Sob O Farol E A Lua
1 Antes da Tatuagem, Um Pedido
Notas iniciais
Beacon Hills.
Cidadezinha estranha. Esquisita. Fora do comum. Nada ordinária. O inexplicável torna-se possível e o explicável um nó de complicações. Visível e ao mesmo tempo não. Natural e sobrenatural? Por que não?
A bizarrices eram tantas desde a concepção da cidade que os cidadãos parecem achar até mesmo normal.
A cidade parecia ser amaldiçoada, como se houvesse uma atração ao anormal, mas quando se tratava do inexplicável a população em si daria de ombros e continuariam com suas vidas.
Não é como se eles pudessem fazer alguma coisa de fato. A maioria das famílias de Beacon Hills cresciam e morriam aqui. A maioria não por escolha.
Ponto turístico era inexistente. Não havia nada de chamativo numa cidadezinha de aparência tão comum. Tudo o que se espera de uma cidade pequena da Califórnia estava lá: um parque, um hospital, uma delegacia, restaurantes, lanchonetes, farmácias, centro com algumas lojas de conveniência, pessoas andando nas ruas cuidando de suas vidas, passeando com os cachorros, as crianças, idosos alimentando os pombos. Tudo de comum era encontrado. Nada demais.
Então porque caralhos a cidade virava um circo de horrores? Não que Stiles não soubesse a resposta (ô se ele sabe, muito bem) mas há um padrão e qualquer um que prestasse atenção repararia muito bem nisso.
Sussurros sobre criaturas da noite vagando o mundo, aparição de seres estranhos no oceano, visões milagrosas, até mesmo Caças Às Bruxas, qualquer um conseguiria enxergar se prestasse atenção.
O problema é que a resposta é tão absurda que dificilmente alguém levaria isso a sério.
Afinal, quem acreditaria que o sobrenatural existe?
De fato, era mais fácil aceitar que as estranhas mortes, assassinatos, aparições, objetos "amaldiçoados" e árvores mágicas tinham uma explicação lógica.
Um cadáver foi encontrado em pedaços com marcas de mordidas? Não seja ridículo, não há lobos na Califórnia. Algum pobre coitado deve ter provocado algum felino, tipo um puma.
Um vulto? Não, não. Certos ambientes criam reflexos, ou objetos criam certas formas. Não acredite que algo como fantasmas existem, isso é idiotice.
Árvores mágicas? Não, Stiles, aquela árvore tem milhares de anos. É mais provável que a cortaram por causa da qualidade da madeira.
Incêndio na casa Hale? Uma lástima que um simples vazamento de gás matou quase toda a família mais antiga da cidade.
Essas e outras explicações. Tudo normal.
Não.
O sobrenatural existe. Isso é um fato incontestável que Stiles teve que engolir.
Não porque ele não quisesse acreditar, mas só porque sua vida seria mais fácil de gerenciar se o mundo fosse apenas entediante e ordinário. Sabe, só comum. Certamente ele não precisaria ficar olhando por cima do ombro toda vez que saísse de casa.
E, bem, quem poderia culpá-lo?
Depois de ser caçado por um homem-lagarto que paralisava suas vítimas, ficar segurando o corpo de um certo alfa ingrato durante duas horas em uma piscina para o lobisomem não se afogar, ser sequestrado, apanhar, ver seus colegas de classe serem torturados (ou seriam amigos? A definição era difícil), ver Jackson morrer e sendo salvo pelo poder do amor, Gerard Argent desaparecer, seu lindo Jeep (de novo) estar danificado e Scott agindo por trás das costas de todo mundo?
E isso somente este ano.
Toda a bagunça envolvendo Peter, Scott ter sido mordido, Derek Hale ter retornado a Beacon Hills, são coisas que Stiles certamente não queria ficar relembrando.
Então, sim, como ele queria que sua vida fosse apenas normal como o resto da população da Terra. O que chega a ser irônico, considerando que ele achava sua vida e essa cidade um porre.
Se tudo continuasse como deveria, sua única preocupação seria continuar com o plano dos 10 anos de conquistar Lydia Martin.
E nem isso ele tem mais.
O que mais doía é que Stiles estava crente que talvez, só talvez, ele poderia ter alguma chance com a ruiva.
Mas aí Lydia, chorando, com maquiagem desbotada e lábios trêmulos, faz sua declaração a Jackson, lhe dando um beijo, essencialmente marcando o amor deles por toda a eternidade e salvando a vida do ex-kanima e agora lobisomem.
Momento puro Disney.
Stiles até acharia lindo se ele não estivesse de coração partido.
