudava nos pequenos detalhes que passavam despercebidos ao alfa — reunindo informações, dados e o que mais seu intelecto captasse .
Enquanto investigavam possíveis rastros dos lobos, eles acabaram esbarrando em um vampiro. O homem agia como se fosse espertinho demais, arrogante e prepotente, com supostas informações sobre avistamento de um certo grupo de lobisomens na região a leste do interior da Califórnia. Derek queria espancá-lo por lhe fazer perder tempo, mas Stiles o convenceu do contrário, dizendo que uma aproximação mais diplomática era melhor que uma boca quebrada. Derek concordou... a contragosto.
A pista não lhe entregou os lobos, mas ele conseguiu identificar o cheiro dos alfas. Uma informação valorosa.
Derek estava impressionado. E sentia que continuaria se surpreendendo com o garoto por um bom tempo.
Aquele dia no posto de gasolina... foi uma virada na relação deles. Não eram amigos, – Deus sabe que Derek jamais chamaria qualquer pessoa de amigo – não exatamente, mas estavam algo entre isso e bons aliados. Convivência com o moleque... não era ruim. Nem um pouco. E a confiança era perceptível — Stiles provou-se mais de uma vez a esse ponto para isso ser questionado.
O que faz o lobisomem pensar em sua antiga alcateia, sua família. Nos seus avós, tios e tias, primos, irmãos... e pais.
Talia teria gostado de Stiles. Certamente teria mais paciência com ele do que Derek jamais teve.
E quanto a Isaac... eles estavam bem. Aquele “episódio” na floresta não voltou a se repetir — Derek vinha se mantendo mais no controle. O beta ainda o desafiava de tempos em tempos, mas o alfa agora entende isso mais como as birras de um adolescente temeroso de figuras de autoridade que um desafio a sua posição, o que não provocava mais seus instintos. Depois que Derek compreendeu isso, sua relação com Isaac ficou bem estabelecida. Talvez até mesmo estivesse melhor do que antes.
E, claro, Derek não poderia esquecer o retorno de Deaton e Peter.
O veterinário foi o primeiro a voltar à cidade, um mês após o desaparecimento dos betas. Aparentemente estava resolvendo “assuntos pessoais” ligados a seus deveres de druida — e honestamente, Derek não queria nem saber o que isso significava. Não que Deaton fosse ajudá-lo, sendo o homem pragmático e fechado como sempre foi.
Já seu tio...
Derek não confia nele. Sente que talvez nunca venha a confiar. Ainda tenta raciocinar que ele é seu único parente vivo, que Peter ter matado Laura foi um acidente — louco e delirante como ele estava — e que precisava do poder de um alfa para sair de seu estado vegetativo.
Ele tenta. Isso não significa que ele consiga.
E ter seu tio por perto com apenas Isaac e Stiles como aliados certamente não ajudava seus instintos protetores, com medo de que, talvez, seu tio resolvesse fazer algo com os dois adolescentes — só porque sim. Não seria algo abaixo do que ele faria. Certamente que não.
Mesmo antes do incêndio, a índole do Peter sempre foi duvidosa. Mas agora? Não tinha como saber quais ações tomaria.
Felizmente ele nada fez. Nem faria. Derek não deixaria isso acontecer.
Ainda assim, a volta deles foi conveniente, com Peter em si lhe trazendo notícias. Ao que parece seu tio estava resolvendo assuntos pendentes também, só que diretamente relacionado ao que pudesse atingir a pequena cidade que moravam. O que significa que ele soube da recém chegada da alcateia de alfas, o sequestro de Erica e Boyd e como se prepararem o melhor que puderem.
Que foi como, no segundo mês a procura de rastros dos betas e dos alfas, que Derek se encontrava em outra cidade, quilômetros a oeste de Beacon Hills. Aparentemente, havia um coven de bruxas Wicca que detinham informações sobre a alcateia de alfas.
Quem o acompanhou até o encontro foi apenas Peter, com Isaac e Stiles ficando na cidade — muito para o desprazer do adolescente, Derek deve adicionar.
O encontro foi rápido. Direto ao ponto e conciso. Em troca de informações, o coven queria apenas proteção. Era um grupo pequeno de quatro mulheres, as quais não eram particularmente poderosas. Elas temiam que ocorresse retaliação ao divulgarem o que sabiam dos alfas e pediram passagem segura a Beacon Hills, para se estabelecerem em um local que tivesse uma alcateia poderosa para protegê-las.
Derek aceitou o acordo e, em troca, elas disseram o que sabiam.
A alcateia de alfas é formada por 5 membros: Deucalion, o líder (Derek ainda bufava de escárnio com isso — a ironia de uma alcateia de alfas ainda precisar ter um “alfa”), Ennis, brutamontes e seu braço direito, Kali, a malfeitora e os gêmeos Ethan e Aiden.
Havia indícios de mais uma pessoa nessa alcateia, mas a presença dela estava oculta e difícil de identificar. Uma das bruxas teorizou que poderia ser a Emissária do bando, o que poderia explicar como os alfas adentraram Beacon Hills sem Derek ou Isaac repararem.
Elas não tinham mais informações além dos nomes. Para o alfa isso já bastava.
E, ao que parece, todas as quatro faziam parte de alcateias ou grupos sobrenaturais espalhados pelo país que foram dizimados pelos alfas. Não muito diferente do que ocorreu com aquela mulher Notfae.
Porém, isso só fazia levantar a pergunta na cabeça de todos: por que? Qual o objetivo?
Como Stiles bem pontuou, aquela noite teria sido perfeita para eles atacarem. Estavam fracos, em menor número, seriam pegos desprevenidos e de quebra eles ainda se livrariam de caçadores. Por que eles não atacaram?
Racionalizar isso deixava Derek acordado à noite, ponderando se eles estavam lidando com algo mais complexo ou apenas desilusões de indivíduos loucos.
No fim, Derek conclui que, de uma forma ou de outra, isso não faz diferença. As preparações estavam caminhando a pequenos passos, mas era mais do que o suficiente agora que eles sabiam do que se tratava a ameaça.
Isso não significasse que o coração do lobo se acalmasse. O animal em sua mente andando de um lado ao outro, ansioso, alerta a qualquer ameaça em potencial. Derek sempre esteve acostumado a essa sensação, mas ele sente que desta vez esteja pior.
Talvez porque ele tenha mais a perder. Talvez porque ele não sabe como iria viver se perdesse sua alcateia. De novo.
Isso o faz relembrar o episódio do posto. Não que ele não se sinta grato a Stiles, longe disso, mas ele não devia depender do adolescente para defendê-lo. O contrário devia ser sempre verdade e mesmo assim ele se viu perdendo uma luta contra um ômega. Um ômega!
Então, depois daquele dia, Derek resolveu não se negligenciar mais. Tentava descansar o melhor que conseguia, comer muitas refeições para manter seu corpo, focava nos treinamentos com Isaac e Peter e mantinha a forma. Todo o necessário que mantivesse o jovem alfa forte, saudável e o mais próximo de seu auge.
