Sob Condicional
4 Capítulo 4
–Ainda não encontrei seu nome gravado nela, querido. Saia agora da frente, isso não é um tipo de brincadeira, Simon. Rachel está mal e você agindo como um idiota. A perda do bebê já foi o bastante para mim, sério, acha mesmo que a Rach não falou que foi tudo culpa sua? Pensou só por um segundo que ela me disse toda aquela baboseira de que escorregou da escada? Estou de saco cheio de você, cara. – Sua mão foi certeira em minha face. O tapa queimou em meu rosto, e, tenho certeza de que não é o único responsável a deixa-lo em brasas.
Encaro-o por tamanha covardia. Espero um outro tapa e ele vem, não dou para trás. Darei minha face aos tapas de Simon, quantos quiser, desde que saia com a minha amiga. Arrumo-a novamente para que não caía, seus sussurros são baixos, suplicando por ajuda. Naquele momento Simon arranca Rachel de mim e joga-a no chão, tento recuperá-la, mas é tarde e ele desfere um soco contra meu rosto. O ódio inflama em cada uma de minhas veias e grito por ajuda. O loiro tranca a porta e ouço os gritos de Janet insistindo em abri-la, agora Rach está chorando e pedindo desculpas, aquilo me corta o coração e mirando Simon aproximar-se vou me afastando até sentir sua mão agarrar meus cabelos e erguerem-me do chão. Sinto nojo e cuspo em seu rosto, desferindo uma joelhada contra suas bolas, de imediato ele vai ao chão. Chuto-o várias vezes e arrastando-me até Rachel puxo-a para mais perto, abro a porta e saímos. Agora começo a chorar e é Janet quem agarra a loira, viro-me e com fúria dou o primeiro passo, pronta para voltar e acabar com aquele cretino nem que seja com facadas, mas a empregada segura um de meus braços e com uma força surpreendente arrasta a nós duas para a sala. Deixando Rachel deitada no sofá, Janet começa a discar o número da ambulância, nem por um momento soltara meu braço, temia que voltasse lá para fazer alguma besteira. Sim, aquela era a maior vontade de meu coração no momento.
Os pais de Simon chegaram. Apesar do homem ser um velho aposentado de uma empresa de advocacia, a mulher ainda trabalha como uma psiquiatra e sempre que deseja fazer as médias com ela vai pegá-la no trabalho depois lhe presenteia com flores. Virei o rosto desejando não passar pela humilhação de deixar aquele velho asqueroso ver o que o filho tinha feito, parte da culpa é dele, afinal, Simon presenciou o pai trazer as amantes para casa e espanca-las.
–Mas o que aconteceu com você, Rachel? – Referindo-se a Rachel largada no sofá, pelo tamborilar de seus saltos correra até minha amiga. Pelo canto do olho vi um homem de classe, terno azul marinho e cabelos completamente grisalhos subir as escadas, retirava o cinto de suas calças. – Janet, trate de me explicar essa situação, por favor!
–Parece que Rachel e Simon tiveram um pequeno desentendimento, depois chegou Natalie houveram gritos. Quando fui ao quarto já a encontrei nesse estado. – Agora a mulher ousou soltar meu braço, permitindo caminhar até a janela. Pelos gritos no andar superior estava tendo uma sessão de tortura. – Não imagino o que deu em Simon para fazer isso com as meninas! Venha, Natt... preciso por gelo em seu rosto.
–Não se dê ao trabalho. Cuide de Rachel e ficarei bem, Janet. Posso me virar com um olho roxo, nem é a primeira vez que ganho um. Só está me motivando a fazer algo que sempre quis, aulas de krav magá. – Com o rosto começando a esfriar eu já podia sentir a dor tomar conta e fazer todo o lado direito latejar. Sorri de modo muito confiante e altivo, sou especialista em fingir que as coisas estão bem. – Vai ficar bem, Rach. Não importa em quantas brigas tenha de me meter. Estaremos juntas até o fim. Além do mais, vai dar uma história muito legal algum dia e iremos rir...
