Sob O Farol E A Lua
7 ... O Abismo Olha de Volta.
As férias de verão acabaram. Finalmente.
Espera, finalmente não. A volta às aulas não estava na lista de prioridade de Stiles no momento, não senhor. Não com tudo acontecendo na cidade, as mortes, sequestros e aparições de criaturas do sobrenatural em todo canto.
De repente, a normalidade que ele tanto queria (bem como a escola no geral) estava bem lá no fundo em questão de importância.
Porém, não é como se ele pudesse simplesmente largar tudo. O que ele faria? Era o último ano escolar, logo teria 18 anos. Um adolescente, quase um jovem adulto.
O que exatamente ele deveria estar fazendo no momento além de estudar?
Racionalmente, ele sabe a resposta — se sua vida fosse cotidianamente ordinária. Não significava menos frustração de se preocupar com algo que repentinamente não parecia mais tão importante.
O que, de novo, era a ironia em pessoa.
A normalidade que ele tanto queria.
Mas ah... sim. Ele estava numa tangente de pensamentos caóticos.
Stiles inspira pelo nariz, fazendo um som nojento de catarro. Estava um pouco resfriado, já se entupiu de remédios o bastante.
Para seu TDAH, ele seguia a quantidade recomendada, como sempre. O Adderall ainda não tinha feito efeito — mesmo sabendo que demoraria um pouco. Fazia uns 5 minutos desde que tomou o remédio.
Enquanto isso, estava na estrada, a caminho da casa de Scott para buscar o amigo. Iriam para escola juntos, como sempre.
Scott ainda não tinha um meio de transporte, juntando dinheiro aos poucos de seu trabalho na clínica veterinária para comprar sua primeira moto, então Stiles o dava carona por enquanto.
Ele não ligava, não era um desvio grande de rota. Saindo de sua casa até os McCall era um caminho praticamente reto.
A casa de Scott ficava a 10 minutos de distância de sua residência, isso num dia bom. Se tivesse trânsito, como hoje, estima que facilmente levava meia hora.
Stiles suspira, batucando os dedos contra o volante. Lentamente os carros em sua frente abriam passagem.
Era raro ocorrer trânsito em Beacon Hills. Cidade pequena, né? Porém, ele supõe que a volta às aulas fizeram várias pessoas saírem atrasadas de casa, o que pode ter resultado no tráfego ruim. Além das famílias que estavam de viagem, que provavelmente retornaram.
Então, sim, talvez fizesse sentido a lentidão dessa manhã.
Enquanto Stiles avançava lentamente com o carro, isso lhe dava tempo para pensar.
Muito.
Ele diria que até demais.
Era uma maravilha o quanto seu cérebro conseguia achar diferentes tópicos para se agarrar quando estava entediado. Um tanto fascinante, ele diria.
Talvez até mesmo assustador.
Momentos atrás ele estava pensando no sobrenatural (o que não era difícil, visto a constante do outro mundo em sua vida).
Na sua vida escolar.
Scott.
E então... trânsito.
Que ainda estava a ritmo de lesma.
Ótimo.
Stiles estala a língua. Entediado, começa a cantarolar. Nem percebe o que inicialmente.
Baby shark, doo doo doo doo doo doo
Baby shark, doo doo doo doo doo doo
Baby shark, doo—
Stiles revira os olhos. Não, não vai rolar.
E é claro que seu cérebro escolheu esse exato momento para lhe lembrar de um certo lobo. Porque, sim, Baby Shark faz total sentido com lobisomens!
Um certo lobo que ficou incrivelmente diferente nestes últimos meses. Se antes Stiles já se sentia consciente do próprio corpo, agora ele reparava mais do que nunca.
Mais uma vez, a injustiça do metabolismo avançado de um lobisomem. Verdadeiramente injusto.
Certa vez, ele chegou a ver Derek em toda a sua glória — acidentalmente.
Foi durante as férias de verão, Stiles não se recorda de qual mês em específico, mas um dia, ao ir até a estação de trem abandonado com novos dados sobre os betas, ele pegou Derek saindo do banho.
E não é como se o alfa não tivesse ouvido ele chegar.
Estava se secando com uma toalha que não deixava nada a imaginação, com uma envolta da cintura (pecaminosamente baixa).
Ele só grunhiu, perguntou o que ele queria e Stiles apenas... olhava, boquiaberto.
Gaguejando, ele informou sobre o que encontrou na internet, uma notícia em jornal que falava sobre um “um estranho par, homem negro, mulher branca e loira, vistos em uma cena de crime”.
Com isso, o alfa lhe volta totalmente a atenção. Ele avança rapidamente até Stiles, que lhe oferece o celular para ler melhor o artigo.