Porém isso nem se compara ao fato dele estar lentamente destruindo seu relacionamento com seu pai. As mentiras, as meias verdades, os olhares desconfiados.
Stiles ter sido responsável pelo xerife ter perdido o emprego — eventualmente acabou por recuperar o cargo.
Ele certamente não sabe o que fazer para recuperar o que eles tinham. Não parecia haver conserto.
Não que eles fossem muito abertos antes, certamente não como quando sua mãe ainda estava viva, mas com toda a certeza era melhor. Agora seu pai o olhava como se ele não o conhecesse mais. Desconfiança presente.
Não que Stiles tivesse opção, ou pelo menos, ele sentia que fosse o caso. Doía, mas a dor seria maior se o xerife soubesse que os monstros debaixo da cama existem. Era melhor que seu pai permanecesse ignorante ao mundo além do véu e focasse somente nos problemas do mundo humano.
Stiles suspira. Sua cabeça indo a milhão, deitado na cama em seu quarto e olhando o teto. Tinha uma teia de aranha lá. Ele não tinha reparado antes e não sabia se a aranha estava lá porque ele não ficava em casa nessas últimas semanas, se ele não limpou o quarto direito ou se ela sempre esteve lá.
Não que ele limpasse com frequência. Como qualquer adolescente ele odiava os deveres domésticos e os evitava sempre que dava. Mas com o xerife ficando pouco em casa e Stiles ainda não estar trabalhando (apesar de estar procurando trabalhos de meio período durante as férias de verão) alguém tinha que cuidar da casa.
E ele cuidava. Mas, assim como seu quarto, não era com tanta frequência.
A aranha se moveu pela teia. Ela para por um instante e depois volta ao ponto inicial. Ela permanece lá.
Stiles imagina que ela deve estar esperando o jantar. "Hoje não", Stiles pensa, já que dificilmente ele deixava a janela do quarto aberta, principalmente à noite. Era verão, mas o calor não estava insuportável.
Ele ouve sons de movimento no quarto de seu pai. Provavelmente ele estava se sentando na cama para colocar as botas, a julgar pelos rastejo dos lençóis e baque das botas. E então ele o ouve no corredor. A maçaneta começa a girar. Stiles olha para a porta.
— Stiles? — Pergunta John, uniformizado. Ele estava enfiando a camisa para dentro da calça — Tá acordado?
— Pai? Tá saindo para trabalhar, agora? — Stiles senta-se na cama, um pouco alarmado. Seu pai deveria estar de folga hoje.
— Sim. — disse ele, suspirando — Ocorreu uma emergência. Vou precisar ir à delegacia. Provavelmente não voltarei até amanhã de manhã.
Stiles franze o cenho. Não é a primeira vez que seu pai sai no meio da noite por causa de algo que aconteceu no trabalho. Tem sido mais frequente nesses últimos meses, com toda a papelada envolvendo todos os crimes. Todos os ataques de animais.
— É algo grave?
— Não. Não se preocupe com isso — disse o Xerife, firme — Só fica em casa e vai logo dormir. Amanhã 'cê tem aula cedo e Deus sabe que 'cê precisa manter a média das notas. Já basta o Scott dando trabalho para a Melissa — ele ajusta o cinto e coloca o revólver no coldre. Stiles não tinha reparado que ele estava com a arma na mão.
— Bem, minhas notas estão ótimas — Stiles diz, dando de ombros.
De fato, estavam. Apesar de toda a problemática nesses últimos meses ele conseguiu manter muito bem suas notas. A única disciplina que ele nunca tinha notas ruins e nem boas era a do professor Harris.
Isso porque ele não ia com a cara de Stiles. Não que ele se importasse: Harris é um cu.
— Dever de casa até tá tudo adiantado e tal. — Stiles estala a língua, fazendo um som de poc — Só que amanhã não tenho aula, lembra? Eu tô de férias.
O xerife pausa. Ajusta a camisa e passa a mão na cara.
— Claro. — assente com a cabeça, as mãos na cintura — Eu tinha esquecido.
Exaustão estava claro no rosto dele. Não que Stiles não reparasse. Esses últimos meses tem sido puxado, o Departamento do Xerife de Beacon Hills tentando solucionar todos os ataques e assassinatos sem muitos resultados.
População e a prefeitura cobrando resultados.
Não que eles pudessem fazer alguma coisa de fato, a menos que o Departamento soubesse lidar com toda a situação de lobisomens, Argents e o kanima a solta com Matt segurando a coleira. Mais uma vez o sobrenatural sendo a única explicação óbvia para tudo, mas que parecia impossível (ou sequer uma opção) para as pessoas comuns.