Sentei aos pés do sofá, afastando uma mecha do cabelo da garota do rosto, beijei-lhe a testa e comecei a rir dando vários beijinhos em sua têmpora. Segurei sua mão, exatamente como sempre fazemos em momentos difíceis. Era complicado não chorar vendo suas lágrimas escorrerem. Janet e a Sra. Hunter tentavam nos dizer que tudo ficaria bem e eu deveria deixar Rachel, porém não fiz. Sei que precisava de mim. Contei a ela sobre coisas do passado, sobre como eu tinha vergonha de fazer novas amizades, bom, ainda tenho, e estou tentando melhorar. Ninguém é perfeito! Contei-lhe sobre como foi meu primeiro beijo e de como eu tive uma crise de soluços bem na hora do beijo e sobre a façanha em que derrubei todas as árvores na peça Chapeuzinho Vermelho. Estava tentando animá-la, e creio que no momento minha voz não fosse a melhor para tal trabalho, mas Rach ria e tentava fingir que não sentia-se tão mal.
–Desde pequenininha eu precisei proteger você dos caras. Rachel, como consegue se meter em tanta encrenca? – Acaricei sua mão e a garota fez biquinho para mim com falsa inocência. Precisei rir naquele momento. – Quero que saia do hospital como nunca na sua vida! Vai entrar lá uma Rachel McAllen muito bagunçada e saíra sobre um lindo salto que separarei hoje mesmo! Sério! – Consenti. – Pode me perdoar por não ficar com você no hospital?
Rachel consentiu e se ajeitou no sofá. Não posso sair sem um pedido formal e feito com antecedência ao velho Thomas, faz partas das novas regras de “como manter a Natalie na linha”. – A Ambulância chegou com a sirene em alturas inimagináveis e Janet conduziu os paramédicos a virem recolher Rachel, mas antes tirei minha companheira fiel, minha medalha, e enlacei-a no pulso da loira. Foi então que levaram-na de mim. Como desculpas para o ato brutal do filho, a senhora Hunter resolveu ir com Rachel, pedindo que avisasse aos pais da garota que estava no hospital. Fiz tal como o pedido e Janet fez questão de me pôr em um táxi para casa. Sair daquele lugar foi como um escravo ganhando a tão sonhada liberdade. Mantive-me todo o tempo recostada na porta de forma a encarar toda a paisagem correndo pela janela. O velho Thomas abriu a porta, desesperado. Pagou ao motorista e tomou-me em seus braços, conduzindo-me porta à dentro. Sei que a empregada ligara assim que o táxi partiu, então papai resolveu não fazer perguntas, cuidou do meu rosto com uma bolsa de gel e depois do jantar, fez questão de dormirmos abraçados.
*-*-*-*-*-*
É manhã de sábado, estou na escola aprendendo mais sobre economia e ética tal como prometa o professor. Fez questão de que o castigo durasse o tempo exato das aulas, dando a pausa do almoço para que comêssemos pastéis com refrigerante e depois pude até ligar para Rachel. Por sua voz noto que está bem melhor, prometo que hoje sim irei visita-la no hospital e aquilo me revigora. Infelizmente não posso fazer o mesmo com minha pele, nem toda maquiagem foi o suficiente para esconder o vermelho na bochecha e em volta do olho e ao ser questionada por outros alunos na detenção, escolho uma das três opções: Fingir não ouvir, sorrir ou mentir. Algum tempo depois era quase impossível o professor conter aqueles alunos e a nova fofoca da escola, pedi para ficar com o óculos de sol e o homem permitiu devido a minha “condição”. Isso até facilitou dormir uma boa parte da tarde! Meu rosto escorregou da mão e acordei, passava-se então um teste de vocação para nós, os outros já havia começado e eu somente tinha assinado o nome, os alunos que terminassem já estariam liberados. Eu gostaria de ter sido uma contemplada também – Fiquei com aquele papel até o último segundo, tive medo de responder e descobrir que não posso alegrar os meus pais e mais medo ainda de não responder e nunca ter a certeza de quem realmente vou ser. Minhas mãos tremeram e não fui capaz de marcar uma alternativa sequer. O professor Cole recolheu o papel e com olhos criteriosos o guardou em sua pasta de couro, nem mesmo pediu que eu tentasse mais um pouco. Aquilo realmente poderia me reprovar no exame de como ser lima adulta descente?
–Sr. Cole, eu posso tentar responder o teste uma outra vez? É que foi difícil me concentrar com os garotos conversando. – Menti.