O que resultou em seu corpo se adaptando da melhor forma possível. Ele estava... maior que antes. Quando Derek tinha virado alfa ele havia reparado nas mudanças, mas agora, com maior foco em si, só agora ele percebeu o quão diferente seu corpo estava. Vantagens de ter o metabolismo avançado de um lobisomem + a faísca de um alfa Hale, ele supõe.
E é claro que os outros repararam, especialmente Stiles, que toda a vez que se encontravam parecia não saber onde lhe olhar.
Ele se pergunta quando o garoto iria reparar que talvez ele não fosse tão hétero quanto achava. Hormônios a flor da pele. Derek não se importava com isso, mas ver Stiles sempre meio ruborizado lhe tirava uma risada sincera em particular. Adolescentes.
No terceiro mês, o penúltimo antes das voltas as aulas, Isaac (sob influência de Stiles, sem dúvidas) veio conversar com ele sobre Scott. Fez todo um argumento, dizendo que sem Erica e Boyd eles precisavam de maiores números para lidarem com os alfas quando eles aparecessem, que apenas ele e Peter não seriam o suficiente. Derek apenas levantou uma mão, silenciando o beta.
Ele estava certo.
Mesmo que Scott e Derek ainda não estivessem em melhores condições, o alfa ainda consegue reparar que o moreno traz força a alcateia. Especialmente sem Jackson na cidade, que resolveu passar as férias de verão em Londres com Lydia — a contragosto do alfa, sabendo que o recém lobo não estava pronto ainda, não tendo passado por uma lua cheia.
Sim, Derek já tinha pensado na possibilidade. Esses três meses foram o bastante para uma reflexão aprofundada da situação. O que o fez dizer a Isaac para chamar Scott para que eles pudessem ter uma reunião na antiga casa Hale, finalmente colocar os pingos nos is. E, previsivelmente, Stiles veio junto.
A conversa foi... pacífica, para dizer o mínimo.
Muita desconfiança. Muita cautela e rancor guardados. Dos dois lados.
Derek e Isaac de um, Stiles e Scott do outro. Peter não se encontrava nesse dia.
Depois do que pareceram exaustivas e longas horas de discussões e rosnados, eles chegaram num acordo: Scott auxiliaria na alcateia quando precisassem de ajuda, mas ele não se submeteria ao alfa. Aqui ele deixou bem explícito que jamais faria parte do bando.
Não muito diferente de como estava antes — tudo um dèja vu —, porém, por Derek, estava tudo bem. Ele não queria Scott como um dos membros, não no estado como as coisas estavam, mas só de ter mais um aliado era o bastante.
Eles selaram a aliança com um aperto firme de mão. Derek naturalmente apertando com mais força, para desconforto de Scott.
Isaac e Stiles exalavam cheiros característicos de felicidade e satisfação — especialmente Stiles, que mal conseguia esconder o contentamento.
Então, sim, todo o possível para se preparem foi feito.
Bastava apenas aguardar as coisas virarem um inferno. Como já era de praxe para essa cidade.
E, previsivelmente, foi o que aconteceu, no quarto mês após Erica e Boyd terem sumido, um pouco antes das voltas às aulas.
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Era noite, tinha chovido o resto da tarde. Derek e Isaac estavam novamente em rastreio da alcateia de alfas, fora dos arredores de Beacon Hills, mas próximos a cidade. Isaac sentiu o cheiro de um dos lobos e reportou a Derek imediatamente. Ao chegar ao local, ele não conseguiu localizar de imediato os rastros. A lama e a chuva certamente atrapalharam isso, mas isso não deteve os dois.
Eles continuavam a caçada. Dessa vez eles estavam mais próximos do que nunca. Em todos esses meses seria a primeira vez que os lobos estranhos puseram o pés tão próximos de Beacon Hills.
Poderia ser muito bem uma armadilha, sim, mas mesmo uma alcateia de alfas sabe que não é sábio mexer nas bordas de um território Hale. Além do mais, qual outra opção eles tinham? Derek não deixaria de passar a oportunidade de ficar cara a cara com o inimigo.
Essa terras, por mais abandonadas que tenham ficado, Nemeton sem poder, ainda tinha Linhas De Ley poderosas mas especialmente: reconheciam sua reivindicação por direito. Atacar o alfa Hale próximo de seu território sem preparo é suicídio, e, pelo o que ambos Derek e Isaac farejaram, eram apenas dois lobisomens. O por que? Não importava. Seria necessário toda a alcateia deles para impedir Derek de fazer alguma coisa agora.
Eles avançavam moderados, cautelosos, rostos e corpos transformados. Dois predadores da noite caçando sua presa em uma visão assustadora.
O breu não os impedia. Enxergavam impecavelmente no escuro e, mesmo sem a visão, seus outros sentidos mais do que compensavam. Para Derek em específico, que conhecia essas terras como a palma de sua mão, ele sabia como navegar esse território completamente cego.
De repente, movimentos repentinos. Ambos se viram e reparam: a distância, duas figuras fugiam.
Derek fareja o ar.
Os gêmeos. Aiden e Ethan.
Ele rosna e sinaliza a Isaac. Ambos se movem, rápidos. Folhas e galhos de árvore espalhavam-se tamanha a força que eles faziam para acompanhar os gêmeos.
Não demoraria muito para eles os alcançarem.
Eles os pegam, um tanto quanto fácil. Até demais.
Combate se espalha — golpes são trocados, garras e presas trocadas. Um braço é jogado contra Derek, que bloqueia o ataque e joga um dos gêmeos contra uma das árvores. Isaac, por sua vez, conseguia se manter em pé de igualdade com o outro. Derek não poderia deixar de sentir orgulho. Certamente Isaac teve um longo caminho até chegar a esse ponto.
De fato, os gêmeos eram alfas, mas lhes faltava a experiência. Seu golpes, mesmo que precisos e fortes, faltavam coordenação e técnicas certas. Isaac, sendo um lobo a poucos meses, beta ainda por cima, se sai melhor em comparação.
Algo para se analisar com mais calma, em outra situação. O importante é subjuga-los e extrair a informação que precisavam dos betas e do resto da alcateia. Isso se o resto não decidisse aparecer agora.
Os gêmeos, ao repararem que estavam em desvantagem, bruscamente se afastam. Olham um ao outro e acenam com a cabeça. Eles juntam os braços.
Derek e Isaac já estavam avançando novamente, mas param momentaneamente com a visão. O que... era aquilo?
Seus corpos... estavam se juntando. Criando algum tipo de único ser. Uma assimilação bizarra.
Algo errado. Como se fosse contra a própria natureza em si.
Não natural.
Logo, os dois corpos juntaram-se em um só. Uma figura grande, monstruosa. Facilmente rivalizava Ennis em tamanho.
Derek apenas rosna. Mas seria o bastante para se rivalizar a ele e a seu beta?
Era o que eles iam descobrir.
Ambos os lados avançam. Isaac tenta um ataque preventivo, mas sem sucesso, facilmente bloqueado com um braço. Ele é arremessado longe. Com o outro distraído pelo seu beta, Derek avança, liberando um soco na lateral do corpo da aberração, com força. Ele sente as costelas dele quebrando.