Enquanto lia, a toalha da cintura lentamente caí (de forma clichê, Stiles deve adicionar, porque é claro que a toalha ia cair agora!). Derek não liga, muito imerso no que estava lendo.
E Stiles continuava encarando tudo, agora totalmente de boca aberta e sentindo uma estranha sensação na virilha.
Claro que o alfa não sentiria desconforto algum com nudez. E não é como se ele não tivesse reparado que a toalha caiu. O cara só não se importava.
Não que Stiles estivesse reclamando. Longe disso.
Dava uma ótima visão.
Aqueles braços e coxas fortes, peitoral grande, tanquinho mais destacado que nunca...
Um...
Enorme pedaço gordo de carne...
Balançando... junto de...
Duas e grandes—
Ah sim. Ele olhou tudo.
A este ponto Derek já tinha terminado de ler o artigo. Pegou a toalha do chão, andando em direção a um dos vagões de trem (onde provavelmente guardava as roupas), murmurando algo sobre se trocar para investigar o local.
E Stiles pode também ver aquelas belas e fortes costas, junto de uma bunda que deixaria qualquer um com inveja.
Ele ainda estava boquiaberto.
Stiles não esperava que seu despertar bissexual fosse justamente do cara que ele costumava odiar.
Inicialmente ele pensava que deveria achar isso mais estranho do que já era, mas mudou de ideia. Não tinha porque ele sentir que isso é esquisito, decide.
Até porque, se ele estivesse sendo sincero, ele já imaginava que era bi há bastante tempo.
Afinal, objetivamente, Derek é um homem atraente. Mesmo antes Stiles reparava, claro (e quem não? Mesmo Scott concordaria), mas agora estava num nível que mesmo ele se sentia afetado.
Fora que o homem estava enorme! Tipo, tão grande quanto Jack Reacher. Não tinha como não olhar.
Ele não sabe porque e/ou quando isso mudou, mas apenas aconteceu.
De repente, ele achava Derek Hale um gostoso. Simples assim.
Você sabe muito bem quando, seu cérebro (traidor) diz.
Mau cérebro. Muito mau.
...
É, Stiles sabe quando isso mudou. Apenas... pensar naquele dia, no posto de gasolina...
Se ele estivesse sendo honesto, isso ainda o afetava.
Ele ainda se lembra do sentimento, novamente da impotência, não conseguir fazer absolutamente nada.
Ele quase morreu! Literalmente! E não era como nas outras situações em que ele chegou perto da morte, não. Nada do que tinha acontecido em sua vida até aquele fatídico dia o afetaram tão profundamente quanto aquela noite.
O doce e frio beijo da morte, a centímetros de seu rosto.
Se Derek não estivesse lá... Stiles não estaria mais respirando. Isso é fato. Sendo, mais uma vez, o lobisomem que intercedeu e o salvou.
Isso o frustra. Saber que, não importava o que ele fizesse, não importasse quantas pesquisas fizesse, quantos planos elaborasse...
No final do dia, ele ainda é dolorosamente humano. E não, ele não acha isso algo ruim. Porém, num mundo onde criaturas da noite existem, Stiles é, no mínimo, uma presa glorificada.
A sensação que isso traz não é nada legal. É... insuportável.
Não pela primeira vez, ele se pega pensando se deveria ter aceitado a oferta de Peter. Só... uma mordida.
E então ele seria como Scott. Sem duvidas.. seria mais útil...
... entretanto, Stiles ainda assim não aceitaria. Ele gosta de como está agora.
E, sinceramente? Ele seria um beta horrível. Com certeza seria pior que o Scott se tratando de seguir ordens.
Quem sabe Derek cumpriria em fim sua promessa de rasgar sua garganta. Com os dentes.
Ah. Derek.
Droga.
Agora ele voltou a pensar no alfa. De novo. E ele ainda sente o desconforto nos países baixos.
Talvez sua nova atração fosse explicada pelo o que aconteceu. E não, ele não gosta de Derek Hale, não daquele jeito, que deixemos isso bem claro.
Porém, era inegável que ele achava o homem extremamente atraente. Talvez até mais do que Lydia...
Pensando no posto, Stiles se recordou da “emergência”. A noticia das mortes vieram a tona, a cidade mais uma vez naquela sensação de apatia. Ah, um policial morreu, com mais duas pessoas mortas? Sendo uma delas brutalizada. Nada demais. Típico e cotidiano.
Não eram todos, claro, Stiles está generalizando. Porém, era inegável que uma parcela significativa da pequena comunidade local sentia-se assim.
Aquela mulher, dos Notfae, não conseguiram chegar a uma conclusão quanto a causa da morte. Apesar de Derek alegar legítima defesa, com Stiles como testemunha, não explicava as profundas marcas de presas e falta da traqueia. Derek foi questionado novamente, mas o lobisomem, sempre alusivo, somente entregou o mínimo.
