Passaram-se quase uma semana desde então e todos da aula de biologia começam a dançar e cantar na minha presença, alguns engraçadinhos ousam pedir autógrafos, mas engana-se quem pensa que me nego! Assino cada caderno e livro, até mesmo beijo alguns deles. Agora estou sentada nos degraus da entrada, óculos escuros no rosto e um rabo de cavalo balançando ao toque de “Every Breath You Take”, fascina-me a voz de Sting e mesmo lendo as loucas teorias sobre tal música, resolvo não dar importância. Gosto-a exatamente por ser assim: “A cada suspiro que der, cada movimento que você faz. A cada elo que você quebrar, a cada passo que der, estarei observando você...”. Não me dou conta da intensidade do meu tom, a música está alta demais. Até o “herói do último ano” arrancar-me um dos fones. Estou aguardando a chegada de Rachel, pediu que não a esperasse em casa dessa vez e concordei. É sexta e penso que Simon convidou-a à sua casa para um encontro mais íntimo, ou seja, ela está dando até de quatro para ele! Assim é a vida, afinal, minha querida Rach é uma ninfomaníaca.

–Qualé, estava chegando a parte que mais gosto! Every single day, every word you say. – Cantarolei, retirando do rosto o óculos para novamente encarar aquele belo e hipnotizante par de olhos. Bebo mais um pouco do café e meu corpo relaxa. Hoje vindo na companhia do meu velho consegui que parássemos em uma cafeteria, ele não se negou, e, felizmente não me vira comprar cigarros logo em frente. – Every game ou play, every night you stay...

–I’ll be watching you. – Não esperava que o garoto soubesse realmente a letra. Sentou ao meu lado e suspirou, o colégio ainda estava fechado e nós dois éramos os primeiros. Como não tenho uma encantadora voz, essa é a única justificativa para ter o garoto sentado ao meu lado. – Pessoas como você sempre se atrasam. O que faz aqui tão cedo?

–Eu vim vandalizar o colégio com pichações e depois quebrar todas as janelas só para a minha diversão. Quer me ajudar? Talvez a gente até acabe tomando latinhas de cerveja atrás do colégio. – Tombo a cabeça permitindo que os fios castanhos recaíam para o lado enquanto miro-o negar com a cabeça. – Antes de me denunciar, só quero dizer que posso culpar você por tudo!

–Uh, que cruel! Isso ou o seu pai veio te deixar aqui antes de ir para o trabalho? – Seu sorriso irônico foi cortante. Com um aceno de mão pediu o copo e entreguei-lhe, o diretor não demorou muito a aparecer e abrir as portas para entrarmos. Continuei tranquila com o sol da manhã, é verão e aqueles raios são revigorantes sobre minha pele. – Por que mente fingindo ser uma rebelde sem causa? E saiba desde já que estou ciente sobre sua expulsão...

–Aquilo não foi sem causa, Liam. – Deve ser a primeira vez que chamo seu nome, pois ele surpreende-se. Fazemos juntos biologia e literatura, pelo que vi Liam é o favorito de ambos os professores. Ao conversar com o Sr. Rockfeller, de biologia, convenceu-o de que uma detenção no primeiro dia assustaria os novos alunos e tudo que fiz não passou de uma brincadeira. – E não estou fingindo ser uma rebelde sem causa, eu sempre tive uma causa e pela primeira vez não estou sendo uma rebelde, mas apenas aproveitando o meu último ano. Deixe-me adivinhar sobre você! A sua mãe quer que faça medicina, por isso é o queridinho do professor de biologia. Tudo isso enquanto tenta fingir que não vê todos como um concorrente à sua vaga na universidade mais bacana da região, entretanto, no fim nem mesmo sabe se é o que quer para a sua vida.

–Advocacia, na realidade. E o senhor Rockfeller ensinava-me quando menor, uns cinco anos atrás até conseguir uma vaga como professor de ensino médio. E ele é legal, mas não queira que ele decore seu nome dessa forma, senhorita Natalie Scott. – Um sorriso curvou seus lábios pouco antes de consumir tudo o que restou do café. – Por que fez aquilo no outro colégio?

–Nunca revele os seus segredos no primeiro encontro! É a regra número um da paquera, herói. – Apontando o indicador fingi que ali fosse uma arma com a qual atirei em seu peito.