Não que eles fossem aceitar isso como solução, nem sequer deveriam. Apenas era mais uma coisa para adicionar na sua longa lista de coisas para se culpar.
— ... de qualquer forma, fica em casa. Não é porque cê tá de férias que pode dormir a hora que quiser e sair quando quiser. Já tá bem tarde — ele olha o relógio de pulso. Eram 23h00 em ponto.
— Tá, mas—
— Não — ele o olha, voz não deixando espaço para argumento.
Stiles se cala, não querendo agravar a situação.
— Stiles, fica em casa. Tô falando sério. Nada de sair de fininho essa hora da noite. Nada de dormir beirando 3 da manhã — o Xerife quase parecia suplicar, mas seu rosto não trai emoção alguma.
Mais uma vez Stiles sente uma pontada de culpa. Seu pai sempre foi um homem de postura firme, másculo, mas o seu tom nunca era desmerecedor. Ele não tratava Stiles como alguém que precisava ser disciplinado como se estivesse no exército. Não era exatamente amoroso também, não desde que sua mãe morreu, mas ele sempre esteve presente.
Ver este homem que o criou, lhe olhar com desconfiança, tendo que falar com ele como se uma única vez não bastasse... Doía. Bastante.
Stiles sabe que ele merece.
— Tá bom. Vou ficar aqui em casa, quietinho, sem nem um piu. Olha só, 'to até coberto — foi a resposta. Ele sabe que o clássico Stiles nem sempre ressoava com seu pai, mas não é como ele tivesse outra resposta.
Seu pai suspira.
— Já tô indo.
Ele fecha a porta. Stiles ouve som de passos indo até a porta de entrada da casa, a viatura ligando e o veículo saindo para a calçada. Ele fica esperando, até não poder mais ouvir o som do carro.
Stiles olha o relógio na cabeceira. 23h15.
Só porque não era incomum seu pai sair no meio da noite por causa de algo que aconteceu no trabalho não significava que Stiles ficasse menos preocupado. Era aterrorizante pensar que talvez algum dia ele saísse no meio da noite para nunca mais voltar para casa e—
Não, não, não, não. Pensamentos ruins, vão embora!
Stiles resolve aquietar a mente. Resolveu obedecer a seu pai desta vez. Talvez, se ele fechasse os olhos, poderia tentar dormir.
Ele vira de um lado.
Depois do outro.
Fica de bruços. Era desconfortável.
Volta a posição inicial. Abre braços e pernas como uma estrela-do-mar.
O sono ainda não veio.
Stiles suspira.
Tá, talvez se ele contasse carneirinhos ele poderia ficar entediado o bastante onde a única opção que seu corpo pudesse entender seria o descanso.
Faz sentido.
Um carneirinho, dois carneirinhos, três carneirinhos...
Cinquenta carneirinhos... setenta e nove carneirinhos... noventa e oito carneirinhos...
Hm, está dando certo. Isso, venha o doce e belo son—
Toc-toc
Stiles não solta um gritinho. E com toda certeza não cai da cama no susto.
O que foi isso?
Toc-toc-toc-toc
Dessa vez um pouco mais forte. O som parecia estar vindo de sua janela. Mas o que—
— Stiles — ele ouve o som abafado do lado de fora.
Essa voz, era o—
Stiles rapidamente se levanta e caminha até a janela.
Sim, realmente, lá estava ele: Derek Hale, em toda sua glória estupenda, com a cara de poucos amigos, sobrancelhas fazendo uma linha. A boca torta em uma carranca.
Sim, Stiles conseguiu deixá-lo irritado sem nem ter feito nada. Típico.
— Cara, o que você tá fazendo aqui? Faz alguma ideia que horas são? — Stiles indaga, um pouco irritado que o alfa queira alguma coisa a essa hora da noite. É sério, é como se ele não tivesse etiqueta social alguma.
— Abra a janela. — foi a resposta abafada e meio grunhida em incômodo.
Stiles revira os olhos.
— Por acaso tá fugindo da polícia de novo? Espera, você foi a emergência dessa noite?
Não seria a primeira vez que Derek Hale fugiria da polícia para se esconder na sua casa.
Parando para pensar, é a segunda vez que isso acontece, o que não é muita coisa, mas é estranho ser a segunda vez que o lobo resolve se esconder na sua casa.
— O que? — Derek soa confuso.
— Quer saber? Eu não tenho que aturar isso. Vá embora! Xispa! Pshhhhh — na melhor performance de espantar um cão.
Derek não parecia nenhum pouco impressionado.
— Stiles, abra a janela.