Felizmente ele não foi preso, mas foi mais por falta de provas que qualquer outra coisa. Mesmo considerando seu histórico, tecnicamente falando, ele não fez nada de errado.
Naturalmente a prefeitura achou tudo um completo escândalo. Com a imagem do departamento defasada, mais uma vez iludidos quanto ao que realmente acontecia (legista não conseguia chegar a outras conclusões para as mortes exceto ataques de animais), o controle das câmeras de segurança pública foram retiradas.
O status quo foi mantido.
E seu pai parecia envelhecer cada vez mais todos os dias. Tentando compreender algo que não faz sentido.
E, ok, agora ele está vomitando palavras mentais. Por que o Adderall não fez efeito ainda?!
Stiles suspira pelo nariz. Finalmente, o trânsito começa a se mexer de novo. Não demora muito, ele volta a estrada, dessa vez andando livre em direção a residência McCall.
Ele lentamente estaciona o carro. Tira o celular do bolso e começa a digitar:
Stiles:Ei, Scotty. Cheguei 😑
Não leva nem 5 segundos para seu amigo responder.
🐺 Scotty:Eae. Demorou hein
Stiles: Trânsito, man. Porra de trânsito 🙄
🐺 Scotty: Ué?
Stiles:Nem pergunte. É BH. Deve ser comportamento normal a esse ponto. Desce logo senão a gente se atrasa
Não leva muito tempo. Logo, Scott aparece na porta de entrada da casa. Estava bem vestido para a escola, mochila no ombro, mandíbula torta cheio de covinhas. Stiles não entende como o cara poderia estar tão animado para voltar para escola. Bem, não exatamente voltar, considerando que ele estudou o verão todo, mas mesmo assim...
Scott se aproxima do carro, o rosto ainda num sorrisinho. Abre a porta do carro e senta no banco do passageiro.
Antes mesmo que Stiles abrisse a boca, seja para cumprimentar o amigo, dar bom dia, talvez provocar um pouco Scott, o moreno faz uma careta ao fechar a porta.
Ele fareja o ar, a cabeça de lado muito numa aparência típica de um cachorro confuso.
Ele, então, vira-se a Stiles. E com o rosto em um careta de nojo, diz:
— Mano...
Por que essa cara? O que tem de errado?
Stiles olha em volta. Não tem nada aqui estragado ou algo do tipo. Ele limpou o Jeep ontem! Sério, o que o nariz canino de Scott reparou?
Então, ele percebe. Sentindo o desconforto na virilha. Seu pênis dolorosamente prensado dentro da cueca, contra o jeans.
Oh.
— Ah.
Era só o que conseguia dizer. Sentia-se imensamente envergonhado. Ele não havia reparado, ao reprisar a memória de um Derek nu em sua mente, a cabeça um caos.
Ele estava dolorosamente de pau duro e Scott consegue sentir o cheiro.
— Cara, dava para você ao menos... sei lá, ter cuidado disso antes de vir para cá?
Stiles, mesmo envergonhado, fica na defensiva. Era embaraçoso, sim, mas o que Scott esperava? Adolescência. Com certeza na escola é muito pior.
— Me desculpe não poder controlar quando fico excitado. Você ao menos podia fingir, né, Scott! Bons amigos fazem isso!
Scott só revira os olhos.
— Pelo menos liga o ar condicionado.
Stiles imita o gesto.
— Que dramático. Como se você às vezes também não ficasse de pau duro, do nada.
Scott se engasga.
— Cara, que nojento. Eu não quero saber dessas coisas. E não, eu não fico... assim.
Ah, Scotty. Nem consegue dizer a palavra pau sem ficar todo envergonhado. O que é irônico, considerando que ele não tem nada de inocente. A quantidade de vezes que ele dizia o quanto sentia falta da Allison, Stiles não imagina que era apenas por causa do grande amor que ele tinha por ela, não senhor.
— Scottzinho, meu amigo... Se prepare, porque o que mais você puder cheirar isso será na escola.
Scott só grunhe. Rindo, Stiles volta a estrada, a caminho da escola.
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Eles dirigem em um bom ritmo. Primeiro dia de aula, ainda tinham bastante tempo até o primeiro sinal tocar.
Stiles já tinha se “acalmado” e Scott deixou de estar com cara de quem chupou limão.
A conversa fluía livremente, os dois melhores amigos mantendo o engajamento, não reparando no tempo passar.
Eles conversam sobre a clínica. Deaton gosta muito do trabalho de Scott, o druida comentou ao moreno que ele tem intenção de contratá-lo a tempo integral assim que graduasse da escola. Scott, claro, prontamente concordou. Ainda faria faculdade de veterinário, mas ao menos tinha um emprego garantido.