O alfa ruge e tenta um ataque com garras. Derek se desvia rápido, mantendo certa distância. De seu ponto, ele vê seu golpe certeiro lentamente se curando no corpo da besta. A criatura ofegava pesado.
Hm. Eles podiam estar mais fortes nessa condição, com um fator de cura mais acelerado que o normal, mas eles se cansavam rápido.
Derek sorri, boca cheia de presas. Se eles mantivessem distância e cansassem a criatura, eles poderiam ganhar essa luta e levar os gêmeos. Fácil.
Mas, de novo, fácil demais. Derek ainda decide manter a cautela.
Isaac se junta ao seu lado, cabelo eriçado e sujo. Ele estava irritado.
Juntos avançam. As feras rosnando em uma sinfonia animalesca, que deixava a floresta totalmente em silêncio, nenhum criatura noturna ousando interromper a sangrenta batalha de lobisomens.
Isaac leva uma arranhada no braço. Derek retalha com as próprias garras, rasgando o abdômen dos gêmeos. Eles, então, contra atacam, jogando Derek com força no chão.
O alfa fica desnorteado por um segundo, mas foi o suficiente para a aberração avançar para cima dele.
Isaac pula nas costas do lobo, golpeando-o diretamente no pescoço. A garras não se enfiavam fundo, a pele deles neste estado mais grossa que o normal, mas causavam dano o suficiente para os gêmeos se afastarem de Derek, tentando golpear e arrancar o loiro de suas costas.
O alfa Hale, não querendo perder a oportunidade, avança. Mão direita enrijecida em um punho, puxando todo o poder da terra para si quanto podia. Ele sente o território correspondendo, lhe dando força o bastante. Seu punho se conecta a barriga do monstro, Isaac pulando no último segundo.
O impacto joga os gêmeos com tamanha força contra uma árvore, fazendo um buraco. Eles não param de voarem até atingirem mais árvores, o caminho que deixavam um rastro pelo chão.
— Caralho... — diz Isaac, impressionado. Seus olhos dourados arregalados.
Derek nada diz, ofegante, tentando acalmar os ritmos cardíacos. Sendo sincero, mesmo o alfa estava impressionado.
Sim, ele sabia que sua conexão com a terra era forte, mesmo quando seu trabalho como alfa não tenha sido excepcional. Mas ele não imaginava que conseguiria fazer algo nessa escala.
Árvores lentamente caíam, outras mantinham-se em pé. O silêncio da noite somente era quebrado pela respiração dos lobos.
Lentamente os gêmeos saem, não mais em assimilação. Eles cambaleiam e caem ao chão. Ainda estavam vivos, mas bem feridos.
Derek corre até eles, Isaac logo atrás na retaguarda. Eles não puderam chegar muito perto ao repararem que o ar fica com um cheiro estático.
O alfa fareja o ar. Ozônio.
Alguém estava conjurando magia.
E, então, antes que eles pudessem enfim atingir os gêmeos, os lobos são jogados para trás, como se uma força invisível os tivesse jogado em pleno ar.
Derek se recupera e olha em volta. Seu olhos vermelhos fixam-se em um recém chegado, encapuzado, logo a frente dos gêmeos. Emissário? A criatura em seu cérebro pergunta.
Ele não sabe dizer com certeza, mas era o que parecia.
A aparição de um Emissário complicava as coisas. Lobisomens e magia nunca se misturavam bem, especialmente em uma luta em que ataques a distância era a melhor arma de um usuário de magia. E, pela densidade de ozônio no ar, este era poderoso.
Seria complicado demais enfrentar o Emissário da alcateia de alfas agora. Isaac já não estava em boas condições e Derek já se esgotou ao puxar poder de seu território. Ele precisaria de mais betas para ter chance.
Ele range os dentes. Mesmo com as probabilidades contra seu favor, ele ainda precisava de informações.
Eles já estavam sem tempo. Erica e Boyd estavam sem tempo. Um pouco de magia não vai segurá-lo.
Com um joelho posto em frente, ele lentamente levanta. Se coloca em posição, pronto para avançar de novo.
Antes que ele pudesse dar mais um passo, ouve uma voz penetrar o breu da noite.
— Impressionante.
De trás das árvores, surge mais um. Lobisomem, ao que parecia. Derek então fixa melhor o olhar. Fareja o ar e estreita os olhos.
Deucalion.
— Sabe, já ouvi rumores. Mesmo quando Beacon Hills estava no seu auge, nunca presenciei os Hale capaz de feitos como os desta noite. — lentamente um bater de palmas. Contra o antebraço, segurava uma bengala. — Mesmo Talia sendo poderosa como foi, creio eu que nem ela conseguiria fazer isso.
Olhos vermelhos brilham por de trás de óculos escuros.
— Você deve ser um Hale bem especial.
As gengivas de Derek coçavam. Queria enfiar seus dentes na jugular deste homem.
Deucalion apenas ri.
— Mas também, acho que é o esperado. Afinal, você não deveria ter sido alfa. Não é, Derek?
E então, surge mais de seus aliados. Uma mulher descalça e um brutamontes. Kali e... Ennis.
Oh, como o lobo em sua mente estava inquieto. Tão pronto para pular na frente da figura maior, fazê-lo em pedaços.
Mas Derek reina esse sentimento. Agora não. Ao invés disso, apenas diz, sob dentes cerrados, presas se destacando.
— Por que não vem até aqui para saber o quanto não deveria ter sido alfa, Deucalion?
O homem cego ri novamente.
— Oh, não. Não ainda. Está noite foi apenas... — ele estala a língua — uma demonstração.
Um sorriso, sinistrado e maligno.
— Mas basta disso. Já conseguimos o que queríamos. Querida, — dirija-se ao Emissário — nos leve de volta.
— Claro, alfa.
O ar novamente se carrega de ozônio. A pessoa, uma mulher ao que aparenta, conjura a partir de uma runa, que brilhava em azul em sua pele escura, um feitiço carregado de magia.
— Até Derek.
O alfa, então, decide avançar. Sem chance que ele deixaria eles fugirem quando estavam bem em sua frente. Ele puxa poder da terra novamente, ganhando velocidade.
Deucalion levanta um sobrancelha. Novamente impressionado.
Mas antes que Derek chegasse perto, uma barreira invisível o para, impedindo seu progresso. Suas mãos se forçavam contra uma parede feita de uma força oculta. Ele decide olhar seus pés.
Uma linha preta estava no chão da floresta. O cheiro algo familiar a todas as criaturas sobrenaturais.
Cinzas de montanha.
Ele encara a alcateia a sua frente. Ennis e Kali estavam, cada um, com um dos gêmeos. A Emissária tinha uma das mãos levantadas, tendo conjurado a linha de cinzas e a outra, com a runa ainda brilhante, lança o feitiço. Deucalion apenas continuava sorrindo.
O ar em seu volta ganha um tom da noite, escurecendo sua visão. Não, todos os seu sentidos. Ele estava totalmente inerte, sem saber o que estava acontecendo a sua volta. Não conseguia ver, farejar, tatear, provar ou sequer ouvir. Era assustadoramente quieto da pior forma possível.
