Sob Condicional
5 Capítulo 5
Somos dois bobos dançando sobre uma chuva torrencial, é frio, no entanto, sua presença conforta-me. Minhas mãos envolvem seus bíceps, não ousariam tomar seu pescoço, talvez não pudesse resistir a tentação de agarrar-lhe os cabelos. Liam é comprometido e mesmo que confusa, prometi-lhe que este seria apenas uma saída entre amigos. Agora meu ouvido recosta em seu peito. Ritmo normal. Inconscientemente praguejo tal fato, despertando a atenção do garoto, quase parara nossa dança, mas o impeço e tomando toda a coragem dentro de mim ouso mira-lo, não necessariamente em seus olhos, concentro-me em seus lábios e dou-lhe um sorriso. Por instantes toda a minha incerteza esvaiu-se, o medo do futuro, do fracasso, o ódio por Simon, a mágoa de minha mãe... estamos dançando sobre um céu de desaba, entretanto sinto aqui dentro que é um belo dia e estou agarrando-o.
–É nosso segundo encontro, Natalie Scott. Lembra da regra número um? Por favor, diga-me que já não está valendo... seria péssimo ter de prende-la por outra música, sei que essa não faz o seu estilo. – Com suas palavras foram ditas o mais perto possível de minha orelha e o hálito de café preencheu meus sentidos de forma confortável.
–Como pode saber o que gosto, herói? Este é apenas nosso segundo encontro, todavia o contarei mais sobre o trote. – Suspirei. – No começo do ano, tínhamos um professor. Já velho e cansado, acabou aposentando-se, ele é exatamente como o professor de biologia para você e ensinava-me desde meu primeiro ano no colegial. Foi difícil enfrentar a sua aposentadoria e ainda mais encarar o novo professor. Minha matéria favorita desde sempre é história, ela não muda, no entanto está sempre adquirindo mais coisas para si. Bom, deixe-me falar sobre o professor Wright, diferente dos outros, ele é bem mais novo e extremamente atraente! De verdade, aquele homem é muito lindo! E todas as garotas sempre tiveram uma “quedinha” de penhasco por ele, mas eu contive, sei separar as coisas e decidi que para mim ele seria somente um professor. Houve um trabalho, foi todo um mês de estudo sobre a revolução francesa e seus reflexos no mundo atual, dias de pesquisa e entrevistas também com historiadores. Imagina o quanto foi difícil conseguir o email deles? E ainda mais aquela ansiedade de correr para verificar durante todos os dias se havia recebido uma resposta. Então, chegou a data da entrega, alguns pediram uma extensão do prazo e, como um professor legal o Richard permitiu que assim fosse feito. Pouco tempo depois houve a entrega dos boletins e minha nota ficara vermelha. Sem entender, o procurei e ele mostrou o trabalho de Amara e afirmou que o meu havia sido um plágio! Depois chegou a própria e gritou coisas sobre o trabalho ter sido só dela e eu não ter direito de copiar. Sem alternativas, aceitei tal nota estragando o meu boletim. Ao sair já tarde do colégio, depois de ficar fazendo pesquisas para um novo trabalho de forma a compensar minha nota, ouvi gemidos e fui seguindo até a sala. Pelo vidro da porta vi os dois transando sobre a mesa do professor, sabe, ela estava com os peitos de fora e o Richard metendo como um louco... foi uma cena horrível, mas perfeita para a minha vingança. Tirei fotos e também filmei os dois, de forma a deixar que não me notassem. Alguns dias depois espalhei fotos variadas pelo colégio, com direito ao vídeo exibido na TV da sala. Descobriram que fui eu, disse toda a verdade sobre o que aconteceu e tanto Amara quanto o professor Wright, foram expulsos do colégio. Comigo não foi diferente, o diretor disse que eu poderia ter denunciado sem fazer alarde e por isso, causara minha própria expulsão. Papai pagou uma grande quantia para que não me reprovassem, ele ficou muito bravo e passou um mês sem fingindo minha não existência. Agora estou aqui e todos acham que aquilo foi um trote, uns acreditam que eu mandei Amara fingir.
–Deveria defender a verdade, Natalie Scott. Não pode deixar que continuem a te fazer de vilã. Todos acham que já que fuma depois do almoço e dança sobre as mesas está sempre quebrando as regras... – O moreno afastou o cabelo molhado de meu rosto. A música estava chegando ao fim e com ela, levando o pequeno infinito que durou aquela dança.
–Sou uma mentirosa, herói, mas não sou tão boa em seguir as regras. Estão certos, eu fumei, eu bebi e me vinguei. Eu amei caras mesmo sabendo que tudo teria um fim trágico, fui traída e entendi que o fim será o meu fracasso... mas eu estou aproveitando o meu último ano no colegial como ninguém. – Dei um passo para trás, desvencilhando de suas mãos. Seus cabelos estavam pingando, a testa franzida em confusão e as mãos perdidas no ar onde eu deveria encontrar-me. Peguei a bolsa e também o copo de café. – Está agindo como se eu fosse errada! Se alguém deve ser a mocinha outra precisa assumir o papel de vilã! Já fiz isso tempo demais para simplesmente parar agora e fingir uma mudança.
