Sob O Farol E A Lua
2 Nem Todo Humano, Nem Todo Lobo
Notas iniciais
O alfa sentia-se exausto. Estava a dois dias sem parar um minuto sequer procurando, rastreando, qualquer coisa que indicasse alguma pista que fosse de Erica e Boyd. O desaparecimento de ambos era como uma faca se afundando lentamente em seu peito, a todo momento lhe lembrando do quão falho como alfa ele era.
Ele não sabe o que era pior: os dois terem fugido, para irem embora dessa vida (dele) ou se foram capturados, o que ainda é falha sua, pois é seu território.
O que é porque ele teve que se voltar a métodos não ortodoxos.
Derek não sabia o que estava pensando. Dentre todas as pessoas de Beacon Hills que ele poderia pedir ajuda ele foi logo atrás do moleque Stilinski. Totalmente humano, frágil, muito jovem, inexperiente, desatento, tagarela, hiperativo e um piadista que não levava as coisas a sério. De forma lógica, o alfa sabe que como primeira opção ele não deveria ser considerado.
Porém era inegável que dentre todos as outras pessoas na cidade (até mesmo incluindo seus betas, se ele estivesse sendo totalmente honesto) Stiles Stilinski era o mais útil.
Apesar de seus defeitos, — e de sua imensa vontade de ser um merdinha irritante — eram poucos comparados as suas qualidades. Mesmo Derek, sendo orgulhoso como é, consegue admitir isso.
Leal, corajoso, valorizava os amigos e família acima de qualquer coisa, inteligente, perceptivo, compreendia situações mesmo com poucas palavras, mas acima de tudo: confiável.
Sim, Derek entedia tudo isso. Todas ótimas qualidades de um lobo.
Não pela primeira vez ele se pega considerando porque seu tio não mordeu Stiles ao invés de Scott.
E só de pensar em Scott faz os cabelos de seu pescoço se eriçarem e um rosnado querer escapar de seu peito.
Scott Mccall é um completo imbecil. Suas constantes reclamações, desafios a sua autoridade e um total idiota as todas as coisas que acontecem na cidade, seriam o de menos, se ele ao menos se comportasse e fizesse o necessário para ajudar. Novamente Scott fazia o que queria, quando queria e com os resultados que ele queria. Derek poderia suportar tudo isso — já o fez desde que retornou a esse purgatório que chamam de cidade — mas as últimas ações do beta foram a gota d’água.
Mais uma vez usaram seu corpo para um ato nefasto.
Sim, o plano de Scott e Deaton deu certo. Porém em meio todo a confusão daquela noite Gerard Argent acabou fugindo, longe do melhor resultado possível. Algum dia o patriarca retornaria para tornar sua vida um inferno, de novo. Tiraria mais vidas inocentes, de novo. Tudo isso porque um adolescente achava que sabia mais do que um adulto, mais velho e experiente.
Envolver Scott na procura dos betas estava fora de questão. Por mais que Isaac tenha criado intimidade com o ele, Derek foi bem específico ao informar ao loiro que Scott não será envolvido. Nunca.
Dizer que Derek estava imensamente irritado não chegava perto do que ele realmente sentia.
Ele não deveria confiar em humano algum. Essa era a única regra que ele seguia à risca, mas desde que retornou a Beacon Hills ele esteve fazendo exceções de novo, de novo e de novo.
Porque, sim, Scott Mccall podia ser um lobisomem agora, mas ele ainda agia e pensava com um humano. Não considerava que não existia mais somente ele na equação, que cada decisão que ele toma afeta toda uma comunidade.
Não que Derek deveria estar surpreso. Lobisomens mordidos eram diferentes dos que já nasciam assim. Para o alfa, nunca foi uma questão de questionar sua humanidade e seus instintos. Para ele não havia distinção. Animal e homem caminhavam como um só, sem diferenças ou outros “eus”. Nascido e criado em um ambiente que mais do que abraçava essa ideia, era a mais correta, a mais próxima da verdade, de sua cultura. Esperar que um mordido entendesse isso era difícil, era esperado, mas não menos trabalhoso e decepcionante.
O que é porque a mordida é um presente. Não algo que se distribuía a torto e a direito.
Não que ele esperasse algo diferente dos humanos. Todos eles, egoístas, sem empatia ou distinção de uma unidade como uma alcateia. Todos sem salvação e cavando a própria cova.
Todos eles deveriam queimar.
Sons altos de teclas. Um teclado, sendo digitado com força o bastante para fazer barulho. O lobisomem volta sua atenção ao presente.
Derek olha Stiles. Bem, o alfa pensa, enquanto olha o moreno focado em digitar no teclado, nem todos.