— Não. Além do fato de estar muito tarde, estar fugindo da polícia—
— Não estou fugindo de ningué—
— ... aparecer na minha casa de novo e não compreender etiqueta social, nem privacidade. É sério, já pensou você aparecer em uma hora muito invasiva, é totalmente compreensível minha revol—
Derek perde a paciência.
— Stiles, abre a porra da janela. Ou eu mesmo a arranco fora.
Stiles só fica boquiaberto. Sim, ele facilmente conseguiria fazer isso. Aqueles músculos não eram apenas para amostra.
Stiles revira os olhos.
— Pelo menos usa a porta de entrada que nem gente, seu esquisito. Bárbaro. Bruto.
Derek não diz nada. Apenas entra no seu quarto, descendo pela janela com uma graciosidade e precisão animais que Stiles nunca conseguiria fazer. Ele imagina que talvez venha de seus reflexos naturais de um predador da noite. Ou talvez seja só o Derek mesmo.
O lobisomem dá uma olhada no seu quarto, com as mãos no bolso da jaqueta de couro. Ele dá uma leve fungada e faz uma careta como se tivesse sentido um cheiro ruim.
— Seu quarto fede. — diz como se estivesse afirmando um fato.
— E você com certeza nunca ouviu falar em etiqueta social. — diz Stiles, mesmo sentindo-se auto cociente com o estado de seu quarto.
Não estava exatamente uma bagunça, mas o estado de desleixo era visível.
— O que você quer, cara?
— Não me chame de cara. — escarnece Derek, que depois de averiguar o quarto, parece decidir que sua cadeira próxima a escrivaninha parecia ser um local adequado para se sentar.
Derek fica em silêncio. Parecia estar ponderando o que dizer. Stiles espera.
E espera.
E espera.
E espera.
Impaciente.
— Entããããããããooooonnn — Stiles arrasta a palavra, a voz subindo uma oitava, sabendo que Derek ficaria incomodado com isso. A boca do alfa dá um pequeno tique de irritação. Stiles se sente vitorioso — dá para dizer o que veio fazer aqui? Tá realmente fugindo da polícia de novo? Ou comeu algum animal inocente e tá passando mal?
A última parte foi piada — mais ou menos. Stiles sinceramente esperava que não fosse o caso.
Derek só o olha. Suspira pelo nariz e revira os olhos.
— Você não é tão engraçado quanto pensa.
— Pelo contrário, eu sou divertido para caramba. Você devia ter me visto quando estava em uma festa de aniversário infantil. Toda a criançada ria.
— De você? — um sorriso sarcástico.
— Ah, não. Eles tinham um palhaço para isso.
— Entendi. Então você está dizendo que seu humor é infantil.
Stiles só dá ombros. SIM.
— E não tem absolutamente nada de errado com isso.
Derek só o encara, novamente, não impressionado.
Stiles resolve esperar dessa vez. Apressar o lobo não seria bom e com toda certeza não era uma boa noite para ele brincar de pique-pega com um predador.
Depois de um tempinho Derek resolve falar. Talvez ele estivesse se preparando mentalmente, ou talvez estivesse decidindo se seria mais fácil esquecer o quer que fosse e ir embora.
Com toda a certeza não era o que Stiles estava esperando ele dizer.
— Preciso de sua ajuda — foi dito quase a contragosto. Como se admitir que precisar de ajuda (ou talvez precisar da ajuda de Stiles em específico) fosse um empecilho.
Stiles pisca. Ele pisca de novo.
Stiles sente um sorriso arrastando-se pelo seu rosto.
Derek Hale, lobisomem residente, Alfa com A maiúsculo, dominante, de cara fechada, "não confio em você", estava pedindo sua ajuda.
Claramente sua noite estava prestes a ficar melhor.
— Espera um segundo. Deixa-me saborear o momento. Poderia repetir? Só adicionar mais emoção, com um “por favor” no final. — Stiles encosta-se na escrivaninha, cruzando os braços, expressão brincalhona.
Derek Hale raramente lhe pedia ajuda. Ou melhor, nunca pedia. Isso era um raro e único momento.
Derek apenas bufa e revira os olhos. Provavelmente já estava se arrependendo de ter vindo.
— Stiles.
— Não, é sério. Devíamos emoldurar isso. Um enorme quadro bem ali na parede escrito "Derek Hale pediu ajuda". — Stiles ri, mexendo os braços e os estendendo. Realmente imaginando o cenário. Seria divino.
Derek fecha o maxilar, olhos brilhantes em vermelho por um leve segundo. Como se estivesse ponderando ir embora ou jogar Stiles contra a parede — o último é o mais provável.