Entretanto, tão logo seus sentidos foram cortados, eles voltaram em seguida. E sem nenhum dos lobisomens e Emissária a sua frente.
Eles fugiram.
Derek só encarava o encontro, estupefato, ainda com o lobo impaciente na sua cabeça. Ele decide não segurar mais.
Ele ruge, alto, frustração vibrando. Toda a terra treme, sem dúvidas todo o território de Beacon Hills sentindo sua fúria.
Não! Eles estavam tão perto! TÃO PERTO!
Ele respira rápido, tentando se acalmar. Era difícil, talvez o mais próximo que ele chegou de perder o controle por completo. Certamente não desde que sua família morreu.
Isaac, logo atrás, ainda cansado e ferido do encontro, tímido, tenta chamar a atenção do alfa.
— Derek?
Ele lentamente se vira. Ainda concentrado na própria respiração, tentando se acalmar. O mantra não mais tão efetivo quanto ele achava.
— Vamos embora.
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O ocorrido foi a poucos dias. Isaac ainda se recuperava das feridas, tendo caído em exaustão assim que o alfa o trouxe para a residência Hale. Ele ficou um dia todo dormindo. Derek não estava preocupado. Apesar do que parecia, o beta estava se recuperando bem.
Derek estava na antiga casa Hale, arquivos, mapas e amostras espalhados em cima de uma mesa. Ele analisava tudo. Crítico. Isaac, a esse ponto, já estava melhor e tinha saído. O alfa o instruiu a procurar o Peter.
Toda a informação sobre os lobos contidos bem ali na mesa.
Derek estava sentando em um sofá queimado, uma mão contra outra, olhando os dados a sua frente.
Ainda sentia a mais pura ira em seu corpo. Era difícil não perder a paciência. E como ele não poderia? No ritmo que estavam as coisas, Erica e Boyd poderiam estar... mortos. A alcateia de alfas claramente conseguia entrar em seu território sempre que quisessem. Poderiam ir embora sempre que quisessem. Causar danos inimagináveis e Derek não poderia fazer nada quanto a isso.
E como se para tirar com sua cara, ainda marcaram o símbolo deles, com garras, na porta de entrada da casa Hale. Um símbolo em espiral, não muito diferente do Triskelion de sua família.
Era frustrante. Fazia o alfa sentir-se impotente, incapaz de fazer qualquer coisa para impedir.
Se apenas ele tivesse um Emissário, como sua mãe tinha, talvez...
Não. Ele balança a cabeça. A esse ponto não faria diferença. E eles não ficaram esses meses todos atoa.
Estavam tão bem treinados quanto podiam. Tão bem preparados quanto podiam. Poções com líquidos duvidosos mas eficazes, aliados inesperados feitos, alcateia mais fortalecida do que nunca. O que podiam ter feito já foi realizado.
E, ainda assim, Derek sente que podiam ter feito mais. Muito mais.
É nessas horas que ele sentia mais falta de Laura que o normal. Ela saberia o que fazer, como sempre fazia.
Algum dia você terá que aprender a se virar, irmãozinho. A vida não é feita apenas de sobrancelhas expressivas, caras feias e carros esportivos.
Foi uma das últimas coisas que ela disse antes de sair de Nova York para retornar a Beacon Hills. E se apenas soubesse que seria a última vez que Derek veria sua irmã, ele teria feito mais.
Ele suspira pelo nariz, fechando os olhos. Sente uma dor de cabeça querendo se alastrar, o que é incomum em lobisomens. Ele supõe que o acúmulo de estresse dos últimos dias é o culpado disso.
Ao longe, talvez a quilômetros de distância, ele ouve um som de um veículo se aproximando da casa. Derek não se alarma, reconhecendo o som daquele Jeep velho em qualquer lugar.
Stiles tem sido uma constante nestes últimos meses, sua presença um estranho conforto. Mas hoje, Derek não estava com paciência para lidar com seja lá o que adolescente queira, a menos que fosse ajudar com a investigação. O que ele dúvida, considerando que, agora, com o veículo mais próximo, ele consegue ouvir um outro distinto batimento cardíaco.
Derek revira os olhos. Mas que ótimo.
Logo o veículo estava se aproximando e estacionando em frente a casa decrépita. Derek tinha levantado, esperando em frente a porta de entrada. Sim, ali estava.
Scott McCall.
Os dois adolescentes saem do carro. Stiles indo logo a frente, Scott não ficando muito atrás.
— Ei, Derek. — diz Stiles, um sorriso amigável.
— Stiles. — braços cruzado ao peito, reconhece o garoto com um curto aceno de cabeça.
Ele olha o beta. Scott não diz nada. Sua carranca se aprofunda.
— McCall.
Ele tenta o mesmo. Scott ainda não diz nada, agora um pouco envergonhado, mas retribuí o gesto com um aceno de cabeça.
Derek só encara os dois. Apesar de tudo, ainda havia tensão.
Stiles limpa a garganta.
— Então, Scottzinho aqui — joga um braço por cima do ombro do amigo — precisa de uma ajudinha com uma coisa. Não é, Scott?
O moreno só grunhe em contragosto, assentindo com a cabeça.
Derek fecha os olhos. Não estava com paciência para que seja lá o que ele quisesse. Mas sabe que ficar argumentando era, de novo, perda tempo. Melhor entreter o que Scott queria e quanto mais cedo ele fosse embora, melhor.
O alfa se vira, indo em direção a casa, ainda sem dizer nada.
Da sala, onde ele estava limpando a mesa e guardando os papéis, ouve os dois brevemente conversando lá fora.
— Eu te disse que era uma má ideia, Scott.
— Talvez. Não tinha como saber se não pedir.
— Mas nem o Deaton sabia de uma resposta! Fora que o Derek está irritado. Dá para reparar.
— Ele tá sempre irritado. E também não é como eu tivesse outra opção.
Stiles grunhe.
— Eu ainda odeio que você fez isso.
Os dois estavam entrando. Stiles já estava na sala, Scott tinha parado brevemente a porta. Tinha reparado na marca deixada pelos alfas.
— O que é isso? — indaga o beta.
— Problema meu. Não se preocupe com isso. — Derek volta a se sentar, desta vez na mesa, depois de retirar as coisas.
O alfa pensou que Scott fosse perguntar mais. Ele tinha o cenho em uma expressão confusa, mas seja lá o que passasse na cabeça dele, ele resolve ficar quieto.
Derek só observa. Interessante. Será que ele finalmente está aprendendo?
— Do que precisa? — pergunta Derek, olhando de Stiles, que estava ao lado, de braços cruzados, e então a Scott, que estava lentamente se aproximando até ficar em frente ao alfa.
Stiles faz um gesto encorajador ao amigo.
— Vai, mostra a burrada que tu fez.
Scott, em um leve suspiro, senta-se em um cadeira em frente.
— Fui a estúdio de tatuagem. Resolvi fazer uma tatoo. — rola a manga da camisa, expondo o braço esquerdo. — Mas depois de um tempo a tatuagem sumiu!
A pele estava rosada. Nenhum sinal que algo tenha rompido a carne.