O lobo observa conforme Stiles pesquisava na internet. Em algum ponto o adolescente sentou-se na cadeira e começou a mexer no PC. Derek permanecia próximo, em pé, observando.
— Provavelmente você não sabe, sendo o homem das cavernas que tu é, — diz Stiles, olhos focados no monitor e digitando rápido. Derek nada diz — mas recentemente, eu acho que tem algumas semanas, a prefeitura procurou uma ação judicial que permitia acesso irrestrito as câmeras de segurança públicas da cidade ao Departamento da Polícia de Beacon Hills. Foi aprovado tem poucos dias. Sabe, por causa de todos os ataques de animais, entre outras coisas.
Stiles bufa levemente em escárnio, balançando a cabeça. Sim, todas as desculpas aos corpos mutilados e restos de cadáveres sendo a mesma explicação. Era um tanto ridículo, Derek tende a concordar.
O adolescente gira levemente na cadeira, ficando em frente ao lobo, lhe mostrando um artigo de um site de noticiais. A manchete dizia “Em ato de desespero, a prefeitura entrega controle de vigilância a polícia de Beacon Hills”
Derek franze o cenho.
— E a Defensoria Pública permitiu isso?
Considerando as leis rígidas da California quanto a direitos básicos de privacidade e de vigilância eletrônica, o lobo não imaginava que algo assim poderia ser legalmente viável.
— A Defensoria Pública deu suporte a decisão judicial e, não, eles não responsáveis por “permitir” nada. — Stiles gira levemente na cadeira, pés arrastando no chão — Está confundindo com a Secretária de Segurança Pública.
O adolescente mexe no mouse para mostrar o resto do artigo. Derek chega mais perto para ler.
— Foi considerado um caso extraordinário e fizeram uma exceção. — ele explica, didático — Considerando que o máximo que acontecia em Beacon Hills era furtos e dificilmente tinhas assaltos, eles consideraram a possibilidade da policia ter controle sobre as câmeras públicas, a fim de diminuir “crimes hediondos”. — Stiles faz aspas no ar — Mas você e eu sabemos que isso não vai servir de muita coisa no final das contas.
De fato. No mínimo colocaria em exposição certos elementos do “outro mundo”, mas considerando que o sobrenatural permaneceu em segredo (no geral) esse tempo todo, a longo prazo isso só frustraria qualquer tentativa de tentarem proteger o cidadão comum. Afinal, Beacon Hills não tem esse nome atoa. Realmente um farol para problemas.
— Como você vai conseguir as filmagens? — Derek indaga.
Quando ele percebeu que tentar rastrear Erica e Boyd do jeito convencional não daria certo, ele ficou momentaneamente quebrando a cabeça quanto ao que fazer. Até Isaac sugerir eles mudarem de abordagem: “menos animal, mais como um humano” ele disse, e apontou para uma câmera quase imperceptível na estrada.
Foi então que lembrou-se do garoto Danny, naquele fatídico dia que ele teve que se esconder na casa do Stilinski. Erica havia comentado certa vez que ele tinha cometido “certos delitos” quando mais jovem, mas conseguiu se livrar de quaisquer provas por ser um “mestre da computação”.
Teoricamente a pessoa certa para o que ele precisava, até chegar a Stiles e descobrir que ele não estava disponível. Derek achava que tinha voltado à estaca zero. Pelo menos até o adolescente se oferecer para ajudar.
Não que ele não apreciasse. Mas uma coisa é se oferecer para ajudar, outra é realmente conseguir fazer isso.
— Ora, acha que não consigo? — Stiles solta um leve sorriso sarcástico — Não é só o Danny um mágico da programação.
Derek só levanta as sobrancelhas.
— Tá, não entendo quase nada de programação... — Stiles concede — ..., porém meu pai é o xerife e posso entrar na delegacia sem ninguém suspeitar de nada. O verdadeiro problema será conseguir acesso ao que precisamos.
— O que volta a minha pergunta: como você vai conseguir as filmagens?
Derek não duvida da capacidade do adolescente em ser útil. Mesmo que ele jamais admitiria isso em voz alta, Stiles foi responsável por várias coisas terem dado certo nesses últimos meses. Discutivelmente desde que Derek voltou a cidade. Mas o lobo duvidava que ele conseguiria fazer algo dessa escala. Pelo menos não sem chamar atenção para si.