–Natalie, agora vá para casa e descanse, segunda estaremos de volta. – E assim o homem alto foi-se, não dando chance de resposta a minha pergunta. A pergunta girando em minha cabeça ainda não havia sido respondida e pensei em todas as profissões possíveis e me imaginei sendo rejeitada em cada uma delas. Logo estariam chegando as cartas das faculdades e tudo dentro de mim congelou.
–Senhorita Fracassada Scott? Ah, presente! – Ergui a mão acima da cabeça em aceno. Uma risada gostosa foi emitida e ao procurar seu autor meus olhos encontram os do herói. Está sentado no chão com um livro em mãos. – O que está fazendo aqui?
–Lendo? – Liam ergueu o livro. Tinha uma capa verde com letras douradas, pelo estado de suas folhas era realmente tão antigo quando aparentava. Falava sobre as leis e a importância delas para a sociedade.
–Não literalmente, herói. É sábado! Dia de namorar e comer pipoca enquanto veem um filme muito brega, mas o que é legal já que lembra o quanto um cara de livros é apaixonado. Acho que é uma forma de sinalizar aos homens como devem parecer. – Roubo-lhe o livro e saio correndo. Liam vem logo atrás e tenta tirá-lo de minhas mãos, sem sucesso. O moreno aproxima-se e estou presa contra a parede. – Você ganhou!
–Ouvi histórias sobre essas suas novas marcas. Uns dizem que brigou com uma garota por estar usando os mesmos brincos que você, outros dizem que você é uma lutadora clandestina e acabou se machucando para derrubar um cara de dois metros. Qual a sua verdade, senhorita Natalie Scott? – Ele pegou o livro e afastou-se enquanto o punha na mochila.
–Sou uma lutadora clandestina que ganho a vida batendo em caras enormes! Sou a Natalie Scott, e sou demais! – Levanto as mãos acima da cabeça e dou vários pulinhos. – E você? O que está fazendo aqui?
–Minha mãe trabalha aqui, é da coordenação. Sabe como é esse negócio de começo de ano, ela sempre fica muito atarefada e mesmo quando promete que estaremos juntos tem que vir. – O moreno deu de ombros e com um sorriso debochado retirou o óculos de meu rosto para pôr em si próprio. – Usei um desses no Haloween passado, fantasiado de policial, claro.
–Se não vai comemorar com a sua namorada, sua mãe está ocupada e me deve um café, proponho que me convide para sairmos. – Uma voz interna falou mais alto que a minha durante aquele convite. Bom, eu deveria ouvir o meu coração em algum momento antes que fosse embora junto a todos os outros sentimentos. Liam enfiou as mãos nos bolsos e refletiu sobre o assunto. – Estamos saindo como amigos, herói.
–Claro, Natalie Scott. – Meu braço passou pelo dele e saímos juntos do colégio. Sendo a última, todos os outros da detenção já se mandaram para casa, não havia a necessidade de preocupar-se em sermos vistos juntos.
Liam mentira sobre a cafeteria ser perto, caminhamos bastante e depois de pegar uma chuva forte no meio do caminho éramos os únicos molhados e resolveram não nos deixar ficar do lado de dentro. Meu queixo estava tremendo entre os goles de café e Liam tentava aproveitar o dele entre as fungadas, extávamos sentados em uma mesa externa. Algum tempo depois teve início uma música antiga demais para que eu possa desvendar seu nome.
–Meus pais dançavam essa música... ouvi em algum dos vídeos da caixa de lembranças do papai. Nunca descobri o nome, e depois da partida da mamãe as coisas não se tornaram tão fácil quanto antes... – Disse aquilo para mim mesma, não esperando resposta e bebi um outro gole do café. Liam sorriu e bateu no vidro e com um aceno de mão chamou a garçonete, pediu que aumentasse a música e nos trouxesse mais dois cafés e bolinhos. – O que pretende?
–Você já vai ver, Natalie Scott. – Assim que a música aumentou Liam ficou de joelhos e mordi os lábios, gritando que aceitava seu pedido de casamento. Notei aquela pele branquinha enrubescer e depois de tomar a mão ficamos de pé, voltando à chuva e o moreno conduziu-me a dançar. – Chama-se Listen to Your Heart, Natalie Scott.
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