Os olhos de Derek ficam em vermelho. Repara na pele exposta. Ah, sim. Lá estavam. Duas... faixas pretas?
Ele levanta uma sobrancelha.
— Por que uma tatuagem?
— Porque Scott é um idiota, que não entende o significado de uma tatuagem! — diz Stiles, exasperado, mãos indo ao ar.
— Isso não é verdade. Na verdade, eu sempre quis fazer uma tatuagem — com a mão direita, passa dedos por cima de onde a tatuagem deveria estar — mas nunca vi necessidade de fazer uma até agora.
Stiles bufa.
— Espera só ouvir o porque.
O alfa espera, ainda quieto, observando a troca entre os adolescentes.
— Eu... — ele pausa por um momento e então continua — eu meio que queria que tivesse um bom significado para quando fizesse uma. Eu sempre tive certeza que quando fizesse 18 anos eu faria uma, mas resolvi adiantar isso.
Ele dá de ombros.
— Meio que como uma recompensa por respeitar o espaço da Allison. Por não ligar para ela, não ir atrás dela, não conversar com ela. Todo o verão sem contato com ela, por mais difícil que tenha sido. Depois que terminamos eu... — ele não termina.
Ele olha Derek, que ainda continuava em silêncio.
— Sabia que em samoano, tatuagem significa “ferida aberta”? Na cultura deles também simboliza responsabilidade e consciência das próprias habilidades e capacidades. Meio que... meu relacionamento com ela e comigo mesmo.
Derek olha Stiles. O adolescente dá de ombros.
— Ele andou lendo muitos livros nesse verão. Na verdade, é uma coisa boa. Até mesmo tava tendo aulas durante as férias para corrigir as notas. Scott está se esforçando.
O adolescente então se aproxima do amigo, lhe dando uma tapa na nuca. A ação incomoda Scott mais do que ele sente.
— Uma pena que ele decidiu fazer duas faixas idiotas! Só duas faixas, Derek! Nem para fazer, tipo, um lobo ou algo mais simbólico.
— Ei, duas faixas são bem simbólicas! — com o cenho franzido, mão esfregando a nuca como se tivesse sentido o tapa (Derek sabe que não é o caso) — É só que... só quis fazer duas faixas. Só isso.
Scott o olha, desta vez determinado.
— Então... pode ajudar?
Derek continuava em silêncio, ainda encarando o beta com a íris vermelha. Ele suspira pelo nariz e fecha os olhos.
Mas que motivo de merda.
O alfa tenta não julgar. Pessoas fazem tatuagens pelos mais diversos motivos. Se alguém quiser arranjar um significado para isso, que seja, não é importante.
Porém, fazer duas faixas pretas no braço como recompensa por respeitar o espaço de uma pessoa? Sério? Ele poderia ter permanecido apenas com a desculpa de ser crescimento pessoal. Ao menos faria Derek respeitar mais a decisão. Stiles estava certo: Scott é um idiota!
Mas que se foda. O garoto quer uma tatuagem? Derek vai dar uma a ele.
Decidido, move a mão para debaixo da mesa, tateando em volta até encontrar o que procurava. Retira uma caixa e coloca em cima da mesa. Depois de abrir, retira o objeto.
Scott e Stiles apenas encaravam, de olhos arregalados, o maçarico, a chama azulada lentamente ficando maior conforme Derek ajusta.
O beta estava apreensivo. O lobisomem só o encara, seu rosto sem emoção alguma.
— Não queria uma tatuagem? É o único jeito.
Stiles, ainda de olhos arregalados, começa a se mexer.
— Ééééé, então... Foi uma ótima ideia vir aqui, Scotty. Boa sorte! Vou esperar lá for—
Antes que Stiles pudesse sair, Derek havia estendido um braço, colocando no peito do garoto e impedindo que ele dê mais um passo.
— Você fica. Precisa segurar ele.
Stiles só engole em seco, encarando o maçarico na mão do outro alfa.
— Ah, cara...
Com uma careta, fica atrás de Scott, uma mão em cada ombro, o segurando na cadeira.
— Estende o braço. — ordena o lobo e Scott prontamente o faz — E aqui, — entrega um pedaço de madeira — morde isso.
Scott não teve tempo de protestar antes de Derek começar queimar a pele. Cheiro de carne chamuscada permeia o ar, sufocando momentaneamente o alfa. Ele tinha certeza que mesmo Stiles consegue sentir o cheiro, a julgar pela expressão de desgosto e horror em seu rosto. Ou só poderia ser a ação violenta de ver seu melhor amigo tendo a pele queimada.
Os gritos de Scott ecoavam pela casa, mordendo o pedaço de madeira com tanta força entre os dentes que acaba rachando. Seu corpo se debatia, instintos lhe dizendo para fugir dessa dor, mas Stiles firmemente o segurava na cadeira. Mantê-lo no lugar era difícil, o beta facilmente tinha mais força que o outro adolescente, porém Stiles conseguiu segurá-lo por tempo bastante.
Logo, Derek já tinha passado o maçarico por toda a extensão do braço onde estava a tatuagem. Todo o processo não deve ter levado mais que alguns segundos. Scott tinha desmaiado.
Stiles, ainda pálido, com uma cara entre exaspero e um pouco de medo, diz:
— Ah, cara. Espero que não tenha matado o Scott.
Com uma queimadura no braço? Derek revira os olhos, não mais em cor carmesim.
— Ele só desmaiou, Stiles.
— Ah, sim, claro. Com certeza é a melhor alternativa aqui. Queimar a pele dele é nada demais. Uma inconveniência.
O tom sarcástico estava carregado. Derek escolhe não dizer nada, resolvendo guardar o maçarico de volta na caixa. Ele olha o garoto, que ainda se deu o trabalho de checar o pulso de Scott.
Ele só levanta uma sobrancelha a isso. Stiles repara.
— Que? Só para ter certeza...
Ao garantir que seu melhor amigo não estava morto, Stiles visivelmente relaxa.
E então silêncio, quebrado apenas pela respiração estável do beta. Ambos Derek e Stiles não sabendo o que dizer. O garoto resolve sentar-se a mesa, espaço entre eles, imitando o gesto do alfa com as mãos nos joelhos.
Derek tenta ignorar, mas ele sente aqueles olhos âmbar curiosos em sua pele. Ele se vira para olhar Stiles, que estava sim o encarando, mas não seu rosto em específico.
O lobo então repara o porquê.
— Com você... foi a mesma coisa?
A pergunta do adolescente era carregado de curiosidade, com um pequeno toque de admiração — e se Derek cheirasse o ar, com certeza sentiria também interesse. Hoje, o alfa usava uma camiseta tank de cor branca. Braços fortes expostos e, pela posição que Stiles estava, conseguia ver um pouco de sua tatuagem.
De repente, Derek sente-se consciente do próprio corpo.
— O que quer dizer? — tenta desviar o assunto.
Sabe que é em vão, pelo olhar que Stiles lhe lança.
— Você sabe. O Triskelion nas suas costas. É... símbolo de sua família, né? — a pergunta veio cuidadosa — Alguém fez o mesmo por você?