E Stiles...
Bem, ainda tentava se encontrar. Era o último ano, então, sim, ele pensava bastante no que queria fazer. Talvez seguisse carreira policial, o que, sendo franco, fazia sentido. Não apenas seguir os passos de seu pai, mas Stiles imagina que não há outro trabalho que o interesse além de investigações.
Ele era bom nisso. Seguir carreira na polícia não era má ideia. Quem sabe? Ele poderia acabar no FBI!
— Claro, o salário não é muito alto e a escala não é tão boa, mas eu gosto.
Stiles concorda com a cabeça.
— Ora, Scottzinho tá todo crescido. Tô tão orgulhoso!
Diz com uma vizinha de bebê e tenta esfregar a cabeça de Scott, que facilmente bloqueia o braço.
Rindo, o lobo diz:
— Para! É sério!
Depois de ambos se acalmarem, param em frente a um sinal vermelho. Estrada estava vazia a esse ponto, nenhum outro carro além do deles.
Claro, o caminho que pegavam para ir a escola ficava em uma rota interligada a reserva, então era esperado não ter outra alma por perto. Mesmo assim, Stiles não conseguia deixar de se sentir inquieto.
Por enquanto resolve ignorar o sentimento.
— Ao menos é o último ano. Só temos que nos focar em sobrevivermos até o final.
Scott bufa.
— Sublinhe a palavra “sobrevivermos”. Com o Derek, nunca tem como sabermos até as coisas ficarem fora de controle.
Stiles rola os olhos.
— Você andou lendo livros demais. — batuca os dedos no volante, o sinal ainda em vermelho — Fora que... Você devia dar mais crédito ao Derek.
— Como assim? Você sempre é o primeiro a reclamar do cara e do quanto os planejamentos dele são horríveis.
— Não discordo, mas ao menos o cara tá tentando. Derek mudou nesses últimos meses... Digo, um pouco, mas já é um grande passo comparado a antes!
Scott bufa.
— O que não é lá essas coisas. Eu ainda tô chateado que você ficou esse tempo todo sem me falar que estava trabalhando com o Derek. Em segredo.
Stiles grunhe.
— De novo isso? Sério? Não é como se eu tivesse escolha. Eu queria contar, mas o Derek foi bem convincente nos argumentos.
— Tipo o quê? Te ameaçando de novo?
— Na verdade, não.
Scott só balança a cabeça, resignado.
Era verdade. O Derek de antes não pensaria duas vezes em usar táticas sujas para fazê-lo ficar quieto e não contar nada a Scott. Absolutamente nada.
Mas este Derek... apenas usou palavras. A sua própria maneira, obviamente, porém de uma forma que Stiles ousaria dizer que foi até mesmo educado.
Ele simplesmente pediu para não contar a Scott. Ainda.
Considerando a natureza e tendência do moreno em não... pensar direito nas coisas, era melhor o beta ficar no escuro por um tempo. Pelo menos, até Derek, Isaac e (agora) Peter conseguirem mais informações com o que estavam lidando.
E, honestamente... Stiles concordava.
Olha, ele ama Scott. Muito. Como se fosse seu irmão.
Mas mesmo ele sabe o quanto seu melhor amigo consegue ser um completo tapado. Deixar Scott de fora (ao menos, por um tempo) fazia sentido.
Era lógico. Racional. E se tem uma coisa que Stiles valoriza bastante nessa cidade pequena era justamente isso.
E, ok, ele consegue ser um completo oposto dessas coisas, às vezes. Até mesmo emocional demais. Entretanto, ele diria que é bastante consistente no que faz.
Então ele acabou aceitando o pedido do alfa. Até o terceiro mês, quando as cartas foram postas a mesa.
— Enfim, acho que esse ano será bom. Eu consigo sentir, sabe? Fiz de tudo nestes últimos meses, dei um jeito nas minhas notas, to cuidando do corpo e.... — Scott suspira — sinto falta da Allison.... Que ainda mantém distância.
Stiles estava prestes a reconfortar o amigo (de novo, ele deve adicionar — Scott nunca deixa de decepcionar quanto se trata de seu drama com a Allison) quando um carro para ao lado do seu.
Era um belo carro, do tipo que só gente com dinheiro conseguia ter.
Estranhamente... familiar.
Foi então que repara...
Duas garotas, cabelos avermelhados e pretos. A ruiva (não, loira-morango) estava no volante. A outra, morena, estava no banco do passageiro, rindo de alguma que a amiga disse.
— Uh, Scott...
— Que foi?
— Acho que, oficialmente, não tem mais como manter distância.
Aponta em direção ao outro carro. Scott olha. Lentamente seu rosto fica horrorizado.
E, como se o universo tivesse um enorme senso de humor (Stiles sinceramente não dúvida disso), foi justamente na mesma hora que as duas garotas reparam no veículo vizinho.