–Pare de se preocupar com o que os outros vão pensar! O ensino médio não é eterno e não importa o que faça, ao fim todos vão esquecê-la, Natalie Scott. Você não é a vilã e eu sei disso, você sabe disso... – Suas mãos tomaram o meu rosto e mesmo que meu corpo pedisse para ficar, dei-lhe as costas. – Sinto muito, Natalie! Você ganhou essa, você ganhou isso! Estou fascinado no modo como faz as coisas parecerem fáceis, você faz parecer que o que vier após o ensino médio decidirá por si mesmo... no entanto, não sou bom e acreditar no que não entendo.
–Não. As coisas não decidirão por si só, porém aproveito meu tempo. Ainda tento descobrir o que quero, algumas pessoas não tem um rumo certo. Mudam a faculdade, mudam de emprego, de país, de vida, as pessoas estão mudando, sempre. E eu quero permanecer em minha condição! Entenda, herói, eu tenho medo de precisar mudar... tenho medo de que as coisas não deem certo e estou temendo ainda mais o fato de que vejam quem realmente eu sou... uma perdida. – Com essas palavras continuei andando. Alguma coisa havia quebrado dentro de mim, não precisava ter dito toda a verdade e encontro-me frágil. Liam pode me desmascarar na frente de todos, acabar com todas as minhas mentiras e toda a moral que construí cairia por terra. O caminho ao hospital sozinha foi o suficiente para pensamentos de todos os tipos invadirem minha cabeça. Fecho os olhos e relembro de nossa dança, nem todos os pensamentos ruins são o suficiente para tirá-la de mim.
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Rachel está deitada na cama, tento ler para ela as perguntas e opções de um teste: “Qual o seu tipo de gato?”, até agora a minha amiga está com nove pontos e sua única opção é: “Safadinho. Você gosta de um cara que conquiste-a com muita cantada, ele dirá o quanto você é linda todas as manhãs e depois de uma pegada com vontade estará toda se derretendo nos braços do gato”. A loira está tentando passar gloss, seus lábios estão inchados e torna-se uma tarefa complicada, ouço-a gemer a cada passada e mesmo assim não desistir... mulher de coragem! – Ergo o olhar para fitá-la, grande parte do rosto do Rachel havia sido desfigurada com a surra. E mesmo assim a garota estava irradiando vitalidade e coragem.
–Acha mesmo que pode definir o seu homem perfeito com uma dessas revistinhas? – Arqueei a sobrancelha e Rachel começou a rir e depois a murmurar que havia doído mexer-se. A loira consentiu com a cabeça e mandou que eu lesse a próxima pergunta. – Eu me recuso a ler isso! Não existe esse treco de que há um tipo de homem para a mulher! Ela pode ficar com quem ela bem quiser! – Levei as mãos à cintura, lançando a revistinha sobre o ombro. Aproximei-me de Rachel e a loira deu-me espaço para sentar na cama, o fiz. Passei na loira o lápis no canto da boca, tarefa complicada com ela mexendo-se e grunhindo.
–Simon esteve aqui, Natalie. A mãe dele pediu que não o denunciasse, com essa, o Simon seria preso. Ao que parece já está respondendo um processo por brigar com um cara que soltou uma piadinha... – Rachel deslizou a mão por o pescoço e colo também, apetando bem sobre o coração. A loira retirou o anel dado por Simon Hunter há algum tempo, encarou-o e com a outra mão afagou-o, exatamente como uma joia rara. – Natalie, já amou tanto alguém que poderia passar por cima de todo o seu medo, raiva e dor só para fazê-lo feliz.
–Não e pretendo nunca passar, Rach. Meu desejo é um cara que faça queimar todos os meus sentimentos, ele tem que me fazer ficar zonza, me surpreender e depois quero ter vontade de dançar e entregar-me em seus braços. Quero que ele me ame e me toque como sabe, como deseja, só que isso entre você e Simon... não é certo... amiga. – Abracei-a e depois deitei a cabeça em seu colo, permitindo que a loira pudesse brincar com os meus cabelos. – Amo você, Rach, é a melhor amiga que já tive... se eu fosse um cara namoraria com você e te provaria que homem bom não maltrata.
–Se você fosse um homem, espero que fosse um Jaime Dornan, um Adam Levine ou William Levy. Uh, eu certamente iria gostar disso... Natt, deveria ter nascido com um pinto! – A loira balançou os cabelos e deslizou a língua por entre os lábios quando os médicos entraram. Dois. Um ruivo e outro moreno, com idade entre vinte e cinco e trinta anos. Meu ar esvaiu-se ao vê-los. Oh. Meu. Deus.
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