Por um momento, Derek não consegue responder. Stiles, sempre curioso, não ficaria quieto, especialmente com Scott ainda desmaiado. Isso o faz lembrar do dia que ganhou a tatuagem.
Ele pondera por um momento, pensa se valia a pena ou não divulgar um pouco de sua vida pessoal para o garoto. Não era algo muito íntimo, mas ainda era um pedaço de si que ele prefere não sair dizendo aos outros.
Quando o silêncio se alastra por tempo demais, a ponto de Stiles começar a abrir a boca para dizer alguma coisa, se desculpar ou trocar de assunto, Derek o corta:
— É símbolo de minha família, sim. — ele pausa um momento, escolhendo bem suas próximas palavras.
Ele ainda hesita. Mas resolve dizer.
— Laura ajudou.
Ele vê o garoto analisar isso por um breve tempo. Ele então diz:
— Deve ter doído para caramba.
Derek solta um leve riso.
— Mais do que Scott sentiu, sim.
Stiles brincava com os dedos, ainda olhando a tatuagem nas costas do alfa.
— Isso foi... — ele hesita — antes?
Do incêndio.
Derek range os dentes.
E aqui já estavam chegando num território perigoso. Próximo demais de traumas, angústias e más decisões do passado. Mas ao olhar aqueles olhos âmbar, aquela curiosidade genuína, nem mesmo um pouco de julgamento carregado...
Derek não sabe o porquê, mas ele resolve compartilhar um pouco mais.
— Foi depois.
Ele olha as próprias mãos, de repente sem saber o que mais fazer. Ele não sentia-se confortável em compartilhar isso, mas não achava que fosse causar muito mal o moleque saber. Qual era o ditado mesmo? Ah, quem está na chuva é para se molhar.
— Eu senti que... — ele não termina, não conseguindo dizer isso em voz alta. Mas o sentimento ainda estava lá, mesmo que trancafiado.
Eu senti que merecia. A dor.
Ao invés disso, resolve dizer:
— É uma tradição.
Da caixa de onde estava o maçarico, retira um outro objeto. Também um Triskelion, similar em aparência a tatuagem em suas costas, entalhado em madeira. Ele entrega o símbolo ao adolescente, que olhava fascinado o objeto em suas mãos. Ele virava de um lado para o outro, absorvendo cada detalhe.
— Marca maturidade, reconhecimento e... — ele para um momento e continua — inclusão.
Stiles então o olha. Aqueles olhos grandes, cheios de curiosidade, ainda sem julgamento, apenas querendo compreender e aprender tudo.
E Derek... apenas continua falando.
— Marca seu lugar na hierarquia. Também um símbolo que você sempre pode começar do topo — com um dedo, ele traça uma espiral no objeto, indo até o centro e continuando o curso até a outra espiral mais embaixo — e cair.
— Alfa, Beta e Ômega. — diz Stiles, compreendendo.
Derek assente com a cabeça.
— Mas... é sempre uma tatuagem? Acho meio radical demais gravar isso no corpo. Digo, claro, agulhas e fogo, mas mesmo para um lobisomem não é um processo nada agradável.
O garoto se arrepia, provavelmente imaginando que todos os Hale passaram pelo mesmo processo. Derek solta um curto riso, sem som, entendendo a confusão.
— Não. Caiu em desuso. Não fazem mais assim hoje em dia.
Uma pausa. Ele desvia o olhar.
— Preferem outras marcas, tipo adornos.
Stiles pisca.
— Mas você tem uma tatuagem.
— Sim.
Stiles não pergunta, mas a questão ainda pairava no ar. Derek escolhe não responder e decide que compartilhou o bastante.
Um grunhido tira a atenção dos dois. Derek e Stiles viram-se em direção a Scott, que lentamente acordava, o rosto em uma careta, sem dúvidas ainda sentido a dor do maçarico.
Ele verifica a pele, que já estava sarando bem, e um pequeno sorriso se espalha no seu rosto. Admirado, passava os dedos por entre as duas faixas destacadas no braço. Dessa vez permanente e visível a olho nu.
— Funcionou! — diz alegre, rosto em covinhas — Obrigado, Derek.
O alfa só grunhe em reconhecimento. Ele levanta e Stiles segue, indo em direção ao amigo para verificar.
Ele balança a cabeça, com braços cruzados. Porém o rosto demonstrava nojo.
— Ótimo, muito bacana. Mas ainda é feio para caralho. — um arrepio exagerado pelo corpo — Se tiver uma próxima vez já vou avisando que não vou ajudar!
— Se preocupa não. Só essas servem.
Scott ainda parecia em transe com a tatuagem, enquanto Stiles só balançava a cabeça, resignado. Sem dúvidas imaginando que não seria a primeira vez.
Derek não se importava. Só queria que eles fossem embora para que ele voltasse a sua investigação. Ele limpa a garganta, chamando a atenção deles.
— Se for só isso já podem ir.
Parece ter tirado os adolescentes do mundinho deles. Stiles revira os olhos, murmurando um “lobo rabugento”. Se era para Derek ouvir ou não ele não sabe.
Eles se movimentam, prontos para ir embora, quando Scott para no limiar da porta. Stiles esbarra no amigo com o movimento abrupto. Faz um pequeno som.
— Derek, se precisar de ajuda, sabe que pode conter conosco, né?
O alfa, que estava novamente reorganizando a mesa, volta o olhar a porta. O moreno estava olhando a marcação. E então, os olhos de Scott, determinados, o encaravam. Não um desafio, mas um pedido silencioso.
Derek volta a organizar a mesa.
— Eu sei, Scott. Não se preocupe.
Ele pensa por mais um momento e resolve acrescentar só para garantir.
— Esses próximos dias... fiquem alertas. Logo os alfas agirão. Não fiquem sozinhos.
Ele segura, firme, os olhares de ambos. Os dois confusos, mas compreendendo a situação. Sabem que Derek não falaria mais nada.
Com um último olhar e um aceno de cabeça, Scott sai da casa. Stiles permanece por um breve momento, parecendo querer dizer alguma coisa, mas Derek já não estava mais prestando atenção. O adolescente, a contragosto, segue o beta.
O Jeep ganha vida poucos momentos depois e tão logo eles vieram, já estavam indo embora. Os pneus do carro fazem barulho no chão da floresta, logo atingindo a estrada asfaltada. Pouco a pouco, o som diminuía até Derek não ouvir mais nada.
Ele suspira, aperta a ponte entre o nariz e a testa. Tinha voltado a sua posição inicial antes dos dois aparecerem.
Mapas, documentos, amostras, rastros, últimos movimentos anotados, dados gerais sobre os inimigos e também aliados.
Não importava o quanto olhava, não conseguia ver mais nada além do que já sabia. Nenhuma informação nova veio a tona desde aquele encontro na floresta. E também não conseguia raciocinar mais nada. Sentia-se... cansado.
Ele balança a cabeça, de repente sem ideia do pensar ou fazer.
Retira o celular. O horário dizia 17h39. Logo, logo escureceria. Decide então ligar para o tio.
Ele atende com dois toques.
— Sobrinho querido... — a voz irritante e aveludada de Peter se arrasta — A que devo esta ligação?