Allison estava com a mesma expressão que Scott. Lydia estava indiferente.
— Stiles, pisa o pé.
— Como é?
Stiles olha para o sinal. É, ainda fechado.
— Só pisa fundo!
— Calma aí. Não vou quebrar leis de trânsito só porque—
— SÓ VAI LOGO!
Stiles grunhe, revira os olhos. Supõe que não seria algo tão ruim. Afinal, a estrada estava deserta.
Mas antes que pudesse colocar o pé no acelerador, as meninas foram mais espertas. O carro delas já tinha disparado a frente, sem nem dar tempo de ele mover o veículo.
Elas rapidamente criavam distância.
Scott parecia aliviado.
— Agora vocês podem continuar mantendo distanciamento social, não?
Stiles ri da própria piada. Scott não acha graça. O sinal, em fim, fica verde.
Stiles já estava dirigindo, mantendo a velocidade padrão.
Porém, o clima leve não se mantém por muito tempo.
Apesar da distância, o carro das garotas ainda era visível. E, do ponto deles, ainda conseguiam ver com clareza.
Rapidamente, alguma coisa saía da floresta.
E cruza bem na frente do veículo delas.
Um som de batida, alto o suficiente para se ouvir a metros de distância.
O carro bate no animal, freando bruscamente na estrada. Stiles, em pânico (Scott não devendo em nada nisso, talvez até mesmo tenha uma reação pior), afunda o pé e vai em direção a elas.
Ao se aproximarem, reparam que o veículo só tinha o para-brisa quebrado. As duas já tinham saído do carro. Pareciam ilesas.
Scott sai primeiro. Corre em direção a Allison, que prontamente o abraça.
É... acho que esse negócio de “manter distância” foi pro brejo...
Apesar da situação, Stiles não conseguia deixar de achar humor em alguma coisa.
Que? É seu mecanismo de defesa, tá! Ele tem completa noção que o acidente poderia ter sido muito pior. Elas pareciam bem!
Já tinha saído do Jeep. Lydia só olhava o para-brisa, incomodada, mãos na cintura.
— Ótimo. Carro tava novinho.
— Pelo menos não borrou a maquiagem. Acho que conta para alguma coisa.
Lydia só o olha. Expressão a mesma coisa de antes, mas com um pequeno toque de irritação.
— Por que sempre que alguma coisa acontece vocês dois estão envolvidos?
— Hein? Como se isso fosse nossa culpa!
A garota loira-morango só revira os olhos. De uma forma que Stiles honestamente achou que fossem cair da cabeça.
— Tanto faz. O que foi que bateu no carro?
Stiles olha em frente, para a estrada. O animal estava lá, deitado e imóvel. Parecia estar morto.
Tinha o corpo magro, pernas finas e esguias. A pelagem curta, num tom de terra, manchas o adornavam, fazendo pequenos padrões de cores mais escuras.
Os olhos escuros, grandes e imóveis, se destacavam num crânio recheado de galhadas enormes.
— Um cervo?
Diz Stiles, tendo se aproximado do animal e olhando com mais atenção. Scott não estava muito atrás, Allison de seu lado, enquanto Lydia ficava próxima do carro.
Não tinha nada que indicasse porque o silvestre pulou na estrada.
O que faria um animal correr tão rápido a ponto de não reparar em algo próximo dele?
Cervos são animais bem alertas. Naturalmente, por serem presas, eles evitam até mesmo contato com o ser humano. A maioria evita estradas devido a alta atividade humana nos locais, exceto quando rotas e construções ficam próximas demais de suas lares, o que ocasiona em contatos acidentais.
Stiles dúvida que fosse isso. Beacon Hills normalmente não tem uma atividade muito grande de animais, principalmente cervos. Muito menos construções e estradas próximas demais da reserva, exceto a que estavam agora, que conecta a uma das saídas da cidade.
Todavia... O que ele sabe? Afinal, é Beacon Hills.
Nada faz sentido aqui.
— Não faz diferença. Não tem como ir para a escola assim. Que saco, vou ter que chamar o guincho.
Ver Lydia fazendo biquinho enquanto discava no celular seria uma das melhores coisas que Stiles teria visto tempos atrás, mas agora, sabendo que ela ainda estava com Jackson, não significava nada para ele.
Sim, ele ainda sentia-se magoado por uma incerteza. Que o processem!
O que ele não sabe se é se isso é uma coisa boa ou não.
Talvez indicasse que ele estivesse a superando.
— Allison? Alguma ideia? — pergunta Scott, ainda com seu olhar de cachorrinho, encarando atentamente a caçadora.
Ou seria ex-caçadora? Honestamente, Stiles nem sabe dizer hoje em dia.