–Eu fui atingido! – Liam levou as mãos até o peitoral e depois de fingir uma morte trágica desatou a rir, levantou e jogou o copo no lixo. O moreno bateu em meu ombro e seguiu à porta, não sem antes cumprimentar o seu amigo e virar-se para afirmar: – Já tenho namorada, senhorita Natalie.

–Então vai se ferrar! Achei que estávamos flertando! – Agora foi a vez dele de mirar em meu coração e desferir o tiro. Pus os óculos e murmurei: “Eu voltarei”. Liam seguiu corredor à dentro até onde meus olhos puderam segui-lo. Algo aqui dentro disse-me que seria divertido observá-lo enquanto o odiava por ser tão perfeito. De qualquer modo, vai contra as minhas regras flertar com homens comprometidos. O moreno é carta fora do baralho.

Acendi um cigarro. Dois. Três. E nem mesmo um sinal de Rachel! Liguei para seu celular, sem sucesso. Soou o último sinal alertando os alunos para a entrada e segui para dentro. Ao que parece sempre no inicio do ano convidam professores, enfermeiros e até médicos para alertar-nos sobre os perigos do sexo sem proteção. Camisinhas foram distribuídas assim como panfletos ensinando como coloca-las e quais as formas de proteção para gravidez e DST’s abrangendo métodos desde a pílula até mesmo o a ligação das tubas uterinas. Peguei o garoto de trás furando as camisinhas discretamente com o com passo e desejando que a Hannah – a líder de torcida siliconada – engravidasse, pensei em dizer-lhe que não teria chances mesmo que se voluntariasse para assumir o filho de um jogador qualquer. Alguns não sabem que é tudo por dinheiro e fama, ao menos com garotas como ela, provavelmente com todas nós. Seria hipocrisia dizer que não me envolveria com um cara para andar em seu carro de luxo ou para gastarmos sua farta mesada em um vestido caro demais. Mordi os lábios e vi a cesta ir passando até Hannah, mentalmente estava torcendo para o cara atrás de trás se dar bem (Alguém tinha de torcer, certo?). – Tivemos história, química, governo americano, economia e depois de tentar uma centena de vezes arrancar os meus olhos uma garota me ofereceu a tesoura alegando que seria mais fácil assim.

–Valeu. Sou Natalie Scott e estou morrendo de tédio, mas já deu pra perceber. – Fiz menção à esganar meu próprio pescoço e depois de gemer como se estivesse sendo sufocada o professor repreendeu-me e chamou-me à frente de forma a compartilhar a conversa com os outros. – Eu estava falando para a minha nova amiga o quanto estou feliz em ter aula de economia. Depois do almoço eu estou vendo o que é economia de verdade! Sério, tinha um negócio lá... uma mistureba... eu acho que encontrei até cabelo na minha comida... não se preocupem, todos vocês provaram também! – Agora haviam pessoas vomitando, patricinhas gritando e novamente a algazarra era culpa minha. Todos viram que tentei, foram três dias sem arrumar confusão!

–Senhorita, Natalie. Ganhará detenção, essas coisas devem ser reclamadas na direção, mas pessoalmente irei conversar com as senhoras da cozinha para que tomem mais cuidado ao cozinhar. – O professor retirou o óculos e esfregou as têmporas. É um senhor esguio e muito alto, chega a ser engraçado quando precisa sentar-se e descansar suas pernas. – Agora retome seu lugar e dessa vez sem conversa.

–Não reclame com elas. Na minha antiga escola encontraram um rato na sopa! – Saltando duas poças de vomito, sentei novamente. A garota ao meu lado estava rindo e pelo polegar erguido sei que divertiu-se com a histeria das patricinhas. Distribui beijos no ar como uma atriz que volta ao palco para receber suas tão merecidas flores.

–Amanhã passará toda a tarde estudando economia, senhorita Scott. E então farei questão de dar-lhe um reforço em ética! Não deve sair por aí espalhando as questões de higiene em seu colégio anterior. Nós, desse colégio, não permitiremos essa indisciplina. – Os olhos do homem tomaram para si uma forma brava. Entreabri os lábios e respirei fundo com a melhor cara possível de surpresa. – Talvez o colégio anterior não tenha a educado tão bem assim, contudo não irei permitir de forma alguma que volte a reclamar em sala da refeição escolar seja dessa escola ou de qualquer outra.