Derek fecha os olhos. Paciência.
— O loft. Já está pronto?
Ele praticamente ouve Peter rolar os olhos na outra linha.
— Sempre um charme falar com você. Estou bem, obrigado por perguntar. — uma risada sarcástica — Mas, claro, o loft. Já foi resolvido.
Ao menos alguma coisa foi resolvida.
— E a papelada?
— Tudo assinado, dinheiro transferido. Falta só a parte da decoração, troca de pisos, paredes, pinturas, o de sempre...
Uma pausa na outra linha. Peter estava mexendo em alguma coisa.
— Praticamente já dá para morar.
— Ótimo.
Decidindo que não haveria mais progresso aqui, volta a guardar tudo que estava na mesa. Com tudo em seu lugar, leva a pequena caixa e envelopes de papel até seu camaro.
Com um celular contra um ouvido, Derek retirava a chave do bolso para ligar o carro. O motor ruge.
— E o Isaac?
— O mandei para lá. Ele disse que queria conhecer o lugar. Escolher o quarto. — um suspiro, um tanto dramático — Adolescentes.
Derek bufa, não concordando ou discordando do tio.
— Me faça uma lista do que falta. Irei ao depósito.
— Nossa, quanta exigência. Considerando que fiz a maior parte do trabalho no mínimo um “obrigado” já servia.
Peter faz um som com a boca na outra linha, algo como tsk tsk, como se ele estivesse verdadeiramente decepcionado.
Derek só revira os olhos. Seu tio sempre teve tendência para a dramaticidade.
— Mas sei que lá no fundo, bem no fundo mesmo, você se sente agradecido. Então, de nada.
Ele desliga. Derek só joga o celular no banco do passageiro, o movimento perturbando a caixa e envelopes com os dados que tinha coletado.
No momento, sua mente estava focado apenas em seu novo covil. Grande o bastante para toda uma alcateia morar, espaçoso o bastante para privacidade, mas o mais importante: era isolado. Um local perfeito para agirem longe de olhares curiosos.
Quando Peter comentou de um prédio a venda, localizado em um bairro afastado da cidade, pouca vigilância e atividade gerais de seres humanos (e por um bom preço, ainda por cima), Derek não poderia deixar a oportunidade passar. Ele já estava procurando um local melhor para morar a algum tempo, e o loft caiu no seu colo na hora certa.
Ele comprou todo o prédio, muito para descrença e satisfação do antigo proprietário. O local estava em estado de abandono, ninguém tinha interesse em morar ou comprar os apartamentos, tanto por ser uma rede de lofts quanto a localização. Para ir ao mercado, por exemplo, seria necessário usar meios de transporte.
Para quem procurava conforto não era o local mais ideal. Isso não significava que não morassem pessoas no bairro, porém o fluxo era consideravelmente baixo.
Com seu tio cuidando das transações e papeladas, Derek não precisaria desviar seu foco dos alfas. Porém, sem progressos, não havia muito que ele pudesse fazer. Ele tinha uma única opção: esperar.
E Derek odeia esperar.
Mas, primeiro, fazer compras. O loft precisava de renovações, novas pinturas, novos pisos e novas paredes.
De canto de olho, ele vê seu celular vibrando. Uma mensagem de Peter, com uma lista. Derek solta uma risada seca.
Apesar de tudo, seu tio ainda resolveu fazer o que ele queria.
Com o carro pronto, Derek resolve ir. Melhor resolver o que ele consegue no momento.
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Ao longe, em Beacon Hills, uma enorme construção de pedra, antiga e marcada pelo tempo, se destacava. O cheiro de mofo, umidade e frio destacavam o local, mesmo em plena luz do dia.
À primeira vista, parecia ser apenas um local abandonado. Um dia já foi um banco prestigiado, as letras velhas e faltantes de “Banco Nacional Beacon” denotava isso. As paredes manchadas de marcas de pichação, algumas novas foram adicionadas a poucas semanas. O local era famosamente conhecido por ser um ponto onde adolescentes iam. A estrutura antiga, com vários lugares escondidos, perfeito para jovens se aventurarem.
De fato, um lugar confuso. Perfeito para um esconderijo.
Deucalion boceja, confortável, sentado em um sofá. Todos esses meses e um ótimo local para ficarem bem abaixo de seus narizes.
Não o incomodava, até achava aconchegante a atmosfera, diferente de Kali, que estava tão desconfortável com a aparência e estado do novo território que era visível. Se ela fosse uma loba de verdade, ele a imaginaria com o pelo todo eriçado. Os outros não se incomodavam: Ennis parecia entediado e os gêmeos apenas inquietos.
Mas faltava um membro. Mesmo cego, ele repararia na falta dela.
— Onde está a Emissária?
Diz Deucalion, relaxado contra o sofá e pernas cruzadas.
Kali quem responde, a voz num timbre de desconforto.
— Saiu. Disse que precisava verificar as “proteções” em volta do território.
Deucalion faz um som de hm, desinteressado.
— Aquela sempre faz o que quer, não? Bem, isso não importa. Contanto que ela faça o que tenha que fazer.
Kali bufa em escárnio.
— Não confio nela.
— Ninguém confia, Kali. Ela é estranha.
Quem disse isso foi Ennis, sua figura imponente se aconchegando contra Kali, que apenas suporta o peso do outro alfa.
A loba acaricia o braço grande do outro, que o envolveu na cintura dela e cheirava seu pescoço. Deucalion revira os olhos. Mesmo cego, até ele consegue ver essa cena. Não havia lugar para sentimentos nesta alcateia, mas não é como se ele pudesse obrigar seus membros a não se envolverem. Céus, nem ele é tão monstro assim!
Como ocorre com a Emissária, contanto que façam o necessário, o resto não tem relevância. É o que escolhe dizer ao alfa maior.
— Questionar a lealdade dela é desnecessário. Não é importante. Mas agora, — ele estala os dedos, puxando o foco da atenção totalmente para si— Aiden. Ethan.
Os gêmeos, ainda inquietos, se aproximam. Estavam visivelmente machucados, a luta com Derek Hale e seu beta ainda tinha de se curar por completo. Em melhor estado que antes, mas não se curando o mais rápido que poderiam.
Deucalion faz um som, decepcionado.
— Ainda nesse estado?
Estavam desconfortáveis. Claramente não esperavam ainda estarem assim.
Um deles responde. O lobo presume que é o Aiden.
— Subestimamos o alfa Derek. Não contávamos que ele fosse tão... forte.
— Não só ele. Aquele outro também. — diz Ethan, apoiando o irmão.
Deucalion levanta uma sobrancelha.
— Ora, mas é claro que ele é forte. É um Hale! Só o fato de vocês terem subestimado um Hale demonstra sua incapacidade.
Os gêmeos tremem. O choque de suas falhas nítido pelo olhar no rosto deles.
— Não falharemos da próxima vez.
— Sim, obviamente. — descruza as pernas, ficando de pé — Porque não haverá uma próxima vez.
Se aproxima dos gêmeos, que permaneciam colados onde estavam, medo irradiando de suas peles. Ele coloca suas mãos nos pescoços dos dois, agarrando firme a nuca.