— Não sei dizer o que causou isso. Digo, Beacon Hills tem cervos. Não é incomum que um apareça assim na estrada.
— Pode até ser. Mas naquela velocidade? Não parece natural, sabe.
Stiles, então, estala os dedos.
— Já sei! Scott?
Seu amigo o olha.
— Pode dar uma... fungadinha? Quem sabe seu lado canino detecta alguma coisa.
Scott revira os olhos, mas mesmo o moreno tinha que admitir que o ocorrido era, no mínimo, curioso.
Em uma imagem de um cachorro confuso (cabeça de lado e tudo), Scott fareja o ar.
Ele franze o cenho, como se não tivesse certeza.
— Não sinto nada de anormal. Nem químicos...
Mais fungadas. Dessa vez, o olhar de Scott estava confuso.
— Mas... ele parecia estar com muito medo. Tipo, muito medo mesmo. Como se estivesse apavorado demais.
Stiles faz um som de hm.
— Ora, isso não é nenhum pouco apavorante, não é? Supostamente, nosso amigo aqui estava com tanto medo e correu tanto que nem reparou nos arredores.
Um suspiro. Ele queria fazer piada, porém, realmente: é curioso.
E para lá de esquisito.
— Será que estava fugindo de alguma coisa? — murmura Stiles.
Pondera por um momento. Talvez... fosse sobrenatural? Algo relacionado a alcateia de alfas?
Stiles estava curioso. Mas nenhuma de suas perguntas tinham respostas. Ao menos, não por enquanto.
Ele se pergunta se talvez Derek soubesse de alguma coisa...
— Quem liga? Vamos nos atrasar. O guincho já vem buscar o carro.
Lydia já estava abrindo a porta, tirando sua bolsa e de Allison, que pega o objeto jogada a ela com uma precisão treinada.
A morena, com mochila em mãos, apenas encara o cervo.
— Coitado. A gente... vai deixar ele assim?
Scott prontamente já responde.
— Não se preocupa. Vou deixar ele ali e ligar para o Deaton. Acho que ele vai saber o que fazer com o corpo.
Enquanto Scott se movia para fazer justamente isso, Lydia e Allison o encaravam.
A loira-morango apenas arqueava uma sobrancelha, braços cruzados, a bolsa entre eles. A morena parecia envergonhada, como se estivesse pedindo algo que a deixasse constrangida.
Ah, cara...
Justo quando seu Jeep recebeu um upgrade...
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— Nossa, Stilinski, seu carro não é nenhum pouco confortável.
— Valeu pela informação, Lydia.
Tinha recém estacionado na escola. O caminho até aqui foi repleto de um silêncio social estranho. Stiles tentava preencher o vazio da melhor forma que podia (um completo silêncio sempre o incomodava) mas ninguém lhe prestava atenção. Ele tentou não se chatear com isso.
Scott e Allison esgueiravam olhares um ao outro, sempre que um deles achava que o outro não estava prestando atenção. Até ambos cruzarem olhares pelo espelho, ficarem vermelhos, e passarem o resto da viagem sem mais se encararem.
Era doce. De um jeito enjoativo.
Sério, Stiles não entende o término. Os dois mais do que foram feitos um para o outro. Parece punição por algo que foi fora de controle dos dois.
Mesmo que, tecnicamente, ambos tenham culpa em alguma coisa.
O que, ainda assim, não fazia sentido.
Mas o que ele entende de relacionamentos?
— Cara, tá todo mundo olhando... —Scott foi quem sussurrou isso.
De fato, tinham uma boa parcela de pessoas na escola os encarando. Os olhares variavam entre confusos, para invejosos e alguns... até mesmo raiva? Hein?
Não era todo dia que Lydia Martin pegava carona com Stiles Stilinski, com certeza. Mesmo Stiles poderia admitir que era um evento raro.
O que não significa que ele não se sentia incomodado com isso.
Ótimo.
Fofocas no primeiro dia de aula. Uma maravilha. Ele mal podia esperar Jackson querer tirar satisfação mais tarde.
Falando nele:
— Cadê o Jackson?
Lydia prontamente responde, olhos focados no celular e digitando algo.
— Já tá chegando. Ele preferiu conversar com o Derek hoje cedo. Algo sobre a TPM masculina.
Scott ri. Stiles admite que foi uma boa piada.
Ah sim. Ele tinha esquecido o problema “peludo” de Jackson. Ele ter ido embora logo após todo o clímax com o vilão da vez foi burrice. Ele lembra que Derek ficou nada feliz com isso.
Stiles entende que o cara queria espaço de tudo, mais do que qualquer um. Se ele pudesse, também sairia dessa cidade. Isto é, se apenas ele não tivesse coisas que o prendessem aqui, como seu pai.