— Relaxa. Eu já pensei num bom plano. — Stiles dá levemente de ombros — Ninguém vai questionar minha presença lá. Os policiais me veem tantas vezes que já sou praticamente um estagiário honorário. — dessa vez ele se levanta, vai até a cama e se senta lá. Derek permanece de pé, mãos no bolso, ficando levemente perto do colchão — Vou dar uma conferida, fofocar um pouco e entrar no escritório de meu pai. A sala onde fica o controle de câmeras do Departamento deve ser a mesma onde atualizaram os sistemas para acessarem as câmeras públicas. Ele deve ter acesso.
Stiles solta um bocejo, olhos semiabertos. Talvez Derek devesse ter vindo uma outra hora, quando o adolescente estivesse mais disposto, mas ele não queria arriscar perder mais tempo.
— E se ele não tiver acesso?
— Improvável, já que meu pai é o xerife. Mas se ele não tiver acesso, então o cara do TI tem. E se ele não tiver, o que é ainda mais improvável, talvez tenha uma equipe nova sendo treinada. Não sei cara — Stiles estava bocejando ainda mais.
Derek não estava gostando do plano. Estava simples demais.
— E se você for pego?
— Então acho que finalmente terminei de destruir o relacionamento com meu pai. Prêmio de filho do ano não vai para mim dessa vez. — a linguagem corporal de Stiles e expressão facial estavam neutros, mas seu cheiro denotava tristeza e melancolia.
Derek não sabia o que responder.
— Cara, relaxa. Vai dar tudo certo. No mínimo, se der errado, o único que sai perdendo aqui sou eu. — e com isso, Stiles começa a se preparar para dormir.
O lobisomem ainda estava indeciso. Mal dava para chamar isso de plano, mas no momento era a melhor opção que ele tinha.
Ele suspira internamente e espera não ter tomado a decisão errada. Ele vai até a janela e estava a ir embora, mas para ao estar com metade do corpo para fora do quarto. Ele olha Stiles, quase dormindo, e resolve perguntar o que estava no fundo de sua mente esse tempo todo.
— Por que está me ajudando?
Stiles Stilinski é um enigma. Totalmente diferente de qualquer outra pessoa que Derek já conheceu, mesmo sendo humano, mesmo sendo um adolescente, demonstrou ser muito mais que qualquer outro. Lobisomem ou outra coisa.
Stiles abre um olho.
— Uh?
— Por que se arriscar assim? Você... não tem nada a ganhar com isso.
Stiles só o olha como se não tivesse acreditado no que acabou de ouvir.
— Mano, tá muito tarde para eu estar filosofando questões de vida contigo. — Stiles estava coberto, mas se levanta da cama até estar em uma posição sentada — Mas se quer uma resposta eu... não sei.
Derek franze o cenho.
— Você podia ter dito não.
— Sim, mas... — Stiles para, parecendo pensar no que dizer — Isso não está certo. — ele não termina.
Derek não precisou esperar muito. Stiles logo estava falando.
— Digo, não só a situação com Erica e Boyd, mas tudo isso — ele abre os braços, como se para dar ênfase — não está certo. Minha relação com meu pai, Scott ter sido mordido, eu não ter servido de nada quando me capturaram ou quando o kanima me paralisou e não pude fazer nada naquele dia na delegacia. Digo, nada disso realmente está certo.
Derek afasta o olhar. Ele sente uma pontada de culpa, sabe que por mais que ele culpe Scott por certas coisas, o alfa está ciente que ele é igualmente responsável por outras. Seu envolvimento na vida de adolescentes sendo uma delas.
— Então — Stiles continua — se eu puder ajudar alguém que se ferrou nessa situação, como os betas, eu vou ajudar. E apesar de ainda achar que você tirou vantagem de adolescentes emocionalmente instáveis — Stiles lhe aponta um dedo. Derek não reage — eu ainda acredito que eles estavam melhores com você. Independentemente do que Scott acha, eu não acredito que você ter os transformado foi uma decisão ruim. Ao menos não mais.
Derek... estava paralisado. Stiles, que sempre veementemente (e altamente) dizia e apontava seus defeitos, agora, parecia mais confiante do que nunca em concordar com ele.
O lobo até aguça sua audição para ter certeza. Sim, ele não estava mentindo. Batimentos cardíacos estáveis, sem pulos ou incertezas.
Stiles estava sendo 100% sincero no que dizia.
Derek não sabia o que pensar. Apenas assente com a cabeça para o adolescente, que lhe dá um sorriso cansado e volta a deitar.
Ele sai pela janela, pulando do telhado a grama com precisões treinadas e começa a correr em direção a floresta.
Neste exato momento, o que ele conseguia sentir era gratidão ao estranho e esporádico garoto que corria com lobos, mesmo sabendo que ele se machucaria, sendo tão normal quanto ele era.
Talvez nem toda a humanidade precisasse queimar.
Fale com o autor