Stiles sente pena. Claramente o alfa não queria estar nessa posição, então ele para momentaneamente de rir e tenta deixar o rosto sério. Ele falha um pouco.
— Tá, fala logo o que quer, seu chato.
— Erica e Boyd sumiram.
Stiles congela.
— Como assim, "sumiram"? — Stiles exageradamente faz aspas no ar.
— Simplesmente sumiram. Na mesma noite que cuidamos do Jackson.
Stiles pisca. Como ele ficou sabendo disso só agora?
— Cara, preciso de mais detalhes. Isso foi a dois dias. Você os procurou? Os rastreou? Scott sabe disso? O Isaac? Peter? Procurou o Deaton?
Não é porque Stiles não tinha relação alguma com a alcatéia do Derek que ele não se preocupava com os betas. Erica e Boyd, sinceramente, eram apenas vítimas da situação.
Derek parece fechar mais cara. Stiles não sabe como isso é possível.
— Os rastros deles param na floresta, à beira da estrada. Não consigo sentir cheiro algum deles depois deste ponto. — Derek se levanta e fica de braços cruzados. Sua expressão agora era de preocupação, misturada a um pouco de raiva e talvez... desespero?
— Scott... não é uma opção. Isaac está me ajudando a localizá-los, mas ele também não encontrou nada. Peter e Deaton não estão na cidade.
Scott... Sim, Stiles entende porque ele não é uma opção. Aquela noite foi um misto de emoções e mesmo que o plano de Scott tenha dado certo é claro que a visão de Derek sobre o ocorrido seria totalmente diferente.
Mas Scott é uma melhor escolha, objetivamente falando.
— Bem, ele seria mais útil para encontrar dois lobos.
— Ele. Não. È. Uma. Opção. — diz firme cada palavras, não deixando espaço para argumentos.
Stiles zomba.
— E eu sim?
— Você é o único outro na cidade que sabe o que acontece — Derek olha de lado, olhos fixos na parede — e preciso de ajuda com quem posso contar.
Stiles... está surpreso. Derek agora confia nele?
— Não faça essa cara. — Derek revira levemente os olhos — Apesar do quão irritante, você é útil.
Stiles pondera. Sim, ele está certo.
— Tá bem, lobo razinza. Como posso ajudar?
— Não você. Quem. Preciso que fale com o Danny.
Stiles fica surpreso novamente. Como assim falar com Danny? Ele agora sabe do sobrenatural? Não, espera, Derek especificamente disse "você é o único outro na cidade que sabe o que acontece", então não deve ser isso.
— Eu poderia falar com ele—
— Ótimo. Faça.
— ... se ele não tivesse saído da cidade.
Derek agora o olha. Rosto numa carranca.
— O que. -- era para ser uma pergunta.
Sim, Derek nunca perde o costume de engolir o ponto de interrogação em algum ponto de qualquer conversa. Era um tanto impressionante.
— Ei, não me olha assim. — Stiles fica levemente indignado — Desde quando Danny te deve alguma coisa? O cara tá aproveitando as férias, sabe, como todo mundo da escola está fazendo?
Derek não parecia menos irritado com essa informação.
— Ele fez uma postagem no Instagram. Ele viajou. Seja lá o que você queria com ele, não creio que ele possa ajudar.
Derek suspira e, talvez pela primeira vez desde que Stiles o conheceu, viu um cansaço naquele rosto.
Ele não havia reparado antes, com toda aquela atitude, personalidade, barba e músculos, mas o Derek, de repente, parecia... jovem.
Como se tivesse um peso nas costas e sem saber o que está fazendo.
Ele podia agir como um homem velho, mas não realmente era. Apenas... teve de amadurecer mais cedo.
Stiles agora se pergunta se talvez esse tempo todo Derek agia assim porque ele se sentisse obrigado. Como se tivesse que se virar com uma responsabilidade que não era dele.
— Danny não pode ajudar, mas talvez... eu possa — Stiles oferece, dando levemente de ombros.
Derek não parecia muito convencido.
— A menos que você saiba como hackear câmeras de segurança, não creio que possa ajudar.
Stiles pisca. Ele olha levemente para o teto.
Uma mosca se prendeu na teia. A aranha, satisfeita, começa a se mexer novamente.
— Bem, hackear não sei, mas talvez eu possa conseguir acesso às filmagens. Só depende de quais câmeras estamos falando.
A aranha abocanha a presa.
Derek só o olha, surpreso, e levemente, esperançoso? Stiles só solta um sorriso sem dentes.
Sim, com toda a certeza sua noite melhorou para caramba.
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