E não, ele não está dizendo isso como se fosse um fardo ou algo do tipo. Stiles apenas sente uma... responsabilidade, digamos assim. Pelo povo dessa cidade, por uma comunidade que tenta se manter em segredo...
Todas coisas que ele sente um dever de cumprir.
— Vish, Derek vai devorar ele vivo. — Stiles brinca.
— Espero que não. Quero meu namorado inteiro.
E com um timing maravilhoso (ou talvez ele já estivesse aqui, e quis fazer uma entrada dramática) um porsche prateado estaciona próximo de seu Jeep.
A diferença entre os dois veículos era drástica: um velho, surrado pelo tempo, mais para um carro de família, enquanto o outro era tipicamente másculo, vibes de bad boy, de pessoas sem medo de gastar dinheiro.
O contraste entre ambos era risível, tal como uma piada adolescente.
Stiles supõe que faz sentido. Estavam em uma escola, afinal.
O motorista do veículo lentamente saí, como se não tivesse a menor preocupação do mundo. Estava bem vestido, cabelo loiro penteado e banhado em gel. O rosto marcado pelo sorriso de deboche e arrogância.
Lydia, praticamente saltitando (saltitando!), vai até Jackson, que prontamente a abraça, os dois em selinhos nojentos.
Stiles revira os olhos, com força.
(Ele sente que está revirando demais os olhos ultimamente. Talvez ele devesse reconsiderar isso).
Enfim, os dois pombinhos param e, com um reconhecimento que apenas Jackson poderia fazer, os cumprimenta:
— Allison. Bom te ver, você tá com uma cara boa.
A garota Argent apenas sorri, cumprimenta Jackson e lhe diz bom dia.
E finalmente se vira a Stiles e Scott.
— Testículos esquerdo e direito.
Stiles revira os olhos. Scott não acha engraçado, mesmo a cara num rosto apreensivo.
(É, não vai deixar de revirar os olhos com frequência, ao que parece).
— Nossa, nem um bom dia?
— Considerando que vocês dois já tentaram me matar, Stilinski, é o mínimo que deviam esperar.
Essa doeu. Ele tem um ponto.
— Ora, se você não tivesse tentado matar inocentes isso não teria sido necessário.
— Você sabe que não foi minha culpa!
Sim, Stiles sabe. E ele também sabe que estava pegando pesado. Porém, ele conhece Jackson o bastante para saber onde cutucar. Mesmo se isso significar jogar sujo.
O que? Ele não está abaixo disso. Principalmente de o riquinho ali ter infernizado boa parte sua vida (e de Scott) até pouco tempo atrás. Se toda aquela confusão com o Kanima não tivesse acontecido, Jackson certamente não teria mudado como pessoa.
Não que ele tenha mudado muito.
— Argh, dá para você dois pararem? — diz Lydia, ainda agarrada a Jackson, braço interlaçado com o dele — Ainda tem gente olhando...
De fato, ainda estavam. E não apenas olhando, dava-se para ouvir sussurros e algumas risadinhas.
Belo primeiro dia.
— Acho melhor a gente entrar...
Allison resolve intervir. Apesar de ter compartilhado um momento com Scott, ela mantinha distância por enquanto. Muito para a infelicidade do lobo, Stiles nem precisaria olhar para confirmar.
Resignado, ele puxa o bonde. Os outros seguindo, não muito atrás.
Um estranho grupo que normalmente não se veem juntos. Cada com suas próprias peculiaridades e problemas, o corpo estudantil ainda preso na ideia de diferentes “tribos”, muito americanizado.
Stiles está se repetindo, mas ele sabe que se fosse como antigamente, ele se importaria mais com isso. Talvez ficasse eufórico de andar do lado dos alunos mais populares e atraentes.
Agora, ele só... não liga.
Apenas mais um dia.
No interior, as fileiras de armários preenchiam o largo corredor da escola. Scott e Stiles tinham armários próximos, enquanto Lydia, Jackson e Allison ficavam um pouco mais afastados.
Felizmente a escola os deixa ficar com os mesmos armários após as férias. Ter que ficar realocando tantos alunos todos os anos é horrível, então eles evitam fazerem as trocas. Já tentaram fazer como algumas outras instituições do país — não deu muito certo.
Todos eles guardam o que não precisam. Lydia e Jackson permaneciam onde estavam, Allison apenas se despediu do grupo e desapareceu entre os vários adolescentes (olhar melancólico permanecendo um pouco a mais no Scott).
— Já sabe qual é o primeiro período?
Stiles verifica a grade no celular. Felizmente ele marcou o e-mail para fácil acesso.
— Aparentemente, é Literatura Inglesa. E o seu?
Scott grunhe.
— Também. Literatura Inglesa logo no primeiro período?
— Podia ser pior. Podia ser Química.