O professor levanta-se para verificar o estrago feito pelos vômitos no exato instante em que o sinal de liberdade ecoou como uma música angelical mandada pelos céus, descendo por entre as nuvens e mandando luz para nossos corações. Alguns saltaram por cima das bancas, exatamente como eu e uns outros arriscaram ir pelo chão, desviando das poças nojentas com mistura de carne, ervilhas, hambúrguer e saladas. Com tal agito o Sr. Cole escorregara e caíra por sobre os vômitos, dei de ombros e sai correndo em direção à minha liberdade, urg! Que nojo! O cheiro nauseante ainda fazia-me ficar zonza e a garota de antes segurou-me pelos ombros. Seus cabelos são castanhos e curtinhos, é muito magra e as sardas por seu nariz conferem à ela uma feição doce. Não usa maquiagem ou lojas alarmantes, mas seu vestido pinçado não permite que passe despercebida.

–Acho que esse papel de detenção é seu, Natalie. Ah, sou Jasmine Blunt, e todos me chamam de Jazzie por aqui. – Enfiando o papel no bolso da minha mochila, Jazzie conduz-me para fora. Passamos pelo estacionamento e a garota me oferece carona. – Onde fica sua casa, Natalie?

–Não vou para casa. Não ainda, ao menos. Preciso passar na casa de Simon e perguntar onde ele enfiou a minha amiga, Rach. Deve conhecer ela: Peituda, loira, olhos azuis e é conhecida como boneca “boca de veludo”. – Até pouco antes da última parte Jasmine não havia identificado, mas agora estava corada e suas mãos estava suadas ao assumir o volante de seu pequeno carrinho vermelho.

–Bom, posso te deixar lá... só vai... me ensinando o caminho... que tal? E depois você pode me dizer uma boa forma de irritar as apimentadas das líderes de torcida. Tirando Selina Sparks e algumas poucas, as outras são umas... umas... urg! – Notei que ela não conseguiria dizer “biscates” e diz questão de pronunciar por Jazzie. Com sinais de mão vou dando-lhe as direções até a casa de Simon. Duas quadras do colégio e estamos na porta, é uma mansão incrível de época colonial. Tudo trabalhado em madeira, ainda tem luminárias de época penduradas nas paredes externas, ao que sei o pai de Simon é um homem muito rico e recatado sempre vivendo isolado entre suas conquistas. – É uma casa muito bonita...

–Sim. Quem dera os donos tivessem uma personalidade tão bonita quanto ela... quer entrar? A empregada daqui faz bolinhos de chuva como ninguém! – Saio do carro e Jasmine deixa para a próxima, teria de se arrumar rápido para o curso de latim. Passo pelos portões e clamo por Janet, a empregada, essa vem muito apressada e depois de um abraço apertado volta correndo para seus afazeres. Janet também cuida de casa, por isso sempre a chamo quando venho aqui. – Janet, estou subindo! E se encontrar aquele maldito do Simon sem a roupa de baixo dou cabo do que ele chama de pau!

Janet tentara me impedir, mas já era tarde e entrando no quarto de Simon o encontro sangue sobre a cama, pelo tapete. A cama está revirada, há DVD’s pelo chão, roupas e um frasco de perfume francês agora reduzido a cacos, também encontro seus troféus de futebol ao chão e temo o pior. Sigo em frente, ao banheiro e no chão está Rachel com suas roupas rasgadas. Seu corpo está roxo e há sangue por toda parte, no banheiro as coisas também estão bagunçadas. Agacho e vejo uma Rach quase desacordada, então quando ergo-a, faço com que passe o braço por meu ombro e a apoio. Agora Simon está na porta do quarto e com os braços cruzados sobre o peito impede-me de sair.

–Se não sair eu vou chutar tão forte o seu saco que te faço ir à lua e voltar! Como você faz isso como a minha amiga?! Primeiro jurando amores e depois está socando-a até que estejam poças de sangue pelo chão de seu quarto! Olhe a cama, o tapete, o banheiro! Você quase matou ela! Qual foi a da vez?! – Bati o pé. Provavelmente sou a única a enfrentar Simon, que está quase espumando. Se for preciso brigarei à mordidas por Rachel. – Já liguei para a polícia e se não nos deixar sair eu faço um escândalo e digo que tentou abusar de mim também!

–Rachel sabe que é minha, Natalie! Não importa para onde vá, o que faça, qual coração irá destruir, afinal, Rach será sempre minha! E não há nada que possa fazer... e não pense que não a vi na festa dançando com uns e outros. Deve ter aberto as pernas para todos eles! – O loiro ergueu a mão para desferir-me um tapa. Não recuei. Esse gostinho de medo fiz questão de não deixa-lo provar.