Deucalion balança a cabeça. Mesmo com a faísca dos líderes dos lobos correndo em suas veias, eles ainda agiam muito como betas. Seria um desperdício, honestamente, se não fosse pela aquela habilidade singular deles.
— Alfa Deucalion—
— Quietos.
Ele os corta, não sabendo qual dos dois queria dizer alguma coisa. Eles prontamente não falam mais nada.
— Ouçam bem. Não gosto de me repetir.
Com olhos brilhantes em carmesim, presas e garras se destacando, ele encarava os gêmeos. Sua garras perfuravam a pele deles, fundo o bastante para sangrar. Não fazem um som, mesmo quando estavam sentindo a dor. Nesse estado, ele conseguia ver tudo. Era eufórico.
— A partir de amanhã, vocês irão se matricular na escola de Beacon Hills. Se misturarem entre os adolescentes, se aproximarem do círculo interno de Derek Hale, o necessário para conseguirem o máximo de informações.
Eles queriam protestar. Estava óbvio pelo olhar no rosto deles. Mas os gêmeos sabiamente ficam quietos.
— Em dado momento, vocês farão isso até receberem meu sinal.
Ethan responde.
— Será feito, alfa.
— Claro que sim... — em um movimento rápido, perfura os dois com suas garras, no mesmo local onde Derek Hale os acertou.
Os gêmeos caem ao chão, sem ar, pegos desprevenidos, se antes ainda se recuperando da luta contra o Hale, agora estavam piores. Deucalion garantiu não ter acertado em órgãos vitais.
— Do contrário, não terão de se preocupar em falharem de novo.
Gemidos de dor como resposta. Rapidamente o ar fica com cheiro de sangue. Deucalion olha suas garras e, com um sorriso, limpa o líquido viscoso entre os lábios.
Delicioso.
Ennis e Kali ainda permaneciam onde estavam, não se importando com o ocorrido.
Ao fundo, sons de rosnados adentram a atmosfera. Nenhum dos alfas fica em alerta ou mesmo se incomoda. Deucalion havia voltado ao sofá, os gêmeos ainda se contorciam de dor e Ennis e Kali continuavam agarrados.
Os rugidos continuam, obviamente o interesse despertado ao sentirem o cheiro de sangue no ar. Os sons ofegantes, famintos, era palpável.
Deucalion suspira, em um leve rolar de olhos.
— Esqueceram de alimentar os bichinhos, de novo?
Ennis responde, ainda distraído com as carícias de Kali.
— Hoje era vez dos gêmeos.
Eles, por sua vez, ainda estavam ao chão. A marca de Deucalion lentamente se curando. O alfa em questão apenas levanta uma sobrancelha a eles.
Então?
Eles levantam, mesmo que não estivessem em boas condições para estarem de pé, lentamente indo até as escadas que levavam ao piso inferior.
— Esperem.
Eles param.
— Não estão esquecendo de nada?
Com um dedo, apontava na direção geral onde ficava um frigorífico. Os gêmeos hesitam, mas eventualmente vão até lá.
Retiram, um por um, membros fatiados de carne. Enfiavam tudo dentro de um saco de lixo. A carne, com gordura e ossos ainda destacados, era uma visão nojenta. Os gêmeos estavam afetados por isso, mas sabem que não tinham escolha, principalmente quando Aiden, ao ser o último a fechar a tampa do frigorífico, apenas encarava olhos pálidos e sem vida de uma cabeça o olhando de volta.
Eles descem as escadas, desta vez sem perder tempo. Logo, sons saciados de carne sendo rasgadas preenchem o ar. Dava para ouvir o sons satisfeitos de mastigo.
Deucalion boceja, novamente.
— E agora, Deucalion? — pergunta Kali, se afastado de Ennis, muito para desprazer do brutamontes.
O alfa sorri.
— Agora esperemos. Será questão de tempo até Derek Hale encontrar este lugar.
Ennis, ainda irritado que Kali não estava lhe dando mais atenção, diz:
— Deixa que eu cuido do filhote. — estrala os dedos — O garoto não é ameaça.
— Cuidado, Ennis. — avisa a seu braço direito, muito ciente do pavio curto do alfa — Derek Hale não é para ser subestimado. Lembrem-se: ele não é mais a mesma pessoa desde a última vez que você veio a Beacon Hills.
Ele pausa por um momento.
— Ele certamente requer um nível de cautela maior do que estamos acostumados. Beacon Hills... sempre foi um território instável. Não vamos querer provocar certas... forças aqui. A menos queira acabar morto. Ou pior.
Ennis bufa, a contragosto. Mas sabe que Deucalion estava certo.
— Naquela noite... — diz Kali, se apoiando no braço do sofá — o que foi aquilo?
— Ah. Boa pergunta — cruza as pernas novamente, ficando mais confortável — eu tenho algumas teorias, mas nada concreto ainda. Vamos presumir que foi uma reação do território ao sentir a presença de seu alfa.
— Mas naquela magnitude? — diz Kali, pensativa.
Deucalion ri. A loba sempre foi a mais analítica da alcateia. Era bom ter alguém com o mesmo intelecto que o dele. Pena que o gosto dela para homens era tão... questionável.
— Também sentiu, né? Sim, essa é Beacon Hills. Volátil, selvagem, poderosa. Sempre foi o maior orgulho dos Hale.
O alfa observa conforme Ennis, entediado com a conversa, vai até a mesa próxima para comer alguma coisa.
— Em milhares de anos, mesmo quando não havia um único Hale nestas terras, eles ainda tinham um aperto firme aqui. Verdadeiramente impressionante.
— Porém... não é por causa dele que estamos aqui. — conclui Kali.
Ele sorri para a alfa. De fato, perceptiva.
— Sim, querida. Exatamente. Estamos aqui por causa de algo mais extraordinário que os Hale.
Os sons de mastigo param. Os gêmeos retornam, rostos pálidos, ficando em um canto mais afastado dos outros. Ainda sangravam.
Deucalion continua.
— E se não pudermos recrutar o Derek, que seja. Uma verdadeira lástima, mas nada que não possamos dar conta. Por outro lado, o que estou procurando é inegociável. Altamente necessário.
Suas próximas palavras sãos pontuadas, firmes, certeiras o bastante para cada um dos lobos neste cômodo sentir. Até mesmo era perceptível o desconforto das criaturas do outro andar.
Como se para dar ênfase, fica de pé, apoiando ambas as mãos na bengala.
— Eu não tolerarei falha alguma. É de suma importância garantirmos o sucesso em encontramos o Sangréal Lycan. Do contrário, não ousem se chamarem de alfas.
Seus olhos vermelhos se destacavam. Os outros lobos, afetados, não o encaravam diretamente. Sentiam em suas peles o peso daquelas palavras. Todas as decisões que tomaram até aqui, todos os sacrifícios que fizeram, o prestígio de estar em uma alcateia poderosa... tudo isso seria em vão se falharem. Engolindo em seco, eles acenam com a cabeça.
Satisfeito, Deucalion volta a acomodar-se ao sofá.
Agora, ele aguardam. Eventualmente todas as peças cairiam em seus lugares.
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