Os dois se arrepiam. É, definitivamente eles tiveram a melhor sorte.
— Literatura Inglesa? Está na minha grade.
Lydia aparece ao lado dos garotos, assustando levemente Stiles que não reparou a quase ruiva brotando ali. Jackson parecia já ter sumido.
Sob o olhar confuso de Stiles, ela responde:
— Química.
Pobre Jackson. Que ele se arrependa de seus pecados.
— Vamos?
Lydia joga seus longos cabelos para trás, basicamente uma rainha sendo acompanhada de seus cavaleiros.
Ou era o que ela achava, Stiles e Scott só estavam indo na mesma direção.
Não demora muito para encontrarem a sala de aula.
A maioria das mesas já estavam ocupadas. Havia alguns disponíveis ao fundo, próximo a janela. Eles prontamente se sentam.
Conversas animadas, risadas, grunhidos. Toda a diversidade de vários alunos espalhados em uma sala de aula.
Stiles observava tudo. Podia ter achado que a volta a escola seria desanimador, algo risório comparado ao que estavam lidando nos últimos meses.
Mas mesmo ele tinha de admitir: era uma sensação boa. Essa normalidade.
Para variar, ele não tinha que se preocupar com criaturas inumanas querendo matar a ele e seus amigos. Ele podia ser apenas um adolescente comum.
Talvez a volta às aulas não tenha sido tão ruim assim.
— Eu soube que a antiga professora de Literatura foi substituída. Por uma que parece ser mais nova, de fora da cidade.
Lydia, de alguma forma, sempre sabia de tudo que acontecia na escola.
— E como é que você sabe disso? — diz Stiles, tendo se inclinado um pouco para olhar a loira-morango na mesa atrás.
Ela levemente rola os olhos.
— Não é como se fosse segredo. Já havia conversas aqui e ali que a professora Ramsey queria se aposentar.
Stiles cerra os olhos.
— Com tudo que está acontecendo, o timing não poderia ser mais suspeito. Uma professora nova... em Beacon Hills?
— Cara, nem todo mundo que é novo na cidade significa alguém ruim. — diz Scott a seu lado, tirando lápis e caneta da bolsa.
— Com tudo que está acontecendo? — diz Lydia, curiosa.
— Bem, certamente é um pouco suspe—
Repentinamente, seu celular vibra. Ele rapidamente verifica. Uma mensagem, de um grupo escolar (ele está no grupo da escola? Ele não fazia ideia).
A mensagem parecia uma citação de um livro.
Mas que?
— Que esquisito.
Olha para Scott, que estava checando o celular. Ele olha por cima do ombro do amigo (privacidade? Olá?).
Uh?
— Você também tá no grupo?
O moreno o olha.
— Não que eu saiba.
— Gente.
Lydia chama a atenção de ambos. Eles se viram, encarando a tela do celular da garota. A exata mesma mensagem.
Stiles olha em volta. Similarmente, os outros alunos ostentavam as mesmas expressões. Se antes a sala de aula estava cheio de humor, burburinhos e risadas, agora era preenchida de olhares confusos e murmúrios incertos.
Tá bem, nenhum pouco assustador.
Antes que ele pudesse abrir a boca, a porta da sala abre. A partir dela, uma mulher entra.
— “O horizonte estava bloqueado por uma muralha negra de nuvens...
Cabelos longos e ondulados cobriam o rosto, andando em ondas conforme ela caminhava.
— “... e a via fluvial tranquila, conduzindo aos confins da terra...
Salto alto, as roupas tradicionais e uma saia até os joelhos. Típica aparência de uma professora do ensino médio.
— “... corria sombria sob um céu encoberto — parecia levar ao coração de uma imensa escuridão.”
Ela para em frente ao quadro preto. Pega um giz e escreve a citação. Em baixo, o nome do autor.
— Joseph Conrad. Trecho final de seu livro, “O Coração das Trevas”.
Ela, em fim, vira-se a classe. Seu rosto, afiado, combinados a sua beleza exuberante, sorriso fácil e covinhas, imediatamente hipnotizam e calam os alunos.
— Por favor, desliguem os celulares. Esta será a primeira e última vez que utilizarão o aparelho em minha sala.
Seu sorriso, belo e mortal, agarrava a atenção de todos.
— Sou sua nova professora de Literatura Inglesa, Jennifer Blake. E é bom prestarem atenção. O livro cairá nas provas.
Enquanto todos ficavam encantados com a nova professora, Stiles conseguia sentir apenas uma única coisa.
Puro e inalterado horror.
Aquela mesma sensação, de quando estava no posto de gasolina, meses atrás, voltou com força total.
Por algum motivo, ele sentia uma malícia em seu âmago.
E ele queria nada mais do que apenas fugir.
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